Pedro Nuno Santos regressou; e não o fez sem se fazer anunciar. Na passada quarta-feira, após ausência de 6 meses, irrompeu Parlamento adentro com propósito, pujança, e direito a flash interview.
Em cerca de três minutos, associou o seu regresso a dois pontos principais. Principiou pela necessidade de dar combate ao Governo, que classificou como medíocre, incompetente, e pouco sério; e cujos objectivos interpretou como sendo unicamente a transferência de riqueza dos mais pobres para os mais ricos e a penalização dos trabalhadores. Por estes motivos, vaticinou que todos seriam poucos para incorporar este conflito, e reapresentou-se aos portugueses como “social-democrata de esquerda”, preconizando um Estado forte como instrumento para impedir “a apropriação da riqueza gerada por todos por meia dúzia”.
Debruçou-se, de seguida, sobre o combate que se impunha no interior do Partido Socialista. Referiu-se depreciativamente aos “tacticistas”, que classificou de pouco valorosos porque pouco bravos. Sobre José Luís Carneiro, naturalmente após anunciar que não partilha da sua mundividência, produziu apenas uma ligeira desconsideração – possivelmente o mais próximo de um elogio a que se poderá almejar – ao afirmar que o respeita mais do que estas outras figuras que desrespeita por completo. Terminou atirando: “Nem o país, nem o PS precisam de tacticistas: o que nós precisamos é de gente com coragem”.
Pedro Nuno Santos veio, portanto, para pelejar. Não é irrelevante, nem surpreendente, que todo o discurso e presença do socialista gravite à volta de luta, combate, desconsiderações, e coragens comparativas. Subjacente às suas palavras está uma mundividência de nós contra os outros, de combate incondicional e permanente aos opositores, mal-intencionados e moralmente falidos, até à sua erradicação e à vitória final. O governo não preconiza caminhos diferentes para o progresso do país – procura, pelo contrário, propositadamente a sua ruína. Também é medíocre e incompetente por (ainda) não ter conseguido implementar as reformas que PNS prescreveria – não obstante não as pretender implementar, por estar unicamente focado em expropriar os portugueses.
A outra face desta linha de pensamento, também amplamente evidente nas intervenções do social-democrata de esquerda, é um discurso que incontornavelmente desagua no autoelogio: ser destemido é o mais importante, os outros não são destemidos, eu sou o Geraldo Sem-Pavor reencarnado. É mais uma manifestação da ideia da solução única: há um problema, simples (eles), que causa todos os nossos males; e há uma resposta, evidente (eu), que os resolve. Além disto, faz transparecer uma personalidade narcísica que, por emergir muito facilmente e apresentar pouco respaldo na realidade, poderá ser indicador pouco auspicioso.
É, portanto, fácil de concluir que PNS partilha com os partidos populistas tanto as ferramentas como a concepção da vida política: conflito constante, diferenças irreconciliáveis, generalizações simplistas, força do líder, subjugação dos inimigos. A proximidade à caracterização geralmente aceite do Chega e de André Ventura é evidente.
Poder-se-á, no entanto, partir destes factos para tentar ir um pouco mais longe e prever as vontades do socialista. Se Pedro Nuno Santos vir como provável que André Ventura vença eleições legislativas a curto prazo – ponto de vista que decerto não será incomum – identificará muito plausivelmente o resultante ambiente político como aquele que mais favorece o seu estilo. Tendo isto em mente, PNS poderá estar já a posicionar-se para ser o não-Ventura mais Ventura, propondo-se a dar-lhe luta em moldes iguais, e a arrebanhar todos os proponentes do mal menor que vieram a terreiro nas últimas presidenciais.
A verdade é que, até à data, a mais relevante característica política de Pedro Nuno Santos é corporizar o resultado, aparentemente final e francamente negativo, da estratégia simbiótica PS-Chega delineada por António Costa e Augusto Santos Silva: com PNS, o Chega passou de simbiota a parasita, e os socialistas adoptaram para si os defeitos que outrora lhe apontaram. Este ponto de vista, corroborado pela recepção assinalavelmente negativa que a sua ainda breve ressurreição já granjeou (1), poderá ser motivador importante numa busca de nova vida, e mais auspicioso fim.
Por apurar fica se, na persecução deste hipotético plano, o social-democrata de esquerda preferirá uma estratégia de recato ou de precipitação de crise; caso opte pelo segundo, poderemos ainda vir a presenciar uma curiosa união de vontades. Será que os todos que convoca a combate poderão também vir do outro lado do hemiciclo, e que nos destemidos não-tacticistas que os tempos pedem se poderá incluir André Ventura?