Em Portugal olha-se para a despesa e vê-se um problema, quando muitas vezes é apenas o reflexo cru das nossas escolhas constitucionais e civilizacionais. O relatório de Outubro de 2025 do Infarmed sobre a despesa com medicamentos hospitalares devia ser lido como um mapa e não como um alarme, mas provavelmente será usado por muitos como um pretexto para gritar “descontrolo”, “insustentabilidade” ou “colapso iminente” do SNS.
Ao ler honestamente os números constantes desse relatório, dá para perceber que estamos a olhar para um Ativo e não para um Passivo. A despesa com medicamentos de uso hospitalar cresce mais 268 milhões de euros num ano, ultrapassando os 2,2 mil milhões euros na despesa, pois o Sistema Nacional de Saúde está a tratar muitos doentes que antes simplesmente nem sequer esperança tinham de poderem ser tratados: quantos de nós se lembram dos relatos em desespero, de famílias que levavam os seus entes mais queridos para uma operação ou procedimento de ultimo grito para Londres ou Nova York ou Estocolmo. Hoje o saber e o saber fazer também se concentra em Lisboa, no Porto e em Coimbra.
Ao olhar com atenção para onde o dinheiro está a ser canalizado, a realidade torna-se desconfortável pela sua evidência: quase 60% da despesa concentra-se nos hospitais do Grupo E e nos Institutos Oncológicos do Grupo F, ou seja, nos grandes centros de Lisboa, Porto e Coimbra. É ali que o SNS funciona melhor — precisamente onde é mais oneroso, mais exigente, mais complexo, mais irreproduzível — porque é aqui que se concentra escala, diferenciação, massa crítica, conhecimento acumulado ao longo de décadas, equipas que não se improvisam nem se replicam por decreto. É ali que se tratam as doenças que não admitem erro nem simplificação, e é ali que se concentra o verdadeiro valor do sistema, aquele que não cabe em discursos políticos nem em grelhas administrativas.
Os números e os dados desmontam, se formos corretos na análise, o mito de que o SNS deve fazer tudo, em todo o lado, da mesma forma, com a mesma qualidade, como se a medicina fosse um serviço uniforme distribuído por território e não uma atividade profundamente desigual e dependente de conhecimento altamente especializado. A Medicina não é, nunca foi, e fingir que é possível ser, apenas serve para destruir o que ainda funciona.
Porque o que os dados mostram são claros como água para quem quiser ver: a despesa concentra-se onde as patologias mais graves e mais exigentes são tratadas — oncologia a representar cerca de 35% da despesa total, VIH, doenças autoimunes, esclerose múltipla, amiloidose entre outras — todas elas doenças crónicas, complexas, que exigem terapêuticas de última geração, muitas vezes de custo elevadíssimo, mas que transformaram, a maior parte das vezes, o que era uma sentença de morte numa condição gerível e sobretudo com qualidade de vida. E há um dado relativamente novo e muito importante para esta análise: os medicamentos órfãos representam 18,5% da despesa hospitalar e cresceram 36% num único ano. Estamos a investir quase um quinto do orçamento hospitalar em doenças raras para aqueles doentes para as quais, há menos de uma década, não existia praticamente nada de útil e onde hoje existem terapêuticas únicas e revolucionárias, graças ao engenho e arte do pensamento humano e muito também da Indústria Farmacêutica: e existem vidas prolongadas, vidas com mais qualidade, vidas com mais futuro. E isso tem um preço. Tem sempre um preço. Um preço que vale a pena pagar como a nossa sociedade moderna e humanista felizmente é, saída do 25 de Abril de 1974.
A questão, portanto, não é se o SNS está a gastar demais. A questão é se estamos dispostos a pagar pelo facto de a medicina ter evoluído. Porque aquilo que verdadeiramente está errado não é esta concentração de despesa — é tudo o resto que a rodeia. E a insistência ideológica em manter um Estado omnipresente que quer fazer tudo, desde a consulta banal até à terapia genética mais sofisticada, como se o mesmo modelo pudesse servir para realidades completamente distintas, não pode e nunca poderá ser sustentável.
O debate tem de deixar de ser ideológico e passar a ser um debate sério sobre o futuro do SNS, pois um sistema de saúde moderno não é um bloco monolítico, é uma arquitetura. E essa arquitetura exige uma divisão clara: um SNS onde os casos simples são resolvidos perto de casa, com liberdade de escolha, com participação do setor privado, social e cooperativo, com financiamento inteligente e transparente, onde a eficiência não é um pecado mas uma obrigação; e um SNS onde os casos complexos são tratados onde existe capacidade real para os tratar: nos grandes centros hospitalares públicos, universitários e oncológicos, que devem permanecer no núcleo duro do Estado, não como estruturas burocráticas, mas como plataformas estratégicas de conhecimento, inovação, progresso, diferenciação e criadores de riqueza por fazerem parte de um núcleo de conhecimento diferenciado.
Porque é nesses centros que reside aquilo que verdadeiramente importa preservar: não o edifício, não a administração, mas o saber. E o saber não se pulveriza sem se perder. Não se distribui sem se degradar. Não se replica por vontade política. Ou existe concentrado, alimentado, exigente e bem remunerado, ou arrisca-se a desaparecer.
E é por isso que a verdadeira reforma não é destruir o SNS, muito menos mantê-lo como está. É fazer aquilo que o país tem evitado debater durante décadas por motivos essencialmente ideológicos: libertar o que é prestação de serviços e proteger aquilo que é estratégico. Libertar tudo o que é simples, repetitivo, escalável — porque isso pode e deve ser feito melhor em concorrência, com regras claras e incentivos alinhados — e concentrar tudo o que é complexo, raro, diferenciado, onde a escala e o conhecimento estabelecem claramente a diferença entre viver e morrer.
Falta abordar aquilo que continua a ser tratado como heresia, quando na verdade, quanto a mim, é puro bom senso: abrir estes grandes centros ao mundo. Não para vender o SNS, mas para o ligar ao que de melhor se faz. Parcerias com centros de investigação, com fundações científicas, com capital especializado que traga investigação, ensaios clínicos, inovação terapêutica, progresso e potenciais patentes num verdadeiro cluster da saúde. Transformar Santa Maria, São João, Coimbra ou os IPO em hubs europeus de medicina avançada, onde se trata, se investiga e se cria conhecimento em simultâneo e onde o Estado não abdica da missão, mas deixa de estar sozinho no esforço.
O dados sobre o SNS dizem-nos que ele não está a colapsar. Estão antes pelo contrário a revelar, com uma clareza liminar, aquilo que deve ser feito. Estão a dizer-nos que a diferenciação funciona. Que a concentração salva vidas. Que o desperdício não está onde muitos querem procurar, mas sim na recusa em mudar o que é estruturalmente ineficiente.
Ignorar tudo isto não é defender o SNS.
Viva La Libertad Carajo!