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A inflação das notas não é um acaso: é um sistema

Quando um aluno termina o secundário com 13 e obtém 2 no exame, não estamos perante um mistério pedagógico. Estamos perante um sistema.

Elisa Manero
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Todos os anos repetimos o mesmo espanto: as notas internas sobem, os resultados externos descem. Fingimos surpresa, como se estivéssemos perante um fenómeno natural, imprevisível. Não estamos. A inflação das classificações tem causas claras, persistentes e profundamente estruturais. E enquanto continuarmos a tratá-la como tabu, nada mudará.

O mais irónico,  e talvez o mais trágico,  é que isto acontece num país onde, segundo a própria OCDE, os professores estão entre os mais bem preparados pedagogicamente. Portugal destaca-se pela qualidade da formação didática, pela capacidade de planificar, diferenciar e avaliar. Ou seja: temos profissionais altamente qualificados, mas um sistema que os impede de exercer essa competência com integridade.

Nas escolas instalou-se um mecanismo silencioso, mas eficaz, que empurra os docentes para a cedência. Não é preciso uma ordem escrita: basta a cultura. Coordenadores que pressionam e insinuam que “é melhor rever a exigência”. Direções que,poderão tender a valorizar quem adota uma postura mais flexível.

Encarregados de educação que transformam a queixa formal numa arma. E um sistema que, em vez de proteger a verdade académica, parece valorizar a ausência de conflito mais do que a integridade profissional.

A pressão é tão intensa que já se tornou visível nos próprios concursos de professores: há escolas onde as vagas surgem porque docentes saem exaustos ou porque o número de baixas médicas dispara. Muitos não aguentam a pressão combinada de diretores e encarregados de educação. Não é desmotivação; é sobrevivência. E cada saída reforça o ciclo: quem fica sente ainda mais peso para ceder.

O resultado está à vista: avaliações internas generosas, exames que expõem o desfasamento e um discurso político que prefere ignorar a evidência. Quando um aluno termina o secundário com 13 e obtém 2 no exame, não estamos perante um mistério pedagógico. Estamos perante um sistema que desvaloriza a exigência e penaliza quem a mantém.

Os conselhos de turma deixaram de ser espaços de deliberação pedagógica. Tornaram-se arenas de negociação, onde a pressão para subir notas é normalizada. E os recursos de avaliação interna, quase sempre com subida garantida, reforçam a ideia de que a classificação é um direito adquirido, não um resultado de trabalho.

É por isso que os exames são,  e continuarão a ser,  essenciais. Não como instrumento punitivo, mas como contrapeso democrático. Sem avaliação externa, a escola fica entregue a lógicas internas que distorcem a equidade e fragilizam a credibilidade do sistema. E sim: faz sentido exigir positiva no exame. Caso contrário, a média final transforma-se num exercício de ficção.

A verdade é simples: temos professores altamente preparados, mas um sistema que os obriga a fingir que todos os alunos aprendem ao mesmo ritmo e com o mesmo rigor. Enquanto a exigência continuar a ser penalizada e a cedência recompensada, a escola pública não recuperará a confiança que merece. E os docentes continuarão a ser empurrados para a revolta silenciosa de quem sabe que está a ser usado para sustentar uma narrativa de sucesso que não corresponde à realidade.

A educação precisa de coragem. E coragem, neste momento, significa dizer o óbvio: as notas não caem do céu,  mas a pressão para as fazer subir cai todos os dias sobre quem ensina.