Revolução de Outubro de 1917. Foi a este evento histórico que instaurou a ditadura do proletariado liderada por Vladimir Lenine que o Partido Comunista da Federação Russa recorreu, no dia 21 de abril, para manifestar o seu descontentamento numa sessão no Parlamento. “Se não forem tomadas urgentemente medidas financeiras e económicas, até ao outono espera-nos uma repetição do que aconteceu em 1917”, afirmou o secretário-geral comunista, Gennady Zyuganov. As declarações foram surpreendentes; afinal, o fogo era amigo, já que o Partido Comunista russo evita muitas vezes criticar Vladimir Putin. O responsável enfatizou que o partido está a “fazer tudo ao seu alcance para apoiar Putin”, mas ninguém o “está a ouvir”.
Para se manter no poder, o Presidente russo forjou alianças com vários setores da sociedade russa, incluindo os nostálgicos da União Soviética e os que idealizam o passado comunista. Daí que estas críticas, vindas de um partido que se subjugou ao Kremlin e fechou os olhos à deriva autocrática da Rússia, sejam particularmente significativas. Até os apoiantes do regime começam a ficar descontentes — e a ter coragem de denunciar publicamente a atual situação que fez com que a popularidade de Vladimir Putin caísse nas últimas semanas.
O que está a motivar o descontentamento de muitos é o “gulag digital” que o Kremlin está a colocar em marcha, à semelhança do que a China fez com a Great Firewall. A presidência russa está a bloquear VPNs e vários sites — incluindo redes sociais populares — e impôs cortes prolongados da internet móvel em várias zonas do país, incluindo Moscovo, onde o blackout durou quase três semanas e deixou milhões de pessoas sem acesso a serviços digitais. O regime parece ignorar a importância que a internet tem hoje para o quotidiano dos russos, pretendendo em simultâneo que a população use aplicações específicas criadas e controladas pelo Estado.

Ao mesmo tempo, a conjuntura económica não melhora e as projeções continuam longe de ser favoráveis. Embora as receitas das exportações de petróleo tenham aumentado por causa da guerra do Irão e do bloqueio do Estreito de Ormuz, isso não chega nem para compensar o agravamento dos indicadores financeiros russos, nem para diminuir o custo de vida da população. O principal motivo? A guerra na Ucrânia. O conflito continua a absorver uma fatia crescente do Orçamento do Estado russo, canalizando recursos para sustentar o esforço militar.
No campo de batalha, a longo prazo, as perspetivas não são nada favoráveis a Vladimir Putin. Usando métodos inovadores e disruptivos, a Ucrânia tem conseguido avançar em várias partes da linha da frente nas últimas semanas. Entretanto, a União Europeia (UE) aprovou um pacote de 90 mil milhões de euros, verba que será crucial para sustentar o esforço de guerra ucraniano nos próximos dois anos. Em paralelo, a UE impôs o 20.º pacote de sanções contra Moscovo, pelo que a economia russa continuará sob forte pressão nos próximos tempos.
Tudo isto está a aumentar a insatisfação dos russos, quase privados de internet e a viver num país com uma economia cada vez mais frágil para sustentar o esforço de guerra na Ucrânia. Como tem acontecido no seu longo mandato de 26 anos, a solução de Vladimir Putin passa por esmagar a dissidência e silenciar as críticas. Contudo, até parte da elite e os seus apoiantes estão a contestar a forma como o Presidente russo tem atuado nas últimas semanas. E há vozes da sociedade civil — como a da influencer e antiga apresentadora de televisão Victoria Bonya — que tiveram a coragem de denunciar o que se está a passar na Rússia: “Vladimir Vladimirovitch, as pessoas têm medo de si”.
https://observador.pt/2026/04/21/vladimir-o-povo-tem-medo-de-si-influencer-russa-fica-viral-por-criticas-a-governacao-que-ja-lhe-valeram-ataques-e-uma-reacao-do-kremlin/
O vídeo da influencer com que muito russos se identificaram
Victoria Bonya tem mais de 600 mil seguidores no Instagram. Foi modelo, participou em reality shows na Rússia e tornou-se apresentadora de televisão. Há alguns anos deixou o país, mudou-se para o Mónaco e passou a viver como influencer. Faz vídeos nas redes sociais a mostrar as roupas que usa, as marcas que consome, a sua paixão pelo montanhismo e as suas escaladas no Monte Evereste. Como muitos russos, Victoria Bonya nunca tinha demonstrado publicamente as suas opiniões políticas. Nem tinha razões para o fazer: vivia no estrangeiro e usufruía de um estilo de vida luxuoso.
A influencer é particularmente ativa no Instagram — rede social que se tornou extremamente popular na Rússia e onde mostra os outfits e os produtos luxuosos que consome. Mas o modo como ganha dinheiro está a mudar radicalmente. O Kremlin proibiu o acesso a todos os sites geridos pela Meta, o conglomerado norte-americano que detém o Instagram, o Facebook e o Whatsapp. Victoria Bonya sente na pele as ordens da presidência russa, ainda que os seus efeitos estejam a ser parcialmente mitigados pelo uso de VPNs, que ainda permitem que muitos russos contornem os bloqueios e simulem a localização noutro país.
Muitos estão na situação de Victoria. Durante anos, apesar de todas as limitações na liberdade de expressão, os russos puderam partilhar fotos e escrever publicações nas redes sociais geridas no Ocidente, desde que não criticassem abertamente o Governo. Puderam montar negócios no Instagram. Fazer publicidade no Google. Trocar mensagens no Telegram. O Kremlin deseja terminar com isto. Na prática, as principais redes sociais ocidentais estão a ser bloqueadas ou a sua utilização está a ser bastante restringida. A única alternativa é migrar para plataformas como o Max, que é controlado pelo Estado. Mas muitos temem estar a ser monitorizados e leva tempo para construir uma nova base de seguidores e clientes de raiz.

Contrariamente a outras restrições à liberdade de expressão, esta atinge praticamente todos os russos: desde a influencer que trabalha no Mónaco até ao funcionário público de meia‑idade na Sibéria. Até mesmo os oligarcas e as elites com quem Vladimir Putin procura manter boas relações deixaram de poder aceder ao Instagram diretamente. Pior: o Kremlin tem chegado ao ponto de cortar a internet móvel durante semanas em várias partes do país com a justificação de que essas medidas servem para prevenir ataques ucranianos em solo russo.
Por tudo isto, a mensagem de Victoria Bonya tornou-se viral. Através de VPNs, milhões de russos viram o vídeo — e identificaram-se com ele. “Há uma sensação de que já não vivemos num país livre”, disse a influencer, que abordou no vídeo os bloqueios à internet e os problemas quotidianos em várias partes da Rússia. “Sabe qual é o risco? Que as pessoas deixem de ter medo, que estejam a ser comprimidas como uma mola e que, um dia, essa mola rebente”, avisou.
A presidência russa reagiu a este vídeo e assegurou tê-lo visto. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, admitiu que o vídeo “é bastante popular”, se bem que desvalorize muitas das críticas da influencer. “Está a ser feito muito trabalho” quanto aos “muitos temas” abordados pelo vídeo. Nos bastidores, o regime russo terá instruído os meios de comunicação para não o explorarem e para apenas mencionarem a resposta do porta-voz. Na mesma linha, Victoria Bonya veio dizer que não era “traidora” e agradeceu à resposta de Dmitry Peskov. “Amo o meu país, não o vou trair. Estou do lado do país, do povo. Não tenho mais nada a dizer. Não sou nenhuma figura da oposição.”
A influencer russa no Mónaco não vai seguir o caminho político. O seu vídeo não deixa, ainda assim, de ser um sintoma dos problemas que os russos enfrentam diariamente. Num artigo escrito no site do think tank Carnegie Endowment for International Peace, a analista Tatiana Stanovaya recorda que os russos “se habituaram a uma sociedade altamente digitalizada nas últimas duas décadas”. As proibições do início da guerra nunca “tiveram grande impacto”, mas, em poucas semanas, o “mundo online que conheciam começou a desintegrar-se”.
A “batalha burocrática” entre as secretas e o Governo sobre o bloqueio na Internet
A ideia de bloquear redes sociais e sites ocidentais encaixa na lógica de um Estado cada vez mais autoritário, liderado por um antigo agente do KGB. Para o Kremlin, as plataformas que não controla totalmente representam um sério risco: o que os cidadãos escrevem escapa ao filtro estatal e a gestão de conteúdos está nas mãos de grandes tecnológicas estrangeiras, cujos donos podem não acatar as ordens de Moscovo.
A incógnita aqui não está tanto nos motivos, mas no timing e na maneira como Moscovo está a lidar com tudo isto. É certo que a Rússia tem eleições parlamentares marcadas para setembro de 2026 e é costume que, nos meses que antecedem momentos eleitorais, o Governo aperte a malha. O que é inédito desta vez é o grau de indiferença do regime perante o tom das críticas: o Kremlin avançou com cortes e bloqueios massivos sem se preocupar em explicar de forma convincente por que razão tomou esta iniciativa.

“As consequências políticas do esforço para estabelecer um controlo total da internet permanecem incertas, mesmo para quem trabalha para o regime”, diz Tatiana Stanovaya, explicando que as repercussões passam por “sabotagem cautelosa por parte de funcionários de base, críticas diretas de apoiantes e murmúrios de dissidência — e algum pânico — entre empresários”. “Esta insatisfação ganha tração com as frequentes interrupções na internet, que tornam impossíveis tarefas antes simples.”
Isso tem muito a ver com quem está por trás deste bloqueio, como revelou o portal de investigação The Bell: o Serviço Federal de Segurança (FSB). É o Segundo Serviço do FSB — o ramo das secretas russas responsável pela “proteção da ordem constitucional” e pelo combate ao “extremismo” interno — que teorizou e está a pôr em marcha o plano de controlo da internet. Como lembra a jornalista russa que colaborou com a investigação Maria Kolomychenko, num artigo publicado pelo think tank Carnegie Endowment for International Peace, trata‑se do mesmo grupo de operacionais que esteve envolvido no envenenamento do líder da oposição Alexei Navalny, em 2020.
A transferência da supervisão da internet russa “de técnicos dos departamentos do FSB para o Segundo Serviço” fez com que a missão passasse a estar focada em “encontrar inimigos internos”. “Para eles, a internet não representa uma infraestrutura que permite a troca de informações ou que contribui para o crescimento económico, mas antes um ambiente suspeito e caótico que requer aplicar um filtro constante”, aclara Maria Kolomychenko. Esta abordagem mais radical terá sido ordenada diretamente por Vladimir Putin. O Presidente russo sempre confiou no FSB, o principal herdeiro do KGB nos serviços secretos russos.

Ainda assim, surgem várias interrogações e até disputas internas. Um relatório de 2022, baseado em informações de vários serviços de informações ocidentais e citado pelo Wall Street Journal, apurou que o chefe de Estado não usa internet e prefere escrever tudo à mão, receando ser espiado. Em teoria, um líder quase infoexcluído pode não ter plena noção do impacto quotidiano destas medidas sobre a vida dos cidadãos.
Neste contexto, o poder russo está dividido entre o Segundo Serviço e outras fações que pretendem a aplicação de restrições menos severas na internet. Numa “batalha burocrática” em curso, de um lado está o FSB e do outro está o primeiro-ministro russo, Mikhail Mishustin, juntamente com o seu protegido político, Maksut Shadayev, que é o atual ministro do Desenvolvimento Digital. “Está a propor uma abordagem menos destrutiva em alcançar o controlo total da internet”, nota Maria Kolomychenko sobre os esforços do atual governante.
A frustração não é sentida apenas por membros do Governo russo. Outros grandes empresários e políticos têm expressado a sua insatisfação. Além disso, até os responsáveis por gerir a imagem pública de Vladimir Putin no Kremlin estão “claramente irritados” com o “bloqueio dos serviços de segurança”. De acordo com Tatiana Stanovaya, muitos responsáveis no Kremlin estão insatisfeitos com “a imprevisibilidade, os limites à sua capacidade para exercer influência e o facto de serem excluídos das decisões sobre a forma como as pessoas entendem e avaliam as autoridades”.
A par das restrições de acesso a vários sites e de cortes na internet, o Governo da Rússia lançou uma campanha para impedir o uso de VPNs. Na prática, significa que os russos correm o risco de ficar totalmente desligados do mundo digital que o Kremlin quer esconder, tornando‑se ainda mais dependentes da vontade do regime para saberem o que se passa.
Nesse contexto, até Pavel Durov, fundador do Telegram — aplicação que as autoridades russas se preparam para bloquear por completo —, tem apelado a uma “resistência digital” dentro do país, incentivando os utilizadores a manterem vários serviços de VPNs ativos, assim como as aplicações atualizadas. “Do nosso lado, vamos continuar a melhorar a tecnologia descentralizada anticensura”, garantiu, numa mensagem que parece ser um desafio às autoridades russas.
Por agora, Vladimir Putin não vai corrigir a rota. No dia 23 de abril, o Presidente russo justificou o bloqueio como uma maneira de “prevenir ataques terroristas”: “Sabemos que, infelizmente, alguns escapam por vezes”. “Garantir a segurança das pessoas será sempre uma prioridade”, salientou, concedendo na existência de “alguns problemas” em cidades como Moscovo e São Petersburgo. Assim, pediu o desenvolvimento de um “mecanismo para garantir o funcionamento ininterrupto dos serviços essenciais”.

A menção a “ataque terrorista” não é inocente por parte do chefe de Estado russo. Entre os agentes do FSB, há um evento que marcou negativamente o desempenho do seu trabalho: o ataque terrorista do autoproclamado Estado Islâmico à sala de espetáculos Crocus, em março de 2024, que fez mais de cem vítimas mortais. “Especialmente para o Segundo Serviço, responsável pelo contraterrorismo, foi um episódio profundamente vergonhoso“, recorda Maria Kolomychenko. “Falharam em prevenir o maior ataque terrorista em duas décadas [na Rússia], apesar dos avisos norte-americanos.”
A especialista destaca que o FSB foi alvo de “críticas sem precedentes”, que se intensificaram quando, em meados de 2025, foi divulgado que os perpetradores do ataque o planearam através do Telegram — uma rede social fácil de monitorizar. Após esta humilhação, o ramo das secretas pretendeu evitar repetir que episódios idênticos ocorram. “Os criminosos também ouvem e veem tudo”, argumentou o Presidente russo na declaração ao país a 23 de abril, em que também explicou que não estão a ser revelados mais detalhes porque isso poderia “dificultar o trabalho operacional” das autoridades.
https://observador.pt/especiais/focado-na-ucrania-putin-desvalorizou-alertas-do-ocidente-sobre-o-atentado-do-daesh-que-volta-a-atacar-na-europa/
Popularidade de Putin está a cair nas sondagens: “Notável”
As consequências das medidas causaram um impacto direto na taxa de aprovação do Presidente russo. Antes da invasão em grande escala da Ucrânia, Vladimir Putin já beneficiava de uma popularidade geralmente elevada, ainda que oscilante. Após o conflito na Ucrânia, o índice de aprovação disparou e estabilizou-se durante vários momentos na casa dos 80%. A tendência manteve-se ao longo de quatro anos — até que os bloqueios às VPNs e de vários sites se intensificaram desde março.
É certo que os estudos de opinião — sobretudo os encomendados ou divulgados por organismos estatais — devem ser lidos com cautela, como explica ao Observador o professor de Ciência Política na Universidade de San Diego, Mikhail Alexseev. A queda de popularidade é, assim sendo, “notável”, uma vez que as empresas de sondagens “têm sofrido uma forte pressão do Kremlin há anos para manipular os dados a favor de Vladimir Putin”.
Para além disso, em contexto de guerra e de repressão crescente, muitos russos preferem não se comprometer e respondem de forma evasiva às empresas de sondagens ou simplesmente recusam participar. Depois da invasão da Ucrânia, o regime adotou medidas cada vez mais restritivas e a maioria da população manteve‑se apática, sempre com medo de criticar abertamente a atuação do chefe de Estado.
https://twitter.com/Maks_NAFO_FELLA/status/2045048729607020670
Essa aparente apatia está gradualmente a desvanecer-se e os números das sondagens já o demonstram. Desde meados de fevereiro, a taxa de aprovação de Vladimir Putin diminuiu 7,3 pontos percentuais, ao passo que o índice de confiança no Presidente recuou 6,5 pontos percentuais. Atualmente, mesmo tendo em conta as reservas que este tipo de sondagens estatais acarretam, 65,6% dizem aprovar a atuação do chefe de Estado, enquanto o nível de confiança no chefe de Estado é de 71%.
Mikhail Alexseev dá também um exemplo de como mesmo os apoiantes mais ferrenhos de Vladimir Putin o estão a criticar. O especialista recorda o caso de Ilya Remeslo, um blogger pró-Kremlin que durante anos foi um “crítico feroz dos oponentes de Putin”: “Em meados de março, atacou Putin e chamou-lhe um criminoso de guerra e ladrão”. O influencer queixou-se dos “bloqueios na internet promovidos pelo Governo russo”, assim como da “guerra fracassada” na Ucrânia. A consequência? Foi internado numa clínica psiquiátrica, tendo tido alta um mês depois.
https://observador.pt/2026/04/24/de-80-para-65-taxa-de-aprovacao-de-putin-cai-para-o-nivel-mais-baixo-desde-antes-do-inicio-da-guerra-na-ucrania/
Tudo isto permite inferir que a popularidade de Vladimir Putin já teve melhores dias. Para já, o regime parece não estar preocupado. As restrições à internet, a campanha contra as VPNs e os bloqueios deverão continuar. Porém, estes fatores estão longe de ser os únicos a explicar porque é que cada vez mais russos se permitem manifestar algum descontentamento às empresas de sondagens. O aumento do custo de vida e a sensação de uma guerra sem fim na Ucrânia são igualmente importantes.
A economia em queda e a população a pagar a guerra
A guerra no Irão parecia ser um oásis para a economia russa. A campanha militar na Ucrânia já dura há quatro anos e não tem fim à vista: os custos continuam elevados e grande parte das receitas públicas são canalizadas para o esforço de guerra. A possibilidade de a Rússia encher os cofres com dinheiro proveniente da venda de petróleo e de gás natural (cujos preços dispararam) aparentava ser a solução ideal para a economia de um país cada vez mais frágil. Os Estados Unidos suspenderam ainda temporariamente algumas sanções que aplicaram ao setor petrolífero russo. Mas terá sido apenas fogo de vista: estes ganhos não chegam para inverter a trajetória de estagnação.
Segundo dados adiantados pela Reuters, a economia russa contraiu 0,3% no primeiro trimestre de 2026 — a primeira queda trimestral desde o início de 2023. O país beneficiou de preços elevados do petróleo, mas isso não foi suficiente para garantir crescimento económico. Em meados de abril, durante uma reunião com os seus conselheiros económicos no Kremlin, o Presidente russo reconheceu mesmo que os “indicadores macroeconómicos estão aquém das expectativas”.

Em declarações ao New York Times, a economista russa Natalia Zubarevich confirma o diagnóstico de que a “economia russa entrou numa zona perigosa”. “Não sabemos quanto tempo vai durar, embora provavelmente seja bastante prolongado”, antecipou. A especialista ressalva, porém, que a natureza desta recessão é diferente: não é necessariamente “fatal” para o regime, mas aponta para um período de estagnação longo, em vez de um colapso financeiro
Segundo o analista Ondrej Ditrych, num artigo escrito para o Instituto da União Europeia para os Estudos de Segurança, o que está a acontecer é que “o Kremlin está a hipotecar o futuro do país à medida que começam a ser reveladas as fragilidades estruturais na economia”. “Entretanto, as taxas de juro continuam elevadas, o consumo está a cair e a presidente do Banco Central russo, Elvira Nabiullina, alertou para uma grave escassez de mão de obra, com a taxa de desemprego nos 2%.”
Em sentido inverso, Mikhail Alexseev lembra que as guerras são sempre “dispendiosas” e que isso ajuda a explicar o estado atual da economia russa. No entanto, o especialista desvaloriza o impacto que esses custos podem ter para o regime: “Putin estimou corretamente que as sanções internacionais não iriam perturbar as principais fontes de receita do país” — petróleo e gás natural.
“Colocar a economia russa numa base militar proporciona empregos e rendimentos estáveis a milhões de russos, ao mesmo tempo que fortalece os arsenais do Kremlin”, sublinha Mikhail Alexseev, acrescentando que a guerra no Irão ainda traz vantagens adicionais para as finanças russas.
Por um lado, o Kremlin continua a conseguir controlar a situação — mesmo que isso signifique que a qualidade de vida dos russos tenha piorado. Por outro, no Fórum Económico de Moscovo, o economista Robert Nigmatulin verbalizou o que muitos russos sentem: “Mesmo nas regiões mais pobres da China, o rendimento é mais elevado do que nas regiões mais pobres [da Rússia]. O crescimento do PIB desde 2015 — ou seja, há 11 anos — é de cerca de 1,5% ao ano. Sabem quanto aumentaram os preços para o consumidor? 77%. Como podemos investir num país com uma liderança como esta? Não se pode gerir uma economia desta forma”.
O aumento do custo de vida para sustentar em parte o esforço de guerra, as sanções internacionais de que a Rússia é alvo e os bloqueios na internet fazem com que muitos russos estejam insatisfeitos com a atual situação económica. Ao mesmo tempo, a guerra acarreta custos também para os próprios alicerces da economia russa: nas últimas semanas, a Ucrânia tem atacado refinarias e infraestruturas petrolíferas em território russo — uma estratégia que visa desmantelar os sustentáculos da máquina de guerra montada por Vladimir Putin.
Irina gere um pequeno negócio na Rússia e, ao Washington Post, relatou as dificuldades que está a enfrentar: “As coisas estão uma confusão total — as vendas diminuíram, há cada vez menos pessoas nos centros comerciais, os preços duplicaram e, no caso das frutas e dos vegetais, mais do que duplicaram. Os custos aumentaram e os impostos também.” Neste cenário, quem está a pagar a fatura do conflito parece ser a população — e muitos estão cada vez mais conscientes disso.

O regime está também ciente disso e oficialmente até Vladimir Putin admitiu que a situação económica já esteve muito melhor. Na Europa, também já existe essa perceção. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, expôs esta quarta-feira que “a taxa de inflação crescente e as taxas de juro estão a disparar” na Rússia para colocar o dedo na ferida: “As consequências da guerra estão a ser pagas com o dinheiro do povo. Tanto assim é que o Kremlin responde da forma habitual, restringindo a internet e a comunicação livre, construindo uma cortina de ferro digital”.
Pode até haver descontentamento entre a população russa por causa da economia, que pode estar a ficar cada vez mais frágil. Mas o Kremlin continua a dispor de mecanismos para suprimir a revolta que possa haver, principalmente numa população que viveu durante a época comunista. “Os ditadores possuem um vasto arsenal de ferramentas para manter o apoio popular”, lembra Mikhail Alexseev.
As baixas russas e a alienação de Putin sobre a guerra
No dia 24 de abril cumpriram-se 50 meses de guerra. Aquilo que deveria ter sido uma “operação militar especial” rápida transformou-se numa longa guerra de atrito. Há muito que o conflito se tornou num pântano: as tropas russas avançam alguns quilómetros, a Ucrânia contra-ataca e, por vezes, recupera esse território. A dinâmica no campo de batalha quase não muda, tal como o impasse negocial que se mantém, apesar das promessas da administração Trump de o quebrar.

Para a Ucrânia, esta guerra é existencial. As tropas ucranianas sabem que, a partir do momento em que baixarem as armas, arriscam perder território e pôr em causa a soberania do país. Para a Rússia, o conflito foi — e continua a ser — uma opção política que o Presidente soube, ainda assim, disfarçar. Vladimir Putin continua a recorrer a militares pouco experientes de regiões recônditas na Rússia para sustentar o esforço de guerra, enquanto nas grandes cidades as repercussões são sobretudo no plano económico.
Mesmo assim, não deixa de haver um certo cansaço com a guerra. Um dirigente russo desabafou ao Washington Post que o “estado de espírito” para muitos é de “já chega”: “Lutamos há demasiado tempo”. “Parece para toda a gente que a guerra tem durado mais do que a II Guerra Mundial, a Grande Guerra Patriótica — e, ao mesmo tempo, nem conseguimos controlar uma região [na Ucrânia].”
Militarmente, a Rússia tinha preparado uma “grande ofensiva de primavera” para os próximos meses. A Ucrânia cedo declarou que a tinha frustrado. O think tank norte-americano Instituto para a Guerra concluiu que as Forças Armadas russas não registaram quaisquer ganhos territoriais no país vizinho durante todo o mês de março — algo que já não acontecia desde setembro de 2023.
Em contrapartida, a Ucrânia parece estar a ganhar algum ascendente, mais que não seja ao nível do moral. A derrota nas urnas do primeiro-ministro húngaro e aliado de Vladimir Putin, Viktor Orbán, permitiu que a União Europeia desse luz verde a um empréstimo de 90 mil milhões de euros para Kiev. Uma parte significativa dessa verba será alocada ao esforço de guerra ucraniano — e deverá sustentá-lo pelo menos durante os próximos dois anos.
Além disso, os ucranianos alteraram ligeiramente a estratégia nos últimos tempos: para quebrar o impasse na linha da frente e para fazer face à falta de homens, passaram a apostar na inovação tecnológica. Este mês, pela primeira vez na História militar, robôs e drones conquistaram sozinhos uma posição russa. No campo de batalha, contrariamente à Rússia, a Ucrânia vai conseguindo surpreender o inimigo — e o futuro é promissor no que toca à tecnologia e às sinergias neste campo com o Ocidente.
Para as tropas russas, estes métodos disruptivos são mais difíceis de combater. Alvo de sanções internacionais, a Rússia mantém-se presa a uma estratégia convencional. Até pode ter vantagem em número de homens e na forma como conduz as mobilizações, mas isso pode já não ser suficiente. “A Ucrânia recuperou a vantagem na guerra com drones, infligindo mais baixas às forças russas”, sublinha Ondrej Ditrych, acrescentando que o recrutamento está “provavelmente a diminuir”. “Os crescentes bónus [financeiros] de assinatura de contratos podem já não ser suficientes para atrair voluntários. Como resultado, a Rússia começa a ter dificuldades em repor as suas perdas no campo de batalha.”
https://observador.pt/2026/04/14/zelensky-anuncia-feito-inedito-na-historia-da-guerra-robos-capturaram-sozinhos-posicao-russa/
Símbolo do poderio militar, o Kremlin costuma organizar um grande desfile em Moscovo no Dia da Vitória, a 9 de maio, que celebra a vitória dos russos sobre as tropas nazis. Em 2026, o evento será mais modesto. O porta-voz do Kremlin justificou a medida com o facto de a Ucrânia, que está a “perder terreno no campo de batalha todos os dias”, possa lançar um “ataque terrorista”. Aliás, Vladimir Putin e o Presidente norte-americano, Donald Trump, falaram ao telefone esta quarta-feira e discutiram a possibilidade de impor uma trégua temporária a 9 de Maio.
Perante as informações que vão chegando da Ucrânia e que ultrapassam a barreira da censura, muitos russos questionam-se se a estratégia militar será a certa. Como nota o analista Pavel Baev num artigo escrito pelo think tank Instituto de Pesquisa para a Paz de Oslo, dirigentes, economistas e bloggers têm alertado o Presidente russo de que não está a receber informações fidedignas sobre as “derrotas militares, o declínio económico e a desordem social”.
A bolha de aliados que Vladimir Putin foi criando — composta por antigos espiões e amigos de infância de São Petersburgo — já o levou a cometer vários erros de cálculo na Ucrânia. Num sistema em que não existem críticos e ninguém se atreve a desdizer as palavras do Presidente russo, muitos dirigentes temem que esse processo se esteja a intensificar. “As preocupações sobre a desconexão de Putin da realidade estão a crescer em muitos grupos da elite”, descreve Pavel Baev.

Ao receber informações enviesadas e com pouca margem para qualquer tipo de autocrítica, o Presidente russo dificilmente mudará de percurso, principalmente na guerra da Ucrânia. Só num cenário extremo é que Vladimir Putin “ponderaria comprometer-se para resolver a guerra”, acredita Mikhail Alexseev. No limite, “o que podia fazer era concordar com a proposta de cessar-fogo de 90 dias proposta por Trump, com a qual a Ucrânia já concordou”, assinala o especialista. A postura maximalista será mantida a todo o custo, mesmo que esteja alienada da realidade.
Talvez também seja pelo reconhecimento dessas frustrações que está a ser colocado em marcha o tal “gulag digital”, destinado a impedir que as redes sociais ocidentais sirvam de plataforma para a população se organizar, revoltar-se e convocar eventuais manifestações. A taxa de aprovação nas sondagens continua alta e, segundo Pavel Baev, Vladimir Putin pode ainda encontrar algum “conforto” nesses números: “Mas deve preocupar-se com a fase seguinte: a descoberta de que tem pouco poder para resolver os problemas das elites e que — na verdade — não os quer ouvir”.
Já há várias vozes discordantes entre a elite russa. Os comunistas evocam a imagem da Revolução de Outubro. A História russa, que Vladimir Putin usa tantas vezes para justificar as suas ações, é uma prova de como alguns “líderes absolutistas rapidamente se transformaram em perdedores desprezados”, recorda Pavel Baev. É desta sina que o Presidente russo quer escapar — nem que para isso tenha de construir uma “cortina de ferro digital”.