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O talento não herdado, os testes beep, o boné para não ser reconhecido. Froholdt, o viking que chegou para correr mais do que todos

Custou 20 milhões que vão ser 22, ninguém o conhecia e tinha acabado de cumprir a primeira internacionalização pela Dinamarca. Como Victor Froholdt conquistou o FC Porto para conquistar a Liga.

Mariana Fernandes
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Quando Victor Froholdt foi anunciado como reforço do FC Porto, no final de julho e depois de Gabri Veiga, Borja Sainz, Dominik Prpic e João Costa, os pontos de interrogação atropelavam-se. E quase todos estavam relacionados com números: os números do valor da transferência, os números da idade do jogador, o número da tão importante posição que tinha de desempenhar em campo. Menos de um ano depois, Victor Froholdt conquistou todos os pontos finais.

O médio dinamarquês, o primeiro dinamarquês a jogar no FC Porto, chegou com apenas 19 anos, acabado de cumprir a primeira internacionalização pela Dinamarca, e custou uns surpreendentes 20 milhões de euros fixos com mais dois milhões em objetivos. Um jogador imberbe, aparentemente desconhecido à exceção de um insistente interesse do Eintracht Frankfurt, tornava-se a contratação mais cara do verão de um clube que até há pouco tempo parecia não ter qualquer margem para investimentos. Mais do que isso, tornava-se uma aparente substituto para Richard Ríos, que foi parar ao Benfica, e Kenneth Taylor, demasiado caro para roubar ao Ajax.

O que poucos sabiam, na altura, era que o FC Porto tinha acabado de contratar um dos melhores jogadores da Primeira Liga. Impressionou no primeiro estágio de pré-época, na Áustria, destacando-se do grupo ao ser dos primeiros a sair do autocarro, dos primeiros a entrar no balneário e dos primeiros a chegar ao relvado. Fez o golo da vitória na apresentação oficial aos sócios, contra o Atl. Madrid no Estádio do Dragão, e nem o facto de o dia ter ficado marcado pela contratação-surpresa de Luuk de Jong lhe retirou protagonismo. Victor Froholdt, o novo médio que é uma espécie de híbrido entre um 6 e um 8, tinha chegado para ficar.

“Sou um médio centro, mas entre o número 6 e o número 8. Às vezes chego mais à frente no terreno. O que é realmente importante para mim é o facto de usar todas essas qualidades que tenho como jogador. Com dinamismo, tenho um jogo defensivo ou ofensivo. Essas são as minhas características”, explicou o próprio médio ainda antes de assinar pelo FC Porto, no verão passado, quando foi eleito para o Spring Profile 2025 da revista dinamarquesa Tipsbladet, escolhido por 12 treinadores como o jogador que mais se tinha destacado nas semanas anteriores no país.

Para o merecer, tinha sido a força-motriz do Copenhaga na temporada anterior. Fez 53 jogos, marcou seis golos e assinou três assistências, conquistando o Campeonato e a Taça da Dinamarca e merecendo a tal primeira internacionalização – contra Portugal, curiosamente, no Estádio José Alvalade e na segunda mão dos quartos de final da Liga das Nações que acabou com o apuramento português. Quando aterrou no Porto, Victor Froholdt podia ser muito jovem e proveniente de um campeonato aparentemente periférico. Mas já sabia o que era ser uma das referências de um clube que luta para ganhar tudo.

https://observador.pt/2025/07/21/entre-o-sonho-taylor-e-rios-demasiado-caros-a-mare-foi-para-outro-lado-fc-porto-da-20-milhoes-por-victor-froholdt/

Box-to-box clássico, com 1,87 metros de envergadura, corre mais do que praticamente todos os outros e consegue ocupar posições mais defensivas, aparecer em zonas de finalização e até encostar a terrenos mais laterais para causar desequilíbrios. Tornou-se um dado adquirido para Francesco Farioli e a trave-mestra do meio-campo, assumindo uma posição de liderança que encaixou nos perfis de Alan Varela, Gabri Veiga, Rodrigo Mora ou Pablo Rosario – e que fez lembrar o que acontecia com Nico González, médio espanhol em que janeiro de 2025 rumou ao Manchester City e deixou ainda mais frágeis uns dragões que já careciam de referências.

Tinha sido a força-motriz do Copenhaga na temporada anterior. Fez 53 jogos, marcou seis golos e assinou três assistências, conquistando o Campeonato e a Taça da Dinamarca e merecendo a primeira internacionalização – contra Portugal, curiosamente, no Estádio José Alvalade e na segunda mão dos quartos de final da Liga das Nações que acabou com o apuramento português.

Natural de Copenhaga, Victor Froholdt começou por jogar no Vallensbæk antes de chegar ao clube da capital da Dinamarca, estreando-se na equipa principal em setembro de 2023. Um percurso que fez com que fosse conhecido e reconhecido por Frederico Castanheira, português que é scout do Viborg há vários anos e que, ainda no início da temporada, explicou o porquê de o FC Porto ter decidido dar 20 milhões de euros por um jogador que poucos ou nenhuns sabiam quem era.

“Há uns meses, o treinador do Copenhaga contou num podcast dinamarquês que ele estava a ser quase sempre utilizado a extremo e que, na paragem de inverno, ele foi ter com ele e pediu para começar a ser utilizado como médio-centro. O treinador, que também já tinha pensado nisso até porque foi médio, fez o que ele pediu. Nunca mais saiu da equipa e foi o melhor jogador do Campeonato. É daqueles jogadores à FC Porto, é um jogador de que os adeptos do FC Porto gostam muito. Aqueles jogadores com atitude competitiva, que dão tudo, um jogador à FC Porto em termos de raça. Acho que vão gostar bastante dele porque tem uma atitude competitiva muito, muito forte, dá sempre tudo em campo”, referiu, na altura, em entrevista à Rádio Renascença.

Ciente de que não é um iluminado do ponto de vista técnico, Victor Froholdt compensa e compensou com essa dimensão competitiva. O médio dinamarquês tornou-se o exemplo maior da intensidade pedida e exigida por Francesco Farioli e foi acumulando prémios de Melhor Jogador, Melhor Médio ou Melhor Jovem por parte da Liga Portugal, evidenciando-se como a figura maior de um FC Porto que recuperou uma espécie de ADN característico que tinha desaparecido na bagagem de Sérgio Conceição.

“Sou um jogador com grande capacidade para cobrir a maior parte do campo, tanto com sprints de alta intensidade como a cobrir espaço, intercetando a bola e trazendo-a de volta para o nosso lado. Mas também acho que tenho algumas qualidades com a bola, levando-a de um lado para o outro e criando oportunidades. Tenho de ser melhor nos espaços curtos, tecnicamente e na leitura de jogo. Tenho muitas qualidades, mas também tenho coisas que quero melhorar. Sei que o treinador vai fazer de tudo para me ajudar nesse aspeto”, disse o dinamarquês em outubro, em entrevista à revista BetanoMag, numa conversa em que também revelou que tem Cristiano Ronaldo como ídolo.

A alta intensidade, porém, teve consequências. Froholdt caiu visivelmente entre o final do ano passado e o início do atual, um bocadinho à boleia de uma quebra de rendimento coletiva da equipa de Francesco Farioli, e acabou por obrigar a uma gestão mais cuidada da própria utilização. Sem nunca deixar de ser fulcral para o treinador italiano, saltou do banco mais vezes, foi substituído mais vezes e aproveitou a inteligência da equipa técnica para recuperar forças para uma reta final de temporada em que tem sido novamente uma das principais figuras do FC Porto – até pelos golos, marcando a Rio Ave, Benfica, Estoril e Tondela no espaço de dois meses.

Com 20 anos cumpridos no passado mês de fevereiro, é o terceiro jogador mais utilizado por Francesco Farioli – apenas atrás de Diogo Costa e Bednarek e com mais 600 minutos do que o quarto, Pepê. Leva oito golos e sete assistências em quase 4.000 minutos entre Campeonato, Taça de Portugal e Liga Europa, naquela que já é a temporada mais goleadora da curta carreira, e a tudo isso ainda acrescenta oito partidas pela Dinamarca entre particulares e a qualificação para o Campeonato do Mundo. Chegou para ser campeão nacional e será um dos principais alvos do mercado de transferências no Dragão. Mas também um dos principais nomes a proteger.

A alta intensidade teve consequências. Froholdt caiu visivelmente entre o final do ano passado e o início do atual, um bocadinho à boleia de uma quebra de rendimento coletiva da equipa de Francesco Farioli, e acabou por obrigar a uma gestão mais cuidada da própria utilização.

O filho mais velho que não herdou o talento para o futebol e anda de boné na rua para não ser reconhecido

Como já se percebeu, o último ano mudou a vida de Victor Froholdt. Nascido na capital da Dinamarca em fevereiro de 2006, meses antes de a Itália de Fabio Cannavaro conquistar o Campeonato do Mundo na final em que Zinedine Zidane cabeceou Marco Materazzi, deu os primeiros passos no modesto Vallensbaek, clube do município com o mesmo nome que é um dos mais pequenos de todo o país. Com apenas 12 anos, porém, já estava de malas feitas para cumprir o sonho de jogar pelo Copenhaga, o clube que sempre apoiou.

Apesar de cedo ter descoberto que queria ser jogador de futebol, o médio do FC Porto já contou que o talento não é propriamente uma questão familiar. “Acho que o meu pai não vai ficar muito triste se disser que o meu talento para o futebol não vem dele. Não vem da minha família, mas o futebol sempre significou muito para nós e sempre foi o meu sonho. Mas acho que é importante dizer que não é um sonho partilhado, ninguém me pressionou para ser jogador de futebol. Foi sempre um sonho que veio de dentro, de mim, e eles apoiaram-me”, contou o jovem dinamarquês em entrevista à revista Tipsbladet.

Froholdt estreou-se na equipa principal do Copenhaga em setembro de 2023, com apenas 17 anos, e marcou logo nesse primeiro jogo e na goleada imposta ao IF Lyseng na Taça da Dinamarca. Semanas depois, já em novembro, cumpriu os primeiros minutos no Campeonato e voltou a marcar, desta feita ao Randers. A primeira temporada ao mais alto nível valeu-lhe a renovação de contrato até 2028, a entrada definitiva na equipa principal e até uma mudança de número, deixando de usar o insuspeito 47 para optar pelo 17.

2024/25, portanto, foi a época de explosão de Victor Froholdt. Deixou de ser extremo, passou para o centro do meio-campo e realizou 53 jogos em todas as competições, com seis golos e três assistências, conquistando o Campeonato e a Taça da Dinamarca. Pelo meio, teve um papel preponderante na caminhada do Copenhaga até aos oitavos de final da Liga Conferência, impressionando na eliminatória em que os dinamarqueses caíram contra o Chelsea – em duas exibições que o colocaram numa espécie de montra europeia de segunda linha, com o interesse do Eintracht Frankfurt a ser o mais falado na altura.

Apesar de ter golo, de aparecer em zonas de finalização e de ser mais um elemento do setor ofensivo, o dinamarquês é constantemente elogiado por ser o motor das equipas que representa. Ainda assim, já explicou que não tem uma explicação óbvia para a dimensão física de que beneficia. “Os meus colegas dizem que faço batota porque corro muito e nunca tenho cãibras. Mas também existem outras áreas onde sou eu a ter inveja das qualidades deles. Como jogador e como pessoa, acho que a genética é sempre importante. Alguns de nós são grandes e fortes sem terem de passar muito tempo no ginásio, outros são brutalmente rápidos. Talvez tenha algo extra em termos de endurance, mas também é algo em que tenho trabalhado”, revelou ainda nos tempos do Copenhaga, onde era conhecido por nunca se cansar nos testes beep, onde os atletas têm de chegar a um certo ponto antes do apito, com a distância temporal dos apitos a tornar-se progressivamente mais curta.

Os bons meses no Copenhaga valeram-lhe então a primeira convocatória para a Dinamarca, em março do ano passado e prolongando um percurso internacional que começou nos Sub-16 dinamarqueses e que passou por todos os escalões jovens. Quis o destino que, ainda sem saber por onde passaria o próprio futuro, a estreia pela seleção nacional acontecesse precisamente contra Portugal: depois de não ser utilizado na primeira mão em Copenhaga, entrou aos 83 minutos da segunda mão dos quartos de final da Liga das Nações, no Estádio José Alvalade, assistindo aos dois golos de Francisco Trincão e a outro de Gonçalo Ramos que colocaram a Seleção Nacional na Final Four que acabaria por conquistar.

"Os meus colegas dizem que faço batota porque corro muito e nunca tenho cãibras. Mas também existem outras áreas onde sou eu a ter inveja das qualidades deles. Como jogador e como pessoa, acho que a genética é sempre importante. Alguns de nós são grandes e fortes sem terem de passar muito tempo no ginásio, outros são brutalmente rápidos. Talvez tenha algo extra em termos de endurance, mas também é algo em que tenho trabalhado."
Victor Froholdt

Já esta temporada, voltou a ser chamado tanto para particulares como para os jogos da qualificação para o Campeonato do Mundo – que a Dinamarca falhou, caindo no playoff com a República Checa. Na memória, porém, ficou o telefonema da primeira convocatória, em março do ano passado, quando nem o irmão mais novo acreditou no que estava a acontecer. “O meu irmão é provavelmente o meu maior crítico, por isso, não acreditou quando lhe disse que tinha sido convocado. Foi um dos dias mais importantes da minha vida”, sublinhou, referindo-se a Hjalte Froholdt, de 17 anos, que joga nas camadas jovens do Lyngby.

O verão trouxe o salto para o FC Porto, apesar do interesse do Eintracht Frankfurt e de o Borussia Dortmund ter chegado a perguntar pelo médio, e Victor Froholdt não demorou a causar o impacto que o tornou uma das figuras da Primeira Liga nesta temporada. Poucas semanas depois de assinar pelos dragões, numa entrevista a um jornal dinamarquês, contou que já estava a ter aulas de português, que ia jogar golfe com os companheiros de equipa e que grande parte da comunicação interna do clube era em inglês. E mostrou-se surpreendido com o facto de já ser reconhecido na rua.

“Já cheguei ao ponto em que é difícil andar na rua sozinho, o que prova que toda a cidade vive e respira futebol. É fantástico o quanto o clube significa para eles. Estou a absorver tudo enquanto tudo corre bem. Seria completamente diferente se tivesse começado mal a temporada e toda a gente achasse que tinha sido uma má transferência. A cultura é muito diferente da da Dinamarca, as pessoas param os jogadores na rua e pedem fotografias. Tenho de pensar sobre os sítios a que vou e quando vou e já comprei um boné para os dias em que não quero ser reconhecido”, revelou.