Há um padrão na história da esquerda ocidental, e na portuguesa, em particular, que temo não possuir já qualquer remédio. É verdade que errar é humano, mas não se trata aqui de um acaso, nem sequer de uma sucessão de equívocos: é um padrão estrutural que reflecte uma certa incapacidade para distinguir o sonho da realidade, e, simultaneamente, para ver em tudo o que lhes parece pouco colaborante a maior ameaça que paira sobre o mundo, talvez mesmo antes da bomba nuclear. A esquerda nunca teve grande pejo em rotular, o que, de resto, constitui prova bastante de como a esquerda é a mais humana das correntes políticas. Se lhe agrada o personagem, o rótulo nunca é comedido; se não lhe agrada, “fascista” será quanto baste. É como um carro cujo pisca-pisca só opta pela esquerda ou pela extrema-direita.
Vejamos: Reagan? Fascista. Thatcher? Fascista. Bush pai? Fascista. Bush filho? Fascista. Aznar? Fascista. Chirac? Fascista. Sarkozy? Fascista. Freitas do Amaral? Fascista. Passos Coelho? O maior fascista de todos, segundo o tempo presente. Cavaco Silva? Fascista. Portas? Fascista. De Gaulle? Fascista. Churchill? Fascista. Sá Carneiro? Fascista. Merkel? Fascista – ou nazi, que os alemães nestas coisas acumulam. Vargas Llosa? Fascista. Qualquer Primeiro-ministro israelita? Fascista. Mário Soares? Fascista amiúde. Os Papas? Tudo fascista até Francisco. Corina Machado? Fascista. Henrique Capriles? Fascista. Balsemão? Fascista. Mota Pinto? Fascista. O Observador? Alfobre de fascistas.
Ao mesmo tempo, a esquerda nunca deixou de se encantar. Com Che Guevara, com Pol Pot, com Mao, com Enver Hoxha, com Estaline, com Lenine, com Trotsky, com Fidel Castro, com Hugo Chávez, com Nicolás Maduro, com Ho Chi Minh, com Mugabe, com Ceausescu, com Ortega, com Lula. Não deixa, mesmo hoje, de se embebedar de amores pelo islamismo radical ao mesmo tempo que bate com a mão no peito pelo feminismo ou pelos direitos LGBT, sem que passe pela testa do esquerdista menos empedernido uma pinga de vergonha. Caramba, a esquerda portuguesa até por José Sócrates quase inexplicavelmente se apaixonou.
Não serão casos idênticos, nem foram todos estes, e outros, amados pelas mesmas razões, nem pelas mesmas pessoas em concreto. Não se trata de uma questão de figuras, mas de uma complacência colectiva persistente com o desastre, mesmo quando ele é pré-anunciado. Não houve, por exemplo, movimento terrorista que, sendo de esquerda ou representasse, de alguma forma, um género de luta anti-ocidental ou anti-burguês, não tivesse beneficiado do amor das encantadoras elites de esquerda. A lógica é, na verdade, sempre a mesma: uma certa justificação superior que os vulgares, eventualmente fascistas, não compreendem; existe sempre por ali uma causa maior que redime o meio, uma narrativa que suspende o julgamento.
Ora, o novo amor-perfeito da esquerda intelectual portuguesa, depois de fracassada a rota da em-pa-tia de Pedro Nuno Santos, chama-se Pedro Sánchez, a versão contemporânea do poder como fim em si mesmo, legitimado por um discurso moralmente superior. É ele quem «aponta o caminho da Europa», é ele o «herói», enfim, chega mesmo a ser uma espécie de Churchill recauchutado.
Sucede que, como já várias vozes mais avisadas e conhecedoras do que a minha (vide, Diogo Noivo, nas páginas do Diário de Notícias, ou Gonçalo Dorotea Cevada, aqui no Observador) explicaram vezes sem conta, o que se passa em Espanha não é apenas um debate ideológico, mas um problema de degradação política concreta.
O chamado “caso Koldo”, envolvendo o ex-ministro José Luis Ábalos, braço-direito de Sánchez, expôs uma alegada rede de comissões ilegais em contratos públicos, pagamentos em dinheiro, adjudicações viciadas, estruturas paralelas dentro do próprio partido, e mesmo recurso a prostitutas no contexto de redes de corrupção caucionadas pelo sanchismo. São conhecidas todas as histórias do “grupo do Peugeot” (que, afinal, era um Mercedes) ou da família directa de Sánchez, como são conhecidos os recursos a meios do Estado e do poder judicial para fazer vingar uma política simples: destruir as oposições e perpetuar no poder um homem e o seu bando de apaniguados. Sánchez não hesitou mesmo em afrontar o legado histórico do PSOE, e não apenas por uma vez, colocando em risco a unidade do Estado espanhol, a sua soberania, a independência do seu poder judicial. Ao mesmo tempo, o discurso oficial continua a invocar a sua superioridade moral, o seu feminismo militante, a sua regeneração democrática, enquanto entrega Espanha aos tentáculos chineses e coloca o país que nos é mais próximo em rota de colisão com o mundo ocidental. A contradição é perfeita: uma esquerda que se julga moralmente superior, mas que fomenta e/ou tolera práticas que corroem a confiança pública na democracia e nas instituições; uma esquerda que se apresenta como defensora das mulheres, enquanto casos internos expõem comportamentos incompatíveis com os direitos das mulheres; uma esquerda que denuncia supostos vícios dos outros, mas que convive perfeitamente com o seu lodo; e que sobrevive, no fim de contas, acenando com o perigo do fascismo que faz frente à sua pureza.
O problema do intelectual de esquerda português nunca foi a falta de informação, nem o desconhecimento histórico, nem a ausência de sinais. Foi a falta de vergonha, se quisermos ser mais prosaicos. Ou o seu amor maior por heróis, que prefere às ideias, como as crianças. Sánchez será um dia, como a Santa da Ladeira, repudiado. Até lá, não nos resta outro remédio que não este de aturar o seu nome elevado aos céus do esquerdismo europeu, fenómeno naturalmente suportado por gente que, não se julgando de esquerda, sabe que em Portugal é à esquerda que se vive melhor e onde se erra sem consequências.