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Um festival para celebrar o funaná, o batuku e a tabanka na terra onde nasceram

O Observador esteve em reportagem em Santa Cruz, na ilha de Santiago, em Cabo Verde, no único festival dedicado às músicas tradicionais locais — que ajudam a contar a história de um país.

Ricardo Farinha
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Bem-vindos a Santa Cruz, ilha de Santiago, Cabo Verde. Um pequeno letreiro em madeira apresenta-a como a terra da banana, do peixe badejo, de boa gente — e do funaná. Em 2025, por ocasião do 50.º aniversário da independência, o Observador publicou um artigo sobre a história desta música tradicional reprimida durante o Estado Novo, pelo regime colonial e pela Igreja Católica, que serviu de banda sonora à liberdade e emancipação de um povo, reforçando uma identidade cultural ligada a África. Agora, viajámos até à sua terra de origem, onde há 16 anos se organiza o Festival 1 Concelho 3 Ritmos — que, além do funaná, celebra o batuku e a tabanka, outros géneros tradicionais de música e dança.

São as três principais manifestações culturais oriundas da ilha de Santiago, a maior e mais populosa do arquipélago de Cabo Verde, onde fica a Cidade da Praia, capital do país. Santiago é também comumente conhecida como a ilha mais africana da nação crioula, o que é notório não só nos traços físicos da população como em várias das práticas culturais, mais próximas dessa ancestralidade africana.

Enquanto ponto central no tráfico transatlântico de pessoas escravizadas, Santiago tornou-se a casa para muitas populações trazidas à força de diferentes territórios da África Ocidental. Ao longo dos séculos, diferentes grupos de trabalhadores forçados fugiram das cidades e das propriedades onde viviam para se instalarem nos vales e montanhas da ilha, territórios remotos e de difícil acesso onde construíram comunidades autónomas. Os portugueses colonialistas chamavam-lhes “vadios” — o que deu origem ao termo crioulo “badiu”. Como noutros contextos, de insulto passou a designação usada com orgulho: hoje, “badiu” é simplesmente aquele que é natural de Santiago.

Foi deste contexto que surgiram músicas como os três ritmos que todos os anos são celebrados em Santa Cruz. Tradicionalmente tocado por grupos de mulheres, o batuku é uma expressão musical sobretudo rítmica e, como noutras músicas africanas, polirrítmica — originalmente, as batukadeiras usavam objetos do dia a dia, como panos, para percutir com as mãos, enquanto alguém cantava por cima num gesto de resposta.

Pelas comunidades rurais da ilha de Santiago existem vários sítios apontados como focos de origem destas práticas musicais, mas nenhum outro reivindica aquilo que Santa Cruz é: a capital do funaná. “Li kê bersu” — ou seja, “aqui é o berço” — é o lema do Festival 1 Concelho 3 Ritmos.

A tabanka — que, tal como o batuku, é referenciada em documentos que restringiam ou proibiam a sua existência desde o século XVIII — é uma manifestação cultural que acontece como um desfile pelas ruas. Tocam-se tambores, cornetas e os grandes búzios do mar são usados como instrumentos de sopro. Os praticantes costumavam ridicularizar os seus senhores, bem como todo o regime vigente, na maneira como se vestiam e apresentavam no cortejo. A tradição subversiva permaneceu e hoje cada tabanka tem um rei ou uma rainha, as tais figuras que outrora serviam para satirizar os poderes instituídos.

Já o funaná, que terá aparecido entre o final do século XIX e o início do século XX, é historicamente tocado com um acordeão chamado de gaita, que foi sendo alterado ao longo das décadas para ter um som mais grave — e com uma barra de ferro que habitualmente é percutida com uma faca. Inicialmente, muitos dos ferros que eram utilizados na música eram, literalmente, enxadas do campo — tanto que se usava o termo “baile de enxada”. Enquanto o Estado Novo e o regime colonial proibiam estas práticas tradicionais mais associadas a uma africanidade, optava por enaltecer a faceta mais portuguesa da identidade cabo-verdiana, ao promover a morna, tida como mais erudita e musicalmente mais próxima do fado.

Pelas comunidades rurais da ilha de Santiago existem vários sítios apontados como focos de origem destas práticas musicais, mas nenhum outro reivindica aquilo que Santa Cruz é: a capital do funaná. “Li kê bersu” — ou seja, “aqui é o berço” — é o lema do Festival 1 Concelho 3 Ritmos.

Um epicentro de funaná

É na costa leste, a meio da ilha de Santiago, que fica o município de Santa Cruz. Dali observa-se com clareza a ilha do Maio, bem mais pequena; e se partirmos pelo Atlântico fora, haveremos de atracar no Senegal. Embora seja banhado pelo mar, por ali diz-se que é o “interior” de Santiago, o que dá a entender como é um território periférico dentro da ilha, a meio caminho entre a Cidade da Praia e a vila do Tarrafal, mais desenvolvida e turística, onde fica o antigo campo de concentração português.

Com uma população de cerca de 26 mil pessoas e bastante jovem — 62% dos habitantes de Santa Cruz têm entre 15 e 24 anos — falamos de uma terra modesta e pacata. Os miúdos saem da escola e jogam à bola nas praias de areia negra. Fazem balizas com os ténis e, no final, antes do regresso a casa, despedem-se com um mergulho no mar. Na cidade de Pedra Badejo, localidade central do concelho, e como em muitos outros sítios, convivem lado a lado as casas pintadas e as habitações de cimento exposto. Há comércio aberto para a rua, alguns restaurantes e cafés, mercearias e barbeiros, oficinas e salões de beleza. Sente-se o movimento na cidade, uma vivência mais ligada à rua e menos aos ecrãs. Não são muitos os estrangeiros que por ali passam, embora haja alguns em passeio pela ilha de Santiago, a caminho de locais mais populares ou que preferem instalar-se ali pela tranquilidade.

A praça principal de Pedra Badejo está cortada ao trânsito. Começam as montagens do Festival 1 Concelho 3 Ritmos, com 16 anos de história, mas que ultimamente tem vindo a dar passos sérios na sua profissionalização. Este ano, é a primeira vez que o evento é organizado em parceria com a Harmonia, produtora, agência e editora fundada em França por José “Djô” da Silva, o agente e editor de Cesária Évora, que foi determinante para tornar a “diva dos pés descalços” numa artista de renome mundial, um fenómeno que também ajudou a catapultar toda a música cabo-verdiana. O objetivo foi dar dimensão ao evento, internacionalizá-lo, torná-lo uma atração cultural que ponha o nome de Santa Cruz no mapa.

“Creio que é o único festival temático que temos em todo o país”, conta, em declarações ao Observador, o presidente da câmara municipal, Carlos Silva. Acontece sempre no final de março para juntar os três ritmos, cada um com direito a um dia de programação, entre grupos locais e de dimensão internacional, a três aniversários simbólicos que acontecem quase em simultâneo: o do próprio município, o nascimento de Sema Lopi, uma das maiores referências do funaná original, que tem um centro cultural com o seu nome em Pedra Badejo; e a data da morte de Katchás, fundador dos Bulimundo, o principal impulsionador do género e autor de uma autêntica revolução musical.

O festival acontece sempre na praça com o seu nome, onde tem uma estátua em sua homenagem. Foi ali mesmo que Carlos Alberto Silva Martins, mais conhecido como Katchás, formou os Bulimundo, a partir da casa onde vivia e no prédio ao fundo da rua onde organizavam festas. Antes disso, Katchás, um homem de estudos, mudou-se do liceu na Cidade da Praia para Santarém, onde prosseguiu o percurso académico na área agrícola e onde já dava concertos no meio estudantil. Em 1972, para fugir ao exército e escapar à guerra colonial, foi para França trabalhar na construção civil, sem nunca deixar a música de lado. Voltaria à sua terra-natal após a revolução do 25 de Abril e a independência de Cabo Verde.

“Ele sempre soube aquilo que queria. Quando voltou, por ser uma pessoa culta e com estudos, toda a gente pensava que ia dedicar-se à morna. Mas não, ele queria o funaná”, explica uma das filhas, Carmen Martins, deputada do Parlamento cabo-verdiano, que tinha apenas seis anos quando o pai faleceu em 1988, vítima de um acidente de viação.

“Ele queria trazer dignidade ao funaná, àquilo que é tradicional, ao mais puro do nosso Santiago. Na altura era considerada uma música de quintal, não tinha dignidade para estar num palco, sobretudo num evento de grande dimensão. E na altura apercebeu-se de que era preciso levar esta riqueza aos ouvidos de todos, que era preciso fazer mais, que havia uma história para ser conhecida. E foi quando introduziu os instrumentos elétricos”, acrescenta a filha.

Foi esse o grande ponto de viragem na história do funaná. Outrora uma música rural tocada literalmente com ferramentas agrícolas, Katchás teve a visão de transpor aquele ritmo — e a melodia da gaita — para instrumentos globais como a guitarra, a bateria, o baixo, teclados e saxofones. Não só isso, mas os Bulimundo foram dos primeiros a gravar funaná em disco, quando em 1980 lançaram o álbum de estreia Djâm Branch Dja, gravado em Roterdão, nos Países Baixos, uma das cidades com uma maior diáspora cabo-verdiana, numa época em que não havia condições profissionais para gravar em Cabo Verde.

“Hoje o funaná está em todo o lado, mas na altura não foi nada fácil”, recorda o baterista Jorge Pimpa, que na época era adolescente e acabaria por tocar com Katchás. “Primeiro foi preciso ser aceite na capital, a Praia. Só depois chegou a nível nacional e, depois, internacional. Foi um trabalho muito duro, demorou até ser aculturado”, lembra.

“Obi noz múzika: batuku, tabanka, funaná/Oh nha ma, é kel-li k’é di-nos”, ouve-se na emblemática faixa homónima Bulimundo, que reforça o sentimento de pertença cultural após todo um historial de repressão e apagamento histórico. Tornou-se um hino para o “fim do mundo” que cantam e representam, as ilhas remotas a centenas de quilómetros do continente africano.

Até 1984, gravaram e lançaram seis discos, tornando-se imensamente populares e inspirando uma onda de novas bandas de funaná moderno, que tanto gravavam temas originais como canções populares que até então só circulavam na oralidade, nas zonas periféricas e rurais de Santiago. Também Codé di Dona, outra referência histórica do funaná tradicional, morou e fez vida ali mesmo, em Pedra Badejo.

“Hoje o funaná está em todo o lado, mas na altura não foi nada fácil”, recorda o baterista Jorge Pimpa, que na época era adolescente e acabaria por tocar com Katchás. “Primeiro foi preciso ser aceite na capital, a Praia. Só depois chegou a nível nacional e, depois, internacional. Foi um trabalho muito duro, demorou até ser aculturado”, lembra.

Por isso mesmo, Carmen Martins argumenta que o facto de o Festival 1 Concelho 3 Ritmos se realizar ali é de “uma simbologia que não tem tamanho”. “Acho que devíamos investir ao máximo aqui. Se ele estivesse vivo, acho que era o que ele iria defender.”

A importância de um festival dedicado às músicas tradicionais

Outra banda histórica de Cabo Verde e da ilha de Santiago são Os Tubarões. Originalmente fundados em 1967, tiveram diversas formações ao longo dos anos. Gravaram sete discos de originais entre 1976 e 1994, entre coladeiras dançáveis, funaná elétrico e mornas com arranjos mais complexos. A voz do saudoso Ildo Lobo cantou o pós-independência de Cabo Verde, da libertação política de Labanta Braço à emancipação feminina de Mãe D’Fidje, passando pela difícil emigração para Portugal retratada em Alto Cutelo.

Em 2015, o grupo voltou ao ativo com uma formação atualizada, incluindo o baterista Jorge Pimpa. O atual vocalista, Arlindo Cruz, haveria de se juntar pouco depois. Também eles estão em Santa Cruz para se apresentarem no festival. “É um grande motivo de orgulho, porque temos de preservar o que é nosso e não há outros festivais focados em homenagear os ritmos de Cabo Verde”, defende o cantor em declarações ao Observador, poucas horas antes de subir ao palco. “Devia-se apostar noutros festivais assim na Cidade da Praia e nas outras ilhas também.”

Embora não tenham canções novas, Os Tubarões têm atuado regularmente no estrangeiro, nos países com importantes comunidades cabo-verdianas, como Portugal, para honrar o legado. “As músicas são intemporais e falam muito dos temas da realidade de Cabo Verde: a emigração, a saudade, as festividades e o folclore, a resiliência das mulheres… Por isso é que também é importante aproximar as novas gerações deste tipo de músicas, para que não desapareçam e não haja só músicas comerciais nos festivais. Se querem manter a música tradicional viva, é imprescindível.”

Durante o concerto, são muitos os que estão junto do palco, jovens e menos jovens, de letras na ponta da língua, que mantêm vivo um cancioneiro que retrata particularmente a história e a vivência cabo-verdiana. A febre musical acentua-se ainda mais quando, horas mais tarde, é a vez dos conterrâneos Ferro Gaita fazerem a festa. Representam a geração seguinte do funaná, aqueles que apareceram na década de 90 a resgatar os instrumentos tradicionais e a torná-los protagonistas, num movimento revivalista, quando o funaná de instrumentos elétricos estava a normalizar-se e a perder fulgor. A música mais acelerada revela-se eficaz para uma multidão que agita e balança o corpo, num impulso tão natural para quem sempre cresceu com aqueles sons e ritmos.

A aposta no desenvolvimento do festival também se nota no recinto. Embora seja de acesso livre, as ruas são decoradas para acolher o 1 Concelho 3 Ritmos. Instalam-se tapetes de relva artificial sobre o betão das estradas, fitas decorativas a unir os prédios, as esplanadas preenchem as ruas, bancas de artesanato e de petiscos tradicionais (como as típicas espetadas grelhadas) surgem um pouco por toda a parte. Há uma onda de fumo que emerge dos grelhadores a misturar-se com as luzes da festa e a iluminação das ruas. De um edifício central são penduradas três tarjas, pintadas pelo artista urbano da terra, Hélder Cardoso, que aludem precisamente aos três ritmos. O ambiente é familiar e de festa popular, com famílias inteiras a jantar enquanto outros se aproximam do palco para ver as atuações. No total, estão entre quatro e cinco mil pessoas no evento.

“Antigamente só havia o palco. Mas desde o ano passado começámos a inovar com as decorações, com a venda de água de coco e outras coisas para atrairmos mais pessoas. Também crescemos a nível de segurança, da infraestrutura elétrica”, explica Galileu Tavares, responsável pela área da cultura na Câmara Municipal de Santa Cruz, ele que é rapper e foi agente de outros artistas, até há dois anos aceitar o convite para se juntar ao município.

“Os jovens hoje em dia têm mais queda para a música urbana, principalmente o rap. E se abdicarmos da nossa música popular vamos ter um problema daqui a uns anos, porque as crianças já não reconhecerão [estas músicas]”, acrescenta. “É normal que os privados façam festivais mais comerciais, mas as câmaras municipais têm um papel muito importante a cumprir. E tem havido resultados: o batuku está atualmente com uma nova dinâmica. Normalmente é tocado num terreiro, não costuma estar num palco como este, com esta visibilidade.” Este ano, o festival homenageia outra importante figura local, Nha Naci Gomi, cujo centenário se celebrou em 2025.

Embora haja dezenas de grupos de batuku ativos pela ilha de Santiago, há muito que o género começou a ser transposto para uma linguagem musical mais contemporânea, ganhando dimensão nos arranjos e misturando-se com outros elementos. Dois dos principais responsáveis por isso estão no cartaz desta edição do Festival 1 Concelho 3 Ritmos: Princezito e Tcheka.

“O propósito maior é resgatar, salvaguardar e divulgar aquilo que é nosso, da forma mais genuína possível. Somos um arquipélago com 10 ilhas, com 9 ilhas habitadas, e apenas 22 municípios. Somos bastante pequenos, mas se conseguirmos identificar em cada município ou em cada ilha uma identidade própria, poderíamos tornar Cabo Verde num país mais rico, ao promovermos essa diversidade cultural que existe."

Princezito participou nas primeiras conversas quando se discutia a fundação deste festival. Referência intelectual e musical de Cabo Verde, irmão do também artista e ex-Ministro da Cultura Mário Lúcio, tem procurado revitalizar e trazer visibilidade ao batuku, para que não fique esquecido nos lugares onde nasceu.

“Fui um dos primeiros cabo-verdianos a introduzir um grupo de batukadeiras num palco”, conta ao Observador. “Especializei-me em finason, que é uma vertente do batuku, e quando púnhamos um grupo no palco, as pessoas iam para as barracas tomar os seus petiscos. Agora, quando um grupo sobe ao palco, é o contrário: as pessoas vêm assistir e aplaudir. O batuku está no auge, a florescer, com milhões de visualizações”, diz, meia-dúzia de anos após Madonna ter feito a digressão do álbum Madame X, editado em 2019, com um grupo de batukadeiras que lhe foram apresentadas por Dino D’Santiago.

“Elas são a excelência da nossa cultura, o batuku é o ex-libris da cultura santiaguense e um festival bem organizado como este ajuda a dignificar o nosso folclore. É um património que deve ser compreendido, valorizado, aplaudido e replicado noutros sítios”, acredita. “Quando se convida as raízes para o palco, já é uma forma de as irrigar, de perpetuar a nossa cultura diversa e antiquíssima.”

Nascido em 1971, Princezito começou cedo a trilhar um percurso musical, ao inspirar-se por figuras locais como Nha Bibinha Cabral, uma das referências maiores do batuku tradicional. Ao longo da sua vasta carreira, acompanhou as profundas transformações no ecossistema musical cabo-verdiano, que ultrapassa as fronteiras do arquipélago uma vez que na diáspora, da Europa à América, existem pelo menos três vezes mais cabo-verdianos ou descendentes, muitas vezes com mais condições financeiras.

“A música em Cabo Verde tem um peso muito forte, está em tudo: desde o nosso nascimento até à nossa morte, está associada ao quotidiano. Tem uma importância muito grande a nível social e económico, já somos umas centenas de músicos cabo-verdianos profissionais”, lembra, sublinhando que esse diálogo constante com a diáspora foi determinante para o desenvolvimento do circuito artístico. “Esperávamos anualmente pelos emigrantes como as aves esperam pelo verão ou pelo inverno para migrar. Estávamos aqui sentados, de ouvidos abertos, à espera que viessem de férias porque traziam novos discos… Então consumimos cumbia, música cubana, jamaicana ou americana que chegava”, o que foi moldando os sons que se praticavam nas ilhas atlânticas ao longo das décadas.

“Tal como uma espécie endémica que se adapta às condições da insularidade, todas as nossas músicas vieram de fora e começaram a adaptar-se até se tornarem crioulas”, diz, aludindo ao facto de Cabo Verde ser um país fundado pelo colonialismo, pelo cruzamento de populações com outras origens, e de sempre ter sido marcado por influências externas. “Por isso é que tocamos uma morna e um português sente-se tocado, por isso é que tocamos um funaná e chama a atenção de um jamaicano, por isso é que tocamos uma coladeira e um brasileiro diz ‘espera lá…’ Quando chega outra vez lá fora, há ali alguma coisa de familiar.”

Quando começou a gravar música, entre o final dos anos 90 e o início dos 2000, só havia dois estúdios profissionais no país, um no Mindelo, na ilha de São Vicente, e outro na Cidade da Praia. “Agora tenho um estúdio na minha própria casa. Acompanhámos muito bem a evolução tecnológica. Mesmo nos palcos, de há 20 anos para cá que não sinto muita diferença ao tocar aqui ou lá fora. Também evoluímos muito a nível de imagem. Antes havia boas músicas mas os videoclipes não estavam ao nível, hoje em dia já vês um vídeo e ficas na dúvida: isto foi feito nos Estados Unidos, em Portugal, em França ou foi feito cá? Já não se nota muita diferença.”

Em palco, Princezito tem primado por misturar, na sua formação, instrumentistas de diferentes gerações da música cabo-verdiana. “Adoro fazer essa ponte entre gerações. Toco com o Jorge Pimpa e o Manuel d’Candinho, mas também toco com meninos que vi nascer, o Elias e o Ericles Santos. Existe essa transformação constante na música cabo-verdiana. Mas é verdade que a música de entretenimento, o espetro mais comercial, invadiu o espaço da música tradicional e popular, ainda que haja situações bonitas em que as duas colidem positivamente. A tabanka sobreviveu porque é forte, assim como o batuku. Mas nunca houve uma política pública voltada para estes géneros. Eles é que começaram a chamar a atenção, a coisa estava a florir, então houve políticos que foram atrás.”

Cantor e guitarrista com quase 30 anos de carreira, Tcheka é outro músico inventivo que tem usado os ritmos tradicionais para explorar uma música autoral e contemporânea, sobretudo ao transpor o ritmo do batuku para as cordas da sua guitarra. Em todo estes anos, conta ao Observador que é a primeira vez que toca “no interior de Santiago”, numa localidade periférica e mais rural longe dos principais centros urbanos e intelectuais.

“Esperávamos anualmente pelos emigrantes como as aves esperam pelo verão ou pelo inverno para migrar. Estávamos aqui sentados, de ouvidos abertos, à espera que viessem de férias porque traziam novos discos… Então consumimos cumbia, música cubana, jamaicana ou americana que chegava.”

“Estou muito contente por isso, porque faltam eventos adequados a certos tipos de música. O que faço não é tanto para massas, é menos comercial, então estes eventos são valiosos e era importante que acontecesse noutras ilhas e concelhos. Cabo Verde tem muita música, muita coisa bonita e só com este tipo de abertura é que podemos divulgar mais o que fazemos”, conta, ele que, a par dos trabalhos em nome próprio, tem atuado regularmente com o português Mário Laginha.

O presidente da câmara, Carlos Silva, sublinha que, se não fosse o festival, por esta altura “já ninguém se lembrava de fazer a tabanka” em Santa Cruz. O autarca encara o 1 Concelho 3 Ritmos como uma oportunidade de desenvolvimento no seu território, como um projeto que possa atrair um turismo cultural que tem vindo a crescer em Cabo Verde, complementando os mais tradicionais e instalados turismos de praia e de montanha.

“O propósito maior é resgatar, salvaguardar e divulgar aquilo que é nosso, da forma mais genuína possível. Somos um arquipélago com 10 ilhas, com 9 ilhas habitadas, e apenas 22 municípios. Somos bastante pequenos, mas se conseguirmos identificar em cada município ou em cada ilha uma identidade própria, poderíamos tornar Cabo Verde num país mais rico, ao promovermos essa diversidade cultural que existe. Mas ainda há pouca gente com esta sensibilidade cultural, temos de ampliar e mobilizar.”

Carlos Silva ambiciona fazer crescer o festival e integrar artistas internacionais no cartaz. O município também tem vindo a trabalhar para aumentar a oferta turística local. Estabeleceram uma parceria de concessão com um grupo empresarial, que irá abrir um hotel de quatro estrelas num edifício municipal que não está a ser utilizado, e têm vindo a negociar com os emigrantes que ali têm as suas casas de férias para que as disponibilizem ao turismo quando se encontram desocupadas. “Temos vindo a fazer esse trabalho com a diáspora e também queremos lançar um livro sobre este património cultural local. Este festival tem de ser o melhor do mundo.”

O Observador viajou a convite da Harmonia e da Câmara Municipal de Santa Cruz