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(A) :: Trump pestanejou, ou apenas adiou o ataque?

Trump pestanejou, ou apenas adiou o ataque?

Uma superpotência pode fazer pausas. O que não pode fazer, sem pagar um elevado preço, é parecer incapaz do passo seguinte. O Irão percebe-o. Os mercados percebem-no.

José António Rodrigues do Carmo
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Quando toda a gente esperava bombas, Trump resolveu oferecer tempo. Em vez do fogo, avançou com o prolongamento do cessar-fogo até Teerão apresentar uma proposta e até as conversas chegarem a alguma coisa palpável que tenha frases e parágrafos. Não levantou o bloqueio, não retirou a ameaça, não desmobilizou os instrumentos de coacção. Limitou-se, para já, a trocar a moca pelo garrote. É talvez uma maneira mais polida de apertar o pescoço, mas pouco mais do que isso.

A República Islâmica declarou vitória, enfim o que qualquer tirania com pergaminhos e pretensões faz nestas ocasiões.  Araghchi repetiu que o Irão não negocia sob ameaça, e outro responsável explicou que Teerão não aceita conversações conduzidas como rendição. Tudo previsível. Regimes destes vivem da fabricação contínua de aparências. Precisam de converter cada paragem alheia num triunfo próprio, nem que para isso tenham de se contorcer com a elasticidade facial que as ditaduras desenvolvem quando a realidade lhes é hostil.

Mas a propaganda é apenas a maquilhagem que a realidade usa quando tem vergonha de si. E a leitura estratégica séria raramente coincide com o teatro para consumo interno.

É muito provável que os EUA estejam simplesmente a tentar extrair concessões sem pagar o custo político, económico e militar de uma nova escalada. Se mantêm o bloqueio, conservam os meios militares prontos e avisam que a campanha pode recomeçar em breve, não estão propriamente a recuar. Estão a jogar poker para testar e engodar, vício antigo das superpotências.

É precisamente por isso que o regime, enquanto posa para a fotografia da resistência indómita, se apressa a denunciar a pressão e a insinuar armadilhas. Um conselheiro de Ghalibaf falou mesmo num possível ardil para preparar um ataque de surpresa.

Quem se sente seguro não vê ciladas em toda a parte. Quem fareja ciladas é, em regra, quem sabe que a sua posição é desconfortável.  A desafiadora exuberância verbal de Teerão não traduz portanto confiança, mas sim ansiedade.

Todavia, uma decisão racional em Washington, pode ser lida em Teerão de forma muito diferente. A pausa pode ser prudente vista do Potomac, mas também pode, aos olhos iranianos, parecer excessiva sensibilidade à dor económica. E esse é talvez o calcanhar de Aquiles da Administração Trump, o nervo mais vulnerável que a guerra expôs. O estrangulamento de Ormuz, o caos marítimo, a turbulência energética, a pressão sobre o crude, os alarmes nos mercados, compuseram a velha música que os políticos americanos mais temem ouvir quando se aproximam eleições.

No próprio dia em que Trump prolongou o cessar-fogo, forças iranianas voltaram a disparar sobre navios no Estreito e apreenderam embarcações. Teerão fez pois o favor de esclarecer o que pretende. Não apenas sobreviver, mas mostrar que continua a possuir a chave da perturbação.

Aqui a questão é mais séria. O Irão, acredite ou não que a América perdeu a vontade de combater, pode pensar, e com alguma razão, que os EUA receiam o preço de combater demasiado tempo. A diferença é subtil, mas decisiva. Uma coisa é duvidar da força do adversário; outra é confiar na sua fadiga.

Regimes como o iraniano, habituados à longa arte da chantagem, têm um faro apuradíssimo para hesitações. Farejam-nas à distância. Identificam-nas, cultivam-nas, exploram-nas. Se a Guarda Revolucionária concluir que Trump quer, acima de tudo, evitar novo choque nos combustíveis, nova pressão inflacionista,  novo desgaste interno, a tentação será endurecer posições, arrastar negociações, comprar tempo, vender fumo, e trocar a demora pela sobrevivência, porque o tempo político não corre a favor da Casa Branca. Se isso acontecer, a pausa deixa de ser um instrumento de pressão para passar a ser oxigénio administrado gratuitamente ao paciente. Uma pausa com contrapartidas visíveis pode ser inteligência estratégica. Sem resultados é apenas hesitação onerosa. E esta é, na política americana, material altamente tóxico. Corrói presidências, desmoraliza aliados, excita inimigos e produz a fatal impressão de que a força existe mas a vontade vacila.

Trump move-se, assim, entre uma vantagem táctica imediata e um risco político monumental. A vantagem é que evita, para já, uma nova vaga de bombardeamentos, preserva margem diplomática e mantém formalmente a iniciativa. O risco é parecer refém das circunstâncias. A sua actuação recente ajudou pouco a dissipar a dúvida. Primeiro anunciou que não queria prolongar o cessar-fogo; depois prolongou-o até à apresentação de uma proposta iraniana e à conclusão das conversas. Os fãs chamarão genial a esta imprevisibilidade. Os menos impressionáveis chamar-lhe-ão improviso e errância táctica.

Daí também que, entre os falcões e vários militares, cresça o argumento de que a diplomacia já rendeu o que podia render, isto é, pouco ou nada. Não faltam vozes a defender que Washington deve abandonar a fantasia de mais uma ronda de conversa civilizada com um regime que aproveita cada trégua para respirar, recompor-se e retomar a chantagem em melhores condições. A tese, reduzida ao essencial, é que a liderança iraniana está muito danificada, a cadeia de comando apresenta fracturas, a economia está debilitada, a sociedade vive sob grande tensão, logo este não é o momento de afrouxar a pressão, mas de a agravar até o regime ceder.

Do ponto de vista militar, o raciocínio é límpido. Se o adversário vacila, a pior opção é oferecer-lhe tempo para se recompor. A guerra tem uma lógica própria, que raramente recomenda pausas piedosas quando o outro lado cambaleia. Convém não sobrestimar o regime iraniano em nome da prudência. O país está com fragilidades militares, económicas e sociais severas. A guerra agrava uma situação já deteriorada, empurrando mais gente para a pobreza, aprofundando o desemprego e aproximando uma crise de sustentação. Antes desta fase já havia protestos nacionais contra a degradação económica e social, e a resposta do regime foi a resposta típica das tiranias que se agarram à vida: repressão brutal, mortos, prisões, silêncio imposto a tiro. Neste momento o regime está armado, mas não está tranquilo. Está de pé, mas menos firme do que estava. E é por isso que cada trégua lhe sabe a remédio.

A experiência americana está repleta de campanhas em que a política quis administrar a guerra em prestações, como quem compra um electrodoméstico caro, e acabou apenas por prolongar o custo sem resolver o problema. Guerras de para, arranca e recomeça, preferidas pelas democracias fatigadas, que desejam colher os benefícios da força sem pagar o preço da decisão, tendem a deixar mais ruína do que clareza.

Penso que, militarmente, o Irão fará mal em confundir pausa com impotência americana. Politicamente, Trump fará pior, se prolongar indefinidamente uma suspensão que não produza nada de tangível. Se arrancar concessões concretas, venderá esta manobra como disciplina, contenção e força. Se não conseguir nada, ficará com o pior dos mundos: uma guerra sem decisão e uma diplomacia sem frutos. E se isso acontecer, a propaganda iraniana deixará de ser mera encenação para começar a assemelhar-se a uma descrição plausível dos factos.

Uma superpotência pode fazer pausas. O que não pode fazer, sem pagar um elevado preço, é parecer incapaz do passo seguinte. O Irão percebe-o. Os mercados percebem-no. Os eleitores americanos também. Resta saber se Trump, no meio das suas coreografias de força e hesitação, ainda percebe a diferença entre suspender o golpe e perder a mão.