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O desemprego que não se vê

A inteligência artificial não substitui pessoas, absorve tarefas. As tarefas administrativas e repetitivas que ocupavam os primeiros anos de um licenciado passam para os agentes.

João A. B. Da Silva
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Anteontem celebrou-se o 25 de Abril. A geração que fez a revolução voltou a celebrar as conquistas de que foi simultaneamente protagonista e beneficiária, enquanto os que vieram a seguir fazem contas à dívida que não contraíram, às pensões indexadas a uma demografia que deixou de existir, ao mercado de trabalho que não os absorve. É um padrão que se repete com uma consistência que já devia envergonhar: primeiro criticamos quem veio antes por ter deixado os problemas por resolver, depois herdamos os activos que esses problemas criaram, depois defendemo-los. Já não são os nossos pais. Somos nós. O que se segue é sobre o próximo episódio desse padrão, o que ainda não é visível nas estatísticas, e por isso ainda dá tempo de discutir.

Estamos habituados a discutir habitação, e com razão. Mas enquanto olhávamos fixamente para os preços das casas, outra coisa acontecia, silenciosamente, no mercado onde os mais novos se supõe que comecem a vida activa. Em Londres, a taxa de desemprego jovem entre os 16 e os 24 anos passou de 9,4% em 2024, o valor mais baixo em mais de duas décadas, para 24,6% em Março de 2026 (Office for National Statistics, Labour Market Statistics, Abril de 2026). Em dois anos. Sem recessão, sem crise financeira, sem pandemia. A linha de Londres sobe na vertical. O resto do Reino Unido não acompanha. A cidade financeira por excelência está agora em níveis de desemprego jovem da Grande Recessão.

Dir-se-á que há causas concorrentes: a subida do National Insurance, a retracção pós-Brexit, o fim do regime fiscal para estrangeiros domiciliados. Todas verdadeiras, todas insuficientes. O National Insurance incide sobre todas as regiões e todos os salários: não explica que o salto seja específico de Londres nem que se concentre nos 16 aos 24 anos. O fim do regime non-dom esvaziou o topo do mercado, não a base. A retracção financeira pós-Brexit é anterior a 2024. O que mudou em 2024 não foi o enquadramento macroeconómico. Foi o custo marginal de não contratar um júnior, que caiu para quase zero.

Bastiat dizia, há quase dois séculos, que o mau economista vê apenas o efeito visível, enquanto o bom economista vê também aquilo que não está lá. O que não está lá são os empregos que deixaram de existir antes de chegarem a ser oferecidos. Não há despedimento colectivo, não há manchete, não há estatística que o registe. Há apenas a decisão silenciosa de milhares de empresários espalhados pelos sectores terciários de Londres, Frankfurt, Paris e Madrid, que no ano passado simplesmente não abriram a vaga que há três anos teriam aberto. Agentes de inteligência artificial fazem hoje a esmagadora maioria das tarefas que eram dadas a juniores: compilar dados, preparar memorandos, construir modelos financeiros, redigir primeiras versões de documentos, a uma velocidade e a um custo que nenhum recém-licenciado pode igualar.

A inteligência artificial não substitui pessoas, absorve tarefas. As tarefas administrativas e repetitivas que ocupavam os primeiros anos de um licenciado passam para os agentes. As tarefas de decisão ganham valor relativo. E o que resta é reagrupado em funções mais amplas e mais raras. Em vez de três recém-licenciados a compilar, modelar e rever, fica um gestor de projectos mais experiente, que orquestra agentes e valida o resultado. É um bom emprego, mas para quem já sabe o que está a validar. O sénior ganha valor porque a experiência, alavancada por agentes, rende múltiplos do que rendia. O júnior perde o ponto de entrada porque as tarefas através das quais se aprendia a decidir deixaram de ser feitas por ele. Os dados do LinkedIn Economic Graph (Future of Work, 2025) confirmam o padrão: nos serviços profissionais mais expostos à automação cognitiva, as ofertas para posições de entrada caíram entre 15% e 23% entre 2023 e 2025, com a desaceleração concentrada nos 22 aos 26 anos. Não há manchete. Há apenas vagas que deixaram de ser abertas.

Londres é o canário na mina porque concentra como nenhuma outra cidade europeia a exposição simultânea aos dois choques: uma economia dominada pelo sector terciário, onde as tarefas juniores são precisamente as mais automatizáveis, e um mercado de trabalho flexível o suficiente para que a não-contratação se traduza rapidamente em desemprego oficial. Em praças europeias com maior rigidez laboral, como Frankfurt ou Milão, o mesmo choque manifesta-se por desaceleração das contratações, não por subida da taxa oficial: as empresas não abrem vagas, e a estatística não regista o que não aconteceu. É precisamente por isso que Londres é o sítio onde o fenómeno primeiro se torna visível. O que lá se vê em dois anos, noutros mercados chegará mais tarde. E convém olhar para Portugal com menos autocongratulação.

Oficialmente as notícias são boas: o desemprego jovem fechou 2025 nos 19,8% e caiu para 18,2% em Janeiro de 2026, o valor mais baixo desde 2022 (INE, Inquérito ao Emprego, Fevereiro de 2026). Mas 18% é quase o dobro da média da OCDE e o triplo do que a Alemanha ou os Países Baixos consideram tolerável. Em Portugal, habituámo-nos a chamar estrutural àquilo que noutros países seria chamado escândalo. A diferença entre Londres e Lisboa não está no nível, está na trajectória. Londres vem de um mínimo histórico e deteriorou-se em dois anos. Lisboa nunca saiu do patamar: produtividade baixa, microempresas incapazes de absorver licenciados, e um código do trabalho cujos custos de despedimento tornam a contratação de um primeiro emprego suficientemente arriscada para que a decisão racional seja não contratar. A protecção laboral vendida há cinco décadas como conquista transformou-se no mecanismo principal de exclusão dos que nasceram a seguir. Quando o choque da IA chega a um mercado assim desenhado, os que ainda não entraram pagam em dobro: uma vez pelo mercado, outra vez pela lei que assegura que, aqui, os últimos não serão os primeiros.

A resposta do Estado foi mais Estado. O problema não é o Estado preocupar-se com o emprego jovem, é a forma como intervém. O Governo lançou a medida Emprego +Talento, que subsidia a contratação de licenciados com até 9.668 euros por trabalhador. O IRS Jovem isenta praticamente de imposto os primeiros anos de vida activa. Pacto para Mais e Melhores Empregos comprometeu cinco dezenas de grandes empresas a aumentar em 10% as contratações de jovens até 2026. Na Democracia na América, Tocqueville já tinha identificado o padrão: a democracia desenvolvida tende a produzir um Estado tutelar que substitui a iniciativa individual por protecção administrativa, não por má-fé, mas porque é exactamente isso que os eleitores pedem quando se sentem ameaçados. O Emprego +Talento é o Estado tutelar de Tocqueville em versão portuguesa: transfere rendimento de quem produz para quem é contratado por razões fiscais em vez de produtivas, e apresenta o adiamento do problema como solução. No fim, o que se contrata é a aparência de emprego, paga pelos impostos de quem ainda trabalha, e quando o subsídio acaba o posto desaparece com ele.

Os empregos que a IA cria têm destinatários específicos: profissionais com experiência, senioridade, capital relacional. Quase nunca são recém-licenciados. Continuamos a formar mais gente do que nunca, e cada vez mais com mestrados em áreas onde o mestrado é dispensável, como se o prolongamento da formação compensasse o encolhimento da entrada no mercado. A nossa democracia envelheceu, e democracia envelhecida redistribui rendimento de quem trabalha para quem vota, e quem vota em massa são os que já acumularam pensões, casa própria e um sistema fiscal desenhado à medida de quem chegou primeiro. Quando o choque da IA começar a ser visível nas estatísticas portuguesas, e começará, a resposta política será previsível: mais subsídios, mais pactos, mais isenções. Será a resposta errada, mas será a resposta eleitoralmente racional.

Celebrou-se ontem uma revolução feita em nome do futuro, e meio século depois o sistema construído a partir dela tem como função principal proteger o que foi conquistado, pelas pessoas que o conquistaram, contra o tempo que insiste em avançar. As pensões estão indexadas a uma demografia que deixou de existir. O código do trabalho protege quem já entrou contra quem ainda está de fora. A arquitectura fiscal transfere rendimento dos que produzem para os que votam. E agora a inteligência artificial fecha a última porta: não despede ninguém, não declara nada, não deixa rasto. Simplesmente não abre a vaga. Uma revolução feita em nome do futuro acabou por construir, por lógica própria, um sistema cuja principal vocação é adiar o futuro daqueles em nome de quem a revolução dizia ter sido feita.