Há sinais que nenhum relatório macroeconómico captura mas que dizem mais sobre o estado de um lugar do que qualquer índice de confiança. Esta semana, voltei a ouvir buzinas.
Depois de quase dois meses em que as estradas do Dubai pareciam um domingo de madrugada – trânsito fluido, poucas filas, uma cidade contida – o caos civilizado de sempre regressou. Os cruzamentos no centro voltaram a encravar às oito da manhã. As autoestradas principais recuperaram a sua vocação para o impasse ritual das horas de ponta, com aquela densidade de tráfego que faz lembrar a Segunda Circular em dia de jogo do Benfica, mas a cem à hora e com seis faixas. Os táxis voltaram a cortar a faixa. O metro vai cheio. Nas paragens de autocarro, há de novo gente a esperar.
É estranho descrever o trânsito como boa notícia. Mas quem viveu os últimos meses aqui sabe exactamente o que quer dizer.
Desde que os ataques iranianos começaram a 28 de Fevereiro, os Emirados entraram num modo que nunca tinha visto neste país: escolas fechadas, autocarros escolares suspensos, eventos cancelados, atrações encerradas. Mais de um milhão de alunos passaram cerca de cinquenta dias em ensino à distância – não por uma pandemia, mas por mísseis. A cidade funcionou, mas em surdina.
A 20 de Abril, isso mudou. As escolas reabriram. E quem percebe a dimensão real do que significa ter escolas abertas no Dubai – um país onde vivem famílias de mais de duzentas nacionalidades, onde o sistema de ensino privado é uma indústria enorme, onde os alunos chegam de madrugada de zonas residenciais distantes em autocarros amarelos, como quem vem do Barreiro ou de Almada para Lisboa mas em versão amplificada – percebe que o regresso às aulas não é apenas logístico. É um sinal de Estado. É o governo a dizer: podemos voltar.
Os autocarros escolares foram dos primeiros sinais visíveis. Apareceram de manhã cedo, nas rotundas, nos bairros residenciais, nos eixos viários. Não há nada mais Dubai do que ver uma fila de autocarros escolares amarelos em contracorrente numa autoestrada. Quando deixaram de aparecer em Março, a cidade ficou com uma ausência que não sabíamos nomear. Quando voltaram, era impossível não notar.
No mesmo dia, abriu o Global Village. Para quem não conhece: imagine a Feira Popular de Lisboa multiplicada por vinte, aberta ao céu quente da noite árabe, com trinta pavilhões de mais de noventa países onde cada cultura apresenta gastronomia, artesanato e espectáculos. Na última temporada recebeu dez milhões e meio de visitantes. Tinha fechado a 28 de Fevereiro. Reabriu a 20 de Abril. E havia gente. Muita gente.
Não existe nenhum índice formal que meça o que aconteceu esta semana no Dubai. Mas há métricas que qualquer pessoa que viva aqui lê de imediato: o nível de barulho nas estradas, o cheiro a gases de escape nas paragens de metro, a cor amarela dos autocarros escolares, as filas para entrar no Global Village.
O Dubai voltou. Não ao que era – dificilmente será exactamente igual. Mas voltou a ser reconhecível. E por agora, isso chega.