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Psicanálise, precisa-se

Poder falar e pensar abertamente sem a égide do julgamento e ter de dar respostas rápidas ajuda na consolidação identitária.

Ana Eduardo Ribeiro
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Não é por ser psicanalista que escolho este título. É pela dimensão de espectadora num mundo que parece estar de pernas para o ar, a enlouquecer. Estes tempos estão em ebulição e a loucura não se assemelha aos loucos anos 20 de um pós-guerra vibrante mas algo de totalmente surpreendentemente e inexpectável que nos deixa absortos e confusos.

Noutra crónica antiga escrita aqui sobre que arte possuem as guerras, já falava da clivagem que divide os bons/nós e maus/outros. Os outros devem ser o alvo a abater, fruto de pulsões destruidoras que em simultâneo servem para preservar o que é idealizado e perfeito deste lado face ao maléfico dos outros.

No mundo actual assistimos às clivagens das guerras neste desnorte de um vale tudo para imperar o domínio de uns sobre outros. Assistimos a uma sofisticada tecnologia que ajuda a que estas guerras se cumpram com um mero carregar no botão tal jogo de consolas. E o imediatismo explosivo configura-se num estado caótico a tal velocidade que assistimos a este desenrolar sem tempo de acomodar a percepção da realidade em constante movimento. Age-se abruptamente sem pensar. A patologia do agir ataca qualquer pensamento. As dinâmicas inconscientes que sustentam o ódio no caso das guerras, assentes nas projecções de medos e frustrações de uns colocadas na malevolência do inimigo, legitima todo o tipo de violência.

Tudo rápido a acontecer. As guerras, a tecnologia desenvolvida, a informação veiculada e partilhada que por vezes deixa dúvidas do que é verdade e do que é fake.

A sobreposição de informação e inúmeros estímulos é outro elemento deste mundo moderno que acompanha o crescimento de uma geração neste contexto. Onde vão estas mentes em desenvolvimento buscar referências para a construção da sua identidade? Mais um constituinte para indagar a necessidade do olhar da psicanálise. As instâncias psíquicas formam-se neste dinamismo mais rápido que o pensamento e como tal, fazer por parar para pensar no divã seria justamente um ganho.

Quem sou, quem somos nós, como nos relacionamos, do que gostamos, o que desejamos, o que receamos, quais são as nossas motivações, são todas questões que já não são lineares e são desafiadas pelo ritmo alucinante de um mundo em contínua mudança, com paradigmas contrastantes. Poder usufruir de um espaço de autoconhecimento, considerando a nossa história pessoal e relacional, só pode ajudar a manter uma estrutura mental que seja forte para manter a fronteira e prevenir a inundação de um caos que muitas vezes acontece à volta. Poder falar e pensar abertamente sem a égide do julgamento e ter de dar respostas rápidas, ajuda nessa consolidação identitária. Ter tempo para parar para apensar,  ajuda a estabelecer uma consistência interna, que mesmo que permeável ao exterior, não se tolda pela dominância da informação das redes por exemplo. Poder aprofundar num espaço que respeita o momento de pausa, o silêncio que permite ouvir,  leva -nos a compreender o  que está por trás do visível e dizível. Permite-nos manter um juízo crítico que defende os valores do que é próprio do ser humano. Permite-nos não repetir padrões tóxicos, compreender os  fenómenos inconscientes, conflitos internos e relacionais,  e sabendo que a história por si já é cíclica, ter um olhar compreensivo da mesma e fazer da vida individual algo mais ético.

Por tudo isto e mais, a psicanálise precisa-se. Parar, sentir, pensar, ousar, depois agir.