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Sim, sou pró-Israel

Não haja dúvidas, Israel é, de certo modo, um pretexto. Para a Europa, a grande ameaça às nossas democracias é a coligação entre os islamistas radicais e as extremas esquerdas

João Marques de Almeida
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Há três razões que explicam a minha posição a favor de Israel. A primeira resulta, obviamente, do Holocausto. Desde os meus tempos de universidade, o Holocausto foi o acontecimento que mais me impressionou na história do século XX (e foi um século com uma história impressionantes). Li muitos livros e vi muitos filmes sobre o Holocausto. Retirei duas conclusões. Uma, apesar da política nazi sistemática para acabar com os judeus, a Alemanha recebeu a colaboração de vários outros países europeus. O Holocausto teve uma dimensão pan-europeia. A segunda conclusão não me deixa qualquer dúvida. O estado de Israel foi o resultado dos judeus não conseguirem viver em segurança na Europa a partir de 1939. Se hoje muitos no Médio Oriente não aceitam a existência do estado de Israel, parte da responsabilidade é da Europa. Foi o Holocausto que expulsou os judeus da Europa para o Médio Oriente.

A segunda razão do meu apoio a Israel resulta do meu estudo da história de Israel e do Médio Oriente desde 1948. Se hoje não existe um estado da Palestina, a responsabilidade é inteiramente dos palestinianos e de países árabes. Em 1948, uma Resolução das Nações Unidas criou os estados de Israel e da Palestina. Os israelitas aceitaram, mas os palestinianos atacaram militarmente os judeus, não aceitando o estado de Israel. Quando a chamada guerra da independência de Israel terminou, em 1949, os territórios da Palestina ficaram sob a soberania do Egipto (Gaza) e da Jordânia (Cisjordânia). Por que razão o Egipto e a Jordânia não criaram então o estado da Palestina em 1949? Por uma razão muito simples: teriam que reconhecer o estado de Israel e recusaram fazê-lo em 1949. Em vez do estado da Palestina, o Egipto e a Jordânia anexaram, respectivamente, Gaza e a Cisjordânia. Em 1967, o Egipto, a Jordânia, a Síria e o Iraque atacaram Israel. Perderam a guerra e foi então que se iniciou a ocupação israelita dos territórios palestinianos.

O processo de Oslo, que levou à criação da Autoridade Palestiniana, foi a terceira oportunidade para se criar o estado da Palestina. Fracassou sobretudo por causa do Hamas e do Irão. O Hamas começou a dominar Gaza durante a primeira Intifada, em 2000. O maior apoio externo do Hamas foi, desde o início, o Irão. O regime islâmico iraniano nunca aceitou o estado de Israel, até hoje, e considera que essa posição reforça a sua legitimidade política (interna no mundo muçulmano). Tal como o seu financiador e patrono militar, o Hamas também nunca reconheceu o estado de Israel (até hoje). Depois do fim da guerra contra o Iraque, o principal objectivo estratégico do Irão, desde a década de 1990 até hoje, foi impedir a solução dos dois estados.

Além das duas razões históricas, a terceira razão do mau apoio a Israel tem uma dimensão ideológica. O radicalismo islâmico, na sua versão xiita (o Irão) ou na sua versão sunita (Irmandade Muçulmana e Al Qaeda), constitui uma das maiores ameaças à segurança europeia (apesar dos conflitos entre os radicalismos xiita e sunita, são aliados contra o Ocidente). A ameaça à segurança dos países europeus, transformou-se num desafio ideológico aos valores ocidentais quando as extremas-esquerdas se uniram ao radicalismo islâmico (xiita e sunita). A democracia israelita constitui a primeira frente na luta civilizacional contra a aliança dos totalitarismos do século XXI, o radicalismo islâmico e as extremas esquerdas. Tal como, em grande medida, esta coligação totalitária combate Israel porque é o símbolo dos valores ocidentais no Médio Oriente. A luta contra Israel é a continuação do combate à democracia liberal e à economia de mercado na Europa e nos Estados Unidos.

Como pró-israelita, preocupo-me muito com o crescimento do radicalismo religioso em Israel. Constitui neste momento a principal ameaça à democracia israelita. O expansionismo violento na Cisjordânia, com o patrocínio do governo israelita, é inaceitável e afecta a legitimidade de Israel. As ameaças de Netanyahu ao estado de direito também são muito preocupantes. Sei, igualmente, que muitas críticas a Israel, em Portugal e na Europa, resultam das imagens quase diárias do uso da violência israelita em Gaza. Muitas dessas imagens são manipuladas e falsas, mas o uso da violência por parte de Israel é, muitas vezes, chocante. No entanto, é fácil criticar Israel no sossego dos lares europeus. Ninguém sabe como reagiriam os governos europeus se enfrentassem ataques terroristas por parte de um vizinho.

Não haja dúvidas, Israel é, de certo modo, um pretexto. Para a Europa, a grande ameaça às nossas democracias é a coligação entre os islamistas radicais e as extremas esquerdas. É esta coligação que combate os nossos valores e o modo de vida ocidental.