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"Qualquer pessoa podia entrar no hotel com armas." As falhas do Serviço Secreto no ataque a Trump

Atirador diz que incompetência das autoridades no hotel era “absurda”: hóspedes circulavam livremente e agentes não detetaram riscos. Serviço Secreto volta a ser criticado, mas Trump elogia agência.

José Carlos Duarte
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O Hilton em Washington esteve com um acesso muito condicionado na tarde deste sábado a partir das 14h00. O emblemático hotel na capital norte-americana preparava-se para receber o Jantar dos Correspondentes, onde estariam os principais membros da administração Trump, jornalistas e outras figuras públicas. Só podiam entrar no edifício convidados, os organizadores e pessoas devidamente acreditadas. Para acederem ao salão de baile, era necessário passar por um detetor de metais. Este dispositivo de segurança foi montado pelo Serviço Secreto, mas houve um detalhe crucial que escapou: os hóspedes do hotel podiam circular livremente por praticamente todas as áreas do Hilton.

Há mais de 45 anos, o mesmo hotel já tinha sido palco de um atentado presidencial. A 30 de março de 1981, após um encontro com dirigentes sindicais, o então Presidente Ronald Reagan foi baleado à saída do Hilton e ficou gravemente ferido. O local recebe frequentemente eventos com chefes de Estado, beneficiando de estar localizado perto da Casa Branca — a apenas dois quilómetros. E o salão de baile, no piso inferior, é palco habitual do anual Jantar dos Correspondentes, onde costumam estar presentes os chefes de Estado. Com exceção de Donald Trump, que apenas foi ao deste ano.

O local era, por isso, bem conhecido das autoridades. Ainda assim, o esquema de segurança montado no sábado deixou escapar um pormenor de que o atirador se aproveitou. Como o próprio admitiu, Cole Tomas Allen fez check-in no Hilton Washington um dia antes do Jantar dos Correspondentes. Ao estar hospedado no hotel, pôde vigiar todos os movimentos, circular no átrio e preparar-se para o atentado, que acabou por ser travado por agentes do Serviço Secreto na zona onde estavam instalados detetores de metais.

Ao fim do dia, o jornal norte-americano Washington Post revelou que a Administração Trump atribuiu um nível mais baixo de segurança ao Jantar dos Correspondentes do que o habitualmente dado a eventos que juntem detentores de altos cargos do governo. Nestas situações, o habitual é que o Serviço Secreto coordene toda a segurança do evento, que passa a ser designado como “Evento de Segurança Especial Nacional”. Não foi o caso.

Em relação à segurança de Donald Trump, o Serviço Secreto já tinha falhado no passado. Em julho de 2024, o Presidente foi alvo de uma tentativa de assassínio num comício em Butler, no estado da Pensilvânia, e por pouco não foi morto, tendo ficado ferido na orelha. O caso levou à demissão de Kimberly Cheatle, diretora da agência federal responsável pela proteção de líderes políticos e candidatos. Mais do que isso, o próprio Serviço Secreto acabou por reconhecer que houve falhas graves na forma como conduziu essa operação.

Durante a campanha para as eleições presidenciais de 2024, já tinha havido outra tentativa de assassínio contra Donald Trump, quando o republicano jogava golfe na Florida em setembro. Menos de dois anos depois, a vida do chefe de Estado podia ter estado em risco — e a atuação do Serviço Secreto volta a ser colocada em causa e escrutinada. A Comissão de Supervisão da Câmara dos Representantes já solicitou uma reunião com a agência, avançou este domingo a CNN Internacional.

Contudo, Donald Trump deixou elogios à atuação do Serviço Secreto. “Fizeram um trabalho fantástico. Agiram rápida e corajosamente”, afirmou numa publicação na rede social Truth Social. O Presidente norte-americano frisou que a profissão que desempenha é “perigosa”: “Ninguém me disse que era uma profissão perigosa. Se o Marco [Rubio, secretário de Estado] me tivesse dito, eu não me teria candidatado. Talvez tivesse dito que passava”.

A falha na segurança e a falta de controlo no hotel Hilton

São 1.107 quartos e 47 salas de reunião. O Hotel Hilton em Washington D.C. é um dos maiores na capital norte-americana e ali ocorrem eventos praticamente todos os dias. No site oficial, lê-se que o “histórico hotel já acolheu dignitários, figuras notáveis e eventos prestigiados”: “Nós já acolhemos consecutivos Presidentes no icónico salão de baile de meio do século”.

Milhares de pessoas circularam, assim, pelo hotel este sábado. Na rede social X, a jornalista da CBS News, Jennifer Jacobs, explicou que o tiroteio ocorreu “noutro piso” daquele em que decorria o jantar. “Como o Washington Hilton e outros espaços públicos estavam abertos para outros eventos, o Serviço Secreto não garantiu a segurança de todo o edifício, apenas das áreas específicas onde o jantar foi realizado”, assinalou.

Por sua vez, a jornalista da NewsNation, Katie Pavlich, escreveu que não existiam “pontos de controlo” na entrada principal do hotel, por onde entravam os hóspedes: a circulação era totalmente livre. O detetor de metais estava localizado apenas no piso “acima do salão de baile”, que dava acesso às escadas para chegar àquele espaço. “Agradeço a resposta rápida, mas o facto de qualquer pessoa ter conseguido chegar tão longe no edifício foi um problema grave”, apontou.

https://twitter.com/LydiaMoynihan/status/2048218490847330475

Na mesma linha, outra jornalista — Lydia Moynihan, que trabalha no New York Post — lembrou que os “hóspedes do hotel no Hilton nunca foram controlados”. “Qualquer pessoa podia ter feito check-in mais cedo na semana com as malas cheias de armas”. E não ficou longe da verdade: Cole Tomas Allen conseguiu entrar no Hilton Washington com várias armas e facas na sua posse.

Ao New York Post, Helen Mabus, uma voluntária que trabalhava no Jantar dos Correspondentes, contou que viu o atirador a montar uma arma “longa” numa divisão perto do salão de baile que não estava a ser vigiada pelo Serviço Secreto. “Ele estava nessa divisão… Tirou as peças da arma de uma mochila. Mas não parecia uma arma. Montou‑a e correu pelas escadas para chegar ao salão de baile”, relatou.

Já o jornalista do New York Times Tyler Page notou uma incongruência na segurança: “Havia uma forte presença policial no exterior do Hilton, mas não era necessário passar por qualquer controlo de segurança para entrar no hotel. Havia várias festas em diferentes andares, bem como uma passadeira vermelha. Contudo, para chegar ao salão de baile onde o jantar estava a decorrer, todos os convidados tinham de passar por detetores de metais e tinham as malas revistadas. Os agentes do TSA [a agência responsável pela segurança nos aeroportos] estavam envolvidos neste processo”.

"Havia uma forte presença policial no exterior do Hilton, mas não era necessário passar por qualquer controlo de segurança para entrar no hotel."
Jornalista do New York Times no evento, Tyler Page

No manifesto que escreveu antes do ataque, o atirador refletiu precisamente sobre o assunto e ridicularizou a falta de segurança no Hilton, notando que estava concentrada no exterior do edifício e apenas focada nas chegadas ao hotel. “Aparentemente, ninguém pensou no que acontece quando alguém faz o check in no dia anterior”, notou, recordando a “sensação de arrogância” que sentiu “assim que entrou no hotel”.

O “nível de incompetência” era “absurdo”, acusou Cole Tomas Allen, acrescentando: “Esperava câmaras de segurança em cada esquina, quartos de hotel com escutas, agentes armados a cada três metros, imensos detetores de metais. O que vi foi nada”. “Muito sinceramente eu espero que isto já tenha sido corrigido quando este país conseguir um líder competente novamente”, atirou.

Alguns políticos já se indignaram com esta falha de segurança. O congressista democrata Ritchie Torres questionou como é que não havia qualquer controlo num hotel onde iam estar o Presidente dos Estados Unidos, o vice‑presidente, o presidente da Câmara dos Representantes — que são a linha de sucessão do poder executivo norte‑americano —, secretários e congressistas. “O falhanço dos protocolos mais básicos de segurança — que é tão inexplicável como indesculpável — obriga à abertura imediata de uma investigação.”

https://twitter.com/RitchieTorres/status/2048219155250200739

Em sentido inverso, em declarações à BBC, Barry Donadio, um antigo agente do Serviço Secreto que já trabalhou em missões no Hilton, ressalvou que o “hotel é tremendamente grande” e não notou que tivesse havido “falta de agentes e polícia” no evento: “Eles provavelmente tinham mais [agentes] do que suficiente e foi por isso que o pararam”.

O atirador disparou várias vezes, mas acabou por ser travado assim que chegou à zona onde estavam instalados os detetores de metais. Os agentes do Serviço Secreto conseguiram pará‑lo, mas Cole Tomas Allen ainda alvejou um dos seus membros, que apenas sofreu alguns hematomas, graças ao colete antibalas que usava.

No salão de baile, instalou-se o pânico, ainda que a reação tivesse variado — alguns reagiram imediatamente e colocaram-se debaixo da mesa; outros estavam a tentar entender o que se passou, como o Presidente norte-americano. “Ouvi um barulho e pensei que fosse uma bandeja a cair várias vezes. Havia uma arma e algumas pessoas entenderam isso rapidamente. Outras pessoas não. Eu estava a ver o que se passava, provavelmente dever-me-ia ter baixado um pouco mais rápido”, narrou Donald Trump durante a conferência de imprensa após o acidente.

https://observador.pt/2026/04/26/estava-disposto-a-eliminar-todos-para-atingir-alvos-da-administracao-trump-o-manifesto-do-autointitulado-assassino-federal-amigavel/

Donald Trump saiu mais tarde do salão de baile. Porém, como mostram os vídeos do momento, o vice-presidente norte-americano foi encaminhado pelos agentes do Serviço Secreto alguns segundos mais cedo do que chefe de Estado. A agência ainda não esclareceu o motivo pelo qual retirou JD Vance saiu primeiro da divisão.

Serviço Secreto: as falhas no financiamento e o shutdown no Congresso

O Presidente norte-americano não criticou o Serviço Secreto. “Não imagino trabalho mais perigoso”, disse Donald Trump. O Presidente norte-americano preferiu justificar o que aconteceu com o facto de ser uma pessoa “marcante”: “Estudei assassinatos. E devo dizer que as pessoas mais marcantes, as que mais fazem — como Abraham Lincoln — são exatamente aquelas atrás de quem eles vão.”

Este domingo, numa entrevista à Fox News, o chefe de Estado voltou a elogiar a atuação do Serviço Secreto, sinalizando estar “muito satisfeito” com a forma como tudo se desenrolou: “Fizeram um bom trabalho. Pareciam ser running backs da NFL [liga de futebol americano] a correr atrás dele. Pararam-no a tempo. Nunca chegou perto das portas ou de chegar perto das portas.”

O Presidente norte‑americano realçou que o hotel Washington Hilton “não era particularmente um edifício seguro”, mas preferiu focar-se na construção do salão de baile na Casa Branca (processo em que está curso uma batalha judicial) como solução para os problemas de segurança. “É muito maior e mais segura. É à prova de drones. Tem um vidro à prova de bala. Esta não é a primeira vez que nos últimos dois a nossa república foi atacada por um aspirante a assassino.”

"Fizeram um bom trabalho. Pareciam ser um running back da NFL [liga de futebol americano] a correr atrás dele. Pararam-no a tempo. Ele nunca chegou perto das portas ou de chegar perto das portas."
Presidente norte-americano, Donald Trump, sobre Serviço Secreto

Apesar de Donald Trump tentar livrar o Serviço Secreto de culpas, o que é facto é que os agentes de segurança não conseguiram travar uma tentativa de atentado, tal como aconteceu há dois anos. Barry Donadio ressalvou à BBC, ainda assim, que os agentes fizeram “exatamente aquilo para que estão treinados”: “Criaram uma barreira corporal”.

Como lembra a Fox, esta tentativa de atentado ocorreu semanas depois de, devido ao impasse entre republicanos e democratas no Congresso, partes do financiamento do Departamento de Segurança Interna — que tutela a agência que protege os principais políticos norte-americanos — terem ficado suspensas, deixando o Serviço Secreto com salários em atraso e falta de meios operacionais.

Antes disso, o Serviço Secreto passou por uma reorganização profunda em 2024. Após o fracasso em impedir a tentativa de assassínio de Donald Trump na Pensilvânia, a direção foi substituída e a nova tentou rever alguns dos seus procedimentos internos. Contudo, a agência vive num contexto político bastante mais complexo — e, acima de tudo, mais polarizado. Foi neste ambiente que, em 2025, num evento universitário, o ativista conservador Charlie Kirk foi morto.

A isto, acrescem problemas relacionados com o recrutamento de pessoal e com o financiamento, agravados pelo impasse no Congresso em vigor desde meados de fevereiro. A CBS News escreve que alguns agentes do Serviço Secreto pagaram do seu bolso viagens de trabalho há mais de dois meses e muitos ainda não foram reembolsados, enquanto cursos de treino e atualizações tecnológicas ficaram suspensos. A agência está a ser subfinanciada — e esse fator tem inevitavelmente repercussões na forma como planeia operações e executa as suas missões.

Em declarações à Fox News este domingo, o procurador-geral norte-americano em funções, Todd Blanche, disse esperar que o que aconteceu no Jantar dos Correspondentes funcione como uma “chamada de atenção” para que os “jogos” políticos terminem no Congresso e para desbloquear os fundos para o Departamento de Segurança Interna. “Espero que trabalhem e cheguem a um acordo.”

Questionados pelo Washington Post depois de o jornal revelar que o evento não teve o nível mais elevado de segurança, nem o Departamento de Segurança Interna nem o Serviço Secreto responderam. Perante o pior cenário, o poder passaria para Chuck Grassley, que é o senador do partido da maioria (Republicano) que detém o cargo há mais tempo.

A atuação do Serviço Secreto — e a forma como montou um dispositivo de segurança num evento que reunia o Presidente e os principais líderes políticos — volta a estar em causa, embora a agência tenha conseguido travar a tempo o atentado contra Donald Trump. Sem levantar suspeitas, Cole Tomas Allen explorou vulnerabilidades de um plano que tinha um ponto cego que ninguém anteviu: hospedar-se no hotel. Como o próprio chegou, aliás, a admitir no manifesto: “Entrei com múltiplas armas e nem uma única pessoa lá equacionou a possibilidade de eu ser uma ameaça”.

Notícia atualizada às 23h48 com a revelação pelo Washington Post de que o evento não foi considerado como de segurança máxima.