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Washington Hilton: o hotel palco de dois atentados presidenciais e onde Trump terá decidido tornar-se presidente

Do tiro que quase matou Reagan ao "roast" de Obama que terá convencido Trump a entrar na política. Tudo aconteceu no mesmo hotel em Washington DC.

António Moura dos Santos
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Desde que foi inaugurado em 1965, o Washington Hilton, situado a cerca de dois quilómetros a noroeste da Casa Branca, tem tido um papel contínuo na vida dos presidentes dos EUA — pelas melhores e pelas piores razões. Este sábado foi escrito mais um capítulo da história deste hotel, quando um homem tentou entrar num evento onde Donald Trump se encontrava para cometer um atentado.

Ainda não se sabe ao certo o que terá motivado Cole Tomas Allen, de 31 anos, a tentar entrar armado no jantar anual da Associação de Correspondentes da Casa Branca em Washington DC, onde não só o presidente como muitos membros da sua administração se encontravam. No entanto, o confronto resultou num tiroteio que deixou um agente dos Serviços Secretos ferido, mas sem vitimar quer o atirador, que se hospedou no hotel no dia 25 e que no seu manifesto troçou da segurança das instalações, quer qualquer um dos seus potenciais alvos.

Esta não foi, porém, a primeira vez que um presidente foi alvo de um ataque no Washington Hilton — Ronald Reagan também foi vítima de um atentado, em 1981, mas, ao contrário de Trump, acabou mesmo por ser alvejado.

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Da “gaivota a voar” ao “Hinckley Hilton”

Desenhado pelo arquiteto William B. Tabler, o Washington Hilton foi projetado num impressionante estilo brutalista, expandindo-se em dois arcos que, vistos de cima, parecem ser duas asas. Daí, como a própria cadeia de hotéis afirma, passou a ser descrito como parecendo “uma gaivota a voar”.

Além de abrir com 1.165 quartos — que passariam a 1.107 após um extenso período de renovações entre 2009 e 2010 —, o hotel tem um enorme salão sem pilares e que durante muito tempo foi o maior da capital dos EUA, com 2.790 metros quadrados.

Como tal, tornou-se um espaço bastante apetecível para eventos de larga escala, como os concertos dos The Doors em 1967 e de Jimi Hendrix em 1968, ou por acolher em 1972 a conferência internacional onde foi apresentada a ARPANET, uma das tecnologias precursoras da Internet.

O seu espaço amplo e desimpedido faz deste salão também propício para ajuntamentos de cariz político, como comícios ou jantares de angariação de fundos. No entanto, tem uma vertente ainda mais importante ao acolher eventos tradicionalmente assistidos por chefes de Estado. São disso exemplos os já referidos jantares da Associação de Correspondentes da Casa Branca ou o National Prayer Breakfast, evento de cariz religioso no qual todos os presidentes dos EUA têm tomado parte desde Dwight D. Eisenhower.

Apesar de não ser um hotel de cinco estrelas, o Washington Hilton tem um papel tão central na vida política de Washington DC que é onde muitos dignitários internacionais e chefes de Estado acabam por ficar alojados quando visitam a cidade. Foi, por exemplo, onde Richard Nixon fez a sua festa de tomada de posse em 1969, com Barack Obama a repetir o mesmo ato em 2009. O próprio hotel passou a reforçar esta relação quando inaugurou o “President’s Walk” em 1976, um corredor onde estão exibidas fotografias da Biblioteca do Congresso, em homenagem a todos os presidentes dos Estados Unidos, primeiras-damas e anfitriãs da Casa Branca.

No entanto, é também o lugar onde ocorreu um dos mais graves incidentes de segurança da história moderna dos EUA. Como recordam a CBS News e o Washington Post, a 30 de março de 1981, Ronald Reagan — ainda no início do seu primeiro mandato presidencial — estava a abandonar o Washington Hilton após discursar numa convenção sindical quando foi alvo de um ataque perpetrado por John Hinckley Jr.

https://www.youtube.com/watch?v=EYI79ziwh0w

Hinckley disparou seis vezes, falhando Reagan em todas as tentativas. No entanto, uma das balas ricocheteou na limusina presidencial, atingindo-o na axila esquerda, partindo-lhe uma costela e perfurando-lhe um pulmão. A uma primeira instância, a equipa do Serviço Secreto ia levar o chefe de Estado para ser tratado na Casa Branca, acreditando incorretamente que se tratava de uma ferida superficial e que as dificuldades respiratórias se deviam à costela fraturada. No entanto, quando Reagan começou a tossir sangue, reavaliaram a situação e tomaram a decisão imediata de levá-lo para o hospital George Washington. O presidente acabaria por sobreviver e ter uma recuperação extraordinariamente rápida, voltando ao Washington Hilton seis meses depois.

Apesar de não ter tido uma motivação política aparente — Hinckley, à época com 25 anos, terá atacado o presidente achando que ia impressionar a atriz Jodie Foster, razão pela qual não foi preso mas sim institucionalizado sob cuidados psiquiátricos —, o ataque deixou sequelas. Não só Reagan nunca mais andou exposto a entrar e a sair de hotéis ou em pistas de aterragem como o seu porta-voz, James Brady, um dos feridos do ataque, ficou com danos cerebrais e com incapacidade permanente por levar um tiro na cabeça.

Além disso, o evento ensombrou o próprio Washington Hilton, que passou a ser conhecido depreciativamente como “Hinckley Hilton”. O ataque levou também a gerência a implementar medidas de segurança especificamente concebidas para receber o presidente dos EUA, a mais significativa sendo uma garagem de porta reforçada e concebida para acomodar a limusina presidencial. Este acesso exclusivo leva a um elevador e a uma escadaria para uso limitado à comitiva do presidente e a uma suite protegida reservada para uso pessoal.

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A noite em que Trump decidiu ser presidente

O suposto atentado de que foi alvo este sábado não é a única experiência traumática que Donald Trump teve no Washington Hilton. Em 2011, foi sujeito a uma humilhação tal por parte de Barack Obama que é apontada como uma das suas principais motivações para ter apostado em definitivo na carreira política.

Tal como este fim de semana, tudo se passou num jantar da Associação de Correspondentes da Casa Branca, uma tradição iniciada em 1921 e que teve como primeiro presidente convidado Calvin Coolidge, em 1924. A história deste evento é rica em episódios e controvérsias, sendo que uma das suas principais características é a possibilidade dos convidados e dos próprios presidentes tomarem o palco para fazer discursos humorísticos — algo reforçado pelo facto de, desde 1983, o anfitrião ter passado a ser recorrentemente um comediante.

Em várias ocasiões, os presidentes aproveitaram para fazer comunicações autodepreciativas da sua própria conduta ou de membros da sua administração, reservando as piores farpas para si mesmos e sendo mais comedidos a visar outros políticos ou jornalistas.

Todavia, quando Barack Obama subiu ao palco em 2011 — o mesmo discurso onde fez o famoso “mic drop” —, a polémica quanto à naturalidade do presidente dos EUA estava bem presente. O chamado movimento “birther” defendia a narrativa falsa de que Obama nascera no Quénia e não era cidadão americano por nascimento e um dos seus principais proponentes encontrava-se nas mesas dos convidados: Donald Trump, que na altura avançava sem grande convicção estar a considerar lançar uma candidatura presidencial.

“Esta noite, pela primeira vez, vou divulgar o meu vídeo oficial de nascimento”, declarou Obama com solenidade, antes de mostrar a cena inicial do filme O Rei Leão, em que Simba é apresentado na savana. “Ninguém está mais feliz ou mais orgulhoso em pôr um ponto final nesta questão da certidão de nascimento do que o Donald”, seguiu o presidente dos EUA, iniciando assim a sua invectiva contra Trump, acusando-o de perder tempo em teorias de conspiração. “Ele pode finalmente voltar a concentrar-se nas questões que realmente importam. Por exemplo, será que falsificámos a chegada à Lua? O que aconteceu realmente em Roswell?”, perguntou sarcasticamente.

Obama decidiu então fazer pouco da persona pública de Trump pelo seu papel no concurso televisivo The Apprentice, exibindo um clip do magnata a proferir a sua frase de marca “you’re fired” [“Estás despedido”] a um concorrente. “Acredito que todos conhecemos as suas credenciais e a sua vasta experiência. Este é o tipo de coisa que me mantém acordado à noite. Bom trabalho, senhor, bom trabalho. Sem dúvida, Donald vai trazer mudanças à Casa Branca”, disse ainda, mostrando uma montagem onde a residência presidencial seria transformada num casino sob a liderança de Trump.

https://www.youtube.com/watch?v=HHckZCxdRkA

Ao longo do discurso e perante o riso generalizado, as câmaras a transmitir o evento mostraram Trump a começar por exibir um sorriso amarelo e a terminar cada vez mais carrancudo, com o presidente a lembrá-lo perante a elite mediática de Washington que o seu “mundo” era o do entretenimento e dos negócios, não da política.

Como a jornalista Maggie Haberman — que anos depois escreveria uma extensa biografia de Donald Trump — adiantou em 2016, perante a decisão de Donald Trump de candidatar-se à presidência dos EUA no ano anterior, foi nessa noite de 2011 que o empresário decidiu tornar-se político. “Aquela noite de humilhação pública, em vez de afastar o Sr. Trump, acelerou os seus esforços obstinados para ganhar prestígio no mundo político. E revelou até que ponto a campanha do Sr. Trump é movida por um profundo anseio, por vezes obscurecido pela sua arrogância e fanfarronice: o desejo de ser levado a sério”, escreveu no The New York Times.

A Associated Press reforça esta tese, de que Trump tomou uma decisão naquele salão do Washington Hilton: “Em novembro de 2012, enquanto Obama se preparava para o seu segundo mandato, Trump tinha apresentado um pedido de registo de marca para a frase que viria a marcar a cultura nacional quatro anos mais tarde: “‘Make America Great Again’”.

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