Passa pouco das 20h30 em Washington. Os convidados do jantar anual da Associação dos Correspondentes da Casa Branca já entraram no salão de festas do hotel Hilton e estão a ser servidas as entradas de ervilhas e burrata. No exterior do salão, os agentes de segurança conversam de pé, alguns com as mãos nos bolsos, outros com as mãos na cintura. É neste momento que Cole Thomas Allen, um homem de 31 anos da Califórnia, passa a correr pelos seguranças, que entram em ação e disparam na sua direção.
Em poucos segundos, o caos espalha-se dentro do salão do Hilton. E, pela terceira vez em menos de dois anos, Donald Trump é arrastado para fora de um evento pela equipa do serviço secreto. Apesar de o salão estar cheio de jornalistas, os detalhes dos acontecimentos demoram alguns minutos a emergir: um homem armado com uma caçadeira e várias facas tentou entrar no jantar onde está o Presidente e a administração norte-americana em peso.

Mas, também porque o salão está cheio de jornalistas, os relatos e os vídeos do incidente são numerosos e cheios de pormenores, o que permite reconstruir quase ao segundo o tiroteio deste sábado à noite, desde o momento em que Allen entra no hotel até ao regresso de Donald Trump à Casa Branca, onde falou aos jornalistas numa conferência de imprensa.
20h36. Atirador passa os seguranças e é detido
A entrada principal do hotel Hilton não tem qualquer tipo de segurança particular. As figuras mais importantes entram pelas traseiras, onde estacionam os carros e os convidados e hóspedes do hotel devem mostrar apenas o convite ou o cartão do quarto para entrar no hotel. O salão de festas é no andar de baixo do andar principal e o acesso faz-se por elevador ou escadas. É aqui que os convidados são fotografados à chegada. Só mais tarde, imediatamente antes de entrar no salão, é que os convidados passam no primeiro detetor de metais. Depois, descem um novo lance de escadas e entram no salão.

As imagens de videovigilância partilhadas por Donald Trump mais tarde parecem mostrar a zona imediatamente antes da entrada no salão, onde momentos antes os convidados foram fotografados. Às 20h36, detalharam as autoridades, um homem passa a correr pelos agentes de segurança que estão a conversar. Quando o veem passar, os agentes — as imagens permitem contar pelo menos sete pessoas — entram em ação e empunham as armas.
Tiros são disparados nas duas direções. O atirador, Cole Thomas Allen, não fica ferido, mas atinge um agente, que é salvo pelo colete à prova de balas. Depois, Allen é “atirado ao chão” pelas autoridades, ainda antes de ter descido o último lance de escadas que dá acesso à sala onde decorre o jantar. A troca de tiros e a detenção não são apanhadas pelas câmaras, mas o atirador é fotografado já depois de ter sido detido, de barriga para baixo e mãos algemadas atrás das costas.

20h36. A audiência reage ao incidente
Dentro do salão do Hilton, o jantar decorre de forma animada, entre burrata, champanhe e uma atuação de um mentalista. Às 20h36 é possível ouvir, em vídeos do evento, um forte barulho, que Trump descreveu mais tarde como o de um “tabuleiro a cair” — parecem ser quatro ou cinco tiros. Os vídeos da sala inteira mostram que as pessoas nas mesas mais próximas da entrada reagem ao barulho, levantando a cabeça em sinal de alerta.

Porém, os jornalistas que estavam sentados com alguns membros da administração nas mesas mais próximas do palco descreveram que não ouviram o barulho. Só perceberam que algo estava a acontecer quando viram vários agentes a invadir a sala. “Era um pequeno pelotão de agentes do serviço secreto e das autoridades, todos armados, que correram pelo meio do salão de baile, na direção do estrado onde estava o Presidente”, descreveu o jornalista da NBC no local.
Nos vídeos, é possível ver que um dos agentes sobe ao palco e ouvem-se gritos de isolados de “Baixem-se!”, “Protejam-se!” e “Foram disparados tiros!”. Jornalistas e membros da administração esconderam-se debaixo das mesas. Marco Rubio, que estava sentado na mesma mesa do jornalista da NBC, demorou vários momentos a esconder-se, procurando certificar-se que a mulher, sentada do outro lado da mesa, e Trump estavam bem.

20h36. Vance e Trump são retirados do salão
Ao centro da sala, fica um púlpito que está, a esta hora, vazio, mas onde Trump deveria discursar mais tarde. O Presidente está sentado do lado direito do púlpito, JD Vance do lado esquerdo e ambos conversam com as pessoas à sua volta. Às 20h36 ouve-se o barulho forte fora da sala. Alguns segundos depois, o vice-presidente norte-americano levanta a cabeça quando se apercebe da comoção no fundo da sala. Dez segundos depois de se ouvir o barulho, um agente do serviço secreto agarra Vance pelos ombros e arrasta-o para fora da sala, enquanto o homem sentado à sua direita e a mulher sentada à sua esquerda se escondem debaixo da mesa.
O outro lado da mesa demora mais tempo a aperceber-se do incidente e a reagir. À esquerda de Donald Trump, está sentada Weijia Jiang, correspondente presidencial da CBS e presidente da Associação de Correspondentes da Casa Branca, que organiza o jantar. À direita do Presidente está sentada a primeira-dama, Melania Trump, e a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt. Os quatro seguem atentamente uma atuação do mentalista Oz Pearlman, de pé atrás da mesa. Nenhum reage imediatamente aos barulhos.

Ao mesmo tempo em que Vance é agarrado, um agente do serviço secreto sobe para o estrado onde estão colocadas as mesas dos convidados de honra e coloca-se à frente do Presidente, de frente para entrada da sala — ou seja, entre Trump e a porta, por onde poderia entrar no atirador. As mulheres ao seu lado parecem finalmente aperceber-se que algo está a acontecer e levantam a cabeça, questionando os restantes agentes que, em poucos segundos, ocuparam o estrado.

Não é possível perceber se obtêm resposta, mas Leavitt e Melania escondem-se debaixo da mesa. Três agentes hesitam brevemente ao lado do Presidente, antes de o encaminharem, de forma mais calma que Vance, para fora do estrado. No curto trajeto entre o lugar de Trump próximo do centro da mesa e a saída, o Presidente parece tropeçar e cair. Outros agentes acorrem rapidamente ao Presidente, ajudando-o a levantar-se e cobrindo a sua saída.

Jiang segue atrás dos homens, mantendo-se agachada atrás das mesas, enquanto as outras mulheres permanecem debaixo das mesas, tendo sido vistas a sair mais tarde. Ao mesmo tempo, dois homens passam por cima das mesas, derrubando pratos, copos e talheres, para se colocarem à boca do estrado na frente da sala. Ao contrário dos restantes agentes não estão à paisana — estão com equipamento de proteção e têm armas automáticas nas mãos, com as quais varrem a sala.

20h37. Membros da administração são retirados do salão
Apenas um minuto depois de se ter ouvido o primeiro estrondo e poucos segundos depois de o Presidente e o vice-presidente terem sido retirados da sala, os agentes do serviço secreto começam a retirar da sala os restantes membros da administração. Um jornalista do The Hill escreve que o secretário de Defesa, Pete Hegseth, foi o primeiro membro da administração a ser retirado da sala, caminhando rápida, mas calmamente, ao lado de agentes à paisana.

Às 20h37, o secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr., e a mulher são retirados da sala, com Kennedy a coxear — o seu gabinete confirmou mais tarde que o secretário está bem —, ao mesmo tempo que o conselheiro Stephen Miller e a mulher também são acompanhados para fora. As mulheres acabam por ser carregadas ao colo por cima das mesas por estarem de saltos altos, segundo descreveu posteriormente a mulher de RFK.

Depois de Kennedy, os agentes regressam à mesma mesa para acompanhar Marco Rubio à saída. O processo é repetido nos minutos seguintes, de forma metódica, para retirar da sala as principais figuras políticas dos Estados Unidos e encaminhá-las para a saída nas traseiras. A maior parte das pessoas permanece escondida, mas algumas fogem da sala e outras insistem em ficar de pé, a gravar o momento, apesar de os agentes insistirem, enquanto retiram pessoas da sala, para que todos permaneçam debaixo das mesas.
Cerca das 20h45. Agentes do serviço secreto abandonam o salão
Dez minutos depois de ter sido disparado o primeiro tiro, os agentes armados abandonam finalmente a sala. “Ficámos debaixo das mesmas por aproximadamente dez minutos e conseguia ouvir a polícia a andar pela sala. Quando nos levantámos, o estrado estava vazio e cadeiras, guardanapos e pão estavam atirados para o chão. Assim que foi declarado seguro, os jornalistas começaram a trabalhar”, descreve um dos repórteres do Washington Post no local.

O editor-executivo do Politico, Jonathan Greenberger, é visto a ordenar aos jornalistas do jornal online que ocupassem uma sala contígua para funcionar como “centro de comando”, enquanto os jornalistas televisivos entram em direto por telefone e enviam vídeos capturados com o telemóvel para as redações, onde são transmitidos menos de meia hora depois de o tiroteio ter acontecido. Foi o caso de Wolf Blitzer, da CNN, que, ainda antes das 21h, descreveu que estava a “poucos metros [do atirador] quando ele começou a disparar”. “Claro que a primeira coisa que me passou pela cabeça foi ‘ele está a disparar contra mim’?”, relatou em direto.

Ao mesmo tempo, Donald Trump continua no Hilton, seguindo o protocolo do serviço secreto. A imprensa norte-americana explica que sendo o hotel um palco frequente para eventos desta importância, o serviço secreto escolhe sempre uma sala específica para colocar o Presidente em segurança em caso de necessidade — como aconteceu esta noite.
Cerca das 21h30. Trump abandona o Hilton e jantar é retomado
O entrar em ação dos jornalistas contrastou com o estado de espírito dos restantes convidados, que se dividiram entre a descontração e a preocupação. Erika Kirk, viúva do influencer conservador, aliado de Trump, assassinado em setembro, foi vista a abandonar o hotel em lágrimas, mas outros convidados mostraram-se pouco perturbados e procuraram até continuar o jantar.

“Vão trazer mais champanhe?”, questionou um convidado. “Vai acabar essa salada?”, perguntou outro, segundo relatos do New York Times. Os convidados que tinham abandonado a sala durante o incidente não puderam voltar a entrar, mas, para aqueles que ficaram no local, por volta das 21h35, um representante da Associação de Correspondentes informou que o jantar ia ser retomado.

À mesma hora, Donald Trump recorria às redes sociais para anunciar que, por recomendação das autoridades ia abandonar o local e regressar à Casa Branca, onde daí a meia hora, falaria aos jornalistas. O Presidente informou ainda que Melania, Vance e todos os membros da sua administração estavam “em perfeitas condições”.
22h33. Trump fala aos jornalistas na Casa Branca
Menos de duas horas depois de Cole Thomas Allen ter sido intercetado e detido e alguns quarteirões a sul do hotel Hilton, Donald Trump fala aos jornalistas na sala de imprensa da Casa Branca, onde elogia o trabalho rápido das autoridades e destaca a necessidade de construir um salão de baile na Casa Branca, para poder concretizar eventos como este com mais segurança. Sobre o jantar da Associação de Correspondentes, o Presidente prometeu remarcar o evento num prazo de 30 dias.
Sobre o incidente, Trump confirmou aquilo que as imagens mostram: a confusão em relação ao que estava a acontecer. “Foi um barulho muito alto, mas bastante longe. Mas era uma arma. E algumas pessoas perceberam isso muito rápido. Outras pessoas não. Eu estava a ver o que estava a acontecer. Provavelmente devia ter-me baixado ainda mais rápido“, admitiu o Presidente.

Depois da meia noite. A noite continua para autoridades e jornalistas
O tiroteio demorou apenas alguns segundos, a confusão que se seguiu, alguns minutos, mas o trabalho das autoridades e dos jornalistas prolongou-se durante várias horas. Depois do incidente, as autoridades identificaram e interrogaram Cole Thomas Allen e antes das meia noite local (3h em Washington), as autoridades federais do outro lado do país, na Califórnia, entravam na casa do suspeito.
Já os jornalistas não só prolongaram os diretos noite dentro, mas também as festas. O jantar anual costuma ser seguido de uma série de “after parties” em vários pontos da capital e a maior parte destes eventos não foi cancelado, apenas reformulado. “Apesar de o evento desta noite não ser o que tínhamos planeado originalmente, achamos que é importante assegurar um espaço para amigos e colegas se reunirem”, anunciou a organização da festa da revista Time.

