Temos estado a estudar na Igreja da Lapa o livro do Apocalipse. Os evangélicos são mais dados a pensar no Apocalipse do que os católicos. Há várias razões para isso mas repito a minha preferida: os católicos não precisam tanto do Apocalipse como os evangélicos porque Jesus está mais materializado para eles no dia-a-dia dos sacramentos e sobretudo na Eucaristia, claro. É normal que a pessoa que acredita que come o corpo de Cristo na missa sinta que ele lhe fica mais próximo. Considerem, por isso, a fome protestante: sem Cristo fisicamente presente nas suas celebrações (ainda que haja variações entre os protestantes no modo de entender que tipo de presença Cristo pode ter no momento da comunhão), precisa-se muito mais dele e daí nasce uma tendência apocalíptica superior.
Os evangélicos precisam do Apocalipse porque a medida que têm de Cristo nesta vida não lhes chega. O católico pode andar mais descontraído porque o encontro com o transcendente está garantido por sacramentos que asseguram a companhia divina. A vida do católico é um Ikea cheio de mobília sagrada onde a do evangélico é uma garagem despida e desolada. Apesar de ambos acreditarem em Deus, o protestantismo implica uma solidão específica que o empurra para uma fome mais assanhada de futuro. Daí que onde o protestantismo floresce, floresce também uma sociedade com traços também algo anti-sociais: esta vida é muito bonita mas o que queremos mesmo é a eterna. Acreditar em Deus para o evangélico sacramentalmente depenado é acreditar menos no encanto desta existência.
Aos olhos de não-evangélicos o sobressalto com a nossa vontade de Apocalipse é grande. Esperam de nós distopias sectárias em que vergamos os outros à força da nossa intransigente pica pelo Armagedão. Receio que ainda não tenhamos conseguido fazer-lhes a vontade. Mas no campo da análise política, o filão não se esgota: em décadas recentes era o Presidente George W. Bush a pretexto do Iraque, era Bolsonaro a pretexto do Congresso, é agora Trump a pretexto do Irão. Enfim. Suponho que nesse tão propalado advento teocrático um pastor evangélico como eu se veja a braços com poderes apreciáveis sobre o cepticismo dos outros, legislando moral pública contra os meus novos súbditos. Não me sabia tão ambicioso mas a comunicação social vai-me inteirando. Segundo estes, o futuro que quero é mesmo deste mundo.
Qual tem sido então a tónica que aplico no estudo do Apocalipse que estamos a fazer na Igreja da Lapa? Curiosamente, não passa por datas de conquista, por estratégias políticas, ou pela decifração de sinais. É verdade que o último livro da Bíblia está carregadinho de matéria literária que, dependendo da imaginação e da vontade, se presta a todo o tipo de teorias, mais ou menos conspirativas. Mas se há elemento que perdura acima de todos é o da adoração: a Igreja de Cristo é chamada à devoção quando tudo corre bem e quando tudo corre mal. Logo, a grande lição do Apocalipse não é necessariamente acerca de um futuro excepcional nos seus acontecimentos; é acerca de uma confiança em Deus em qualquer tempo. Daí que a palavra Apocalipse signifique “revelação”: não é o futuro que se mostra assustando-nos, somos nós que nos mostramos ao futuro adorando.
Sim, os evangélicos querem o Apocalipse eventualmente mais do que os outros. E o Apocalipse, com toda a sua intensidade, é mais meigo para nós do que a falta dele na denúncia dos nossos críticos.