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(A) :: "Diz-se morte medicamente assistida, para mim é liberdade". Depois de 17 anos tetraplégico, Ricardo viajou até à Suíça para morrer

"Diz-se morte medicamente assistida, para mim é liberdade". Depois de 17 anos tetraplégico, Ricardo viajou até à Suíça para morrer

Português decidiu pedir a morte medicamente assistida pouco depois de ter tido um acidente de carro. Viveu tetraplégico 17 anos, criou uma empresa e dois filhos — mas perdeu "os gostos da vida".

Miguel Pinheiro Correia
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“Isto não é nada. Pode fazer sentido para algumas pessoas, há pessoas que estão acamadas e faz-lhes sentido estarem cá. Para mim, não faz sentido”. Foi assim que Ricardo Fernandes, de 43 anos, justificou à revista Sábado a vontade de ter uma morte medicamente assistida, que já planeava há 16 anos e que chegou agora, na Suíça. O empresário que ficou tetraplégico há 17 anos deixou uma mensagem de despedida nas redes sociais.

Há um ano, assumia na mesma entrevista que esta morte era também a “liberdade medicamente assistida”. Apesar da vida estável e com uma agenda preenchida, confessou que desde que teve um acidente de carro, perdeu “a essência daquilo que são os gostos (…) na vida”. Por isso, inscreveu-se na associação suíça Dignitas, que presta apoio nestas mortes, e recebeu luz verde.

Ricardo começou a trabalhar cedo e pouco depois de ter atingido a maioridade decidiu ir viver sozinho. Segundo revelou à Sábado, a universidade lançou-o na vida profissional — começou na área do Turismo — e pessoal — conheceu a mulher, Ana, ainda no primeiro ano de faculdade e antes de terminar o curso teve o primeiro de dois filhos, que têm agora cerca de 20 anos.

O acidente que o deixou tetraplégico e a empresa que criou e liderou a partir da cadeira de rodas

Foi em 2009, quando passava o melhor momento da sua vida — “tive o meu ano Cristiano Ronaldo” — que o acidente aconteceu, numa altura em que já tinha trocado o turismo pela banca e era “o melhor comercial do País” no setor. Um dia, quando regressava a casa depois de ter estado numa cervejaria com o irmão e o diretor do seu balcão no banco, terá adormecido no carro.

Entrou no carro pouco depois da meia-noite, mas só foi encontrado na tarde do dia seguinte. “Estive 14 horas desaparecido, mais três para me encontrarem. Acordo a ver o tabliê, o volante meio torto e as minhas pernas uma para cada lado, sem saber onde estava. E o telemóvel sempre a tocar. Não conseguia falar nem gritar porque estava entalado. O carro estava encaixado num buraco a 20 metros de profundidade, e eu sou encontrado porque um amigo meu viu o batom de cieiro na estrada e reconheceu-o como sendo meu. Por incrível que pareça, saiu do bolso esquerdo do meu fato e ficou na estrada”, lembrou à Sábado.

Ricardo passou a viver numa cadeira de rodas elétrica, com espasmos constantes e cãibras que o incomodavam. Já tetraplégico, abriu uma empresa de limpezas que cresceu rapidamente e em pouco mais de dez anos passou de dois funcionários para 103. “Foi e é a minha melhor fisioterapia, sem dúvida”, admitiu à Sábado, enquanto manifestava não estar preocupado com a sua morte. “Diz-se morte medicamente assistida, para mim é liberdade medicamente assistida”.

Na mesma conversa, repetia sentir falta das coisas simples. “Ir à praia e pôr o pé na areia, que era sempre a sensação que eu procurava todos os anos, o primeiro mergulho, o ato sexual sem estar preocupado com nada e sentir e tirar prazer da situação, comer, dançar, jogar futebol. Eu adorava comer caracóis e hoje recuso-me. Dar-me alguém à boca não é a mesma coisa”.

O último dia de Ricardo. “Que se lembrem de mim com um sorriso nos lábios”

A decisão de recorrer à morte medicamente assistida (através da Dignitas) foi tomada pouco depois do acidente, mas foi sendo adiada para garantir a estabilidade financeira da família. Ao início, a mulher não aceitou a decisão, mas a reação mais compreensiva dos filhos fê-la comprender melhor os motivos do marido.

Tratada a papelada e submetidos desde relatórios a exames médicos, pôde seguir para a Suíça, com a mulher, os filhos, os advogados e dois amigos. À Sábado, lamentou que em Portugal não seja possível tomar esta decisão — o que obriga a todo um processo mais doloroso para a família e mais caro. Depois da morte medicamente assistida, quer que o corpo seja cremado e que as cinzas sejam espalhadas no mar, em Portugal. “Quem quiser ir, que se lembrem de mim com um sorriso nos lábios e que levem uma rosa branca”.

Esta sexta-feira o dia chegou. No Instagram partilhou uma imagem de olhos fechados e auscultadores nos ouvidos, com a descrição “Até já”. Na entrevista que deu há um ano já tinha assumido a rotina para os últimos momentos de vida. “Uma coisa supersimples: banhinho tomado, vestido, beber aquele batido que tem um sabor horrível, segundo me chegou a informação, e nalguns minutos adormecer e dormir um sono profundo — a ouvir a minha playlist”. Sem ninguém a ver, “prefiro que as pessoas não fiquem com essa memória”.

No Facebook, Ricardo publicou uma montagem (ao som de “O teu momento”, dos Dealema com Bezegol) de vários momentos da sua vida. “Fui, sou e serei sempre muito feliz com tanto carinho recebido, não importa quem aceita mas sim que respeitem e a partir daqui nada mais tenho a adiantar”, escreveu na legenda que terminava com o mesmo “até já”.

A notícia da sua morte gerou uma onda de reações dos amigos que se cruzaram com Ricardo ao longo da sua vida. “Hoje vais partir…e levas parte de mim! Entraste na minha vida sem avisar, mas partes com aviso prévio”, escreveu o alfaiate Paulo Battista. “Vais como queres, tenho a certeza que amanhã vais estar na praia com o pé na areia e principalmente com a bola no peito”, rematou, na legenda de uma publicação no Instagram.

Depois da morte, o “puto do sorriso” — alcunha que é também o nome do livro sobre a sua vida — também foi recordado como um fervoroso benfiquista. “Queríamos dedicar muito esta vitória para alguém que é o Ricardo Fernandes, que é um ente muito querido para toda esta equipa de futsal. Esta vitória é para ele”, disse André Correia, guarda-redes do futsal do Benfica, na flash interview após a meia-final contra o Nun’Álvares.

Era muito feliz antes do acidente e sou muito feliz ainda hoje, porque ainda agora eu penso assim: a vida deu-me mais do que me tirou, mesmo com a cadeira. Só que o pouco que me tirou é a essência daquilo que são os gostos para mim na vida, o sentir das coisas. E sei que assim já não estou bem. Portanto, tenho o direito de escolha e vou à procura dessa escolha”, disse Ricardo à Sábado