Depois do fenómeno de Baby Reindeer, o que é que Richard Gadd tem para nós em 2026, nesta série que co-protagoniza com Jamie Bell (Billy Elliot, Film Stars Don’t Die in Liverpool, All of Us Strangers) que interpreta a outra metade? Half Man conta a história de Ruben (Gadd) e Niall (Bell) e no primeiro episódio (que foi o que eu vi, porque só sai um por semana, à antiga lusitana) apresentam-nos duas linhas temporais. No presente, os dois homens de meia idade estão sozinhas numa espécie de cave, naquele que é o dia do casamento de Niall. O noivo tem o terror espelhado no olhar e Ruben está com cara de quem o vai partir ao meio com um piscar de olhos. A segunda linha temporal é um flashback onde se passa a maior parte deste episódio inaugural, em que os dois são adolescentes, separados apenas por um par de anos de diferença, mas essa é apenas uma do sem número de coisas que os distinguem.
Depois de um retiro forçado num centro para delinquentes juvenis, por ter arrancado a penca de alguém à dentada, Ruben vai viver com o frágil Niall, que fica borradíssimo com esta perspetiva. Esta co-habitação deve-se ao facto das mães de ambos viverem juntas. Não sabemos exatamente qual o cariz da relação entre estas duas mulheres, mas naturalmente que a possibilidade de um relacionamento lésbico é um dos diversos motivos pelos quais o pobre do Niall é vítima de um bullying violentíssimo na escola e tudo indica que, com a chegada deste hóspede, vai ter direito a tratamento semelhante ou pior dentro das quatro paredes dos seu quarto.
[o trailer de “Half Man”:]
https://www.youtube.com/watch?v=egkRy1U94tA&pp=ygUQaGFsZiBtYW4gdHJhaWxlcg%3D%3D
Niall faz de tudo para ser ser invisível, é baixo e franzino, não podia ter mais cara de virgem e parece estar em perpétuo pedido de desculpas por existir. Ruben é intimidante e desafia a autoridade por desporto, tem uma presença fisicamente imponente, apresenta-se como macho possante e define-se pela força. Ao longo do episódio, assistimos à criação de um vínculo entre este “odd couple”, carregado de tensão, pânico, violência, mas que de alguma forma se vai transformando num elo em que os dois se começam a encaixar, apesar de parecer que, num daqueles brinquedos didáticos para petizes, um é o buraco quadrado e o outro é um sólido triângulo.
Enquanto Niall é o protótipo do saco de pancada, Ruben é o punho cerrado e tudo indica que, nalgum momento, vai haver algum tipo de simbiose entre os dois. Será que isso vai trazer à tona as qualidades de cada um ou antes pelo contrário e o oprimido vai usar o opressor como uma espécie de anjo vingador ou embarcar num ciclo destrutivo? Certo é que ao longo dos 40 anos em que se vai passar esta narrativa, certamente vão existir altos e baixos e diria que amplitude térmica desta relação vai da Sibéria ao Rio de Janeiro num ápice. Sendo que nos dias de hoje, Ruben está interessadíssimo em torturar física e psicologicamente o seu “my brother from another lover”, Niall está a ver a vida a andar para trás e eu estou muito curiosa para perceber como é chegámos aqui.
Gadd, o criador da série, diz que tinha muito interesse em refletir sob o fardo da masculinidade e que esta série é sobre a dificuldade entre dois homens dizerem que se amam. E aquilo a que assisti, para começo de conversa, é que o que é natural para estes indivíduos em construção é a violência e agressão gratuita, estejam eles do lado recetor ou emissor. Pela amostra, sinto que vai ser difícil de assistir, que vou estar em nervos e apertos no estômago a maior parte do tempo e é claro que me vou sujeitar a isso tudo, por minha livre e espontânea vontade. Tenho apenas 50 minutos para avaliar a performance dos intérpretes, mas que me caia um raio em cima, se não vou acabar bem agradada com eles. Gadd, que é um comediante de raiz, deixou-me encolhida de miaúfa antes de abrir a boca sequer, e Stuart Campbell, que interpreta o jovem Ruben, não lhe fica atrás. Quanto a Niall e à sua versão teenager a cargo de Mitchell Robertson, só me apetece dar-lhes um abraço e escondê-los no meu sótão.


No balanço de 2024, que me foi pedido nesta casa, escolhi Baby Reindeer como série do ano. A estreia de Richard Gadd como autor, com uma história auto-biográfica sobre a sua relação com uma stalker, deixou muita gente com a cara a banda e valeu-lhe vários prémios. Sei que é muito canastrão citar-me, mas cá vai. Disse na altura que “a forma como o criador e protagonista Richard Gadd rasga a sua vida nesta série, o facto de ele ser claramente uma vítima e não deixar de apontar o dedo para as suas falhas de carácter, é inultrapassável.” Ora, isto coloca aqui uma questão delicada, não é? À data, usei o adjetivo inultrapassável, em relação às outras séries que tinham estreado ao longo do ano. Agora, é possível um criador de ficção ultrapassar a sua própria história verídica? Depois de ver o primeiro episódio, mais do que precipitado, seria bastante estúpido avançar para uma conclusão. Por isso, encontramo-nos no dia 28 de maio no mesmo sítio, à mesma hora, combinado?
E uma adenda
Deixem-me descarregar este peso que trago no peito há já algumas semanas, despejar o assomo de cólera que me dá cada vez que uso a HBO Max, que eu sou menina para psicossomatizar e ainda desloco a córnea com a ira. Nutro um carinho pela HBO, que nutro, sim senhor. Mais que não seja porque aquela intro com estática seguida de um coro celestial me transporta automaticamente para a série das séries. Sim, a minha série favorita é Os Sopranos. E não, não me estou a armar aos cágados e desafio para um duelo ao pôr do sol quem atentar contra a minha honra.
Poderia também falar de The Wire, Sexo e a Cidade, Guerra dos Tronos, Succession, The Reherseal, and so on, and son on. Agora, tenham paciência, o que é isto de me espetarem anúncios no meio dos episódios? Qual é o próximo passo? Pop-ups no canto superior direito a informar que a Maria, 30 anos, grandes seios, está a 3 km da minha casa? É que eu ando de transportes públicos, mas nisto do audiovisual sou a burguesa que paga as assinaturas todas, não estou para isto. E mais: então, não é que quando ponho na pausa, para transcrever uma fala para partilhar convosco, ao invés vez de ficar no respetivo frame, espetam-me coisas como um anúncio da coleção do Correio da Manhã “que celebra os ícones do asfalto. Aos sábados Fascículo+oferta de carro por 4,95€”? Foi para isto que se fez o 25 de Abril? Enfim, falei, estou leve. Vejam lá isso.