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(A) :: “Tínhamos uma mina de ouro em Penalva do Castelo”. O americano fantasma, o mordomo que lhe mostrou Portugal e a arte a caminho de França

“Tínhamos uma mina de ouro em Penalva do Castelo”. O americano fantasma, o mordomo que lhe mostrou Portugal e a arte a caminho de França

Poucos vizinhos sabiam o que fazia, apenas que era patrão de outro filho da terra. Quando morreu, a casa passou para o mordomo, que foi apanhado quando tentava vender obras de arte a França.

Miguel Pinheiro Correia
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Inês Lacerda
photography

Na rua Luís de Camões, em Penalva do Castelo, ergue-se uma casa de paredes brancas com tinta gasta, o portão descascado pelo sol, as portadas das janelas fechadas e um jardim descuidado. Junto a vasos de plantas mortas, permanece um saco de comida para o cão que acompanhou o antigo dono da vivenda, um norte-americano, até este morrer na vila portuguesa. A Portugal, o estrangeiro chegou trazido por M. L., o fiel mordomo.

Até há pouco, quem contornava a rotunda no fim da rua não sabia que a vivenda escondia uma fortuna em obras de arte, com quadros alegadamente de Pablo Picasso e de Joan Miró. “Tínhamos aqui uma mina de ouro em Penalva do Castelo sem saber”, repete incrédula uma vizinha. Tal como ela, as outras mulheres que se juntam à conversa, até à apreensão de 278 obras de arte — que vão desde quadros de artistas ainda vivos a artefactos que remontam à Idade Antiga (antes de Cristo) — tampouco sabiam a nacionalidade daquele homem, a quem chamavam “espanhol”, e que viam religiosamente de manhã e ao final do dia, de trela na mão, a passear o cão.

Pouco sabiam dele. Menos ainda imaginavam o que se passava atrás da casa que o dono protegia atrás de uma vereda de árvores da altura do telhado. “A casa era um belíssimo museu, não havia nenhum metro quadrado de parede que não estivesse devidamente recheado com beleza e arte”, relata o diretor da PJ do Centro. Estava recheada de obras que a PJ acredita serem autênticas bem no Centro do País, num município com pouco mais de sete mil habitantes. Antes das buscas policiais, a última vez que os vizinhos tinha ouvido falar do proprietário foi quando ele morreu ao lado do cão. Há dois anos, caiu inanimado em frente ao restaurante Familiar, foi levado para o hospital e foi declarado o óbito.

A partir daí, a coleção passou a ter outro cuidador: M. L., o mordomo que correu o mundo ao lado do patrão norte-americano. Antes de olhar para a arte, o português começou por cortar as árvores que antes escondiam a casa. Mas na semana passada, em vez das carrinhas de jardinagem que estacionaram na rotunda quando o mordomo reformulou o jardim, a rua estava repleta de carros da PJ, devido a um alerta que soou quando M. L. quis ganhar algum dinheiro com aquele espólio.

As obras ainda não estavam no mercado, mas já tinham como destinatário uma “conhecida casa leiloeira internacional”, como revelou ao Observador fonte da Museus e Monumentos de Portugal (MMP), entidade responsável pelo “acompanhamento da circulação internacional de bens culturais”. Neste caso, até nem houve qualquer denúncia, mas foram detetadas irregularidades na venda de 15 bens artísticos que teriam França como destino. A MMP “aprofundou a investigação interna” e acabou por notificar a PJ, que avançou rapidamente para o terreno para, além de apreender o espólio, impedir qualquer venda.

Em Penalva do Castelo, não há vizinho que não partilhe o espanto e as dúvidas — algumas das quais ainda mantidas pela investigação — sobre como foram parar obras tão valiosas a uma rua onde nada se passa. A menos de três quilómetros daquele antigo reduto de arte, separado pelo pequeno vale do Rio Dão, está M. L.. Na casa onde vive com a mulher e o filho recusa abrir a porta aos jornalistas. “Saiam daqui”, responde a mulher. De uma janela, o filho esclarece apenas que “a seu tempo” falarão sobre o caso e que “por enquanto” não há nada que queiram dizer para justificar que M. L tenha sido constituído arguido. Ao mesmo tempo que a família enxota os jornalistas, o mordomo espreita pela janela, sabendo que pode estar envolvido num crime de abuso de confiança e branqueamento de capitais, segundo a PJ.

Esta polícia tem fortes indícios que o patrão do funcionário português já obteve os quadros de artistas como Pablo Picasso, Joan Miró, David Hockney, Albrecht Dürer, Pierre Bonnard ou Juan Downey de forma ilegal. Conhecendo o seu passado, os inspetores acreditam que o imigrante em Portugal poderia atuar como branqueador de capitais através destes artefactos que incluem ainda “produções artísticas e arquitetónicas realizadas no período “antes de Cristo” (a.c.), abrangendo a Pré-História e a Antiguidade. No espólio, figuram esculturas datadas entre o séc. I (a.c.) e o séc. XVIII, bem como artefactos arqueológicos dos períodos Neolítico, Greco Romano e de diversas origens, tais como a Pérsia, o Médio Oriente, a América Central e Sul, África, China e Síria”, refere a PJ.

Mordomo emigrou e conheceu um “patrão impecável” que o levou a todo o lado — até regressarem a Penalva do Castelo

Sentado no banco, Frederico Pinto descansa à sombra enquanto dois jardineiros arranjam o canteiro do seu jardim. “Eu já não dou conta do recado”. Suspira, ajeita a boina e recorda o passado com ligações a M. L. “Conheci-o há muitos anos, trabalhámos numa padaria muito antes de emigrarmos”. Assim que partiram os dois para o estrangeiro, a relação entre Frederico e o antigo colega foi-se esmorecendo, só reavivada com os ocasionais regressos a Penalva do Castelo, nas férias e nas festividades.

A dada altura, o amigo confessou ter encontrado um “patrão impecável” e passou a trabalhar apenas com ele. “Com o patrão que eu tenho farto-me de correr nações”, chegou a dizer-lhe M. L.. Frederico sabe que M. L. era “uma espécie de mordomo”, mas nunca percebeu ao certo o que fazia, nem sequer qual era o trabalho do norte-americano que tratava muito bem o amigo.

“Disse-me que correu muitas terras, mas nunca me disse o que fazia ou deixava de fazer, acho que o americano tinha negócios, só não me dizia que negócios eram”. O antigo colega, agora reformado, também não insistiu. O amigo vivia bem, estava feliz e isso bastava-lhe.

A relação entre patrão e empregado cresceu além-fronteiras e também passou por Portugal. Segundo contam alguns amigos e vizinhos ao Observador, o norte-americano já teria passado por Penalva do Castelo antes de ir para lá morar. Em alguns verões, quando M. L. voltava à terra onde cresceu, fazia-o na companhia do patrão, que terá começado a interessar-se mais pela vila. Uma das últimas moradas conhecidas pelas autoridades e pelos vizinhos antes da instalação definitiva em Portugal dos dois foi em Andorra, onde a família de M. L. também vivia com o norte-americano. Depois, “há poucos anos” — de acordo com a PJ — ou “há meia dúzia de anos” — segundo os vizinhos — mudaram-se para Penalva do Castelo.

O mordomo vivia com a família na freguesia de Castelo de Penalva (também na vila de Penalva do Castelo). O norte-americano “chegou a ver outras duas casas” perto do centro da vila, mas escolheu uma terceira na rua Luís de Camões.

Assim que o colecionador da arte se apoderou da casa começou logo por deitar mãos à obra. “Fez uma ‘renovaçãozita’, umas pinturas, nas traseiras tinha uma grande piscina e acabou com ela, não a quis. Ele queria tudo tapado, daqui não se via nem as janelas nem nada”, aponta Frederico. Ao lado da porta resiste uma campainha branca que, segundo os vizinhos, pouco tocou enquanto o norte-americano era vivo. Além dele, só M. L. era presença constante na casa. O vizinho “estrangeiro” era reservado e a barreira da língua nunca ajudou.

Ao volante e prestes a entrar na rotunda, Amadeu Gomes lembra o americano que “não falava com ninguém” e que vivia “na sua rotina e nas coisas dele, completamente isolado”. “Mas o homem não se metia com ninguém, era educado”. De casa, saía com a sua mascote e por vezes, com um pau para afastar cães intrometidos, de manhã e ao final do dia. Por vezes, os passeios chegavam a durar duas horas e tinham uma pequena paragem num minimercado a 150 metros de casa, onde fazia algumas compras.

Tirando os passeios com o cão, o acenar de cabeça para cumprimentar os vizinhos e as ocasionais idas ao mercado, o norte-americano era quase um fantasma. Ninguém sabia a que tinha dedicado a vida, nem que escondia centenas de obras de arte paredes-meias com os vizinhos. “Metia-se lá para dentro e ninguém o via, só se via na rua quando fazia aquele trajeto com o cão e dava a volta à vila. De manhã e de tarde, sempre, todos os dias, era matemático”, lembra Amadeu. “Fizesse chuva ou sol, é verdade”, acrescenta outra vizinha.

Até esta semana, o estrangeiro que respondia muitas vezes em castelhano só tinha voltado a ser tema de conversa na vila quando se soube da sua morte. No pátio de casa, três vizinhas recordam quando souberam que “morreu o espanhol”, como muitos chamavam ao norte-americano que tinha passado por Andorra.

“Ele vinha ali ao pé de um restaurante que se chama Familiar, a dez minutos de casa, deu-lhe qualquer coisa e caiu no chão desamparado, parece que bateu com a cabeça”. Ainda tinha na mão a trela. Várias fontes consultadas pelo Observador confirmam que foi o próprio mordomo que tratou da cremação do norte-americano.

“Ele até estava bem de saúde”, mas com o avançar da idade terá dito ao mordomo que queria passar-lhe a casa e tudo o que a incluía, completa Frederico. “O M. L. disse-lhe que nem queria a casa, mas ele tanto teimou… Ele disse: ‘Oh M. L., se não ficas tu com a casa, quando eu morrer o Estado vem buscá-la’. Então [o mordomo] aceitou, mas ele não precisava nada, ele tem uma casa. O americano disse-lhe que podia ficar para os filhos de M. L.”, recorda, puxando a fita atrás para o momento em que o amigo, depois da morte do patrão, apareceu ali para cortar as árvores da entrada.

“Buscas muito prolongadas” surpreenderam vizinhos de norte-americano

À porta da vivenda na rua Luís de Camões, somam-se os jornalistas, se bem que num aparato bem inferior ao causado pelos inspetores envolvidos nas buscas ocorridas na semana passada e que se alongaram por vários dias. Atrás da fachada, e fruto das obras idealizadas pelo norte-americano, a casa esconde outro anexo que chega quase à zona do jardim que era, dantes, uma piscina. Dada a dimensão do material escondido naquela habitação, as “buscas foram muito prolongadas”, como confessou o diretor da PJ do Centro. “Foi um trabalho hercúleo” que não se restringiu apenas à casa do norte-americano, “por motivos óbvios”, mas também se prolongou “à casa do mordomo”, acrescentou Avelino Lima.

Reunidas entre as vedações das casas a discutir o que aconteceu, três vizinhas confessam que só viram “algumas carrinhas” que ocupavam grande parte da rotunda. “Perguntei o que se passava aqui, com tanto carro à porta”, recorda uma delas. Como não viram as identificações dos inspetores da PJ e só repararam no entra e sai de objetos que eram levados para um carro de porta aberta, disseram que “deviam ser mobílias para arrendar a casa do falecido [norte-americano]”.

“Era um homem bem feito, elegante, nunca imaginei que fosse ter em casa quadros do Picasso e do Miró e de outros que eu nem sei dizer o nome…”, desabafa uma vizinha que continua sem perceber como é que aquelas obras — cuja autenticidade ainda está a ser comprovada — foram parar à sua rua.

PJ acredita que origem das obras é ilícita e aponta norte-americano como possível branqueador

A alguns quilómetros dali, a equipa da PJ do Centro, dirigida por Avelino Lima, reúne esforços para seguir as poucas pistas sobre a vida deste norte-americano que, acredita, terá usado estas obras para branquear os ganhos de alguma atividade criminosa. “As informações que temos é que a origem das obras poderá não ser lícita, daí o branqueamento”, resume o responsável, a partir da sede de Coimbra, a escassos metros das Escadas Monumentais.

“É uma investigação de enorme complexidade e que levará o seu tempo para que não restem quaisquer dúvidas quanto à origem e ao destinatário das obras de arte”. Para já, e segundo apurou o Observador junto da Museus e Monumentos de Portugal, 15 obras já estariam prontas a serem vendidas para França.

“No presente caso, não houve qualquer denúncia, tendo sido identificada a irregularidade da situação a partir da comunicação prévia de expedição temporária com possibilidade de venda em França, de quinze bens artísticos, que deu entrada na MMP a 4 de março de 2025. Apresentando-se o processo mal instruído e com incongruências de propriedade dos bens, a Direção de Coleções, Circulação e Classificação aprofundou a investigação interna que habitualmente desenvolve em sede de apreciação processual, o que haveria de conduzir a informação duvidosa sobre os intervenientes”, resume a MMP em resposta ao Observador.

Ainda fora do mercado, mas com as obras prontas a serem enviadas para uma “conhecida leiloeira internacional”, a PJ entrou em campo para travar a transação. “A investigação resulta de um americano entretanto falecido que comprou aquela residência e decorou-a com belo gosto e com uma quantidade incrível de obras de arte”, explica Avelino Lima.

“O mordomo considerou ser o legítimo herdeiro das obras de arte e tentou vendê-las. A partir daí propunha-se uma ação imediata” para identificar a origem daquele património antes da sua venda. A investigação tenta perceber duas questões: se M. L. é, de facto, o herdeiro legítimo daquele espólio e, depois, se o próprio americano teve acesso às obras de forma legal — sobre este segundo ponto, segundo revelou a PJ, já existem alguns indícios que sustentam uma forte suspeita de que as obras tenham sido adquiridas de forma ilegal.

Sem desvendar o percurso do norte-americano ou um passado ligado ao crime, o diretor da PJ do Centro admite que há “uma grande possibilidade” de este homem pertencer a redes criminosas internacionais, “considerando alguns conhecimentos que temos do seu histórico aqui na Europa”. Com a certeza que, por ter morrido, não será, naturalmente, perseguido criminalmente, Avelino Lima revela “alguns indicadores” que o colocam como figura central no processo de branqueamento de capitais de “organizações internacionais”.

As suspeitas de ligações criminosas adensam-se por não ser conhecido qualquer percurso profissional do norte-americano. “Não temos conhecimento do exercício de uma atividade corrente”, destaca o diretor. Por outro lado, já “há um conhecimento significativo sobre o cidadão e a sua família, em princípio tem herdeiros”.

Dada a dimensão dos crimes que podem estar em causa, a PJ tem tido a colaboração de entidades como a Europol e a Interpol, que apoiam este trabalho “hercúleo” em mãos dos investigadores portugueses. “Esperamos que com o cruzamento de informação internacional possamos ter respostas mais breves, mas também estamos a falar de perícias que são demoradas, porque é uma quantidade enormíssima de obras”.

Para esse trabalho de peritagens, que permitirá perceber realmente a autenticidade das obras, a PJ conta com dois especialistas escolhidos pelo Museu Nacional de Machado de Castro, como revelou fonte do museu ao Observador. Como já tinha adiantado a mesma fonte ao Observador, os peritos têm confiança que estas obras são “genuínas”, mas só a “perícia formal” o determinará com toda a certeza,

“É muito prematuro eu afirmar o valor, as perícias vão ser determinantes a esse nível. Nós estamos a falar de autores consagrados, como é sobejamente conhecido, estamos a falar de obras de muita antiguidade, nunca poderemos para já avançar com um valor minimamente adequado. Mas estamos a falar de um valor, de uma forma simplista, na ordem dos milhões”, detalhou Avelino Lima. Para já, podem estar em causa os crimes de branqueamento de capitais e abuso de confiança, motivo pelo qual M. L. foi constituído arguido, ficando apenas com Termo de Identidade e Residência.

Levantada a hipótese de o mordomo não ter real noção do material que tinha em mãos, a PJ afasta essa teoria, recordando que o próprio procurou “tirar proveito económico” com a venda das obras e teria conhecimentos de um “círculo estritamente restrito que é o negócio da arte”. “Há um conjunto de poucas pessoas que têm acesso e domínio destas matérias e que em função deste domínio podem negociar isto”. No caso, M. L. “achou-se no direito [de lucrar com as obras]. Mas estamos em crer que ainda não terá vendido estas obras”.

A MMP esclarece ao Observador que continuará a colaborar com “o objetivo de traçar a proveniência dos bens culturais em causa”. “As competências e atribuições da MMP não se confundem com as da PJ; continuaremos a desenvolver, isso sim, estreita colaboração institucional e a prosseguir objetivos comuns no que concerne ao combate ao tráfico ilícito de bens culturais”. A lista final das obras apreendidas continua na posse da PJ.

A investigação “muito recente” — com uma “comunicação e uma atuação muito rápida” porque “havia riscos” — vai continuar à procura de eventuais cúmplices deste crime. Agora, resta esperar. Tanto da parte do mordomo — “não faz sentido avançar com iniciativas processuais sem termos um domínio mais adequado de toda a realidade” — como dos eventuais afetados com o desaparecimento das obras — “neste momento temos um trabalho pericial em curso, depois há que procurar junto de museus ou colecionadores particulares. Haverá um momento para isso, admito que com esta publicitação, quer museus, quer coleções privadas possam comunicar com a PJ”, remata Avelino Lima.

Enquanto em Coimbra a PJ investiga, os vizinhos do falecido americano desdobram-se em questões sobre o património — agora à guarda da polícia — que tiveram ali tão perto durante tanto tempo, mas sob segredo. “Tenho quadros, mas não têm valor… ou têm, mas é valor sentimental, dos meus filhos e do meu marido. Mas os outros [do americano] não era só valor sentimental”, assinala outra vizinha. “Por isso é que eu digo que a transparência vale muito. Na minha casa podem entrar que não tem nada para ver.”