O 25 de Abril não pertence à esquerda. Esta frase, que devia ser banal, continua a parecer uma provocação. A polémica em torno das comemorações municipais de Lisboa e do Museu do 25 de Abril mostrou, mais uma vez, que há quem aceite que Abril seja celebrado por todos, desde que todos o celebrem segundo o mesmo guião. Ora, o 25 de Abril não precisa de tutela.
A petição dirigida a Carlos Moedas foi uma iniciativa cívica, subscrita sobretudo por pessoas ligadas ao meio cultural e artístico. No seu conteúdo, não se limita a lamentar a ausência do tradicional concerto na noite de 24 para 25. Vai mais longe. Fala num 25 de Abril “esbatido, diluído, quase ausente”, acusa a Câmara de Lisboa de transformar a data numa vaga festa de sagração da Primavera e conclui que o alegado esquecimento é uma forma de apagamento.
Há nesta reacção um fervor quase religioso. Como se a alteração de uma programação, de um símbolo ou de uma linguagem equivalesse à profanação de um feriado sagrado. O problema não está em defender a importância do 25 de Abril, que é evidente. Está em querer transformar o Estado, a Câmara e a programação pública em executores obrigatórios de uma ortodoxia comemorativa. O que aqui está em causa não é a exigência de que cada cidadão desfile na Avenida ou que acompanhe o arranque da chaimite; é a suspeita lançada sobre qualquer autoridade pública que não cumpra a liturgia esperada. Como se Abril fosse um ritual intocável. Não é. E ainda bem.
Tem razão quem, como o executivo PSD-CDS-IL, vê nesta petição um ataque político. A acusação não é apenas a de que a programação podia ser melhor, mais ampla ou mais fiel à data. É a de que Lisboa estaria a desvalorizar Abril e a insinuar o seu esquecimento. Ou seja, transforma-se uma discussão sobre escolhas municipais numa suspeita moral sobre a relação de quem governa com a democracia.
Ora, uma democracia madura deve saber celebrar a sua memória sem a entregar a uma só família política. O 25 de Abril, repita-se, não pertence à esquerda. Não pertence à Associação 25 de Abril, aos seus capitães sobreviventes, aos programadores culturais ou aos abaixo-assinados indignados. Não pertence a ninguém, e é por isso que pertence a todos, incluindo os que o celebram de outro modo ou os que não o celebram de todo.
Esta esquerda, ironicamente, é exactamente a mesma que mostra pouca disponibilidade para enfrentar os novos problemas da liberdade: a segurança nas cidades, a integração da imigração, a pressão sobre a classe média, a fragilidade de comunidades concretas, a solidão social, o medo quotidiano. Tudo isto diz respeito à liberdade. Tudo isto pesa sobre a vida real das pessoas. Mas é mais fácil vigiar programações e quem não usa cravo vermelho.
O caso do Museu do 25 de Abril obedece à mesma lógica. Apresentado no espaço público como mais um sintoma de desvalorização da memória democrática, o impasse é, afinal, menos edificante para quem o denuncia. Senão vejamos. O protocolo foi assinado em Janeiro de 2024, já com o governo de António Costa em gestão. Envolveu o Estado, a Câmara de Lisboa, a Associação 25 de Abril e a Associação de Turismo de Lisboa. Previa-se um adiantamento de cerca de 10% à Associação 25 de Abril, mas esse pagamento dependia do cumprimento de condições previstas no próprio protocolo, que a Associação não terá cumprido, incluindo a integração do Centro de Comando do MFA na Pontinha no projecto museológico.
A história da vítima abandonada pelo poder político fica, assim, bastante menos limpa. A Associação 25 de Abril não parece ter sido vítima de uma conspiração do XXV Governo Constitucional contra a memória; foi, antes, vítima da sua própria letargia, muito mais diligente na queixa pública do que no cumprimento das obrigações assumidas.
Celebrar o 25 de Abril é justo. Impor uma forma única de o celebrar é que já não é liberdade. Uma democracia madura não precisa de catecismos. Precisa de memória, sim. Mas precisa também de confiança nos cidadãos. Até nos que não desfilam pela Avenida. Até nos que não assinaram a petição. Até, imagine-se, nos que fazem luto nesse dia. O 25 de Abril, graças a Deus, ainda é suficientemente grande para que todos caibamos lá dentro.