Desde que assumiu funções enquanto Presidente dos EUA, Donald Trump ainda não marcou presença no histórico Jantar dos Correspondentes da Casa Branca, evento que este ano está agendado para este sábado, 25 de abril. O evento junta jornalistas e políticos num hotel luxuoso de Washington D.C. há 105 anos, com o objetivo de celebrar a liberdade de imprensa consagrada na Primeira Emenda da Constituição americana. Apesar das várias ações contra os meios de comunicação, que Trump já chamou de “inimigos do povo”, a presença do chefe de estado é esperada nesta edição da cerimónia organizada pela Associação de Correspondentes da Casa Branca. Ao contrário do que já é habitual desde 1983, o anfitrião do jantar não será um comediante, mas o mágico e mentalista vencedor de Emmy, Oz Pearlman. Mas qual é a história do Jantar de Correspondentes?
Os primeiros anos
Ano da Conferência de Paris, a locomotiva de 1921 começava a ganhar velocidade, à medida que as sequelas da Primeira Guerra Mundial saravam em vários cantos do mundo. Na Europa, Albert Einstein ganhava o prémio Nobel e Adolf Hitler tornava-se líder do partido Nazi, enquanto na Ásia surgia o Partido Comunista Chinês. Separado por um oceano do conflito de trincheiras, os EUA afirmavam-se como potência mundial e um novo presidente inaugurava o mandato na Casa Branca.
Sucessor de Woodrow Wilson, Warren G. Harding foi considerado por muitos “o pior presidente americano” de que há memória, pelos escândalos em que esteve envolvido, desde casos extraconjugais a suspeitas de corrupção. O novo (e único) mandato — morreu de ataque cardíaco dois anos mais tarde — significou um maior desafogo para os jornalistas que faziam a cobertura da Casa Branca, e que puderam de novo participar em conferências de imprensa regulares, após vários anos de proibição imposta pelo antigo líder.
Wilson tinha uma relação conturbada com os jornalistas e chegou a reclamar de “certos jornais vespertinos”, que citavam declarações supostamente confidenciais. A fim de protegerem os seus direitos e organizarem as ações de cobertura da atividade presidencial, o corpo de repórteres visados fundou a Associação de Correspondentes da Casa Branca (WHCA na sigla original), em 1914. A primeira iniciativa da organização foi certificar-se de que todos aqueles que assistiam às conferências de imprensa eram acreditados. Contudo, o serviço que prestava deixou de se justificar e foi interrompido quando, em 1915, o Presidente deixou de falar para os jornalistas.
Diferente do seu antecessor, Harding fora jornalista antes de ser eleito — função que, ao contrário da executiva, desempenhou com enorme brilhantismo — e uma das primeiras ações presidenciais que tomou foi a organização de um jantar em homenagem aos repórteres que o seguiram durante a campanha no estado do Ohio. A melhoria das relações entre a imprensa e o gabinete do Presidente deu novo ânimo à moribunda Associação de Correspondentes da Casa Branca, que no dia 7 de maio de 1921 (apenas 64 dias após a tomada de posse do republicano) começou a tradição do jantar. O evento juntou 50 homens — número muito inferior aos atuais 2.600 convidados —, no Hotel Arlington, situado a um quarteirão da residência oficial de Harding.

Apesar de catalisar o evento, o chefe de estado não compareceu em nenhuma das edições que antecederem a sua morte. Contudo, foram vários os funcionários da Casa Branca que se tornaram presenças recorrentes, sendo o convidado de honra da primeira cerimónia o secretário pessoal do Presidente, George B. Christian — que lidava com a imprensa quotidianamente —, além de senadores importantes na época. Segundo um dos participantes, o jantar “foi tão divertido quanto a Era da Proibição permitia”, referindo-se à Lei Seca em vigor nos EUA entre 1920 e 1933. Na página online da WHCA, consta que os intervenientes cantaram músicas satíricas à volta do piano, com letras que faziam pouco da Casa Branca e do Congresso.
A tradição musical e artística do jantar foi recorrente ao longo da sua história, solidificada a partir de 1983, quando se tornou num evento recheado de celebridades e estrelas de Hollywood. Até lá, contou com performances de Frank Sinatra, Duke Ellington, Nat King Cole ou Barbra Streisand — para além de inúmeros dançarinos, cómicos, atores, cineastas, mágicos, ventríloquos, grupos corais, entre outros. 1924 foi o ano que determinou o prestígio duradouro do evento, quando o sucessor de Harding, Calvin Coolidge, honrou pela primeira vez o jantar com a sua presença, hábito continuado por todos os presidentes desde então — à exceção de Donald Trump.
Uma cerimónia anual muito antecipada pelas elites de Washington D.C. — conhecido como nerd prom ou baile de finalistas nerd —, apenas foi cancelada em três instâncias excecionais: após a morte do anterior presidente William Howard Taft, em 1930; por ocasião da entrada do país na Segunda Guerra, em 1942; e por aquilo a que o então chefe de estado, Harry S. Truman, apelidou de “incerteza da situação mundial”, motivada pela Guerra da Coreia. Desde a primeira edição, assumiu proporções mais megalómanas e um objetivo propriamente filantrópico: os quase 3.000 participantes anuais, que pagam 350 dólares (297 euros) por lugar, contribuem para o financiamento de bolsas de estudo, atribuídas a jornalistas aspirantes, e apoiam as atividades normais da associação.
Lutas sociais, faltas de presença e anedotas
O ingresso de pessoas afro-americanas no evento não foi permitido até à década de 1950, uma proibição que estava em linha com o facto de a WHCA não estar aberta a jornalistas de cor, que, por esse motivo, também não podiam participar nas conferências de imprensa da Casa Branca. O repórter Harry McAlpin teve um papel determinante no esforço de modernizar a associação, após ser o primeiro repórter negro a comparecer numa conferência de imprensa do Presidente em funções, em 1944.
Franklin D. Roosevelt ocupava o cargo no mês de fevereiro desse ano, em que convidou 13 representantes da Associação Nacional de Editores Negros para visitar a sua residência oficial. Três dias mais tarde, McAlpin fincava o pé na Sala Oval do edifício, apesar da recusa do secretário de Roosevelt de o introduzir ao Presidente. Obstinado, o jornalista decidiu avançar sem permissão e foi recompensado com um aperto de mão do chefe de estado, que ainda lhe disse, citado pelo The Guardian: “Fico feliz de vê-lo, McAlpin, e muito contente por tê-lo aqui”.
A partir desse momento, o desobediente passou a ser jornalista residente da Casa Branca, apesar de nunca se ter inscrito na WHCA. No centésimo aniversário da associação, celebrado em 2014, os correspondentes homenagearam o seu legado diante de Barack Obama, então no poder. McAlpin deu ainda nome a uma bolsa de estudo destinada a jornalistas promissores.
As mulheres não tiveram a mesma sorte, tendo sido impossibilitadas de marcar presença no jantar até 1962. Foi Helen Thomas, a primeira repórter do género feminino na Casa Branca, quem desafiou o status quo, beneficiando da sua influência junto de John F. Kennedy. O Presidente pressionou a associação, ameaçando boicotar o jantar se as regras não fossem alteradas, pelo que a WHCA não teve outra alternativa senão ceder.

Tendo testemunhado muitos mandatos presidenciais desde a sua fundação, a associação de correspondentes não manteve relações amistosas com todos os eleitos, como demonstraram os casos de Wilson e do atual líder do país, Donald Trump. Também Nixon mostrou alguma animosidade para com os jornalistas, a quem chamou de “inimigos”, durante a sua passagem pela Casa Branca. Protagonista de uma série de escândalos — sendo o mais memorável o caso Watergate, que culminou com a sua resignação —, o republicano falhou dois jantares, em 1972 e 1974. Também Ronald Reagan foi obrigado a faltar em 1981, mas por motivos bem diferentes: um mês antes, fora vítima de uma tentativa de homicídio, da qual recuperava e que não o impediu de contar uma piada aos convidados por chamada telefónica, a partir da cama de hospital.
Mas o bom-humor do evento não se circunscrevia ao chefe de estado e, em 1983, tornou-se regra o jantar receber como anfitrião um comediante, encarregado de fazer roast (ou gozar, numa tradução aproximada para português) com a Casa Branca e com os seus representantes. Normalmente, o Presidente abre a cerimónia com um discurso de tom humorístico, que é depois levado ao extremo pelo animador da noite, papel já desempenhado por alguns dos nomes mais reconhecidos do entretenimento americano.
Mark Russel inaugurou a tradição, mas não foi o primeiro cómico a honrar o evento com a sua performance. Antes disso, outros stand-up comedians, como o britânico Peter Sellers, Richard Pryor, George Carlin e Chevy Chase já haviam atuado defronte dos convidados da WHCA. A edição de 1983 foi apenas a cristalização dessa tendência, incentivada por Ronald Reagan, que fora ator de Hollywood antes de pertencer ao executivo. Desde esse ano, tomaram o microfone Jay Leno, Conan O’Brien, Stephen Colbert, Seth Meyers, Jimmy Kimmel, Trevor Noah e muitos mais nomes de proa na comédia americana, que imortalizaram momentos emblemáticos e que perduram na memória do país.
https://www.youtube.com/watch?v=u5DpKjlgoP4
Recordem-se as várias imitações de George W. Bush postas em cena pelo comediante Steve Bridges, cuja semelhança com o Presidente é inquietante — e que também visaram o seu pai, o Presidente com o mesmo apelido nas edições de 1989 e 1990. Ou o tradutor de raiva do impassível Barack Obama, que interpretou o subtexto do discurso presidencial com exagero e indignação.
O Bush filho também protagonizou uma cena que muitos dos espetadores consideraram de mau gosto, quando, em 2004, brincou com a invasão do Iraque. “As armas de destruição maciça têm de estar nalgum lado”, disse, fazendo referência àquilo que espoletou o conflito armado, e que depois se veio a provar ser falso. “Não, nada aqui… talvez aqui debaixo.”, disse, enquanto procurava nos móveis à sua volta. Dois anos mais tarde, contudo, Stephen Colbert assumiu uma postura extremamente crítica em relação ao Presidente e aos jornalistas, que acusou de serem cúmplices da invasão do país localizado no Médio Oriente.
https://www.youtube.com/watch?v=6OQAHcB72dg
Em 2011, Seth Meyers e Barack Obama fizeram pouco do então convidado Donald Trump, por ser o principal embaixador do movimento birther, uma conspiração que pôs em causa a nacionalidade do candidato Obama. “Certamente [Trump] traria muitas mudanças à Casa Branca”, brincou o Presidente, que projetou uma imagem artificial do edifício residencial tornado hotel, casino e campo de golfe, com neons e mulheres em vestes menores, tudo coroado com o apelido Trump em letras garrafais.
O consultor político do atual Presidente, Roger Stone, disse à PBS que o momento de humilhação foi o gatilho para a candidatura do republicano à presidência, ainda que o próprio já tenha desvalorizado essa teoria. Independentemente daquilo que conduziu à decisão, é justo acreditar que o incidente melindrou Trump, que afirmou antes de ser eleito pela primeira vez: “Muitas pessoas se riram de mim ao longo dos anos. Agora já não riem tanto.”
https://www.youtube.com/watch?v=HHckZCxdRkA
Trump e as críticas ao jantar
A relação entre Donald Trump e os media foi atribulada desde o seu primeiro mandato na Casa Branca. O Presidente em funções já tentou impossibilitar a cobertura da agenda presidencial pelo canal noticioso Associated Press, após a recusa dos respetivos jornalistas de chamar Golfo da América ao Golfo do México; retirou 500 milhões de dólares (427 milhões de euros) de financiamento ao sistema que garante o acesso a jornalismo de qualidade e programação cultural diversificada; pressionou o serviço público de radiodifusão americano (Voice of America) a demitir 1.300 jornalistas e ainda favoreceu a decisão de Peter Hegseth de anular os passes de imprensa aos repórteres do Pentágono que se recusassem a fazer-lhe um juramento de lealdade.
Apesar de tudo, Trump admitiu: “Adoro a Primeira Emenda; ninguém a adora mais do que eu. Ninguém”, referindo-se ao tópico da Constituição americana que legisla a liberdade de expressão e de imprensa. Acrescentou no mesmo discurso proferido na Conferência de Ação Política Conservadora de 2017: “Como viram durante toda a campanha, e até agora, as fake news não dizem a verdade. Eu digo que não representam as pessoas e [a administração Trump] vai fazer alguma coisa a esse respeito.”
Auto-proclamado defensor da liberdade de imprensa, o Presidente ainda não demonstrou querer concretizar esse propósito na prática, e, do mesmo modo, nunca compareceu à cerimónia mais importante de celebração da Primeira Emenda nos EUA. A recusa do primeiro convite que lhe foi dirigido na qualidade de Presidente surgiu através de uma publicação no Twitter (atual X) — numa altura em que Trump ainda não havia migrado para a Truth Social, a rede social que fundou. O anúncio surgiu após ter proibido vários órgãos de comunicação social de estarem presentes num briefing no seu gabinete, e no seguimento de um boicote ao evento levado a cabo pela CNN e outros canais noticiosos.
https://twitter.com/realDonaldTrump/status/835608648625836032
A ausência do chefe de estado não pôs termo à celebração anual, e o jantar decorreu como sempre, com uma comediante em cima do palco — neste caso Michelle Wolf, que não poupou nas críticas a Trump. A cerimónia de 2020 foi cancelada devido à pandemia, tendo sido retomada já durante o mandato de Joe Biden, em 2022, com alguma normalidade e o humorista Trevor Noah no microfone.
https://www.youtube.com/watch?v=DDbx1uArVOM
De volta à Casa Branca em 2025, Trump voltou a falhar o Jantar de Correspondentes para o qual foi convidado, realizado no dia 26 de abril desse ano. Apesar disso, a WHCA anulou o convite efetuado a Amber Ruffin, quando a comediante contratada para atuar no evento se recusou a escrever um monólogo equilibrado sobre a atualidade política do país.
“Achava que, quando uma pessoa rouba os teus direitos, apaga a tua história e deporta os teus amigos, devias denunciar isso. Mas estava errada”, admitiu a humorista que já havia chamado a Trump e à sua administração um “bando de assassinos”. “Se há algo que aprendi neste fim de semana é que tens de ser justa com ambos os lados”, disse Ruffin, com grande sarcasmo, no late-night show de Seth Meyers.
Em resposta à polémica, o presidente da associação, Eugene Daniels, publicou uma nota de imprensa em que desvalorizou o foco em “políticas de divisão”, dizendo ter como prioridade “premiar os colegas pelo trabalho excecional e providenciar bolsas de estudo e mentoria à próxima geração de jornalistas”. Daniels também reforçou o compromisso com a causa defendida pela associação sem fins lucrativos, numa referência indireta ao alegado favorecimento à administração Trump: “Não convidamos presidentes dos EUA para o evento porque é para eles, não os convidamos porque queremos aproximar-nos deles e ganhar a sua simpatia (e) não estendemos convites apenas aos presidentes que dizem amar os jornalistas ou que afirmam defender a Primeira Emenda e a imprensa livre. Convidamo-los para lhes relembrar de que deviam fazê-lo.”
Parece que após várias recusas, Donald Trump deverá finalmente aparecer no jantar, como anunciou através do seu perfil na Truth Social: “Estes ‘correspondentes’ agora admitem que eu sou realmente um dos melhores presidentes da história do nosso país, o G.O.A.T [Greatest Of All Time], de acordo com muitos, será uma honra aceitar o convite, e trabalhar para que seja o maior, melhor e mais espetacular jantar de todos os tempos!”
A cerimónia está agendada para este domingo, 25 de abril, no hotel Washington Hilton e, como da última vez, não será apresentado por um comediante. O anfitrião desta edição é o mágico e mentalista Oz Pearlman, que se celebrizou no programa America’s Got Talent, onde impressionou os jurados com a sua capacidade de ler mentes. Entretanto, tornou-se num autor bestseller, recebeu um Emmy e foi capa do The New York Times por correr 116 milhas (187 quilómetros) à volta do Central Park num só dia — iniciativa destinada a angariar dinheiro para caridade. “Oz Pearlman vai oferecer um vislumbre fascinante daquilo que realmente ocupa as mentes dos produtores de notícias de Washington”, declarou a atual presidente da WHCA, Waijia Jiang.
https://www.youtube.com/watch?v=h3M00JI8Iwo&pp=ygUMb3ogcGVhcmxtYW4g
Apesar do entusiasmo da Associação de Correspondentes, é impossível ignorar que a presença do presidente no jantar atraiu muitas críticas. “A única coisa mais insultuosa para a imprensa do que Trump não ir [ao jantar] é Trump ir”, afirmou a jornalista Kelly McBride, num artigo de opinião publicado no jornal do Instituto Poynter. “Com um presidente gracioso que dominava a arte da autocrítica era fácil admitir que toda gente via o jantar como mera diversão e jogos”, continuou, mas não “em tempos de guerra, desastre e dificuldades económicas, quando põe os jornalistas na mesma classe confortável daqueles que, por causa de dinheiro e conexões, conseguem esquivar-se às realidades difíceis da vida enfrentada pelas massas.”
A WHCD é sucessivamente criticada por promover um ambiente de proximidade e amizade entre os correspondentes da Casa Branca e a respetiva administração, isto é, a classe que escrutina e aquela que é escrutinada. Depois do jantar de 2007, o colunista do The New York Times, Frank Rich, afirmou que o jornal não voltaria a participar no evento — que declarou ser “uma cristalização dos falhanços da imprensa na era pós-11 de setembro” por ilustrar o envolvimento dos canais de media numa Casa Branca “impulsionada pela propaganda”. “Este é literalmente o caso no jantar anual, no qual os jornalistas servem de mero elenco coadjuvante, mas é uma realidade que se verifica durante todo o ano.”
Para além disso, os jantares atraem cada vez mais atenções pela lista de convidados célebres e de Hollywood, o que ensombra o seu real propósito: “anunciar os vencedores de prémios, apresentar bolsas de estudo e dar à imprensa e ao presidente um serão de relações amistosas.” Esta realidade torna-se mais evidente à medida que aumenta o número de festas organizadas por grupos de media antes e após o jantar propriamente dito, as quais conseguem ser ainda mais exclusivas do que o evento.
Apesar de tudo, os argumentos contra o Jantar dos Correspondentes não parecem ser suficientemente persuasivos para dissuadir os participantes. A presença de Donald Trump agitou as águas, mas os 2.600 bilhetes disponíveis já foram vendidos, sem que se verificasse uma ação de boicote significativa.