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John Ternus, um “homem de produto” perfecionista que está há anos a ser treinado para liderar a Apple

Descontraído, discreto e com um perfil de gestão próximo do de Tim Cook. John Ternus, que trabalha há 25 anos na Apple, foi o escolhido para liderar uma das tecnológicas mais valiosas do mundo.

Cátia Rocha
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“A mente de um engenheiro, a alma de um inovador e coração para liderar com integridade e honra.” As palavras foram escolhidas a dedo por Tim Cook para descrever John Ternus, nomeado para ser o próximo líder da Apple.

A 1 de setembro, John Ternus, o atual vice-presidente sénior de engenharia de hardware da Apple, assumirá o posto de CEO. Tim Cook não cortará por completo a ligação à empresa, já que passará a ser chairman do conselho de administração.

A notícia da mudança não foi uma completa surpresa. Desde que Tim Cook fez 65 anos, em novembro de 2025, que se fala em sucessão. As teorias sobre a passagem à reforma de Cook ganharam ainda mais força com a saída de vários executivos nos últimos meses. E, regra geral, sempre que havia listas de possíveis sucessores, John Ternus figurava no topo.

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Ternus, que completa 51 anos em maio, terá a mesma idade que Tim Cook tinha quando foi nomeado CEO em 2011. Mesmo sendo o executivo mais jovem do topo da hierarquia da Apple, Ternus é um veterano da Apple. Ingressou na empresa em 2001 e foi escalando posições, graças a um perfil de “perfecionismo” em relação aos produtos e de atenção ao detalhe, descreve a Reuters.

Com 25 anos de Apple, que completará em julho, tem a vantagem de ter coexistido com os dois últimos CEO da Apple: a era de visão e arrojo de Steve Jobs e a expansão do império e a multiplicação de lucros sob a batuta de Tim Cook. A sua nomeação confirma ainda várias apostas. Primeiro, a de que a Apple daria prioridade a uma escolha interna e que, ao escolher alguém com cerca de 50 anos, se espera uma liderança com longevidade e estabilidade, à semelhança da de Cook que faz cerca de 15 anos no topo da empresa. Ao ter vindo a ganhar destaque nas apresentações e eventos públicos da empresa, percebe-se que Ternus estava a ser preparado há anos para o posto — e à vista de todos.

John Ternus vai ser o oitavo CEO da Apple

A 1 de setembro de 2026, John Ternus será o oitavo CEO da Apple, uma empresa com 50 anos. Até agora, foi Tim Cook a ter o mandato mais longo, atingindo 15 anos.

O primeiro CEO da Apple foi Michael Scott, que liderou a empresa nos primeiros anos. A dupla Steve Jobs e Steve Wozniak era bastante jovem e, em 1977, Scott foi contratado para ser o “adulto na sala”. Na altura, já tinha passado por empresas como a Fairchild Semiconductor e a National Semiconductor.

Abandonou o cargo em 1981, para dar lugar a Mike Markkula. O primeiro investidor anjo (alguém que investe com capital próprio numa empresa em fase inicial) e chairman da Apple. Esteve até 1983 na empresa. O New York Times refere que não era fã de atenção, preferindo concentrar-se nos produtos.

O terceiro CEO foi John Sculley, entre 1983 e 1993, um executivo que chegou à Apple depois de trabalhar na Pepsi. Focado em marketing, fez crescer o património da tecnológica. Mas também quem contribuiu para o afastamento de Steve Jobs da empresa, em 1985.

Os anos de turbulência da Apple, que ocuparam uma boa parte da década de 90, tiveram os mandatos mais curtos. Em 1993, Michael Spindler, até então diretor de operações, foi promovido a CEO. A Apple foi perdendo quota de mercado e frustrando os utilizadores até 1996, quando Spindler foi despedido.

Seguiu-se Gil Amelio, o presidente da National Semiconductor e membro do conselho de administração da Apple. O executivo entrou em cena para tentar salvar a Apple da falência, ao cortar custos e descontinuar projetos. Foi também Amelio quem comprou a NeXT, a startup fundada por Steve Jobs.

Em 1997, Jobs foi o sexto CEO, regressando à empresa que criou. É um dos períodos áureos de inovação para a empresa, através do lançamento do iMac, do iPod e, claro, do iPhone — até hoje o maior motor de receitas da empresa. Jobs também esteve diretamente envolvido no projeto do iPad.

Steve Jobs morreu em 2011 e Tim Cook foi o escolhido para sucessor. Nos 15 anos à frente da Apple, lançou produtos que se tornaram sucessos de mercado, como o Apple Watch ou os AirPods. É também o responsável pelo crescimento do valor da Apple em bolsa até à marca dos quatro biliões de dólares.

Um ex-nadador universitário com um temperamento “equilibrado” e próximo de Cook

O novo CEO da Apple cresceu na Califórnia. Mas, quando chegou a hora de escolher uma universidade, mudou-se para o outro lado do país, para o frio da Pensilvânia. Entre 1993 e 1997, estudou Engenharia Mecânica na Universidade da Pensilvânia, uma instituição de ensino da prestigiada Ivy League.

Conjugou os estudos com os feitos na equipa de natação universitária. Em fevereiro de 1994, ainda caloiro, venceu as provas de 50 metros livres e 200 metros estilos, de acordo com a imprensa local. No percurso universitário foram várias as medalhas conquistadas em provas de natação.

No projeto de fim de curso criou um dispositivo para permitir que pessoas tetraplégicas usassem movimentos com a cabeça para controlar um braço mecânico que ajudasse com a alimentação, segundo um perfil do New York Times (NYT), publicado em janeiro deste ano, quando ganharam força as teorias de Ternus poder ser o próximo CEO da Apple.

Logo após a universidade, continuou a trabalhar em headsets, mas com um propósito diferente. Juntou-se à startup Virtual Research Systems. Foram os primeiros passos como engenheiro mecânico naquela que foi uma das primeiras empresas da vaga de realidade virtual da década de 90. Durante os quatro anos na Virtual Research Systems teve o primeiro contacto com ecrãs e interfaces entre humanos e computadores.

É descrito como alguém com “muitas das características de gestão de Tim Cook”, como a atenção ao detalhe ou o “temperamento equilibrado”. E, acima de tudo, a capacidade para lidar com a burocracia de gerir uma das big tech sem levantar grandes ondas.

Em 2024, a Bloomberg já o apontava como uma possível escolha para CEO. “Tim [Cook] gosta muito dele, porque consegue fazer uma boa apresentação, é muito tranquilo, nunca coloca nada que seja controverso num email e é uma pessoa muito reservada no que toca a decisões”, contou uma fonte próxima da equipa executiva.

“É um tipo simpático”, revelou há alguns meses ao NYT Cameron Rogers, que trabalhou na equipa de gestão de produto e software da Apple entre 2005 e 2022. “É alguém com quem se quer passar tempo. Toda a gente gosta dele porque é excelente”, realçou. Mas também sublinhou uma incógnita. “Já tomou decisões difíceis? Não. Há problemas grandes que tenha resolvido no hardware? Não.”

Outros asseguram que Ternus tem um conhecimento da cadeia logística da empresa e um conhecimento de muitos dos produtos e operações globais da Apple, que lhe poderá ser vantajoso.

“Acho que é muito bom no que faz e um tipo decente”, disse em maio de 2024 à Bloomberg um antigo vice-presidente de engenharia de hardware que trabalhou diretamente com Ternus. “Não é algo que se possa dizer sobre todos os executivos [da Apple], muitos deles querem mais ou menos imitar Steve Jobs.”

Aliás, num discurso na Universidade da Pensilvânia, em 2024, John Ternus aconselhou uma nova fornada de engenheiros a atingir o equilíbrio entre a confiança e a humildade. “Partam sempre do princípio de que são tão inteligentes quanto as outras pessoas que estão na sala, mas nunca partam do princípio de que sabem tanto quanto elas.”

John Ternus mantém a vida pessoal afastada dos holofotes. Usa uma aliança, mas não há informação sobre casamento ou filhos. É discreto e não tem perfis públicos em redes sociais, tirando o LinkedIn. E, mesmo aí, não é um utilizador ativo: nunca fez publicações e tem apenas informações básicas, como a universidade e as duas únicas experiências de trabalho. Surge habitualmente em apresentações e entrevistas com a ‘farda’ descontraída de Silicon Valley: uma t-shirt escura, calças de ganga e ténis.

Depois de um homem de negócios, o regresso à liderança de um homem de produto

Praticamente metade da vida de Ternus foi passada a trabalhar na Apple. Chegou à empresa em julho de 2001, numa altura de entusiasmo para a tecnológica. Steve Jobs já tinha recuperado a relevância da companhia após o lançamento do iMac, e ainda tinha mais truques na manga. Como o iPod, lançado em outubro, apenas alguns meses depois de o futuro CEO chegar.

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Ternus começou como engenheiro júnior da equipa de design de produto, uma função demasiado inicial para implicar um contacto direto e recorrente com Steve Jobs. Ainda assim, numa entrevista recente ao Tom’s Guide, tinha uma história para contar sobre o criador da empresa. Um dia, viu Steve Jobs a “mexer em mobília, uma cómoda de gavetas, que afastou da parede”. “Olhou para a parte de trás e estava apenas a refletir como o carpinteiro a tinha feito bonita, mesmo a parte de trás, ainda que ninguém a visse. Penso nisso muitas vezes porque acho que representa perfeitamente o que fazemos.”

Um dos primeiros trabalhos de Ternus passava justamente por garantir a qualidade de algo que ninguém ia ver. Tinha de escrutinar as peças internas para os monitores externos para o Mac, os Cinema Display. É daí que vem a atenção ao detalhe e o “perfecionismo” que lhe é apontado em vários perfis. Steve Siefert, que foi o seu primeiro chefe na Apple, relatou ao New York Times que Ternus foi promovido após três anos na empresa, mas recusou mudar-se para um escritório próprio, insistindo que preferia continuar a sentar-se perto da sua equipa. Descreveu-o como “um homem do povo”. 

Segundo o próprio, teve dúvidas se ia conseguir integrar-se na Apple. Num discurso na Universidade da Pensilvânia, em 2024, perante uma nova fornada de engenheiros, confessou que o seu primeiro dia na empresa foi “estimulante e intimidante, tudo ao mesmo tempo”. “Não tinha a certeza se o meu lugar era ali”, confessou. “As pessoas que conheci eram tão inteligentes e confiantes.”

O histórico mostra que estava errado, como nota um perfil da Fortune. Em 2013, foi novamente promovido, passando a ostentar o título de vice-presidente de engenharia de hardware. “É um visionário cujos contributos para a Apple ao longo de 25 anos são já incontáveis, e é, sem dúvida, a pessoa certa para conduzir a Apple rumo ao futuro”, realçou Tim Cook no comunicado da nomeação de Ternus.

Os anos passaram e aquele que será o próximo CEO da Apple foi ganhando responsabilidades na Apple. “Tenho tido a sorte de ter trabalhado em praticamente todos os tipos de produtos que fazemos”, disse Ternus numa entrevista à CNBC, em dezembro de 2023. Já supervisionou vários lançamentos de produto, do iPad aos AirPods, mais as gerações de iPhone, Mac e também o Apple Watch.

Coube-lhe em 2018 revelar, numa apresentação, os iPad Pro. Um ano mais tarde, foi apresentar os Mac Pro redesenhados em 2019. Foi também o responsável pela comunicação do Apple Silicon, quando a Apple passou a desenvolver os seus próprios chips para os computadores Mac, uma viragem que permitiu à Apple ganhar independência nos semicondutores e passar a controlar ainda mais os seus produtos.

Em 2021, Ternus voltou a ser promovido, acrescentando a palavra sénior ao cargo de vice-presidente de engenharia de hardware. E ganhou um lugar à mesa da equipa de executivos principais da empresa. No ano passado, destacou-se ao apresentar o iPhone Air, o iPhone “impossivelmente fino”. Um equipamento que, como notaram alguns especialistas, seria um teste de engenharia para a Apple trabalhar no seu smartphone dobrável, que, segundo os rumores da indústria, estará a preparar-se para anunciar ainda este ano.

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Se o iPhone Air teve uma receção tépida, outros produtos sob a alçada da equipa liderada por Ternus, como os Vision Pro, foram mesmo considerados flops. Mas Jobs também não acertou em todos.

Há alguns meses, por ocasião do lançamento do iPhone 17, foi o escolhido para conhecer a equipa da loja de Regent Street, em Londres. Analisando o Instagram de Deirdre O’Brien, a diretora de retalho da Apple mostra como essa é uma presença habitualmente reservada a Tim Cook até esse momento. Mais um sinal de que a sucessão estava a ser preparada.

Ganhar espaço na IA será o principal desafio do novo CEO

John Ternus terá menos de cinco meses para se preparar para estar à frente de um império como a Apple. Além do desafio de suceder ao homem de negócios Tim Cook, tem várias questões para resolver.

O principal? Tentar recuperar o espaço da Apple na inteligência artificial (IA), numa altura de concorrência de nomes como a Google, OpenAI ou a Anthropic. Conforme realçou Francisco Jerónimo, vice-presidente de dados e analítica da IDC EMA, numa nota logo após o anúncio da Apple, “a próxima década da empresa será menos definida pela perfeição de hardware, que Ternus claramente percebe, e mais sobre se a empresa consegue construir uma plataforma de IA forte e uma estratégia de ecossistema antes de os rivais consolidarem as suas posições”.

Embora destacasse a “credibilidade técnica” de Ternus, interroga se o executivo é talhado “para as decisões ousadas e ocasionalmente desconfortáveis que criar uma plataforma exige”.

Além disso, Ternus também terá de lidar com a incerteza geopolítica e até navegar os humores de Donald Trump em relação às tarifas. É que, no passado, o Presidente dos EUA pressionou a Apple, ameaçando impor uma tarifa de “pelo menos 25%” se a empresa não transferisse a produção do iPhone para os EUA. Na despedida, Tim Cook mereceu um longo elogio de Donald Trump na Truth Social. Fica por saber o que o líder da Casa Branca tem a dizer sobre a figura central de Cupertino a partir de setembro.