A história começou como tantas outras em Silicon Valley. Em maio de 2015, Sam Altman enviou um e-mail a Elon Musk com a proposta ambiciosa de criar o “projeto Manhattan para a Inteligência Artificial” sem fins lucrativos. A ideia passava por fundar um laboratório de investigação capaz de desenvolver uma inteligência artificial poderosa e que fosse partilhada com o mundo. O dono da Tesla respondeu no próprio dia: “Provavelmente valerá a pena conversarmos“. A partir daí, o processo acelerou e, no mesmo ano, nasceu a OpenAI, fundada como uma organização sem fins lucrativos com o objetivo de garantir que a IA beneficiaria a Humanidade e não apenas as empresas.
Durante muitos anos, esse ideal manteve-se como linha orientadora. Porém, por detrás dessa narrativa pública, acumulavam-se tensões e divergências estratégicas. Ambições pessoais e desacordos sobre o financiamento levaram Musk a sair da startup, em 2018. E com a sua saída, o apoio financeiro que tinha sido crucial nos primeiros anos também foi retirado.
Esta divergência, considerada típica de Silicon Valley, transformou-se, anos depois, numa guerra aberta. Em 2024, Musk avançou com um processo judicial contra a OpenAI e Sam Altman, CEO, e Greg Brockman, o presidente da empresa. O magnata alega que a empresa se desviou do seu propósito de desenvolver inteligência artificial para o benefício da Humanidade. Aos seus olhos, a OpenAI — responsável pelo desenvolvimento do ChatGPT — está agora orientada para os lucros, principalmente depois da parceria com a Microsoft.
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Agora, o conflito chega a tribunal. O julgamento, previsto para durar várias semanas, começa esta segunda-feira em Oakland, na Califórnia, e a lista de testemunhas inclui nomes importantes da indústria tecnológica, como Satya Nadella e Mira Murati. O processo poderá influenciar o futuro da inteligência artificial e os documentos judiciais divulgados revelam centenas de mensagens, e-mails e segredos que ajudam a compreender as dinâmicas, alianças e conflitos que moldaram toda a história da OpenAI.
Uma batalha judicial por milhões de dólares ou por princípios?
Musk pede mais de 150 mil milhões de dólares (cerca de 128 mil milhões de euros) em indemnizações à OpenAI e à Microsoft, de acordo com o New York Times, que teve acesso ao processo. Além disso, o empresário quer “desfazer a conversão e reestruturação com fins lucrativos da OpenAI”, o que significa também afastar Altman e Brockman da liderança.
O magnata, dono de empresas como a Tesla, SpaceX e xAI, procura ainda uma ordem judicial que restabeleça o estatuto da empresa como organização de investigação sem fins lucrativos.
Segundo o processo, Musk defende que qualquer compensação financeira que venha a ser atribuída deverá ser canalizada para a própria estrutura sem fins lucrativos da OpenAI, uma forma de reforçar o argumento de que esta é uma batalha de princípios, não de enriquecimento pessoal. “As medidas que Musk pretende solicitar estão ligadas ao seu objetivo de evitar a subordinação de uma instituição de caridade pública a interesses privados e lucrativos”, lê-se no documento.

Musk acusa ainda Altman e Brockman de terem “deitado fora” o acordo de fundação, em março de 2023, quando lançaram o GPT-4, o “seu modelo de linguagem mais poderoso”, sem documentação disponível para consulta por especialistas. “O design interno do GPT-4 continua a ser um completo mistério exceto para a OpenAI – e, acredita-se, para a Microsoft.”
A OpenAI, por seu turno, rejeita esta narrativa e acusa Musk de agir por ressentimento após ter abandonado a organização antes do boom da inteligência artificial. A startup descreveu, ainda, o processo como “uma campanha de assédio movida por ego, ciúmes e o desejo de atrasar um concorrente”.
O desfecho deste processo é imprevisível. Se Elon Musk sair vitorioso, poderá fragilizar a OpenAI. Já uma derrota consolidaria o poder de Altman, permitindo à empresa avançar com planos de expansão.
“Esta é apenas uma das frentes de uma batalha sem limites entre bilionários por recursos financeiros, apoio governamental e, em último caso, a supremacia na inteligência artificial”, disse ao jornal nova-iorquino Oren Etzioni, investigador na área da IA e que fundou o Allen Institute for AI e a startup Vercept.
https://observador.pt/2026/04/08/nao-se-deixa-limitar-pela-verdade-sociopata-e-com-truques-de-jedi-o-retrato-de-sam-altman-descrito-como-o-problema-da-openai/
Burning Man 2017: drogas, depressão e momentos decisivos na OpenAI
Um dos pontos do processo foca-se, de acordo com o Washington Post, no festival Burning Man de 2017, no qual Musk marcou presença. Os advogados da OpenAI questionaram o milionário sobre o que fazia num evento de contracultura, arte e comunidade — realizado no deserto do Nevada, e focado na autoexpressão, autossuficiência e na criação de uma cidade temporária —, precisamente numa altura crítica de negociações sobre o futuro da empresa.
Durante o seu depoimento, Musk foi repetidamente questionado sobre o que fazia naquele festival e que conversas teve. O interrogatório incluiu perguntas sobre rhino ketamine, um analgésico forte que está associado ao tratamento de depressão resistente. O dono do X terá afirmado não saber do que se tratava e disse não se recordava de qualquer consumo durante o festival. Admitiu apenas o uso de cetamina prescrita para tratar a alegada depressão.
https://observador.pt/2023/06/27/droga-em-silicon-valey-elon-musk-usara-cetamina-para-controlar-a-depressao/
Em 2013, o Wall Street Jounal revelou que Elon Musk estaria a consumir cetamina em microdoses e doses completas em festas, sendo que o uso de drogas de forma regular “passou de uma atividade pós-laboral diretamente para a cultura corporativa” em Silicon Valley.
Os advogados do magnata consideraram as perguntas sobre o festival “irrelevantes e inflamatórias” e a juíza Yvonne Gonzalez Rogers acabou por proibir qualquer referências à droga, mas autorizou perguntas sobre a presença de Musk no Burning Man. O motivo, de acordo com o Washington Post, é claro e toca num ponto central da defesa da OpenAI: avaliar se o empresário estava verdadeiramente envolvido nas negociações ou se, pelo contrário, estava distraído num momento decisivo.
A espia infiltrada na OpenAI (e mãe de quatro filhos de Musk)
O papel de Shivon Zilis é um dos mais importantes de todo o processo. A antiga administradora da OpenAI e colaboradora próxima de Musk surge nos documentos como uma ponte entre as duas partes e potencialmente como uma fonte de informação privilegiada.
As mensagens divulgadas no processo revelam discussões entre Musk e Zilis sobre a possibilidade de manter uma relação próxima com a OpenAI após a saída do empresário, com o objetivo de “manter a informação a fluir”.
“Preferes que eu mantenha uma relação próxima e amigável com a OpenAl para garantir o fluxo de informação ou que comece a distanciar-me? A situação está prestes a tornar-se complicada”, escreveu Zilis em 2018. Musk respondeu: “[Relação] próxima e amigável, mas vamos tentar ativamente transferir três ou quatro pessoas da OpenAI para a Tesla. Mais do que isso irão juntar-se a nós com o tempo, mas não iremos recrutá-los ativamente”.
Para a OpenAI, as mensagens mostram uma administradora que, alegadamente, partilhava informação interna com um ex-líder que está agora em conflito com a organização. No entanto, o caso complica-se com a informação de que Zilis e Musk têm quatro filhos em comum e mantêm uma relação. Segundo a startup, essa ligação não foi devidamente divulgada dentro da organização, o que levanta dúvidas sobre a transparência e a credibilidade da mulher.
“Diz-me se houver mais alguma coisa em que eu possa ajudar”. Será, afinal, Zuckerberg um aliado de Musk?
A relação entre Mark Zuckerberg, CEO da Meta, e Elon Musk tem sido marcada por provocações públicas, incluindo um mediático desafio para um combate físico que nunca se concretizou. No entanto, o processo que será debatido em tribunal mostra mensagens de apoio de Zuckerberg a Musk, nomeadamente na sugestão de controlar os conteúdos nas plataformas da Meta a favor do magnata.
Após as notícias que expuseram detalhes sobre um projeto de Musk para aumentar a competência do Departamento de Eficiência Governamental (DOGE) dos Estados Unidos — e das quais o dono da Tesla reclamou publicamente por considerar que a divulgação dos detalhes poderiam ser atos criminosos —, Zuckerberg terá garantido que as equipas da Meta estavam atentas para remover as publicações consideradas perigosas para o sucesso do projeto.

“Parece que o DOGE está a fazer progressos. Coloquei as nossas equipas em alerta para removerem conteúdos que revelem a identidade ou ameacem os membros da vossa equipa. Diz-me se houver mais alguma coisa em que eu possa ajudar”, escreveu Zuckerberg em fevereiro de 2025, altura em que Musk liderava o departamento.
Apesar de estar focado no Departamento de Eficiência Governamental, Musk não esqueceu a saída da startup que fundou em 2015 com Altman. “Estás aberto à ideia de licitar a propriedade intelectual da OpenAI comigo e com mais algumas pessoas?”, perguntou ao dono do Facebook, que respondeu: “Queres discutir isto presencialmente?”
A alegada proximidade entre os dois sugere não só uma cooperação entre líderes tecnológicos quando os interesses estratégicos estão colocados em causa, mas também o poder das empresas na gestão de informação e a forma como as decisões podem ser influenciadas por relações pessoais — algo que a OpenAI condenou.
O diário secreto de Brockman, o presidente da OpenAI
Em 2017, Greg Brockman, atual presidente da empresa, refletiu sobre o futuro e no seu papel na OpenAI. Nas suas notas, há uma frase que se destaca: “Financeiramente, o que me levará a mil milhões?” Para Musk, esta questão é uma prova clara de que os líderes da OpenAI estavam, já em 2017, focados no enriquecimento pessoal, mesmo quando a organização se apresentava como sem fins lucrativos.
No seu depoimento, feito em 2025, Brockman disse que escreveu esta frase enquanto refletia sobre o que o motivaria financeiramente caso a OpenAI se transformasse numa empresa com fins lucrativos, sublinhando que a sua principal motivação continuava a ser garantir que a missão da OpenAI pudesse prosseguir.
Noutras partes do diário, surge também uma preocupação ética: a ideia de que seria errado transformar a organização sem incluir Musk, reconhecendo o seu papel fundador. “Seria errado tirar-lhe a organização sem fins lucrativos. Isso seria algo verdadeiramente se escrúpulos. E ele não é, de forma alguma, um idiota”, escreveu.
O “idiota” Jeff Bezos
A quinta informação revelada pelos documentos envolve Jeff Bezos, o magnata norte-americano que fundou a Amazon. Numa trocas de e-mails entre Musk e Altman, em 2016, numa altura em que a OpenAI procurava acesso a capacidade computacional (um recurso crítico para o desenvolvimento de inteligência artificial), o magnata manifestou preferência pela Microsoft, justificando-a com uma crítica direta a Bezos, que descreve como “um pouco idiota”.
A OpenAI acabaria por concretizar uma parceria estratégica com a Microsoft, que investiu milhares de milhões de euros na empresa “para acelerar avanços na IA para garantir que estes benefícios são amplamente partilhados com o mundo”. Foi a terceira vez que a empresa liderada por Satya Nadella investiu na OpenAI: a primeira foi em 2019 e a segunda em 2021.
https://observador.pt/2023/01/23/microsoft-confirma-que-vai-investir-varios-milhares-de-milhoes-na-criadora-do-chatgpt/
A rivalidade entre Musk e Bezos, conhecida sobretudo pela corrida espacial entre a SpaceX e a Blue Origin, alargou-se, assim, ao campo da inteligência artificial. Os dois, juntamente com Zuckerberg, são os homens mais ricos do mundo, todos com fortunas criadas nas duas últimas décadas, de acordo com o Bloomberg Billionaires Index. Os três patrimónios líquidos combinados valiam, em 2o25, 885 mil milhões de dólares (cerca de 860 mil milhões de euros).
[Um beijo no primeiro encontro e três viagens em menos de três meses. Ao 85.º dia de relação, o aspirante a modelo matou o cronista social. “Os ficheiros do caso Carlos Castro”, o novo Podcast Plus do Observador, conta os bastidores nunca revelados da investigação a um crime brutal. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. Pode ouvir aqui, no site do Observador, o terceiro episódio e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir também aqui o primeiro episódio e aqui o segundo]
