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(A) :: Sargento norte-americano acusado de usar informações confidenciais para apostar na queda de Nicolás Maduro

Sargento norte-americano acusado de usar informações confidenciais para apostar na queda de Nicolás Maduro

No ativo desde 2008, Dyke terá estado envolvido no plano e execução da operação na Venezuela. Foi acusado de fazer 13 apostas com lucros de mais de 340 mil euros. E de os ter tentado ocultar.

Mariana Furtado
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Na noite de 2 de janeiro, horas antes de as tropas norte-americanas capturarem Nicolás Maduro, alguém gastava milhares de dólares em apostas na “saída de Maduro até 31 de janeiro” e da presença de “forças americanas na Venezuela até à mesma data”. O palpite, a que poucos chegariam, foi certeiro e rendeu um lucro superior a 400 mil dólares (342 mil euros). Mais de três meses volvidos, na quinta-feira, o Departamento de Justiça dos EUA parece ter desfeito o anonimato da operação ao acusar um soldado das forças especiais de utilizar informações confidenciais para lucrar com o desfecho da missão que ele próprio ajudou a planear, segundo a imprensa norte-americana.

Destacado na base de Fort Bragg, na Carolina do Norte, o sargento-mestre Gannon Ken Van Dyke terá estado diretamente envolvido no planeamento e na execução da captura do líder venezuelano, entre 8 de dezembro de 2025 e 6 de janeiro deste ano. Segundo as autoridades, durante este período, terá realizado 13 apostas na Polymarket, focando-se especificamente no momento exato e no resultado da incursão militar.

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Este aproveitamento de informação privilegiada colocou-o no centro de um processo federal onde responde por cinco crimes: uso indevido de informações governamentais, roubo de dados não públicos, fraude sobre mercadorias, fraude eletrónica e envolvimento em transações monetárias com bens provenientes de atividades ilegais. O militar, de 38 anos, arrisca uma pena máxima de 60 anos de prisão.

O percurso de Van Dyke nas Forças Armadas teve início em 2008, mas foi dez anos depois que obteve acesso a informações sensíveis, mediante um compromisso formal de sigilo. Mais recentemente, em dezembro de 2025, assinou um novo acordo de confidencialidade que o proibia de revelar informações “por escrito, verbalmente, por conduta ou de qualquer outra forma”, de acordo com os autos do processo.

A investigação detalha ainda uma tentativa deliberada de ocultação dos lucros das apostas. Van Dyke tê-los-á transferido através de um circuito complexo, movendo os fundos para cofres de criptomoedas no estrangeiro antes de os depositar numa conta de corretagem recém-criada. Após a divulgação de notícias sobre transações suspeitas relacionadas com a captura de Maduro, o sargento terá ainda tentado eliminar a sua conta na plataforma Polymarket, alegando que tinha perdido o acesso ao endereço de e-mail associado.

“O réu violou supostamente a confiança nele depositada pelo Governo dos Estados Unidos ao usar informações sigilosas sobre uma operação militar sensível para apostar no momento e no resultado dessa mesma operação, tudo para obter lucro”, afirmou o procurador Jay Clayton. “Isso é claramente uso de informação privilegiada e é ilegal sob a lei federal. Aqueles encarregados de salvaguardar os segredos de nossa nação têm o dever de protegê-los, bem como aos nossos membros das Forças Armadas, e não de usar essas informações para ganho financeiro pessoal”, acrescentou.

https://observador.pt/2026/03/24/apostas-sobre-cessar-fogo-entre-eua-e-irao-levantam-novas-suspeitas-de-acesso-a-informacao-privilegiada/

O caso surge num momento em que os mercados de previsão enfrentam um escrutínio crescente. O próprio Presidente Donald Trump, escreve o The New York Times, manifestou o seu descontentamento com o envolvimento de funcionários governamentais nestas plataformas, lamentando que o mundo se tenha transformado numa “espécie de casino”. Por sua vez, a Polymarket reagiu na rede social X, defendendo que “o uso de informações privilegiadas não tem lugar” na plataforma e que a detenção do militar é a prova de que os sistemas de monitorização de mercado são eficazes. “A prisão de hoje é a prova de que o sistema funciona”, sublinhou.

https://twitter.com/Polymarket/status/2047437923348357146

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