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(A) :: Não há rapazes maus

Não há rapazes maus

A característica principal do jornalismo português é a convicção de que a proposição ‘Não há rapazes maus’ é falsa, e que, pelo contrário, a persuasão mais partilhada é a de que existem rapazes maus.

Miguel Tamen
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Para mostrar que a ficção não é uma forma de jornalismo, construiu-se um detector de ficção.  No entanto, logo no dia da sua inauguração o detector foi enganado por ficcionistas a fingir que eram jornalistas; e também detectou traços de ficção em peças do jornalismo mais simples. Tentou depois sintetizar-se um composto químico que mudaria de aspecto na presença de ficção.  Reagia porém de modo incerto, e ficava ora roxo ora indiferente diante da mesma amostra de prosa, imitando apenas a côr e o aspecto da pessoa que a lia.

Vistos estes percalços, foi concebido em Portugal um teste simples e elegante, que dispensa física e química.  O cientista responsável inspirou-se na asserção de um clérigo bondoso, também português, que tinha sustentado que não há rapazes maus.    O teste consiste em testar (por meios que não vêm ao caso) a asserção ‘Não há rapazes maus’ em peças variadas de jornalismo e ficção portugueses, e verificar em que circunstâncias ocorre aplicar o predicado ‘mau’ a respeito de um objecto a que se possa chamar ‘rapaz.’

Os resultados constituíram um dos triunfos mais incontroversos da ciência nacional.  Demonstraram que a característica principal do jornalismo português é a convicção de que a proposição ‘Não há rapazes maus’ é falsa, e que, pelo contrário, a persuasão mais partilhada é a de que existem rapazes maus.   Quem são e onde estão esses rapazes é uma questão empírica, que varia de jornal para jornal.  Mas todos os rapazes maus em que o jornalismo acredita exercem o seu múnus por tempo indeterminado, isto é, são sempre maus.

Estes primeiros resultados não são só por si surpreendentes; limitam-se a confirmar o adágio internacional segundo o qual os rapazes serão sempre rapazes.  Mas ‘rapazes’ é ainda um modo de expressão, uma metáfora imprecisa.  O princípio que distingue em Portugal o jornalismo da ficção é realmente o princípio segundo o qual as coisas más serão sempre más; e talvez o de que, como qualquer coisa é sempre essa coisa, nada neste mundo acontece realmente.  É esse princípio que consente ao jornalismo considerar com a mesma facilidade países, bebés, equipas desportivas, cães, factos, estatísticas, e plantas; e, claro está, rapazes.

O efeito mais importante do teste é contudo outro: permitiu chegar pela primeira vez a uma definição de ‘ficção portuguesa’ que exclui a possibilidade de jornalismo.  Assim, uma ficção será portuguesa se e só nela se exprimir a convicção de que uma coisa má não pode ser má para sempre.  Concluiu que a ficção portuguesa se caracteriza pelo seu nervosismo face ao mal: e que por isso qualquer coisa má, em particular os rapazes, nunca será nela má em permanência.   Fica assim explicado que a um rapaz mau numa ficção portuguesa aconteça sempre qualquer coisa que a caminho da Síria o melhorará; e que, se a ficção for mais recente, não seja até rapaz para sempre.