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O mito de Robin dos Bosques – Uma catarse da idolatria de esquerda

Combater o apelo fácil e (não raras vezes) sedutor a este tipo de ídolos é dever incondicional dos defensores de uma sociedade aberta e liberal

Filipe de Vasconcelos Fernandes
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1 O mito de Robin dos Bosques

Poucos mitos ilustram tão bem a distância entre uma narrativa romântica e a respetiva realidade histórica como o de Robin dos Bosques.

No imaginário coletivo, Robin dos Bosques surge como um dos arquétipos supremos de justiça redistributiva – em especial, condensado na fórmula, assaz pedagógica e tantas vezes elogiada: “roubar aos ricos para dar aos pobres”.

As referências mais antigas a Robin dos Bosques surgem em baladas inglesas dos séculos XIV e XV – entre as quais se destaca a famosa “A Gest of Robyn Hode”, do final do século XV – onde o protagonista é essencialmente um “yeoman”, um pequeno proprietário rural que, inclusive, aparenta alguma proximidade à nobreza.

Nestas referências originais, o eixo narrativo que torneia a figura de Robin dos Bosques não é um programa redistributivo, mas, na realidade, um símbolo de resistência à opressão do regime vigente, em especial perante a venalidade dos oficiais da corte.

A posterior domesticação do mito – por via de adaptações literárias e, mais tarde, cinematográficas – foi, porém, responsável pela cristalização da ideia de Robin dos Bosques como uma espécie de protossocialista “avant la lettre”.

Nesse sentido, deverá salientar-se que a fórmula “roubar aos ricos para dar aos pobres” é, afinal de contas, uma construção romântica tardia, que converte um puro rebelde numa espécie de patrono simbólico do confisco, ainda que aparentemente legitimado por um ideal de resistência à arbitrariedade do poder.

Esta viragem simbólica em torno da figura de Robin dos Bosques – que foi e continua a ser, em larga medida, apadrinhada e retomada por alguma esquerda política – permitiu, por paradoxal que pareça, a sua elevação a ícone da própria arbitrariedade, desde que revestida de uma específica intenção “social” e, mais amplamente, ancorada numa versão maximalista do ideal redistributivo.

Sob o pretexto de uma reação contra a opulência de qualquer regime opressivo, o mito de Robin dos Bosques acaba por degenerar numa perigosa generalização: a da legitimidade de uma contrarreação igualmente ablativa e abusiva, guiada pelo típico maniqueísmo que opõe os “bons” aos “maus”.

2 A face oculta de Robin dos Bosques e dos seus herdeiros

Na sua versão mais recente – ou seja, a que foi, em larga medida, construída por alguma esquerda política ao longo dos dois últimos séculos – a filosofia política de Robin dos Bosques repousa sobre uma premissa filosoficamente discutível: a de que a moralidade inerente ao ato de subtrair é inversamente proporcional à riqueza (ou estatuto) da putativa vítima.

Por esta via, a consideração do destinatário do ato ablativo – desde a tributação de grandes fortunas até à sugestão de estatização massiva – é resumida à sua condição patrimonial.

Compreende‑se, por esta via, a forma como o mito de Robin dos Bosques encaixa que nem uma luva no imaginário de alguma esquerda contemporânea.

Não será por acaso que o panteão simbólico dessa mesma esquerda está povoado de figuras estruturalmente aparentadas com o arquétipo de Robin dos Bosques: o guerrilheiro romântico estampado em t‑shirts, o “bandido social” canonizado pelo folclore político, o revolucionário que “expropria” em nome do povo, o ativista que bloqueia estradas ou danifica fachadas de edifícios, aeroportos ou instituições, sempre em representação de um povo “abstrato”.

Neste sentido, poder-se-á considerar que Robin dos Bosques é um antecedente de toda uma galeria de ídolos da esquerda política que conjugam, entre si, três traços recorrentes:

(i)         Em primeiro lugar, a crença de que a legitimidade de determinada ação deriva da pureza presumida da sua causa;

(ii)       Em segundo lugar, a convicção de que as instituições são estruturalmente suspeitas ou corrompidas – como tal, “burguesas”, “capturadas” e, ainda que noutro prisma mais recente, “capitalistas” ou “neoliberais”;

(iii)      Em terceiro lugar, a consequente indulgência perante a violação das regras, desde que praticada pelos “nossos” em nome dos “de baixo”.

O lado oculto desta filosofia implica, porém, a regressão ao Estado de Natureza.

Ao tornar‑se outlaw, Robin dos Bosques está a declarar que o contrato social é meramente opcional e que, sempre que considerarmos as instituições “capturadas”, sem particular necessidade de justificação, o critério de justiça passa a ser o pulso de quem segura o arco.

3 Rule of Law vs. Rule of Man

Conforme procurámos salientar, o problema central que subjaz ao mito de Robin dos Bosques – e, sobretudo, ao uso político que dele se faz – não é apenas a sua deriva espoliativa.

Mais relevante é a destruição, por seu intermédio, da previsibilidade jurídica e da justificação moral que subjazem aos atos de pura justiça privada – quase sempre ancorados na presunção de que determinado “herói” é um legítimo representante dos anseios e desejos de um grupo específico.

Neste contexto, o arquétipo de Robin dos Bosques equivale à negação do Rule of Law em favor de um Rule of Man: a lei deixa de repousar num conjunto de critérios previsíveis e aplicáveis a todos, para se transformar num mecanismo de racionalização retrospetiva das decisões de quem detém, em cada momento, a força e o apoio de uma certa narrativa.

Remetendo novamente para a atualidade, muito do discurso de parte da esquerda política (em especial, a mais estremada) opera deste modo, podendo sempre identificar-se:

(i)         Um “povo” abstrato, em nome de quem se fala;

(ii)       Um “sistema” difuso, a quem se atribui todas as patologias;

(iii)      Um elenco rotativo de alvos – banqueiros ontem, empresários hoje, amanhã qualquer grupo passível de ser retratado como “privilegiado” – sobre os quais se considera legítimo exercer violência simbólica ou material.

Concretamente, no léxico corrente de boa parte da esquerda portuguesa, este mecanismo é facilmente reconhecível e os exemplos são diversos: as decisões judiciais incómodas são desvalorizadas como “formalismos”, a legislação reformista é denunciada como “capturada pelos interesses”, multiplica‑se a tentação de substituir critérios gerais por soluções de exceção, justificadas por algum imperativo moral do dia – desde a remota “luta contra a austeridade” até à recente “urgência climática”.

É o império do velho Rule of Man, adaptado à realidade do Século XXI: arbitrariedade seletiva, agora certificada por hashtags e emoldurada por slogans de “progresso”.

4 Para uma catarse dos ídolos

Chegados aqui, impõem-se algumas conclusões.

A insistência de alguma esquerda política em idolatrar figuras do tipo Robin dos Bosques – mais uma vez, o guerrilheiro romântico, o bandido social, o ativista, de entre outros – não é apenas um pormenor de marketing político.

Na realidade, é o sintoma de uma teologia política em que a pureza proclamada da intenção dispensa o incómodo da regra geral.

Ao quase-canonizar o arquétipo de Robin dos Bosques – e, por esta via, considerar o ideal redistributivo como um fim em si mesmo – parte da esquerda contemporânea valida a ideia de que o Rule of Man é aceitável desde que o homem certo esteja no poder e a narrativa certa esteja a ser contada.

Por essa razão, combater o apelo fácil e (não raras vezes) sedutor a este tipo de ídolos é dever incondicional dos defensores de uma sociedade aberta e liberal, para que essa mesma idolatria não se torne, ela própria, como no passado, uma ideologia política.