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Abril antes de mim

Eu não vivi o 25 de abril de 1974. Mas vivo aquilo que ele realizou. É talvez, isso, sempre outra forma de memória.

Miguel Leonardo
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Eu não vivi o 25 de abril de 1974. Não ouvi na rádio a senha que abriu caminho à madrugada, não senti o peso do silêncio a cair nem o alívio a levantar-se nas ruas. Não estive lá. Mas cresci rodeado por quem esteve. Bisavós, avós, pais e tios. E por isso herdei esse dia como se fosse também meu.

O meu avô falava pouco sobre Ultramar, mas quando falava a guerra soltava-se da sua boca, com palavras de rancor, perda, silêncios e morte. Onde a juventude do meu avô foi interrompida. Dizia-me ele que havia dois destinos: a cozinha ou o mato. A cozinha era a sobrevivência, o mato era incerteza. Entre panelas e tiros, entre rotinas forçadas e emboscadas invisíveis, desenhava-se uma guerra que, nas palavras dele, já estava perdida muito antes de muitos perceberem. Não por falta de coragem, mas por falta de sentido.

A guerra do Ultramar não foi apenas um conflito distante, foi o princípio do fim. O regime do Estado Novo, liderado por António de Oliveira Salazar, e mais tarde por Marcelo Caetano, manteve décadas a ilusão de um país uno, do Minho a Timor, enquanto o mundo mudava à sua volta. Portugal não tinha solução democrática porque a democracia, simplesmente, não existia dentro do sistema.

Foram 48 anos de um país contido. Um país onde escrever num jornal não era um exercício de liberdade, mas um risco calculado. Onde pensar podia ser perigoso. Onde a escola, longe de ser um espaço de descoberta, era muitas vezes um lugar de formatação.

O meu tio descreveu-me antes de falecer como era a sua sala de aula, com um retrato na parede de Marcelo Caetano, e uma ideia repetida até à exaustão: Deus, Pátria e Família. Havia também o medo discreto, a régua que os castigava, a humilhação que não ensinava, mas era um sinal de obediência maior que qualquer manual.

Fora da sala de aula, existia a Mocidade Portuguesa. Ali aprendia-se a marchar antes de aprender a questionar. A disciplina era exaltada, o dever militar apresentado como destino natural. Crescer, para muitos jovens, significava aproximar-se inevitavelmente da guerra. E quando esse momento chegava, as opções era poucas: ir ou fugir.

Ficar, sem escolher, raramente era possível.

É por isso que o 25 de abril de 1974 não foi um acaso. Foi consequência também de uma guerra feita pelos Movimento das Forças Armadas. Foi o resultado acumulado de uma longa guerra, de um regime fechado demais, de um país cansado demais.

Naquela madrugada, a madrugada mais linda de todas elas, não se derrubou apenas um governo, abriu-se espaço para algo que até então não existia verdadeiramente em Portugal: a possibilidade de escolher.

Com a Constituição da República Portuguesa de 1976, surgiram direitos que hoje parecem evidentes, e quase naturais: igualdade perante a lei, liberdade de expressão, liberdade religiosa, participação política, proteção contra detenções arbitrárias. Direitos que não são abstratos, e sim concretos, vividos, exercidos todos os dias, mesmo quando não damos conta.

Eu não vivi o 25 de abril de 1974. Mas vivo aquilo que ele realizou. É talvez, isso, sempre outra forma de memória.