Há uma fantasia confortável no discurso político europeu: a de que o mundo desenvolvido é seguro. Como se a segurança de pontes, túneis, metros, portos ou aeroportos fosse uma herança natural, garantida por instituições e algum verniz tecnológico. Desenganem-se: a Europa entrou numa crise da manutenção — e Portugal chegou lá primeiro, o que raramente acontece.
Com falta de mão de obra qualificada, envelhecimento acelerado e um Estado cada vez mais inoperacional, como se garante a segurança da vida quotidiana? E, sobretudo, quem a garante: o Estado, o mercado ou um algoritmo?
Não faltam pessoas; faltam especialistas. Garantir infraestruturas críticas exige eletrotécnicos, peritos em sinalização, operadores de sistemas, especialistas em cibersegurança, soldadores de precisão. Conhecimento que não se improvisa nem se substitui por decreto.
O risco não é o “colapso” — palavra que rende manchetes — mas algo mais insidioso: o adiamento da manutenção preventiva e a normalização do “logo se vê”. Quando o “logo” chega, traz custos financeiros elevados e, por vezes, humanos. Políticos, nem sempre.
Há ainda um ponto incómodo: o trabalho em infraestruturas é duro, repetitivo e invisível e muitos já não o aceitam nas condições antigas. Logo, o debate sobre a “falta de compromisso” raramente é honesto — o problema é, muitas vezes, a falta de condições.
Perante a escassez, a Europa não abdica da segurança; muda a forma de a produzir. Substitui equipas numerosas e inspeção constante por monitorização remota, automatização e manutenção preditiva. Em vez de enviar uma equipa para verificar, compra um sistema que prevê a falha. Troca olhos por sensores, presença por dashboards. Digitaliza a segurança.
Mas a transição é cara. Durante anos, esse Estado pagará duas faturas: salários mais altos e subcontratação para suprir a escassez, e investimento pesado em tecnologia e cibersegurança. Não caminhamos para o colapso, mas para uma inflação da segurança.
E há um risco estrutural: quando a segurança depende da tecnologia, fica nas mãos de quem a fornece. O Estado deixa de executar e passa a auditar. É uma alteração profunda da administração — uma privatização silenciosa do seu papel.
Se isto é visível no centro da Europa, em Portugal é mais delicado. Não por falta de técnicos competentes, mas por falta de margem financeira. Grandes modernizações dependem de fundos europeus; o resto é gestão da sobrevivência: remendos, prioridades apressadas, manutenção reativa. Aqui, o “barato que sai caro” é uma forma de governar.
O país assegura mínimos — porque uma falha grave é uma crise de Estado — mas paga com atrasos, interrupções e dependência de subcontratação. A ameaça não é uma catástrofe súbita, é a obsolescência. Tudo continua “seguro”, mas envelhece, torna-se lento e cada vez mais caro de reanimar.
Lisboa é um laboratório inquietante. Uma administração envelhecida não revela apenas um problema de recursos humanos, mas de memória institucional. No urbanismo, o conhecimento está na cabeça dos técnicos. Quando se reformam sem transmissão de conhecimento, perde-se capacidade de decisão e abre-se espaço à arbitrariedade.
A câmara concorre com um setor privado, que paga melhor e recruta mais depressa. Resultado: quando os melhores saem, o público fica com o pior – e com a responsabilidade. Daí ganhar força a ideia de entregar projetos simples ao privado e reservar os complexos para o Estado. Teoricamente, parece racional. Na prática, levanta conflitos de interesse e uma questão essencial: se o público deixa de analisar os casos simples, onde aprende a resolver os complexos?
A mudança avançará silenciosamente. As pessoas querem que o metro funcione. E enquanto funcionar, poucos perguntarão quem decidiu. É a condição perfeita para externalizar e automatizar sem contestação.
O preço não será apenas financeiro, mas político e civilizacional: passaremos de um Estado executor para um Estado auditor; de uma segurança assente em pessoas para uma gestão de sistemas. Mas quando a decisão for tecnológica, quem responde pela falha? E quem decide o que é aceitável falhar?