Nada mais natural que, como qualquer fotógrafo da sua idade (e há vários, de Nuno Félix da Costa a Luís Pavão, entre outros), Alfredo Cunha revisite o seu vasto arquivo de décadas e lhe tente dar forma, consistência e energia em livros novos, temáticos, acrescentando imagens de hoje às que havia feito desde 1970, quando tal lhe pareça acertado tendo em conta o inevitável evoluir das coisas. Isso fica bem nítido nos oito livros monográficos que publicou desde 202o, ano da sua retrospetiva da Leica Gallery, no Porto, entre os quais Rua do Anjo: Braga 1996-2021, a que faltará juntar a “antologia” escolhida por Cláudio Garrudo para a sua coleção Ph na Imprensa Nacional.
Um tal auto-exame, seja ele severo ou suave, radical ou complacente, lúcido ou condicionado — e quem verdadeiramente o saberá, além do próprio? —, permite fazer emergir portefólios que percorrem mudanças e permanências no arco histórico correspondente, sendo também, inevitavelmente, um retrato da biografia artística do fotógrafo ele mesmo e, ao mesmo tempo, um modo bastante prático de aceitar o confronto com a obra de colegas de ofício e arte, alguns deles também envolvidos em processos de balanço, por mão própria ou alheia, e partilhando idênticos motivos, como a vida urbana ou a vida rural e — muito concretamente — o retrato.
Os atuais avanços tecnológicos na qualidade da impressão em offset são, além disso, um admirável desafio para fotógrafos e editores, especializados ou não, a ponto de ser assaz inadvertido subestimar a oportunidade de excelência de fazer imprimir agora — e tão bem como nunca antes — novos foto-livros. Quem folheie alguns desses produzidos nos anos 1990 a 2010, não pode deixar de concordar com o acima dito.
Cuidado com as Crianças (Lisboa: Dom Quixote, 1998, 230 pp.), que tomou por título um adesivo à época comum no vidro traseiro dos automóveis, serve bem para teste do progresso entretanto havido, e para essa reavaliação autoral em progresso. Publicado dois anos depois da primeira campanha do fotógrafo nas festividades de São Bartolomeu do Mar — agora pela primeira vez expressa num livro autónomo — em que crianças são levadas a “banhos santos” nas águas frias do litoral norte que as poupem à gaguez e a medos vários, apenas inclui uma delas, a do rapazito que em ambiente de feira segura quadro barato com reprodução da Última Ceia de Leonardo da Vinci (está nas pp. 32-33). A festividade em São Bartolomeu do Mar surge em 16 fotografias de Felicidades, 2000-2016 (Patrícia Reis ed., 2016, 124 pp.), constituindo, portanto, a maior representação, até hoje, da atenção dada por Alfredo Cunha a este evento.
Na edição de Garrudo, em 2022, porém, entre 96 fotografias é de novo apenas uma a fotografia escolhida da festividade popular a 5 km a norte de Esposende: aquela, de 2017 (p. 81), em que um cavalo-balão se destaca no ar, sobre multidão compacta na praia (foto reenquadrada, como agora se vê nas pp. 44-45). A imagem que ilustra este artigo, ou mesma aquela, bastante bela, das pp. 142-43, também com andores, representariam melhor a intensa religiosidade popular expressa na romaria de São Bartolomeu do Mar. Contudo, tais opções são absolutamente coerentes com o fotojornalismo de Cunha, que da mesma maneira que em A Benção dos Animais: Santo António de Mixões da Serra (Câmara Municipal de Vila Verde, 2021, 144 pp.) o acto em si mesmo não foi o foco das suas atenções (em 118 fotos apenas 3), em Paraíso de Coura (Guerra e Paz, 2024, 211 pp.) os palcos foram a última prioridade do fotógrafo, aliás como em Fátima (Porto Editora, 2017, 127 pp.) a missa no altar, também nesta praia de banhos santos ele evitou cenas com as crianças levados à água pelos sargaceiros de tradição — que é, afinal, o grande motivo de tudo isso — e nenhuma delas especialmente impactante (além da capa, há apenas seis, entre 114 fotografias; v. pp. 65, 70, 74, 75, 78, 79).

Interessa-lhe mais — ou interessa-lhe sobretudo — a mole humana. Afinal, a maré de fé que dá título ao livro é a maré de gente naquela praia, a expectativa e o movimento da grande procissão, os músicos das filarmónicas (oito imagens), o ócio dos romeiros (seis), os assadores e as bancas de feira ou a quase estranheza com que a gente dos campos, parte da qual vinda dum interior distante, se aproxima do grande infinito que oceano e céu colocam diante de si (por exemplo, pp. 72-73 e 150-51). O velho costume de as crianças levarem ao colo, em três voltas à igreja velha, um galo preto que há de acabar em cabidela, no final da romaria, e de passarem por baixo da proa da grande barca florida que constitui o andor do Santo pescador (v. p. 24) — elementos essenciais deste rito profilático e propiciatório —, é que não atraiu o fotojornalista, que parece desconhecer olimpicamente os trabalhos, entre outros, menos conhecidos, do etnógrafo Ernesto Veiga de Oliveira sobre a romaria de São Bartolomeu do Mar (1959 e 1971).
De facto, as quase inexpressivas e descontextualizadas três fotografias de rapazes com esses galos ou frangos — cuja cor negra simboliza o Mal —, uma delas, logo na p. 6, contrastam enormemente com a atenção dada às raparigas coroadas que participam no desfile religioso (17 fotos), uma delas, aliás magnífica, também na abertura do livro. E deve ser dito que, sem perspectivas de conjunto, os registos do apoteótico desfile dos andores na praia por Alfredo Cunha perdem claramente diante dos de Jorge Barros, ou de outros, publicados na bibliografia sobre o tema (v. Veiga de Oliveira, Festividades Cíclicas em Portugal, 1984, p. 249), e nota-se também que o fotógrafo falhou o grande fogo-de-artifício que à meia-noite de cada 24 de Agosto encerra, em apoteose de luzes e som, a festividade de São Bartolomeu do Mar.
Sandra Maria Teixeira e Rui Faria Viana escrevem para este álbum de Alfredo Cunha páginas desiguais. A autora não tem biografia de badana que a apresente, mas o seu prefácio-depoimento de alguém “que cortou os laços com o divino” (p. 7) — todo ele exclusivamente baseado nas fotografias de Alfredo Cunha, que foram suficientes para que se sentisse “romeira e pândega, curiosa e crente” — diz-nos que pode ser impactante acompanhar a “ópera de espírito” que, segundo ela, é essa romaria que “desagua num oceano de emoções”, em que “gritos e risos infantis se misturam com o rugido das ondas” (p. 8) e “cada um sabe ao que vai” (p. 9). Pelo seu lado, Rui Faria Viana traz o contributo de quem apresenta a romaria de São Bartolomeu do Mar sob a perspectiva da etnografia e da história religiosa, permitindo perceber que Alfredo Cunha já apanhou esta festividade cíclica numa versão contaminada, isto é, sem a feira do linho que a identificou até aos anos 50, sem a erosão da praia que a inundou de seixos, corroeu dunas e inviabilizou o cortejo de andores, bandeiras e páleo, mas já com o benefício duma “estrada do mar” de 2 km alcatroados, onde, todavia, “dezenas de tendas passaram a oferecer aos romeiros grande variedade de artigos de consumo e muitas bugigangas comuns a qualquer festividade minhota” (p. 15).
Os próprios sargaceiros da tradição com branqueta de lã pura com largo cinto preto, trazem hoje casaco de oleado amarelo e chapéu de mar na cabeça, e também o número de banhos santos tem sofrido um “empobrecimento progressivo visível na diminuição da população coberta pela sua eficácia” (p. 19). Ainda assim, o essencial da romaria persiste porquanto se continua a “honrar as tradições, onde as práticas religiosas convivem com as pagãs em perfeita sintonia” (p. 20). Como referi acima, o artigo de Ernesto Veiga de Oliveira n’O Comércio do Porto de Setembro de 1958 sobre a romaria de São Bartolomeu do Mar — todavia não referenciado na bibliografia de Rui Faria Viana — ficaria bem transcrito neste livro como narrativa sobre os modos antigos desta festa popular tão marcante, que estou convicto de que o escritor Ruben A. (1920-75) sobre ela terá escrito na sua tão singular coluna etnográfica no Diário Popular, que apenas raros ratos de hemeroteca hoje folheiam com respeito e admiração.
O preço do livro — 65 € — parece-me, a todos os títulos, excessivo.