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(A) :: Mais de uma centena de organizações norte-americanas de direitos humanos alertam adeptos sobre "sérios riscos" de irem ao Mundial

Mais de uma centena de organizações norte-americanas de direitos humanos alertam adeptos sobre "sérios riscos" de irem ao Mundial

Mundial 2026 passa por 11 cidades norte-americanas. Numa delas, no Mundial de Clubes de 2025, um adepto incumpriu lei municipal e acabou, mais tarde, detido pelo ICE. Organizações temem que se repita.

Manuel Conceição Carvalho
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São 125 as entidades que assinam o “alerta de viagem” que tem como destinatários todos os que tencionam ir ao Mundial de 2026, a realizar-se no México, Estados Unidos da América (EUA) e Canadá. 104 são organizações de defesa dos direitos humanos e 21 são grupos de adeptos de diferentes clubes e a mensagem é clara e universal: todos aqueles que pensam em deslocar-se aos EUA para ver jogos do Mundial poderão “enfrentar ou estar sujeitos” a “riscos e danos, em violação das obrigações dos Estados Unidos em matéria de direitos humanos”.

“Os jogos do Mundial serão disputados em 11 cidades diferentes por todo o território dos Estados Unidos da América, as quais, tal como muitas localidades, já têm sido alvo da violenta e abusiva repressão à imigração levada a cabo pela administração Trump”, lê-se na nota esta quinta-feira divulgada pela Amnistia Internacional.

Por isso mesmo, as 125 organizações entendem que todos “os adeptos, jogadores, jornalistas e outros visitantes” que queiram ir aos EUA correm o risco de viver a mesma “repressão”. E deixam um alerta claro: “Embora o crescente autoritarismo e a violência crescente da administração Trump representem sérios riscos para todos, os membros de comunidades de imigrantes, grupos de minorias raciais e étnicas e indivíduos LGBTQ+ têm sido e continuam a ser desproporcionalmente visados e afetados pelas políticas da administração e, como tal, são os mais vulneráveis a danos graves”.

O comunicado explica possíveis entraves que podem surgir a quem quer entrar no país mas também a quem, inclusive, já estiver em território norte-americano, como o “impedimento arbitrário de entrada no país e risco de detenção, prisão e/ou deportação a cidadãos que não são norte-americanos”, mesmo que tenham autorização prévia. Outro dos pontos abordados no mesmo documento é o alegado policiamento discriminatório “com paragens e detenções ilegais baseadas apenas na raça, etnia e origem nacional“, tendo como alvo, no Minnesota, “indivíduos somalis e latinos”.

Aos “riscos” invocados pelas 104 organizações junta-se uma lista de países cujos cidadãos estão impedidos de entrar em território norte-americano: Afeganistão, Burquina Faso, Birmânia, Chade, República do Congo, Guiné Equatorial, Eritreia, Haiti, Irão, Laos, Líbia, Mali, Níger, Serra Leoa, Somália, Sudão do Sul, Sudão, Síria e Iémen. Os atletas entram, mas os adeptos não. “A entrada de imigrantes e não imigrantes provenientes destes países é considerada ‘totalmente suspensa'”, lê-se numa nota do Congresso, publicada no último dia 1 de janeiro. Destes 19 países, há dois que estão representados na competição: Haiti e Irão, país que o enviado especial para parcerias globais de Donald Trump, Paolo Zampolli, sugeriu trocar por Itália (país que não se qualificou para o torneio).

Depois, há uma lista de países sujeitos a restrições parciais de entrada: Angola, Antígua e Barbuda, Benim, Burundi, Costa do Marfim, Cuba, Dominica, Gabão, Gâmbia, Maláui, Mauritânia, Nigéria, Senegal, Tanzânia, Togo, Tonga, Turquemenistão, Venezuela, Zâmbia e Zimbábue. Destes 20, dois farão-se representar no Mundial de 2026: Costa do Marfim e Senegal.

O comunicado refere ainda a eventual “análise invasiva das redes sociais e revistas a dispositivos eletrónicos” a quem quiser entrar nos EUA, além de uma “supressão da liberdade de expressão e do direito de protesto”. É ainda mencionado o “tratamento cruel, desumano ou degradante”, na eventualidade de uma detenção pelos serviços de imigração norte-americanos.

“Os adeptos, jornalistas e outras pessoas que viajem para os Estados Unidos para o Campeonato do Mundo da FIFA de 2026 correm o risco de se deparar com um panorama de direitos humanos profundamente preocupante, marcado pelas políticas de imigração racistas da administração Trump, pelas detenções e deportações em massa e pelos ataques à liberdade de expressão e ao protesto pacífico”, diz o responsável pelas Américas da Amnistia Internacional dos EUA, Daniel Noroña. “Se o governo dos EUA e as cidades anfitriãs não conseguirem garantir os direitos e a segurança de todos, este torneio corre o risco de ficar muito aquém da promessa da FIFA de um evento seguro, acolhedor e inclusivo, tanto para os adeptos que viajam, jornalistas e jogadores, como para as pessoas que já vivem nos EUA”, conclui.

O drone que violou uma lei municipal e que acabou numa detenção pelo ICE

O Campeonato do Mundo de 2026 passa por onze cidades norte-americanas. E o “reforço de vigilância”, alertado pela Amnistia Internacional, pode repetir-se em Miami, uma das cidades que recebe a competição. O Mundial de Clubes, visto como ‘ensaio’ para o Mundial 2026, contou com a presença da polícia de imigração no Hard Rock Stadium, na mesma cidade, no jogo de estreia do torneio. O Benfica estreou-se na competição nesse encontro, diante do Boca Juniors (2-2). É nesse mesmo estádio que a seleção portuguesa tem o jogo, teoricamente, de maior dificuldade na fase de grupos do Campeonato do Mundo deste ano. O Hard Rock Stadium será o palco do Colômbia – Portugal, a contar para a terceira jornada do grupo K.

https://observador.pt/2025/06/11/policia-de-imigracao-norte-americana-vai-estar-na-seguranca-na-estreia-do-mundial-de-clubes/

Outra das cidades dos EUA a receber o Campeonato do Mundo é Nova Jérsia: o MetLife Stadium receberá vários jogos da competição, incluindo a final. E foi aí que, no Mundial de Clubes de 2025, um requerente de asilo acabou por ser detido pelos serviços de imigração norte-americanos e deportado, em seguida. Consigo estavam os seus filhos, de 10 e 14 anos, com quem ia ver a final da competição, disputada por Chelsea e PSG. Ainda fora do estádio, o homem usou um drone para tirar uma fotografia de família. Uma lei municipal proíbe o uso de drones dentro e/ou nas imediações do MetLife. O adepto foi, por isso, abordado pelas autoridades, que o detiveram em seguida. De acordo com a Human Rights Watch (HRW), o homem explicou que o polícia que o abordou inicialmente lhe disse que o deixaria seguir, depois de assinar uma intimação. De seguida, as autoridades descobriram o seu estatuto migratório e entregaram-no a agentes do ICE. Ficou detido durante três meses.

As outras cidades norte-americanas por onde a prova vai passar são Atlanta, no estado da Geórgia; Boston, em Massachusetts; Dallas e Houston, no Texas, onde Portugal se estreia na prova, diante a República Democrática do Congo; Filadélfia, na Pensilvânia; Kansas City, no Missouri; Los Angeles e San Francisco, na Califórnia; e Seattle, no estado de Washington.

O Mundial de 2026 inicia-se no dia 11 de junho no Estádio Azteca, na Cidade do México. O jogo que marca o começo do torneio reúne a seleção mexicana e a seleção sul-africana. A prova passará também pelo Canadá.

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