Paula Carvalho costuma dizer que o pai tem sete vidas, como os gatos. Até agora, e pelas contas que faz, gastou quatro: duas quando venceu dois cancros, em momentos diferentes, há mais de 20 anos; a terceira quando caiu ao descer um vão de escadas em Portalegre; e a quarta quando, no passado dia 26 de dezembro, sofreu um AVC que obrigou à sua hospitalização e consequente afastamento dos palcos. Ruy de Carvalho, que completou 99 anos em março, fez fisioterapia, recuperou a mobilidade e regressou ao teatro na noite de quarta-feira, 22 de abril, no Coliseu do Porto, integrado no elenco da peça A Ratoeira.
A ânsia de rever aquele que é considerado o ator mais velho do mundo em atividade notava-se já à tarde, nos bastidores. A filha Paula Carvalho, que fez questão de o acompanhar, assumia o nervosismo — não em relação ao ator, mas em relação ao pai. Até porque é enorme o seu profissionalismo, o conhecimento que transparece, a memória está intacta, aquela é a sua paixão (sem superstições, antes de entrar em cena). Ruy já andara pelo cenário – que reproduz uma sala de estar com a atmosfera de uma pousada, durante um nevão – a verificar se estava cada objeto no seu lugar, tal o grau de exigência. Respeita muito o público, que apelida de “Ministério da Cultura” – até porque, garante, é ele que manda, é ele que apoia, é ele que justifica uma carreira tão longa.
“Por esse lado, não tenho qualquer problema. Eu sei que, quando eles entram em cena, mudam, perdem as doenças todas. Lembro-me de ver a Eunice [Munõz] a fazer O Comboio da Madrugada: ela, fora de cena, era uma velhinha, e, na altura, era bem mais nova que o meu pai; e n’ O Comboio da Madrugada parecia uma rapariga nova”, conta a filha de Ruy de Carvalho, que foi jornalista de rádio e bailarina. Cresceu numa família de artistas, sendo o pai o quarto ator. “Todos os atores mudam, todos os atores perdem dores de dentes, perdem tudo. O palco é, realmente, uma coisa espetacular. É de tal maneira importante que, na área do envelhecimento ativo, o teatro é muito usado, o faz-de-conta é muito importante. Para os atores, não sei se é o faz-de-conta, mas que é importante, é. Isto é uma paixão, para eles.”
“Agora chamamos-lhe Iron Man”
A conselho da fisioterapeuta, Ruy de Carvalho caminha agora apoiado numa bengala, o que até calha bem, porque o adereço faz parte da personagem que interpreta n’A Ratoeira, inspirada numa obra de Agatha Christie: o Major Metcalf. De resto, o que mudou foi o acompanhamento que o ator tem: ele, que é bastante independente, passou a ter em casa cuidadoras, noite e dia, não porque queira, mas porque os filhos o exigiram. Afinal, quando sofreu o mais recente susto com a saúde estava lá, sozinho, a preparar-se para ir para o teatro, e viu-se incapaz de abrir a porta, que costumava fechar à chave. Os colegas estranharam a ausência e o resto é a história de mais uma recuperação.
“Agora chamamos-lhe Iron Man [Homem de Ferro]”, partilha Paula Carvalho, entre risos. “Porque ele é realmente espetacular. Os médicos estão espantados: como é que recuperou?” Pouco antes, Paula tinha levado aos bastidores uma jovem desejosa de conhecer o pai. Era uma rapariga que tinha estado presente numa homenagem ao ator, em Gaia, e manifestado esse sonho. Entrara no camarim a chorar de emoção, e seria essa a nota dominante, na noite do regresso ao teatro de Ruy de Carvalho, ainda mais numa cidade que lhe diz muito.
Com raízes em Vila Real, o ator frequentou a Invicta desde miúdo, viveu na cidade, foi diretor do Teatro Experimental do Porto. Nesta visita, aproveitou para matar saudades de um bom prato de tripas. Dos bolinhos de bacalhau também. Comeu um, que lhe ofereceram pouco antes do espetáculo, embora não tenha por hábito jantar enquanto o trabalho não estiver cumprido. Depois sim, pode vir a sopa.




Apresentação número 329: “check”
O encenador d’A Ratoeira, Paulo Sousa Costa, lembra-se bem daquele 26 de dezembro em que as respirações de todos ficaram em suspenso, ao saber do que acontecera ao “mestre”. Primeiro, ficaram preocupados quando o motorista que o ia buscar a casa disse que não aparecia nem atendia o telefone, logo ele, que é tão pontual. Quando se confirmaram as más notícias, as apresentações do espetáculo ficaram sem efeito, “o que foi o menos importante”, e só foram retomadas nesta noite de 22 de abril, a pedido de Ruy de Carvalho, que formulara esse desejo logo em março. O regresso chegou a ser pensado para 1 de abril, Dia das Mentiras, sob o mote “parece mentira, mas é verdade: Ruy de Carvalho volta ao palco”, mas achou-se por bem esperar mais algum tempo.
Paulo Sousa Costa garante que “é muito fácil trabalhar com o Ruy”: “Ouve bastante e depois aplica o que sabe fazer na interpretação”. A Ratoeira, que anda na estrada desde 2020, tem passado por vários sobressaltos — da pandemia, que obrigou a adiar a estreia, à necessidade de substituir Ruy de Carvalho por Virgílio Castelo, enquanto o primeiro recuperava de uma operação à coluna. Na noite desta quarta-feira, no Porto, foi levada a cena pela sétima vez naquela cidade, e pela 329.ª ocasião nas contas gerais. “É o espírito de Agatha Christie que nos protege”, brinca Paulo Sousa Costa.
Nos bastidores, as atrizes Elsa Galvão, Sara Cecília e Sofia Portugal tratam dos próprios penteados e maquilhagem. Esta última, de batom vermelho e rolos nos cabelos escuros, olhos vivos e sorriso largo, assegura: “O Ruy é um mestre. É uma grande honra trabalhar com ele. Pode parecer cliché, mas, no caso do Ruy, é real”. O veterano ator relembra-lhes a cada momento por que vale a pena viver da arte, apesar das dificuldades. “A vida de um artista é muito dura e, se não tivéssemos estes momentos de vivência do sublime… Com o Ruy, o sublime come-se.”




“Este é só o início dos próximos 99 anos”
Pouco depois, estão todos em cena. Duas horas de atuação, com um intervalo de dez minutos. Para trás ficaram as palavras de ordem gritadas, em coro, ainda antes de subirem as cortinas: “Merda, merda, merda!”. Quando Ruy de Carvalho surge pela primeira vez diante do público, as falas das personagens são interrompidas por um longo aplauso, à mistura com gritos de entusiasmo. No fim, ovação de pé, com o ator a receber um ramo de flores e a agradecer de mãos sobre o peito. “Minhas senhoras e meus senhores, foi um grande prazer ter a vossa companhia e representar A Ratoeira. Como calculam, a partir de agora, são nossos cúmplices. Não digam a ninguém quem matou quem”, afirmou então, com humor.
De seguida, o elenco tirou uma fotografia de costas para a plateia, para incluir os espetadores, com Ruy sentado. “Uma poltrona para o nosso rei”, pediu o ator Luís Pacheco. “Este é só o início dos próximos 99 anos, como já perceberam”, gracejou ainda o encenador.
Termina a peça, nos bastidores, perante um grupo de jornalistas e figuras conhecidas da rádio e da televisão, como José Carlos Malato e José Figueiras, Ruy de Carvalho limitou-se a afirmar, com convicção: “Viva o Porto! Viva o Coliseu do Porto! Viva! Viva! Viva! Vivam todos. Continuem a viver e não pensem na morte, que não vale a pena. Vivam a pensar na vida e nunca na morte”. Fim de espetáculo. Por agora.




























