Há quem encare os livros e a sua leitura como uma forma de desenvolvimento pessoal e profissional, de ascensão espiritual e/ou de reconhecimento social. Há quem os encare — de forma talvez ingénua ou cínica — como forma de enriquecer comercialmente. Para Manuel S. Fonseca, o livro assume um outro papel, “absolutamente essencial”: “o prazer”.
Esse é um dos princípios que o fez abandonar a vida executiva dos meios de comunicação para abraçar o setor editorial: primeiro, com a Três Sinais, “a mais pequena editora do mundo” que só publicava “livros de luxo” sem prestar contas a ninguém; depois, com a Guerra e Paz, que ao longo dos últimos 20 anos tem marcado o panorama literário português seguindo as próprias regras.
É a propósito deste aniversário que o editor e fundador deste selo recebeu o Observador na nova sede do grupo. Sim, “grupo”, porque a efeméride não foi a única razão a motivar uma entrevista a Manuel S. Fonseca. Um dos acontecimentos editoriais do ano passado foi a passagem da histórica Gradiva para a sua égide, um pedido expresso de Guilherme Valente que lhe fez um “ultimato” para que continuasse a vida desta editora após a sua aposentação. Entre as várias revelações que faz ao longo desta conversa, uma das mais significativas é de que planeia fazer da Guerra e Paz e da Gradiva um só grupo editorial, ainda que preservando a identidade histórica das chancelas.
Ao longo de uma extensa conversa, o editor e escritor — autor, por exemplo, de Crónica de África, onde descreve a sua infância e adolescência passadas em Luanda — explicou o percurso da Guerra e Paz, iniciado sob a bênção literária de Mécia de Sena e Agustina Bessa-Luís, e debruçou-se sobre algumas das suas bandeiras:não ficou esquecida, por exemplo, a controversa publicação de obras como Manifesto Comunista e Mein Kampf, justificada com o princípio de que “não há livros que não devam ser publicados, não há livros que devam ser escondidos e não há situações que não possam e não devam ser discutidas”.
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Essa provocação, todavia, não parece ser gratuita; antes advém uma certa “joie de vivre” que transparece a partir do momento em que, bem disposto, reforçar que não pode ser fotografado sem o seu chapéu de aba. A mesma alegria que o impeliu a continuar quando a Guerra e Paz encontrou-se em risco de fechar em 2011 devido à insolvência de um distribuidor e que tenta partilhar com a restante equipa. “A ideia de ir na sombra do Vale da Morte não é aceitável para os meus hábitos tropicais. Precisamos de cor, de mar, de horizontes, e é isso que eu tento passar”, afirma.
Voltamos, lá está, à questão inaugural deste texto. Manuel S. Fonseca considera que a desistência da procura do prazer nos livros é o que tem levado tantas pessoas a afastar-se, apontando o dedo a quem coloca a literatura sobre uma redoma elitista e torce o nariz a novos géneros literários que têm sido a “locomotiva” comercial do setor, como o Young Adult e o Romantasy. “Criam tantas obrigações e uma ética de tal ordem à volta do livro que se esquecem de um elemento essencial: o prazer. É o que faz com que as pessoas corram; se estão a correr por prazer, em escapismo, não lhes faz mal nenhum que leiam”, defende.
No caso da Guerra e Paz, é a sua mais recente chancela, a Euforia, que tem assumido essa função de trazer novos leitores — e com sucesso, crescendo a 200% em 2025. Tal deve-se em parte a uma das mais recentes alegrias de Manuel S. Fonseca na sua vida de editor: a vinda da filha, Rita Fonseca, para a mesma casa editorial. Perto de fazer 73 anos, vê-se a passar o testemunho a “médio-curto” prazo. “Continuo na editora, mas, cada vez mais, essa passagem está a fazer o seu curso”, admite. Até lá, continua a cumprir sonhos: um deles é que vai mesmo publicar a obra-prima de Lev Tolstoi que batizou a editora, com a famosa tradução de Isabel da Nóbrega e João Gaspar Simões: “Vamos publicá-lo este ano, andei 10 anos a lutar por isso!”
A longevidade da Guerra & Paz é indissociável do seu tempo a liderar a editora. Esteve 10 anos como membro da equipa da Cinemateca de João Bénard da Costa, 13 como programador da SIC, quatro à frente da produtora de cinema VC Filmes. É, no entanto, numa área distinta, a do livro, onde passa mais tempo na sua vida. O que explica este percurso?
Não é uma surpresa, porque, em boa verdade, se tomarmos a Cinemateca como a primeira etapa da minha vida profissional, é uma fase na qual estou logo envolvido com livros. O que fazíamos como equipa era, obviamente, organizar ciclos de cinema e projetar filmes, mas também escrever sobre eles. E, ao fazê-lo, tínhamos também a obrigação, para os principais ciclos que a Cinemateca exibia, de criar livros. Eram os famosos catálogos da Cinemateca, que, na verdade, são livros ilustrados, com muitas fotografias, mas também com muito ensaio e trabalho de escrita.
Enciclopédicos, diria até.
Em alguns casos, sim, verdadeiras enciclopédias. E cabia a cada um dos programadores a responsabilidade das obras preparadas para os ciclos que dirigiam. Ou seja, em muitos casos, éramos editores daquela obra, já que não tinha apenas os nossos textos, mas incluía escolhas de outros autores. Portanto, na primeira responsabilidade profissional que tenho em Portugal, sou editor também. Isso talvez explique a minha relação com o livro, que também já vem de trás. Para mim, em Angola, desde criança, o livro representou uma das formas mais vivas de enriquecimento pessoal e de procura de prazer pessoal. Porque é esse o ponto: o livro tem um papel absolutamente essencial na procura do prazer, a par dos filmes. Isso talvez explique a minha relação com os livros que, depois da Cinemateca, também continuou.
Mas a etapa seguinte não foi a Guerra e Paz.
Não, antes estive na SIC, como diretor adjunto de programas e depois como diretor. E foi aí, até como uma forma de descompressão para a panela de pressão que representava trabalhar na estação, que tive a oportunidade de criar uma pequena editora por prazer.
A Três Sinais.
Sim, eu e os meus dois amigos que a criaram, o José Santos e o Gil de Carvalho, chamavamo-la “a mais pequena editora do mundo”, porque só fazia livros de luxo e apenas quando queríamos fazê-lo, sem nenhuma obrigação de carácter empresarial. Não tínhamos de prestar contas a ninguém, apenas aos deuses e aos demónios da nossa imaginação.
Apesar da Guerra e Paz ter fins distintos, considera que a Três Sinais foi uma espécie de balão de ensaio? O que é que traz desses tempos?
Nunca imaginámos a Três Sinais como uma empresa de ensaio para a criação de uma futura editora mais regular e de acordo com as normas da atividade editorial, mas a verdade é que acabou por ser. Em primeiro lugar, foi a oportunidade de trabalharmos com autores de uma bagagem e de um nível intelectual, literário e até filosófico excecionais. As duas principais figuras com que editámos na Três Sinais foram o Jorge de Sena e a Agustina Bessa‑Luís. Já não tive a oportunidade de conhecer Jorge de Sena, já tinha morrido há bastantes anos, mas conheci Mécia de Sena, que era a feroz guardiã da fortaleza que constitui a sua obra — e tive a oportunidade de conhecer a Agustina Bessa‑Luís. Foram duas mulheres absolutamente extraordinárias, exemplares naquilo que representa o amor ao livro e à literatura. Nesse sentido, acho que a Três Sinais não podia ter representado um começo mais auspicioso.
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Quando foi desafiado pelo Jornal de Letras a escrever uma espécie de perfil autobiográfico enquanto editor, refere a responsabilidade dessas “duas senhoras” — às quais junta uma terceira, a sua mãe — como figuras cimeiras para a criação da Guerra e Paz. Até porque esta arranca com os mesmos autores inaugurais da Três Sinais.
A Guerra e Paz começa assim, de facto. Em primeiro lugar, é um facto da vida absolutamente reconhecido e que ninguém pode desmentir que as mulheres desencaminham os homens. E, portanto, três mulheres desencaminharam‑me para uma rota que eu nunca tinha previsto, a de vir a ser editor. A minha mãe fê-lo involuntariamente quando me lia os livros de devoção católicos, com histórias maravilhosas de mártires e de acontecimentos terríveis, nos quais havia sempre uma salvação e uma lição moral. E em relação a Mécia e Agustina, quando arrancámos com a Guerra e Paz, eu e o José Santos tivemos a sorte de já trazer esse património da Três Sinais. Para nós, foi uma espécie de continuação da viagem com duas pessoas que muito estimávamos e com as quais conseguimos sempre criar uma relação não dramática; antes pelo contrário, descomprometida e descontraída, em que havia também muito sentido de humor. Acho que esse sorriso permanente que está por trás dessas duas mulheres acabou por marcar a editora, dando-lhe um certo tom, com uma crença positiva. Isso faz parte do mais íntimo que a Guerra e Paz tem.
As duas obras com que arranca com a Guerra e Paz — A Fama e o Segredo da História de Portugal, de Agustina Bessa-Luís, e Correspondência 1959-1978: Sophia de Mello Breyner e Jorge de Sena — parecem também exemplificar um dos princípios fundadores do seu trabalho enquanto editor, quando afirma que não queria apenas apostar em livros, mas também inventá‑los. Considera essa uma responsabilidade de um editor — ser um ator ativo e não passivo da produção cultural?
Uma das coisas que mais nos motivou no início — quer na Três Sinais, quer na Guerra e Paz — era de inventar os próprios livros. Era um dos lemas, e com isso vou dar o exemplo da Agustina, cujos livros [que a Guerra e Paz publicou] nasceram de propostas concretas que, no caso vertente, eu lhe dirigi — sendo também claro que estas enquadravam‑se naquilo que era o espírito da autora e da sua obra e nos próprios sinais que ela nos dava do que queria e do que gostava de fazer. A Fama e o Segredo da História de Portugal, o primeiro livro da Guerra e Paz, é um desafio que dirijo à Agustina e que ela aceita.

Como é que isso se deu?
É muito simples: eu gostava de ter uma espécie de viagem de Agustina pela história de Portugal e, como obviamente não se tratava de um ensaio académico monumental ou um cartapácio de mil páginas, o que fiz foi propor que houvesse uma história por cada um dos períodos em que poderíamos repartir a história de Portugal. E a Agustina aceitou, disse-me “dê‑me três episódios que julgue relevantes e eu depois escolho um episódio de cada um dos três e farei essa viagem ao longo da história de Portugal”. O que ela fez foi, de facto, criar o que chamava “óperas”, no sentido operático mesmo, porque são histórias em que há mistérios, traições, infidelidade… Enfim, todos os aspetos relacionados com aquilo que é o mais denso da vida humana. E mesmo o livro da correspondência Sena‑Sophia, teve de ser trabalhado entre as duas famílias, uma vez que as cartas pertenciam às famílias de Sophia de Mello Breyner Andresen e de Jorge de Sena. Houve necessidade de trabalhar, de recolher, de procurar, de reencontrar; portanto, ainda que tenham sido os autores a escrever as cartas, o livro foi “recriado” a posteriori.
Recuperando a pergunta que lhe fiz, um dos seus princípios norteadores, portanto, é também esta ideia de não ser só um recetor passivo de manuscritos e de projetos, mas de querer criar algo para o público.
Sem dúvida, e ainda hoje se mantém esse espírito. Por exemplo, arrancámos recentemente com livros que são criação aqui na editora, ainda que os materiais já existissem. São as Lendas e Contos de Fadas Japoneses e A Magia da China: Lendas e Contos de Fadas. Acabámos de fazer essas duas edições e vamos agora para as lendas e contos de fadas turcos. Na verdade, o que fizemos foi ir à procura desses patrimónios, selecionar, escolher e depois tentar encontrar um suporte visual e ilustrações de época riquíssimas. Portanto, nesse sentido, são livros “nossos”, não existiam. É uma montagem nossa em que não há propriamente um autor. Ou, por exemplo, 25 de Abril – No Princípio Era o Verbo, um livro que eu e o Nuno Saraiva assinámos sobre as frases do 25 de Abril. Foi uma recolha: as frases já existiam, porque as paredes de Portugal e os cartazes tinham essas inscrições, como sabemos. Fomos recuperá‑las e desafiei o Nuno para fazer ilustrações que correspondessem a esse período e que voltassem a dar-nos hoje uma interpretação, mas que respirassem o ar daquele tempo.
A Guerra e Paz sempre teve no seu ADN uma veia “provocadora”, ou, pelo menos, propensa a querer agitar as águas? Isso faz-se pouco em Portugal?
Não sei se temos essa intenção premeditada, mas deve haver qualquer coisa que nos leva a procurar um bocadinho de insólito, de diferente e, sobretudo, a não esconder um elemento da vida humana e da cultura ocidental que tem a ver com os elementos de transgressão, que existem, sempre existiram. Obviamente que num jantar de família não desata toda a gente sentada à volta da mesa aos palavrões, mas o palavrão existe e diz‑se. E ir buscar um livro do Jonathan Swift para começar a coleção Livros Negros, que é Os Benefícios de Dar Peidos, não é só um gesto de pura provocação. É porque, na verdade, esse é um elemento da vida humana. Os escritores sempre tiveram uma curiosidade enorme por tudo o que são os aspetos extremos da vida ou que normalmente são recalcados e é preciso reabrir. E acompanhamos isso com muito gosto, sim. Haverá quem o faça com dificuldade ou de uma forma muito…
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Sisuda?
Sim, mas nós fazemos com gosto. Eu, pelo menos, faço-o, e sem nenhum problema, porque é preciso de tudo para fazer um universo.
E, no que toca à provocação, ela pode ter diferentes graus de magnitude, mas é em si mesmo um ato político, ou não?
Por exemplo, publicámos uma trilogia que originou bastante polémica, lançando edições do Manifesto Comunista, do Mein Kampf e do Pequeno Livro Vermelho. E editámos esses três livros com esta designação de Livros Malditos por estarem associados — quer os autores quisessem que assim fosse ou não — a três enormes tragédias do século XX. De facto, o Manifesto Comunista está, por mais voltas que se dê, associado à Revolução Bolchevique de 1917; o Mein Kampf à ascensão do nazismo na Alemanha; e o Pequeno Livro Vermelho é um livro de combate ligado à Revolução Cultural Chinesa. Todos esses eventos históricos estão ligados a tragédias tremendas, à morte de milhões de pessoas. As análises podem ser feitas como se queira, mas esses livros têm essa associação e nós decidimos publicá-los com prefácios e um trabalho prévio que os enquadrava e mostrava como essas situações aconteceram. Isso provocou, obviamente, muita polémica, quanto à legitimidade de se publicar ou não, de se estar a enquadrar o Manifesto Comunista com esse prefácio, por um lado, a legitimidade de se publicar ou não publicar o Mein Kampf, por outro… Ora, o que acho é que um editor deve existir para publicar tudo, mas tudo, sem nenhuma reserva, do Mein Kampf ao Manifesto Comunista. Não há livros que não devam ser publicados, não há livros que devam ser escondidos e não há situações que não possam e não devam ser discutidas. Esse tem sido um dos nossos princípios.
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Revisitando o catálogo da Guerra e Paz, desde 2020 que a editora publicou pelo menos 20 livros, por exemplo, à volta da temática do “woke” e do politicamente correto. Porque é que estes temas lhe merecem, ou lhe têm merecido, tanta atenção?
Porque é uma questão civilizacional muito importante e decisiva. Há uma espécie de nova inquisição que o movimento woke trouxe para cima da mesa. E é curioso que é um movimento que tinha sobretudo uma marca associada à radicalidade de um ativismo de esquerda hoje tem aspetos que se podem encontrar replicados também na extrema‑direita. E é um momento inquisitorial que põe em causa alguns princípios que, para mim, são uma chave absoluta. Em primeiro lugar, a tentativa de recusa da ciência, de silenciar o discurso científico, de o tentar emparedar em linhas muito definidas, recusando a possibilidade de discussão. E mais, cancelando quem pense, quem investigue e quem trabalhe que saia dessas normas que estariam ditadas “ad aeternum”.
Que normas são essas?
São normas que consistem numa criação cultural e que procuram que uma certa memória, um certo discurso, se substitua à biologia e à ciência e que impeçam que as discussões dos grandes problemas continuem. Nesse sentido, entendi que, na editora — e em particular numa coleção que criámos, Os Livros Não Se Rendem — tentássemos dar voz a discursos que defendessem o princípio da universalidade e da ciência. Para mim, o assustador é que um movimento que nasceu naquilo que foi, no passado, uma visão de esquerda universalista, se converta e tenha os mesmos procedimentos que tinha, por exemplo, o salazarismo, quando punha um professor de matemática fora da universidade ou do liceu só porque tem opiniões políticas diferentes das do regime. Repetir esse mesmo modelo, como é o caso da cultura de cancelamento, levou‑me a que, de uma forma quase militante, eu tivesse escolhido um conjunto de livros para publicar em Portugal. Por outro lado, esses livros são mesmo excelentes, na maior parte dos casos, e de autores que eu gostaria até de continuar a publicar, independentemente da polémica woke ou não. Portanto, estou tranquilo também em relação a isso. Mas sim, foi uma procura sistemática, concentrada e dirigida.
Imagino que também tenha feito essa aposta porque os livros vendem bem, ou imperou antes um sentido de missão em editá-los?
Uma das coisas que fiz nos últimos anos na Guerra e Paz foi procurar parcerias com entidades muito diversificadas, desde a Sociedade Portuguesa de Autores à Fundação Amélia de Mello, à Fundação Manuel António da Mota ou à Fundação Gulbenkian. E as parcerias servem, sobretudo, para ajudar-nos a publicar livros que, de outra forma, representariam riscos demasiado altos para que um editor privado e que depende de si próprio pudesse fazê‑lo. Corremos riscos muitas vezes, sem dúvida, mas não podemos correr todos. A edição de algumas dessas obras passou pelas parcerias. No entanto, devo dizer que, hoje, tudo somado, essas obras valeram a pena, mesmo no plano comercial, porque, mesmo retirando as parcerias, teriam tido a capacidade de se pagar a si próprias e de não prejudicar a editora. Portanto, foram boas apostas nesse sentido.
Desde esse período entre 2017 e 2022 — quando as lutas pela justiça social criaram esse vaga culturalmente dominante — que o chamado movimento woke parece ter baixado de intensidade, dando espaço a outros discursos, nomeadamente com a ascensão de novos autoritarismos. Encara o woke ou o politicamente correto ainda hoje como uma ameaça, ou houve alguma mudança nestes últimos anos?
Digamos que a locomotiva hoje está naquilo que chamamos extrema‑direita e nos autoritarismos, que podem ter — e tiveram durante muitos anos em alguns lugares, como a Venezuela — uma marca de esquerda, mas que julgo estarem agora mais concentrados à direita. Disso não tenho dúvidas. Mas as coisas acumulam. As matérias de preocupação para aquilo que é a cultura e a abertura universal situam‑se nos dois extremos, à direita e à esquerda. Uma coisa são os poderes políticos e o domínio das nações, seja por eleições, seja por via de golpes constitucionais. Outra é a área dos saberes e a capacidade de influência sobre as universidades e sobre o trabalho de investigação. Publiquei um livro chamado Face ao Obscurantismo Woke, que foi editado em França pelas Presses Universitaires de France e que junta 22 investigadores, todos de alto nível — pessoas do CNRS, por exemplo, que é onde está o grande laboratório de investigação astrofísica. E essas pessoas chamam a atenção para a forma como o edifício do ensino e da investigação pode estar a ser minado. É, portanto, preciso ter essa capacidade de ter o olhar da mosca, que olha em 180 graus, e abarcar o conjunto dessas preocupações. Não desapareceu a vontade dos grandes discursos identitários, seja relativamente à biologia, seja relativamente às ideologias racialistas, de um discurso único e de uma culpa. Agora, diminuiu de intensidade, sim. E, sobretudo, subiu de intensidade o aspeto político, como sabemos, até pela situação específica da maior nação do mundo estar dirigida por uma figura tão “peculiar” como é a de Donald Trump.
Voltando ao percurso dos 20 anos da Guerra e Paz, quais foram os maiores desafios pelos quais a editora teve de atravessar para chegar até aqui?
Uma editora é como se fosse um ser humano, tem uma história própria. Na vida da Guerra e Paz houve um episódio terrível. A atividade editorial depende de um conjunto de fatores, sendo que os editores ou se distribuem a si próprios ou precisam de ter um distribuidor e um conjunto de redes livreiras que venda os seus livros. Portanto, este é o circuito que tem de funcionar, e essa figura intermediária do distribuidor é muito complicada e muito complexa para a nossa atividade. Sucede que tínhamos um distribuidor desde o início da editora e, sem que eu tenha percebido os sinais — por ingenuidade minha nesse plano —, em 2011 colocou-se numa situação complicada e, de repente, declarou insolvência. Ao fazê-lo, perdemos as nossas receitas todas de um ano — e isso é fatal com o destino.
E como reagiu?
O conselho que me foi dado foi que eu fechasse a empresa, que terminasse com a Guerra e Paz, mas decidi não fazer isso, optei por caminhar noutro sentido e resistir, mas foi uma luta muito difícil e muito complicada. A maior luta que tivemos foi essa; não foi com autores, nem de linhas editoriais; foi mesmo de sobrevivência pura e dura. Uma perda como a que tivemos demora 12 a 15 anos a recuperar, que foi o que nos aconteceu. Precisámos de 12 anos para recuperar a nossa saúde financeira. Só em 2023 é que voltámos a encarar a nossa vida editorial como normal. Aos novos editores, o meu conselho é que tenham muito em conta o fator de distribuição — muitos que declaram falência e fecham portas, fazem-no por causa disso. Mas também tive grandes alegrias na minha vida editorial.
Como por exemplo?
Há vários livros de que me orgulho particularmente [ver infobox]. Essas são algumas das grandes alegrias. A outra, e final, é ter hoje a minha filha a trabalhar comigo. Ela entrou na editora em 2022, e o objetivo é muito claro: haver uma passagem de testemunho. É isso que quero fazer. Continuo na editora, mas, cada vez mais, essa passagem está a fazer o seu curso. A ideia de que a Guerra e Paz é uma empresa familiar — uma pequenina empresa, não tem a ver com os grandes grupos familiares — dá‑me um grande prazer, tanto por ela ter querido vir para a editora como por tornar possível a passagem como estamos a fazer. A Rita, neste momento, além de outros trabalhos que tem feito, já tem ao seu encargo a chancela Euforia, que é a locomotiva de vendas da editora. O ano passado foi o segundo ano completo da Euforia e o crescimento rondou os 200%; este ano vai em perto de 140%, o que mostra que são níveis de crescimento muito acima do crescimento do mercado livreiro. E isso deixa‑me, obviamente, vaidoso.

Ainda relativamente às dificuldades pelas quais passou, referiu numa entrevista que houve uma série de editoras fundadas ao mesmo tempo que a Guerra e Paz, em 2006, mas que esta é a única sobrevivente dessa casta. Tendo já alguma experiência no setor cultural, mesmo que não diretamente no editorial, pergunto-lhe se essa sobrevivência, em parte, advém de ter tido conta a vontade de evitar alguns vícios e pechas desta área.
Uma das razões pelas quais conseguimos sobreviver a um verdadeiro cataclismo é o rigor da organização económica e financeira da empresa. Um dos fundadores, o José Santos, tinha formação e conhecimentos contabilísticos e, sobretudo, e financeiros. A Guerra e Paz é uma microempresa que está a crescer mas a sua organização foi, desde o princípio, muito, muito cuidada e essa é uma herança que ele nos deixou e seguimos, de mantermos as nossas práticas de gestão. Portanto, isso teve um papel e, desse ponto de vista, há que ter em conta que não sou apenas editor, sou também o dono da Guerra e Paz. Há editores que trabalham para terceiros e só se preocupam com os aspetos da sua chancela e com aquilo que tem de ser a sua linha editorial. No meu caso, eu trouxe experiência, até dos tempos da SIC, quanto a organização, a gestão de orçamentos e das pessoas também. Diria que a Guerra e Paz, para o tipo de empresa que é, tem uma organização que é um brinco.
Mas, além de seguir boas regras de gestão, também imagino que seja preciso uma dose elevada de “carolice” para manter uma editora. Na secção do website da Guerra e Paz onde se pode submeter originais para apreciação, recorda aquela piada: “Como é que se faz uma fortuna a ser editor? É herdando uma grande fortuna”.
Sendo eu o sócio maioritário, é natural que a minha personalidade esteja também inscrita no perfil da editora. E o meu perfil é o de alguém que viveu em Angola, que viveu nos trópicos e que gosta que a vida seja com riso, com alegria. Não consigo ver‑me angustiado, a sofrer e a viver a vida empresarial como um pavor, sendo que no dia a dia tento passar isso a toda a minha equipa. Hoje somos 14 pessoas e o objetivo é que se trabalhe — duramente, às vezes —, mas sempre com um certo lado lúdico e uma certa alegria também, que faça dos dias menos pesados e nada sombrios. A ideia de ir na sombra do Vale da Morte não é aceitável para os meus hábitos tropicais. Precisamos de cor, de mar, de horizontes, e é isso que eu tento passar. Uma coisa, o rigor, não dispensa a outra, que é haver uma atitude e uma idiossincrasia diferente para a editora.
As várias alegrias editoriais de Manuel S. Fonseca
- Aconteceu-nos o “milagre Agustina”. Foi um milagre para nós, porque a Agustina tinha uma editora própria, a Guimarães, onde publicava os seus livros. No entanto, tinha abertura suficiente para, fora da publicação dos seus romances, podia escrever não-ficção, que foi o que fez connosco. E há casos em que a sua não-ficção é tão bonita e literária quanto a ficção. A senhora dona Agustina permitia-se a todos os delírios, largava a sua imaginação com todas as asas necessárias.
- Assim Nasceu uma Língua, do Fernando Venâncio, foi uma das grandes alegrias da minha vida editorial por várias razões. Primeiro, porque nasceu num contexto de amizade: foi o Marco Neves, um linguista que já era meu autor, que me trouxe um dos seus pares. Podiam ser rivais, podia não querer, mas não só teve a generosidade de trazê-lo, como fê-lo para a mesma editora onde escreve. Depois, por ter publicado um livro que gerou unanimidade, que não teve um reparo. É uma sensação saborosa — se me perguntar, diria que sabe a leite creme. De repente temos um livro que toda a gente aplaude e gosta, que é comprado no estrangeiro para publicação no Brasil ou na Galiza, para dar dois exemplos. Fernando Venâncio infelizmente já faleceu, mas foi também um prazer conhecê-lo.
- Ter publicado O Físico Prodigioso, de Jorge de Sena, um livro, a meu ver, lindíssimo, das mais delicadas peças eróticas da literatura portuguesa. E fizemo-lo com o consentimento de Isabel de Sena e com a pintura da Mariana Viana. Ainda por cima, conseguimos fazê-lo com o que suspeito ser a maior capa do mundo, porque na verdade é desdobrável e chega a um metro.
- Por fim, outra alegria dentro do princípio da invenção dos próprios livros, foi termos publicado As Flores do Mal – Absinto, Ópio, Tabaco e Outros Fumos, uma antologia de textos do Fernando Pessoa todos eles à volta dos seus vícios — fumos, álcool, ópio — com fotografias do meu amigo Pedro Norton, que eu desencaminhei para fazer esse trabalho. E fizemo-lo com uma capa invulgar, talvez pioneira, toda em madeira, mas em que a peça não tem colagens. É mesmo uma tábua completa à qual depois se fazem os cortes para ficar na dimensão correta. E, na zona da lombada, com o laser fez‑se um trabalho como se estivéssemos ali a fazer renda. E conseguimos que, mantendo sem colagens, sem cortes, aquela tábua se convertesse na capa, contracapa e lombada, com uma flexibilidade igual à que temos com o papel. Isso é uma coisa extraordinária.
Algo que caracteriza a Guerra e Paz é que há muito trabalho de comunicação, criam-se muitas coleções e muitas iniciativas…
Algumas resultam, outras não. Bastantes falham.
Nesse sentido, ser editor e dono é também, em certa medida, ser um marketeer?
Estive a fazer um inventário destes 20 anos, do que fizemos e não fizemos, e veja que uma das minhas melhores coleções é uma coleção falhada, a Livros Amarelos. É uma coleção lindíssima e única, trata-se de um livro que, na verdade, leva três lá dentro. Em primeiro lugar, põe em paralelo livros de autores diferentes — por exemplo, de um lado está o Fernando Pessoa e do outro está Oscar Wilde, dois textos em diálogo um com o outro. Mas depois também convidámos um ensaísta contemporâneo para escrever sobre ambas as obras e o texto desse convidado vai no meio do livro. Portanto, temos dois livros em “confronto” e um árbitro a separá-los no meio. Além disso, era uma coleção de capas amarelas com cortes magníficos, tinha trabalho tipográfico que permite variações e loucuras. Veio cá uma vez um autor americano, professor numa universidade californiana, que me disse “isto é espetacular, é a única coleção comparativa que existe no mundo”. Bom, é um falhanço total da Guerra e Paz: os livros não vendem, não se pagam sequer, pelo que tornou‑se impossível continuá‑la. De vez em quando fazemos um livro para manter viva a ideia, mas é um exemplo de uma coisa que falhou. Apostámos em tudo o que era comunicação, no convite a pessoas para escreverem os textos do meio — tudo isso foi feito. A verdade é que falhámos, mas falhámos gloriosamente.
Entre falhanços e sucessos, à beira de completar 20 anos, foi‑lhe confiada a tarefa de liderar também a Gradiva. Quando Guilherme Valente se retirou, escreveu um texto onde não só reagia com incredulidade, como admitia “funda admiração (e a muita sufocada escondida inveja)” pelo seu trabalho. Como encara a responsabilidade?
Em primeiro lugar, a Gradiva é um dos grandes projetos editoriais destes últimos 50 anos da vida editorial portuguesa, com uma coleção fantástica de textos, quer na não‑ficção, quer na ficção. O trabalho que foi feito pelo Guilherme Valente a favor da cultura portuguesa, juntando as obras do António José Saraiva, do Eduardo Lourenço, é magnífico. E veja o fez pela ciência, com a criação da Ciência Aberta, não só junto de autores portugueses, como o Carlos Fiolhais ou o Jorge Buescu, mas também trazendo os maiores vultos mundiais da divulgação científica: Carl Sagan, Richard Dawkins, Stephen Hawking, Richard Feynman. Na ficção, há muitos autores, mas há três que são magníficos: o Kazuo Ishiguro, que venceu o Prémio Nobel; o Ian McEwan, que é um dos grandes romancistas, premiadíssimo com o Booker e não só; e Umberto Eco. Isto são apenas algumas das coisas que o Guilherme fez. Ele construiu uma obra ímpar, notável, de grande dimensão.
E como é que se deu a passagem?
Conhecemo‑nos há muito tempo, tirámos Filosofia juntos e tínhamos apreço e como referência — máxima, talvez — José Gabriel Trindade Santos, professor de Filosofia Antiga, História e Filosofia das Ciências que se tornou nosso amigo e que ele publicou. Sendo nós duas pessoas muito diferentes e com visões diferentes, completamente distintas às vezes, e com grandes discussões à mesa dos almoços, a verdade é que tínhamos esse património em comum. E, sobretudo, a ciência e a filosofia são pontos importantes e de referência para nós os dois.
De repente, percebi que o Guilherme, há dois ou três anos, foi se sentindo menos confortável e, com as suas razões, quis abandonar a vida editorial e a vida profissional. Acreditei sempre que encontraria uma solução de continuidade, fosse ela qual fosse. Nem que — porque era uma empresa muito apetitosa — um dos grandes grupos decidisse ficar com ela e pudesse continuá-la. A verdade é que nada disso aconteceu. Houve um dia em que, depois de várias insistências ao longo do último ano, o Guilherme, num almoço, disse-me: “olha, acabei de dar uma entrevista onde anuncio o fecho da Gradiva e a minha saída definitiva. Sai daqui a uma semana e, a não ser que tu me digas que queres ficar com a editora, nesse caso eu telefonarei a dizer que afinal não é fecho, é passagem, e alteraremos essa parte. Portanto, agora é contigo”.
E como reagiu?
Aquilo que me parecia ser uma fantasia, de repente, caiu‑me em cima. E, por tudo aquilo que acabei de dizer sobre a Gradiva, foi uma coisa que me tocou. Primeiro, porque o Guilherme podia pura e simplesmente ter fechado, mas não queria mesmo fazê-lo, queria que os livros tivessem continuidade. Ele ter entendido que eu tinha a capacidade para continuá-los é uma responsabilidade muito grande que me confere. Por outro lado, é uma alegria muito grande que um amigo nos veja dessa maneira também. Portanto, esses dois fatores juntaram‑se e eu decidi mesmo avançar. Ou seja, a Gradiva passou para o grupo Guerra e Paz, que passou a ser o principal acionista da empresa, e a responsabilidade editorial passou para mim.
Estava a referir que houve várias insistências ao longo deste último ano — da sua parte em pedir a Guilherme Valente para manter a Gradiva operacional, ou dele em passá-la para si?Antes desse almoço, o Guilherme já tinha dito várias vezes que eu tinha de ficar com a editora, que queria passá-la para mim. Eu achava que era uma fantasia e uma coisa de simpatia, de amizade, mas nunca séria. Nunca essa conversa se converteu em “vamos lá falar, vamos lá ver os números e o catálogo”.
Portanto, nunca passou do hipotético?
Precisamente. E só naquele momento, em que ele me fez um ultimato, face a isso é que aí, sim, percebi que era uma coisa concreta e que tinha alguma obrigação de pensar seriamente se podia ou não envolver‑me num projeto desta natureza e como.
Mencionou que a hipótese poderia ter sido de um dos grandes grupos editoriais tentar ficar com a Gradiva. Tendo em conta o seu legado e papel, parece estranho não ter havido tentativas mais sérias.
Mas houve, houve obviamente interesses. Mas só o Guilherme poderá falar sobre as razões pelas quais não se concretizaram. Eu não estive nessas negociações, mas sei que as houve. E sei por acaso até quem são os intervenientes, mas é uma coisa que nem sob tortura lhe direi.
E quais desafios de uma, como afirmou há pouco, “microempresa” com a estrutura da Guerra e Paz passar, de repente, a gerir outra de igual ou até maior dimensão?
A Gradiva era uma editora com muito maior dimensão do que a Guerra e Paz, se bem que, no momento da passagem, que já faz um ano, já tinha uma faturação inferior à nossa. A Guerra e Paz tem vindo a crescer, há cinco anos que cresce sempre acima do mercado — e o mercado está a crescer bem. Este ano abrandou um bocadinho, mas tem crescido sempre a 7 e 8%. Não só recuperou desde a Covid como é hoje bem mais amplo do que era há 10 anos. A Gradiva, até porque o Guilherme foi desinvestindo, no sentido em que se estava a preparar simplesmente para se retirar, foi perdendo quota de mercado. Nós, o que estamos a fazer, é recuperá-la. Neste momento, a Gradiva já está a crescer mais do que a Guerra e Paz, já. A nova gestão entrou em janeiro e, no primeiro trimestre, o crescimento da Gradiva é de 31% em valor, o que é bastante superior aos 2,5% do mercado.
Portanto, precisava apenas de um influxo de vitalidade?
Sim, porque, primeiro, todo o potencial estava lá, criado pelo Guilherme, que tinha um catálogo fantástico. Foi é preciso reativar muitos títulos. A começar, por exemplo, pelo José Rodrigues dos Santos, que tem 23 títulos na Gradiva. As novas obras estão noutra editora, a Planeta — que é o nosso concorrente, mas é uma editora de boa dimensão e que faz o seu trabalho — mas os livros editados com a Gradiva permanecem connosco. E, portanto, temos trabalhado bastante com o autor, com o relançamento, por exemplo, das edições de 20 anos — O Codex 632 e A Fórmula de Deus, que sai em maio. Da mesma maneira, revitalizamos obras de uma série de autores — Eduardo Lourenço, Luís Filipe Thomaz, toda a Física Divertida do Carlos Fiolhais, o [George] Steiner, o Ishiguro, do Eco e o McEwan — com novas edições e capas novas. Ou seja, nos casos em que havia rutura nas livrarias, nós estamos a reativá‑los, fazendo aquilo que, obviamente, o Guilherme também faria se tivesse continuado com a editora. Portanto, não vamos inventar nada de novo. Vamos é precisar de renovar, no futuro, e de fazer na Gradiva o que ele também sempre fez no passado, pois teve várias chancelas, trabalhou com várias marcas diferenciadas, procurando, na altura, temáticas e tendências do mercado que precisava de atacar. Faremos o mesmo agora, como fizemos na Guerra e Paz.
https://observador.pt/especiais/48-horas-com-jose-rodrigues-dos-santos-maquina-de-fazer-livros-posso-nao-ser-profeta-mas-o-grande-publico-e-que-interessa/
Refere-se ao quê?
Na Guerra e Paz temos a Euforia, a chancela que a minha filha criou e que é fundamentalmente vocacionada para os livros do chamado New Adult e que trabalha todas as novas tendências do mercado, que são, neste momento, aquilo que mais tráfego cria nas livrarias. E é muito importante que isso aconteça, porque depois os outros livros beneficiam desse tráfego, como é evidente. Nós vamos precisar de criar o mesmo para a Gradiva. Ainda não temos decisões tomadas, mas estamos a trabalhar nesse sentido.
Ainda no que toca à Gradiva, apesar de fazer parte do mesmo grupo, ainda há uma separação das águas no que toca a decisões editoriais e à maneira como é gerida em relação à Guerra e Paz?
A Gradiva e a Guerra e Paz são duas empresas jurídica e economicamente autónomas, mas fazem parte do mesmo grupo. A equipa de trabalho é só uma neste momento — as 14 pessoas trabalham basicamente em unidade e produzem os livros da Gradiva e da Guerra e Paz — e os editores das duas sou eu e a Rita Fonseca. Depois, trabalhamos com duas coordenadoras editoriais, uma para a Gradiva, a Helena Rafael, e outra para a Guerra e Paz, a Maria João Batista. Mas são coordenadoras editoriais; a decisão editorial passa por mim e pela Rita Fonseca.
E Guilherme Valente deixou-lhe algum pedido ou requisito nessa passagem?
Não, não fez nenhum pedido nem nenhuma exigência. Ele sabe que a única forma de gerir uma empresa é que, quem está à frente, tome as decisões que tem de tomar. Esse é um ponto inequívoco. Mantemos uma boa relação e contacto. E se tenho a louvar as decisões que tomou — a proteção dos livros, a vontade imensa que teve para que os livros não se perdessem, não se diluíssem e ficassem no património — outra das coisas que ele tem feito, que é muito importante, é a total não ingerência a partir do momento em que saiu da empresa. Mas posso dizer-lhe que, o meu objetivo é, em 2027, consolidar o grupo.
Portanto, passar a haver apenas uma empresa?
Sim, mas, mesmo aí, quero que a autonomia editorial e as marcas se mantenham distintas, com a mesma identidade e linha. Não vai haver confusões, ou seja, não vamos passar títulos da Gradiva para a Guerra e Paz e vice-versa.
Qual é a realidade de uma editora média independente em Portugal em 2026?
No que toca a empresas médias, estamos a falar, por exemplo, da Guerra e Paz e da Gradiva, mas também do Clube do Autor, que já é maior, e se calhar da Tinta‑da‑China e da Relógio d’Água. O que posso dizer é que conheço os resultados do mercado e há um lado interessante. Os maiores crescimentos são das novas tendências: Young Adult, New Adult, Dark Fantasy, Romantasy, enfim, todos os novos géneros que captam um público mais jovem, que está no TikTok. Isso é o que faz com que o mercado cresça. Mas curiosamente, estas editoras que mencionei, que têm mais catálogo, estão também com resultados muito simpáticos e interessantes, acima do crescimento do mercado. O que significa que existe uma locomotiva — estas tendências que estão a puxar leitores — mas os catálogos médios e de qualidade estão a manter‑se vivos e com crescimento para essas empresas. Este é o resultado do primeiro trimestre. Ou seja, está a existir neste momento um espaço e uma abertura para que um conjunto de livros que estes editores lançam — e que vai de um Gonçalo M. Tavares até livros de filosofia e de ciência e até aos nossos livros de contos japoneses e chineses, que têm corrido mesmo muito bem, surpreendentemente — tenha resultados. Portanto, as editoras que têm esses acervos têm tido capacidade de resistir e crescer.
Usou a expressão de que há “uma locomotiva” a fazer crescer o mercado e há o restante catálogo de qualidade. Entendo que não estabeleceu esse contraste de propósito, mas há uma boa fatia do público que considera esses géneros à volta dos jovens adultos como sendo de menor valia. Como encara essa avaliação?
As qualificações vão sempre ser feitas e tudo depende das intenções e da forma como as colocamos, até do tom de voz que usamos. Eu diria que as novas tendências são de massificação e de escapismo e que têm uma intenção sobretudo comercial. Eu não vejo nada de condenável nisso, até o encaro como uma forma de início de leitura. Eu sei que há imensas pessoas que dizem “é terrível, as pessoas que leem isso nunca vão ler outras coisas.” Não é verdade, e falo por mim, que não sou filho de pessoas ricas, eram muito pobres, e portanto não tive uma biblioteca em casa. Tinha o livro de orações de devoção da minha mãe, acho que muitas das histórias que estão na minha cabeça passam sempre por ali — pessoas perdidas no mar, numa tempestade, em que vai tudo morrer, etc… E lembro-me de começar a ler os livros do Buck Jones e de autores como Zane Grey. Às vezes lia metades de livros, porque era o que apanhava: ou perdia o princípio, ou perdia o fim, uma coisa qualquer.
Ou seja, a literatura de aventuras desse tempo corresponde ao Young Adult hoje?
Não conheço bem as regras comerciais dessa altura, mas imagino que corresponderá um bocadinho, pelo menos da maneira como é encarada. E o que eu acho é que muitas das pessoas que fazem esse tipo de crítica e que querem fechar as coisas num certo universo — ter a afirmação da grande cultura, da grande literatura — nalguns casos são os principais responsáveis por não se ler. Só para não falarmos nas consequências que houve da gestão da educação. Essas pessoas acabaram por apertar tanto essa malha que, com o seu exclusivismo, assustam a maior parte dos leitores. Criam tantas obrigações e uma ética de tal ordem à volta do livro que se esquecem de um elemento essencial: o prazer. É o que faz com que as pessoas corram; se estão a correr por prazer, em escapismo, não lhes faz mal nenhum que leiam. Hoje estamos a falar dessa literatura como menor, mas, se calhar, amanhã algumas dessas escritoras ou escritores acabarão por converter-se em referências e em escritores tidos como superiores, apesar de começarem num género encarado como menor. Portanto, eu reprovo essa ideia tão fechada de exclusivismos e de clubes de elite, porque não é por aí que as coisas vão funcionar. E mais, são esses que vão fechar e limitar o acesso das pessoas à cultura e desencadear formas de limitação da própria atividade editorial.
No que toca às escolhas editoriais, na secção acima referida de submissão de originais no website da Guerra e Paz, há uma advertência bastante explícita de que “é extremamente difícil, no atual quadro da atividade editorial, publicar novos autores, em particular na poesia e no romance” e que “a não-ficção constitui a área preferencial de publicação da Guerra e Paz”. É uma admissão incomum, pelo menos na sua honestidade e transparência para com o público e para com os autores. O que é que dita que as coisas assim sejam?
Na não‑ficção, alguém que escreve um livro sobre, sei lá, a Constituição ou sobre bebés, certamente tem de ter algum património de conhecimento para querer escrever esse livro.
Portanto, confere autoridade ao autor?
Sim, e a pessoa vai pronunciar‑se sobre uma coisa que conhece. Não é como se uma pessoa fosse escrever um manual de eletricidade sem saber alguma coisa sobre o tema. Isso torna mais fácil aceitar se a pessoa chega e diz: “olhe, eu sou um veterinário e quero fazer um livro sobre cães”. É natural que se preste atenção, porque, pelo contrário, a escrita de romance ou de poesia é inteiramente…
Subjetiva?
Sim, e aí a situação do mercado é mesmo muito difícil para a entrada de um novo autor que tenha reconhecimento no quadro atual, em que desapareceram as referências tradicionais. Já desapareceram há algum tempo, mas há 20 ou 30 anos talvez ainda houvesse o aparelho de comunicação, o aparelho de recensão, que levava a que a pessoa pudesse ser reconhecida. Esse dispositivo hoje não existe. A fragmentação é total. Não há condutores de gosto. Há apenas explosões, e essas explosões aparecem no TikTok, no Instagram, de vez em quando na televisão. Com exceção do Paulo Portas, do Governo Sombra, ou do Nuno Rogeiro, que realmente ajudam um bocadinho a chamar a atenção para os livros, não há esse aparelho, pelo menos como dantes. Todos os jornais, há várias décadas, tinham um suplemento específico para livros. Mesmo o Público e o Expresso — que são tidos como jornais mais marcantes desse ponto de vista, no papel — já não têm espaço e oportunidade para fazê-lo. Esses guias já não existem, o que torna as coisas ainda mais difíceis.
E imagino que seja ainda mais complicado quanto à poesia.
Como costumamos dizer, há 300 leitores de poesia em Portugal. Publicamos poesia na Guerra e Paz, apesar de tudo, mas sinto que às vezes nós, editores, não estamos a ser honestos com o autor. Tenho de dizer muitas vezes aos autores “deviam procurar editores guerrilheiros, que trabalhem aquela área específica”, porque já ganhou uma especificidade e um circuito tão próprio que tem de haver um esforço e a capacidade de estar presente nesse circuito, com insistência e permanência. E nós, como temos uma atividade muito mais larga e lata, não conseguimos estar a fazer esse trabalho tão minucioso e de joalharia. Só um guerrilheiro pode ir fazer isso. De modo que se torna difícil a publicação e verifica‑se: basta olhar para os catálogos dos editores e ver que realmente não há hoje coleções de poesia marcantes, tirando três ou quatro específicos que estão a trabalhar essa área.

Uma das tendências que tenho encontrado ao falar com escritores é que, gostem ou não, estejam mais ou menos confortáveis com isso, a questão da autopromoção e da criação de uma marca própria nas redes sociais já quase se tornou parte do trabalho, mesmo que persistam na ideia do “quero que o meu livro fale por mim, não quero ser eu a falar”. As próprias editoras já não parecem conseguir assumir ter esse encargo — além da publicação, claro, dão uma estrutura que é útil e necessária para encontros, apresentações, etc, mas há um papel que já não parece ser substituível ao próprio autor. Concorda?
Estou de acordo, claro, e isso não é uma questão portuguesa, é uma questão mundial. Nos Estados Unidos, mas também na Europa em geral, um autor hoje converteu‑se numa máquina de autopromoção. Em muitos casos, nos Estados Unidos, os autores são os donos da própria obra, no sentido económico do termo. Só precisam do editor para o processo de distribuição, para terem a garantia de terem, apesar de tudo, uma presença em livraria ou assim. Esse fenómeno atingiu hoje Portugal completamente.
Um artigo recentemente publicado pelo El País dá conta de um estudo que aponta que cerca de metade dos livros impressos disponíveis nas livrarias espanholas não vende um único exemplar num ano, e apenas 4,5% dos títulos ultrapassam as 100 cópias vendidas anuais. Entretanto, algumas reações deram conta de que a leitura dos números pode ter sido enviesada para produzir estas conclusões mais apocalípticas, mas parece apontar para um certo consenso de que hoje em dia se publica demais e se lê de menos em Espanha. Com as devidas diferenças, encontra paralelos com a realidade portuguesa?
Esses números parecem‑me exagerados. Em relação a Portugal, temos uma entidade, a GfK, que faz a análise dos números tendo em conta o sell-out, ou seja, é real, são as vendas que saíram em caixa. Essa análise cobre a maior parte do circuito livreiro — a exceção é o Wook, que vende bastante, representará entre 12 a 14%, somando-se outros 9%, que representam pequenas livrarias. E as vendas do editor [ou seja, livros diretamente vendidos nos websites das editoras, por exemplo] também não são contabilizadas. Quando chegamos ao final do ano e olhamos para o top anual, estão lá, vamos imaginar, entre 30 mil e 40 mil títulos ativos [livros do catálogo que continuam comercialmente disponíveis e em circulação]. Desses, só os cerca de 1000 a 1500 no topo é que atingem, num ano, 1000 ou mais exemplares vendidos. O ano passado até foi impressionante, porque o novo álbum do Astérix chegou a vendas na ordem dos 140 mil exemplares — e foi um caso excecional, que também mexeu com a quota da mangá e da BD. Antes, o livro mais vendido já tinha caído para menos de 100 mil exemplares.
E qual é o panorama a partir daí?
Dependendo de ano para ano, há títulos a partir da posição 2000 que já não têm sequer 1.000 exemplares vendidos. E depois começa‑se a baixar daí e rapidamente se passa para 500, 300, 200, 100, e depois há então os que vendem 10, quatro, três, dois exemplares — e há de haver os que não venderam nenhum. Em princípio, é raro que isso aconteça. No entanto, apesar do exagero [do artigo do El País], este fenómeno é um problema.
Uma das conclusões deste artigo, independentemente de talvez se basear em dados um pouco torcidos, é que, por vezes, uma maior oferta não se traduz em maior diversidade, porque cria-se uma espécie de efeito de eutrofização.
Vou dar-lhe um exemplo. Há dois grupos que têm tido crescimentos notáveis nos últimos anos. Um é a Alma dos Livros, e uma das razões do crescimento — para lá da competência e do excelente trabalho que o Ricardo Antunes faz — é, de facto, ter tido a Freida McFadden e o seu conjunto de livros, sendo que todos eles vendem acima da média. É evidente que criam um problema, porque são eucaliptos, secam tudo à volta. A capacidade do comprador é limitada: se compra dois ou três livros da Freida, se calhar não vai comprar mais nenhum livro durante um ano, ou então compra mais um. Ou seja, [esses compradores] reduziram a sua diversificação. Mas, ao mesmo tempo, são esses livros que fazem com que vão milhares de pessoas às livrarias. Se não fossem, não haveria o mesmo tipo de diversidade, porque atraem público que se calhar vai lá pela primeira vez. Desse ponto de vista, são autores com prós e contras.
https://observador.pt/especiais/e-medica-publica-sob-pseudonimo-e-nunca-esperou-ser-bem-sucedida-quem-e-freida-mcfadden-a-escritora-que-mais-vende-em-portugal/
E, tendo em conta este cenário, quando é que um livro precisa de vender para ser rentável?
É conforme os livros, os números variam muito. Mas arriscando uma média impressionista, diria que um livro português de dimensão média precisa de vender 300 ou 400 exemplares para pagar só os custos, nem estou a falar nas estruturas. Depois, um livro em inglês, com a necessidade de pagar a tradução, talvez suba para os 750 ou 800. Portanto, não é fácil — especialmente tendo em conta o cálculo prévio de que apenas até 1500 títulos vendem mais de 1000 exemplares num ano. Claro que depois ficam a vender, mas a recuperação aí vai ser mais tardia. Por exemplo, dos 120 títulos que publiquei na Guerra e Paz em 2025, só posso ter, no máximo, 15 a 18 negativos.
Há pouco mencionou a importância dos apoios para a edição. Qual é a sua posição quanto ao papel do Estado — é uma matéria onde é necessário ou o tema deve ser deixado para a sociedade civil?
O Estado não deve intervir. Não peço apoios ao Estado, a não ser em situações extraordinárias, como a pandemia. Para a publicação dos livros, nunca pedi, em nenhum caso, apoio ao Estado. Claro que se tivermos um livro que tenha a ver com uma câmara municipal ou temos um autor que é de lá e comunicarmos “vamos publicar um autor que é vosso munícipe ou que nasceu aí”, se nesse caso a autarquia quiser fazer um lançamento ou comprar não sei quantos livros para a sua biblioteca municipal, isso fazemos, é uma prática comum. Mas isso é outra parceria, estamos a falar de entidades que o contribuinte alimenta também, não são subsídios à publicação. De resto, não temos mais nenhum apoio, nem procuramos, nem penso que seja necessário o Estado intervir. Pelo contrário, era bom que o Estado conseguisse fazer outras coisas.
Como por exemplo?
Intervir nas nas leis do mecenato, por exemplo, majorando a possibilidade de apoios a quem fizesse mecenato, alargando-o. Em segundo lugar. manter o IVA nos 6%, o que já é uma forma de apoio. No entanto, do meu ponto de vista, se alguma coisa justifica IVA zero, até seria o livro — mas essa é uma discussão que a sociedade deve assumir. Em terceiro lugar, tendo entendido que era necessário apoiar e estimular a leitura dos jovens em Portugal, criou‑se um cheque‑livro. É um passo, mas não tem a expressão que devia ter. Sou favorável a que existisse um cheque‑família com uma expressão na ordem dos 100 euros. Isso, sim, seria um estímulo muito grande. Não é um apoio ao editor, é o apoio à leitura. Eu sei que há muita complexidade, porque as burocracias são uma coisa terrível, mas seria tão “simples” como permitir às famílias que, no final do ano, além de tudo o que já descontam no IRS, terem um desconto de 100 euros em faturas de livros comprados em livraria, de forma suplementar e fora dos descontos habituais. Isso seria um estímulo a que todos comprem mais livros, porque acredito que não se destine apenas aos jovens, devia ser às famílias em geral.
É a este tipo de medidas a que se refere quando defende a criação de uma política do livro?Sim, porque repare, os países que mais se desenvolvem são os que leem, e Portugal lê muito pouco para aquilo que devia. E isso tem algumas implicações no nosso nível de desenvolvimento e de produtividade, porque a leitura estimula a compreensão, é transversal, é uma coisa que não é só cultura, é uma base para as coisas. Quanto mais se ler, mais ductilidade, mais flexibilidade, terá a mente humana. Nesse sentido, o livro devia ser um desígnio nacional. É preciso que a sociedade toda se entenda sobre esta situação quanto ao aumento substancial da leitura em Portugal, para que se traduza num desenvolvimento efetivo do país.
[As fotografias da câmara de Carlos Castro são apenas um dos elementos de prova a que o Observador teve acesso. Os ficheiros da investigação permitem reconstituir como a relação com Renato Seabra se começou a deteriorar, dias antes do homicídio num hotel de luxo em Nova Iorque. Ouça o quarto episódio de “Os ficheiros do caso Carlos Castro”, o novo Podcast Plus do Observador, narrado pela atriz Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. Pode ouvir aqui, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir também aqui o primeiro episódio, aqui o segundo e aqui o terceiro episódio]

Aquando do acordo de passagem da Gradiva para as suas mãos, Guilherme Valente disse querer confiar-lhe o projeto por ser a pessoa certa para norteá-lo perante uma “crise de cultura, de conhecimento, de exigência intelectual, de leitura de obras de qualidade, que é por isso uma crise da verdade e de liberdade”. Compartilha deste diagnóstico, de que há uma crise de literacia?
Completamente. Lemos muito pouco. Uma coisa são os números do mercado, que estão bem. A atividade editorial está, desse ponto de vista, a funcionar muito bem e com crescimento, mas o ponto essencial não é esse, é a montante. Aumentou a leitura, certamente — há muita leitura em inglês até — mas precisamos ainda assim, em Portugal, de ler bastante mais. Se bem entendo os números dos últimos anos, lemos sete a dez vezes menos do que em Espanha e em França. E são esses os países que gostava que acompanhássemos. Mas não é pelos números em si; é porque eu acho que se traduzem por um bem‑estar autêntico.
Há poucas semanas rebentou um escândalo quanto à descoberta de que a editora Hachette ia publicar um romance suspeito de ser maioritariamente concebido com recurso à inteligência artificial. Como é que encara o desafio da Guerra e Paz e do setor editorial em geral em Portugal perante aquilo que se teme ser uma avalanche de submissões de textos produzidos desta forma?
Em primeiro lugar, reconheço à IA funcionalidades altamente positivas. Permite trabalhar, resolver problemas e procurar informação a uma velocidade como nunca existiu. Isso é um dado que penso ser irrecusável. Agora, levanta um problema sério para o qual não tenho solução. Vamos pôr esta hipótese, imagine que uma IA escreve um livro de poesia sublime, uma coisa tão bonita como a poesia do Borges ou do Neruda, e alguém lê e tem um êxtase estético com aquilo, o mesmo prazer que teve a ler outro livro de um autor humano. Se não soubermos que foi uma IA mas tivermos as mesmas sensações, como vamos encarar isso no futuro?
É uma questão de cariz epistemológico, não é? Porque se nós não soubermos, quase que não tem mal, não é?
É como alguém que está a ouvir uma sinfonia e diz “não gosto nada disto”, mas quando lhe revelam que é Beethoven já muda para “ah, é muito bom”. O peso do nome modifica o juízo. O meu ponto é: se a inteligência artificial conseguir escrever um livro que cause exatamente o mesmo êxtase espiritual, intelectual, emotivo que causa um livro normal, como é que vamos fazer? Esse livro ainda não existe, nem vejo nenhuma inteligência artificial a fazê‑lo — mas, se o fizesse, como é que nós encararíamos essa situação?
Criaria grandes dúvidas acerca da questão do próprio conceito de autoria, não é?
Sim, acho que essas questões são interessantíssimas, levantam‑nos problemas novos. Sempre nos interrogámos perante o desconhecido, primeiro com o espanto que temos de ter. E depois, procuramos as soluções e encontramos o quadro ético e estético conveniente para isso. Não sei o que acontecerá se um dia tivermos a inteligência artificial como rival e a escrever todas as obras, não faço ideia.
Mas ainda não pensou, por exemplo, em protocolos de segurança para evitar cair no erro de aceitar um manuscrito gerado por IA?
Já tínhamos pessoas a localizar situações de plágio comum no passado e continuaremos a fazer esse trabalho. Sinto que, para o tipo de edição que temos, para os nossos autores e para as pessoas com quem temos trabalhado, isso não levanta nenhum problema. Mas, sim, teremos de estar preparados para isso e de procurar as ferramentas necessárias para poder controlar.
Em jeito de conclusão, já falou das alegrias ao longo dos 20 anos da Guerra e Paz. Agora pergunto-lhe, que autores é que se orgulha particularmente de ter “descoberto”?
Não tenho a pretensão de os ter descoberto, mas alguns autores que tenho grande satisfação de ter acolhido e começado a publicar aqui, na não-ficção, por exemplo, são o Marco Neves e o Fernando Venâncio. E há dois autores na ficção de que gosto muito, e que têm uma força própria. Um é o Rui de Azevedo Teixeira, que é um romancista que tem uma trilogia sobre a África; é uma figura muito peculiar porque é um ex-comandom mas também é um camoniano com um doutoramento feito na Alemanha. Gosto muito do trabalho dele — neste momento já tenho cinco livros publicados com ele, dos quais essa trilogia é decisiva. Outro autor com quem me tem dado muito prazer trabalhar é o Amadeu Lopes Sabino, que acabou de publicar connosco O Azul da Prússia e vai publicar agora O Futuro Próximo. Na poesia, tivemos, curiosamente, a Eugénia de Vasconcellos, que começou a nossa coleção, e é uma boa descoberta, como temos a descoberta do André Osório. E temos agora o Rui Teixeira da Mota, um autor curioso com quem já tínhamos trabalhado mas que volta agora a estar connosco e tem uma poesia bem intensa. Estes são alguns dos exemplos que me lembro assim de cor, sem desprimor para ninguém.
Referiu que um dos maiores prazeres na história da Guerra e Paz foi ter a sua filha a trabalhar consigo e que equaciona a passar-lhe o testemunho a médio prazo…
Médio? Médio-curto!
Não obstante, o que é que ainda gostaria de fazer com a Guerra e Paz até chegar esse momento?
O que tenho em mente é ter a consolidação das duas empresas num grupo só e assegurar a sua autonomia, porque acho que ainda estamos a viver muito a curto prazo. Gostava que, até ao final de 2026, já tivéssemos as condições nas duas editoras para nos inserirmos entre os 10 ou 12 principais grupos editoriais de Portugal e ter uma vida económica a médio prazo. Sei que isto é prosaico, mas sem se conseguir estabilizar estes elementos, não se conseguem depois publicar as obras-primas.
Mas há algum livro que já tenha equacionado ou que ainda queira publicar?
Há um que sempre quis publicar na Guerra e Paz: o Guerra e Paz do Tolstói. E vamos publicá-lo este ano, andei 10 anos a lutar por isso! Vamos lançar uma edição com a tradução do João Gaspar Simões e da Isabel da Nóbrega. É uma tradução antiga, cujos direitos não era possível comprar até agora. Dá-me um grande prazer, porque eu li o Guerra e Paz traduzido pelo José Marinho, que é um filósofo português. Não é uma tradução do russo, mas, todavia, o nível de escrita em português é de uma grande elegância e é muito bom — e, por maioria de razão, a mesma coisa acontece com a Isabel da Nóbrega e com o João Gaspar Simões. Para mim, as traduções também passam, às vezes, muito por aí. Com todo o respeito pela tradução direta do russo, a qualidade também passa muitas vezes por grandes cultores da língua portuguesa poderem fazer um trabalho excelente, mesmo partindo de uma tradução de segunda geração. Esse é o livro que quero publicar e vou publicar agora.
Já escreveu e publicou um livro de memórias, falta o romance.
Continuo a publicar algumas coisas minhas — ainda agora assinei a introdução da nossa edição do Sermão da Montanha, que infelizmente não é meu! Quanto ao romance, talvez um dia, talvez com esta presença da minha filha as coisas se libertem um bocadinho mais e eu consiga arranjar tempo para publicar um livro próprio, mas não estou preocupado com isso.