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Purgas, orações e "masculinidade": a "Cruzada" de Pete Hegseth no Pentágono

Ganhou Trump ao dar a cara por um soldado acusado de crimes de guerra. Com "Deus Vult" tatuado e a missão de "esmagar a esquerda", quer reerguer o "espírito guerreiro".

Mariana Furtado
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Em tempo de guerra, trocar comandantes pode ou não ser sensato, mas não é inédito — Churchill, Roosevelt, Truman e até Obama, todos o fizeram em momentos críticos. Mas não é apenas isso que Pete Hegseth tem feito. Sob a liderança do antigo apresentador de televisão, tornado fanático religioso e nomeado no ano passado secretário de Defesa dos EUA — ou o secretário da Guerra, como prefere —, multiplicam-se exonerações de generais e almirantes, com especial incidência em oficiais negros e mulheres. Tudo, segundo a imprensa internacional, parte de uma reconfiguração mais ampla das forças armadas da maior potência militar do mundo, os Estados Unidos.

A reestruturação (ou purga) que Hegseth operou na cúpula militar, assente na exoneração de aproximadamente 20 altos líderes, rompeu com o protocolo de distanciamento político na gestão das Forças Armadas. Mas se tradicionalmente os secretários da Defesa dos Estados Unidos se mantêm afastados das decisões de carreira de oficiais de nível médio, como coronéis ou comandantes, em 15 meses de mandato Pete Hegseth quis ir mais longe.

Logo ao fim de três meses no cargo, Hegseth demitiu Joe Kasper, o seu chefe de gabinete, na sequência de uma crise interna motivada por fugas de informação. O afastamento coincidiu com o primeiro incidente embaraçoso da sua gestão: a divulgação de planos confidenciais para bombardeamentos no Iémen num grupo da rede Signal onde estava um jornalista. Na mesma leva, foram também exonerados três assessores seniores do departamento: Dan Caldwell, Darin Selnick e Colin Carroll.

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A 2 de abril, o General Randy George, veterano de combate no Iraque e Afeganistão, foi afastado através de uma chamada telefónica. O afastamento deste veterano condecorado com a Purple Heart sucedeu ao seu protesto contra o bloqueio das promoções de quatro oficiais altamente qualificados — dois afro-americanos e duas mulheres.

Na quarta-feira, consumou-se o episódio mais recente. Pete Hegseth exonerou o Secretário da Marinha, John Phelan, pondo fim a meses de tensão acumulada. De acordo com o The New York Times, o afastamento é o culminar de desavenças profundas sobre modelos de gestão e políticas de pessoal.

Chega de “regras politicamente corretas”: Pete Hegseth quer “trazer a masculinidade de volta” ao exército norte-americano

A atenção de Donald Trump foi captada ainda durante o seu primeiro mandato, quando Pete Hegseth defendeu publicamente um militar acusado de crimes de guerra. O percurso começou aí, culminando, mais tarde, numa nomeação por escolha direta do Presidente para a estrutura da administração — escolha essa precipitada por um braço de ferro político.

Após ser forçado pelo Congresso a retirar a primeira opção para procurador-geral, Donald Trump recusou ceder a uma segunda derrota nos dias que se seguiram à tomada de posse. Hegseth, ex-militar que serviu maioritariamente em funções não combatentes, assegurou a pasta da Defesa carregando um historial de dependência alcoólica, maus-tratos e sucessivos escândalos pessoais e profissionais. No seu registo pesam ainda a gestão irregular das finanças de uma organização que liderava e um acordo extrajudicial com uma mulher que o acusou de agressão sexual.

Hegseth assumiu a liderança do Pentágono como um nacionalista cristão convencido de que as Forças Armadas sofrem de uma erosão do seu “espírito guerreiro”. A linguagem religiosa tornou-se, aliás, transversal no Pentágono. Das orações no Pentágono — em que cita versículos falsos do filme Pulp Fiction — à retórica que compara o resgate de pilotos à ressurreição de Cristo, Hegseth ancora a estratégia militar numa missão espiritual.

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Hegseth sustenta que a instituição militar amoleceu ao abrir as fileiras a mulheres e minorias étnicas, sacrificando a eficácia operacional em favor de políticas de diversidade e novos regulamentos inclusivos. E sob este prisma, restrições impostas à “liberdade” dos seus “guerreiros” são consideradas um “flagelo”.

A sua definição sobre a missão das Forças Armadas é, de resto, despojada de eufemismos: “O exército tem como objetivo matar e destruir coisas”. “Desencadeamos uma violência esmagadora e punitiva contra o inimigo, e não lutamos com regras de combate absurdas. Vamos dar liberdade aos nossos combatentes para intimidar, desmoralizar, caçar e matar os inimigos do nosso país. Chega de regras de combate politicamente corretas e autoritárias”, afirmou o secretário, citado pelo El Mundo.

Noutro discurso, em outubro do ano passado, afirmou que não havia lugar para “homens gordos, barbudos ou cabeludos” entre as tropas. Em reuniões internas, o secretário da Defesa tem insistido na necessidade de “trazer a masculinidade de volta”, demarcando a sua pasta como o “Departamento de Guerra” por oposição ao que apelida de “Departamento dos Politicamente Corretos”. Sob esta premissa, anunciou o fim das práticas anti-bullying, visando um retorno à cultura militar clássica através de métodos de treino “intimidantes, rigorosos e disciplinados”. A nova diretriz prevê, explicitamente, a autorização para que os sargentos instrutores retomem o “contacto físico com os recrutas”.

A intransigência que Hegseth aplica às chefias militares esvazia-se perante ações que espelham a sua própria agenda. Se a purga é a regra para os generais que o contestam, a impunidade é o prémio para a insubordinação alinhada. No início deste mês, dois pilotos de helicópteros AH-64 Apache desviaram-se da rota de treino em Nashville para sobrevoar uma manifestação anti-Trump e a casa do cantor Kid Rock, ícone do movimento MAGA. Perante a sua suspensão, decidida pelos comandos militares, o secretário não hesitou: revogou o castigo e transformou a infração num ato de mérito, aplaudindo publicamente os pilotos. “Continuem, patriotas”, escreveu na rede social X.

https://twitter.com/PeteHegseth/status/2039109100282196436

O secretário estendeu a sua agenda de liberdade individual aos quartéis: esta semana, a vacina da gripe deixou de ser obrigatória; há duas, foi revogada a norma que proibia os soldados de transportarem armas pessoais em instalações militares.

Entre tatuagens das Cruzadas e um livro manifesto: a “Vontade de Deus” está na pele de Hegseth

No plano pessoal, Pete Hegseth mantém uma forte afinidade com o pastor Douglas Wilson e com a Comunhão das Igrejas Evangélicas Reformadas (CREC). Wilson, um nacionalista radical, é uma figura central do Reconstrucionismo Cristão — um movimento que defende que a vida pública e as leis deve ser organizada segundo princípios bíblicos. Outra figura próxima é Brooks Potteiger, descrito como o seu principal conselheiro espiritual. Há poucas semanas, escreve o jornal espanhol, Potteiger causou polémica ao pedir, num podcast, a “morte” de James Talarico, um candidato democrata e também ele um cristão devoto.

Também as tatuagens de Hegseth são frequentemente citadas como prova desta visão do mundo: no braço direito, ostenta a expressão latina “Deus Vult” (“Vontade de Deus”), que se acredita ser um grito de guerra dos cruzados. No peito, exibe a Cruz de Jerusalém, outro símbolo central das cruzadas cristãs.

https://twitter.com/SecWar/status/1904666001180156103

O pensamento de Pete Hegseth está vertido no seu livro “A Cruzada Americana”. Nele, o secretário defende a exclusão das mulheres das frentes de batalha e apregoa, repetidamente, a urgência de “esmagar a esquerda”. Visão que parece ter inspirado o próprio Presidente: “Os Estados Unidos estão a ser invadidos internamente. Não é diferente de um inimigo estrangeiro, mas é mais difícil em muitos aspetos, porque eles não usam uniformes. Pelo menos quando usam uniformes, é possível eliminá-los”, declarou Donald Trump em Fort Bragg, no discurso de 1 de outubro, ao dirigir-se a centenas de militares.

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