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(A) :: Um socialista exemplar

Um socialista exemplar

Colhido em lides domésticas, Pedro Sánchez tem vindo a tentar a sorte na arena internacional. Em Barcelona, frente aos progressistas de todo o mundo unidos que enchiam a praça, foi o triunfo.

Jaime Nogueira Pinto
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Colhido em lides domésticas, Pedro Sánchez, chefe de um dos raros governos socialistas na Europa – um governo em coligação difícil, com forças de extrema-esquerda, como o Sumar, a Izquierda Unida e o Podemos, e forças separatistas, como o Junts, o ERC e o EH Bildu que, em Novembro de 2023, lhe asseguraram a investidura por 179 votos contra 171 –, tem vindo a tentar a sorte na arena internacional, citando com galhardia o “fascismo” norte-americano.  Em Barcelona, frente aos progressistas de todo o mundo unidos que enchiam a praça, foi o triunfo.

“Um exemplo para todos os socialistas democráticos”

Também por cá os aficcionados o levaram em ombros. Para o secretário-geral do PS, Sánchez é um “exemplo para todos os socialistas democráticos”, um líder corajoso com “uma agenda progressista que se preocupa com a prosperidade e o bem-estar”.

A “prosperidade e o bem-estar” parecem de facto ter vindo a ocupar grande parte da agenda interna de Sanchez, família e correlegionários:

A mulher, Begoña Goméz, está acusada de tráfico de influências, corrupção e apropriação indevida de fundos públicos numa investigação iniciada pelo Juiz Carlos Peinado, em Abril de 2024; investigação que procede, apesar das tentativas de bloqueio e das ameaças aos instrutores, vindas do próprio ministro da Justiça de Sanches, Félix Bolaños, coadjuvado, mais recentemente, pelo ministro dos Transportes, Oscar Puente.

O irmão, o músico David Sánchez, está indiciado por tráfico de influências, tendo recebido, entre Julho de 2017 e Maio de 2025, 340.000 Euros da Deputação de Badajoz, não se sabe bem porquê nem para quê.

Koldo García, o ex-assessor do ministro José Luis Ábalos, e o próprio Ábalos, ex-secretário-geral dos socialistas espanhóis e mão direita do chefe do Governo, são também réus de um processo a correr no Supremo Tribunal em Madrid, o “processo das mascarilhas”, em que respondem por vários actos de corrupção, entre os quais o fornecimento de oito milhões de máscaras durante a epidemia da Covid 19, contra recebimento de comissões.

O centro de todas estas tramas judiciais é, evidentemente, Pedro Sanchez, marido de Begoña, irmão de David, chefe de Ábalos e líder dos socialistas espanhóis.

Que fazer?  Talvez tentar a arena internacional, enfrentar o animal da ultradireita reaccionária, animar uma “mobilização global progressista” para a “prosperidade e o bem-estar” do mundo. Por que não? Não tinha Emmanuel Macron vindo a desdobrar-se em iniciativas internacionais, à direita e à esquerda, para trazer a paz ao universo e, de caminho, afastar os olhares mediáticos da sua incapacidade de formar um governo estável em França contra os extremos maioritários? Não podia ele, Pedro Sánchez, fazer melhor do que o Presidente francês?  Tanto mais que a sua motivação era mais urgente, ou pelo menos mais pessoal e judicial.

E eis que, no fim da semana passada, se uniram em Barcelona os progressistas de todo o mundo “en defensa de la Democracia”.

O grande flirt

O facto de, na jornada de luta, as esquerdas unidas em Barcelona terem entoado com entusiasmo e emoção o velho “no pasarán” quer dizer muito pouco ou quase nada. Os tempos são outros e não vale a pena lembrar aqui que a última vez que as esquerdas globalmente mobilizadas se juntaram em Espanha, na Primavera-Verão de 1936, na então Frente Popular, mataram umas dezenas de milhares de espanhóis (entre eles, mais de sete mil eclesiásticos católicos, entre freiras, monges, sacerdotes e bispos), desencadeando uma guerra civil em que os militares de Franco também não foram meigos.

Longe vão esses tempos. As esquerdas podem agora ter voltado a juntar-se em Espanha, mas só para flirtar com o frentismo, a resistência e o activismo num animado fim-de-semana comemorativo da chegada do “fim do tempo da ultradireita reaccionária”. A boa-nova, anunciada por Sánchez, arrastará, supomos, o termo das alterações climáticas causadas pela “onda reaccionária internacional que alimenta discursos de ódio, sexismo, guerra e divisão” e desencadeará o raiar da paz perpétua, da justiça redistributiva, da fraternidade, da igualdade, enfim, do progressismo internacional.

Talvez por isso, esta Global Progressive Mobilization de Barcelona, presidida por Pedro Sánchez e co-presidida por Lula da Silva, tenha sido descrita como “um marco histórico”.

A iniciativa inscreveu-se no programa da Internacional Progressista, fundada em 2020 pelo grego Yanis Varoufakis, ex-ministro das Finanças do Syriza, e pelo senador norte-americano Bernie Sanders. A Internacional conta com pensadores como Noam Chomsky, o amigo e consultor de Epstein com obra importante no campo da Linguística e do pensamento pós-marxista, o auto-denominado “marxista conservador” Slavoj Zizek e a canadiana Naomi Klein.

Para o encontro de Barcelona, o anfitrião Sánchez e os seus colaboradores foram audazes na encenação e na mobilização. Além do tout esquerda socialista europeia e do tout sul global – os presidentes da África do Sul, do Brasil, do México e da Colômbia –, marcou presença, representando a América do Norte, Tim Walz, o inesquecível co-equiper de Kamala Harris na dream-team de 2024.

Walz, que fez do seu Minnesota um paraíso woke, não desiludiu ao revelar a verdadeira natureza da acção daquele cujo nome quase todos se abstiveram ali de pronunciar – “We need to call that what it is: that’s fascism.” Porém, foi o que Waltz acrescentou como ressalva – “Or at least it flirts with fascism” – que definiu o encontro e este novo tempo.

Além de Bernie Sanders, outros progressistas americanos de peso, entre eles o mayor de Nova Iorque, Mamdani, e Hillary Clinton (para aquele toque old liberal chic que todo o flirt com a igualdade, a fraternidade e a justiça social exige), brindaram os antifascistas reunidos em Barcelona com inspiradoras mensagens de vídeo.

A jornada de luta, que teve o patrocínio do pequeno e médio multibilionário Alexander Soros, através da sua Open Society Foundation, e o apoio mais velado da paritária Fundação Bill e Melinda Gates, juntou cerca de 3000 participantes inscritos, representando 100 partidos ou movimentos políticos. Foi nesta exclusiva e inclusiva estância de flirt que Sánchez triunfou.

A “cabala” e “a justiça a funcionar”

Sánchez e Lula não têm vida fácil nos seus países: com um governo minoritário, refém da extrema-esquerda e dos separatistas, Sánchez vê-se agora “vítima de uma cabala” ou de uma “vergonhosa manipulação política da justiça”; e   Lula, solidária ex-vítima de uma dessas “cabalas”, prepara-se para enfrentar uma eleição em Outubro em que a sua permanência no cargo poderá, eventualmente, estar em risco.

Nada a temer, porque o polícia político judicial da República do Brasil, o juiz Alexandre de Moraes, já “pôs a justiça a funcionar” para que a democracia continue. Como? Abrindo um processo que, a ser aceite, pode levar à perda de direitos políticos de Flávio Bolsonaro, que, neste momento, lidera por pouco as intenções de voto, com 42% contra os 40% de Lula.

A abertura do processo no Supremo Tribunal Federal deu-se em 15 de Abril. Moraes segue aqui, em defesa da democracia, não o método romeno (actuar correctivamente, anulando uma eleição com resultados “maus”) mas o método francês (actuar preventivamente, interditando uma candidata “má”, dada como favorita, de concorrer a uma eleição futura).

Já com Sánchez, parece que “a justiça a funcionar” não está a funcionar tão bem como isso, dando antes lugar a uma “cabala” de tribunais politicamente manipulados que descredibilizam as instituições e ameaçam a democracia.  A democracia e uma série de impolutos dirigentes socialistas e familiares próximos do primeiro-ministro.

De qualquer forma, o importante parece agora ser a mobilização dos progressistas de todo o mundo contra os grandes manipuladores da ultradireita reaccionária. Ora tal atiraria nacionalistas, conservadores e populares para um exercício para o qual nem sempre estão preparados: a constituição de uma internacional de nacionalismos para enfrentar os globalistas unidos. Isto se “o tempo da ultradireita reaccionária” não tivesse já chegado ao fim.

Felizmente, garante Sánchez, chegou.  Resta saber o que vai ser de Sánchez, do flirt da esquerda com o frentismo e da mobilização progressista sem a cortina fumo do fascismo, dos fascistas e das cabalas.