No Dia da Mãe, há histórias que não cabem em fotografias felizes nem em abraços partilhados. Há mães que vivem este dia em silêncio, com o colo vazio, mas com o coração cheio de amor. São mães que estão afastadas dos seus filhos, não por falta de vontade ou de cuidado, mas como consequência de dinâmicas familiares complexas de alienação parental que acabam por separar quem deveria estar junto. Laura (nome fictício) é uma dessas mães.
A sua história, como a de tantas outras, revela uma realidade muitas vezes invisível, marcada pela saudade, por amor, e pela resistência e persistência, apesar da distância. Dar-lhe voz é reconhecer que estas mães existem, sentem a dor de ser afastadas dos filhos, e que, mesmo assim, permanecem presentes.
O seu testemunho integra um conjunto de relatos que aqui trazemos com a intenção de assinalar, simultaneamente, duas datas profundamente simbólicas: O “Dia da Mãe”, a 3 de maio e o “Dia Internacional da Consciencialização para a Alienação Parental”, a 25 de abril. Falar sobre histórias como a de Laura é essencial para ajudar a compreender, a sensibilizar e a prevenir a alienação parental de mães que deveriam ter o direito a uma comemoração plena da sua maternidade.
A sua história, longa e dolorosa, não é única e é precisamente por isso que precisa de ser contada. Neste testemunho, (re)conhecemos a história de uma mãe vítima de alienação parental, que vive entre o amor profundo pelo filho José (nome fictício) e uma realidade difícil, marcada pela distância e pelo conflito. Todos os dias, luta para não perder a sua ligação a ele, mesmo quando tudo parece afastá-los. É uma história de ausência, de procura constante, de resistência e, acima de tudo, de um amor que não desaparece, mesmo à distância.
O testemunho de Laura mostra que ela percebeu que a sua história não é um caso único. Mas que, pelo contrário, faz parte de uma realidade mais ampla vivida por outros pais e mães em situações semelhantes de alienação parental. Aos poucos, ela compreendeu que a sua história não é única, mas faz parte da realidade de muitos outros pais e mães que vivem situações semelhantes de afastamento dos filhos. Esse reconhecimento traz sentimentos mistos. Por um lado, há um certo conforto em saber que não está sozinha; por outro, surge a consciência dolorosa de que este é um problema que se repete em muitas famílias. Como ela própria diz: “Esta história é longa… e muito semelhante a outras que vou ouvindo!”. A vivência de um sofrimento vivido em silêncio e na solidão, trouxe a Laura uma compreensão mais ampla da sua situação, a de que existem conflitos familiares que, vezes demais, acabam por afastar os pais e os filhos, deixando marcas profundas em todos.
A forma como Laura descreveu a sua realidade mostra como esta é frequente e profundamente dolorosa. Embora refira que talvez aconteça mais com pais do que com mães, ela deixa claro que o sofrimento é o mesmo, independentemente de quem o vive. Como diz: “Mais comum talvez com pais do que com mães, mas igualmente desgastante e sobretudo muito dolorosa”. Nesta frase sente-se também o peso de uma dor contínua, que não escolhe género. A alienação parental é uma experiência emocionalmente muito forte, que, ao longo do tempo, desgasta e deixa marcas profundas em quem a vive.
No seu testemunho: “Sei quando começou mas desconheço o final!!”, esta mãe alienada
a revelou-nos a sensação, difícil de suportar, de saber onde tudo começou, mas não fazer ideia de quando, ou mesmo se, vai terminar. Como nos confessou: “Esta incerteza constante traz uma ansiedade que nunca desaparece por completo. É viver num estado de espera, sem controlo sobre o que vem a seguir, o que acaba por gerar instabilidade emocional e um sofrimento que se prolonga no tempo”.
Para Laura, ser mãe é aquilo que a “mantém de pé”, mas também é o que mais a faz sofrer. O amor pelo filho dá-lhe força para continuar, mesmo nos momentos mais difíceis, mas ao mesmo tempo torna tudo mais intenso e doloroso. Como nos partilhou: “A forma de lidar é um enigma permanente, muito exigente que exige muita resiliência e uma força que só quem é mãe ou pai consegue ter, porque tem um coração que se alimenta de amor”. Neste seu testemunho percebe-se que o amor de mãe é, ao mesmo tempo, o que a sustenta e o que a torna mais vulnerável perante a situação que vive.
Ao longo deste processo, Laura sente também que quem está à sua volta não sabe bem como ajudar. O medo de dizer algo errado ou de se envolver no conflito faz com que familiares e amigos se afastem, mesmo sem querer. Como ela própria expressou: “Avós, tios e amigos também não sabem de que forma nos podem apoiar, porque têm receio do que possam dizer e para mim e para muitos pais, o mais importante é ter alguém que apenas nos possa escutar”. No fundo, o que mais lhe falta faz é alguém que a ouça, sem julgar. A ausência desse apoio acaba por aumentar ainda mais o seu sentimento de solidão e isolamento emocional.
Apesar de tudo, Laura reconhece a importância de procurar ajuda. Percebe que há situações que não se conseguem enfrentar sozinhos e que o apoio de profissionais pode fazer a diferença: “A ajuda especializada é efetivamente uma grande ajuda”. Porque, em momentos tão complexos e emocionalmente exigentes, ter alguém que compreenda, ajude a construir novas estratégias e procure, em conjunto, caminhos para lidar com a situação familiar, pode fazer a diferença e ajudar a alterar uma realidade tão dolorosa.
Laura falou-nos também da forma como se sentiu tratada ao longo de todo o processo, sobretudo pelo tribunal. Para si, ficou a sensação de que ainda existe desigualdade e de que o papel da mulher nem sempre é valorizado como deveria. Como desabafou:
“Muito me custa aceitar, mas vivemos num país ainda muito patriarcal em que o papel da mulher é muito desvalorizado e isso senti de uma forma muito marcada dentro das paredes do tribunal: o meu dever de mãe era abdicar da minha carreira profissional em prol dos “interesses” do meu filho”. O sentimento de não ser ouvida nem respeitada tornou tudo ainda mais difícil, acrescentando mais dor a um processo já, por si, profundamente exigente.
A história de Laura começou como tantas outras, marcada por exigências e algumas tensões. Entre o ritmo intenso do trabalho e dificuldades dentro da família, os primeiros sinais de conflito surgiram cedo, numa fase particularmente sensível como a gravidez. Como recordou: “A nossa história começou no serviço onde começamos a trabalhar logo depois de acabarmos o curso. Casámos e o José nasceu logo depois. A gravidez foi atribulada pois tive de lidar com uma sogra que não soube aceitar que o filho estava a construir a sua própria família”. Desde o início, existiram desafios que foram deixando marcas. Pequenas tensões que, com o tempo, foram crescendo e acabaram por contribuir para o desgaste da relação e a sua rutura.
Mesmo no meio da separação e de todo o conflito, Laura nunca deixou de colocar o filho José em primeiro lugar. Para ela, o mais importante era protegê-lo da disputa entre adultos e lembrar que ele não é algo a dividir, mas uma criança que precisa de amor e estabilidade. Como nos referiu: “O casamento não resistiu aos desafios de um jovem casal com profissões muito desafiantes (…) O divórcio era a melhor solução, porém o José não é divisível e não é um bem…é uma criança que deveria ter a garantia de amor e respeito de ambos os pais (…) Houve muitos incidentes…”. Apesar de tudo o que viveu, Laura mantém uma convicção firme: o filho deve ser protegido do conflito e tem o direito de ser amado por ambos os pais.
Apesar de todo o esforço para proteger o filho, Laura deparou-se com uma realidade muito dura, a dos momentos em que foi impedida de estar com ele:
“Na altura trabalhei durante curtos períodos de tempo no estrangeiro. No regresso de uma das missões estive 6 semanas sem ver o José pois o pai não o permitiu”. Ficar tanto tempo sem ver um filho é uma dor difícil de pôr em palavras. Traz uma mistura de impotência, angústia e uma sensação profunda de perda. É um vazio que se instala e que deixa marcas na relação entre mãe e filho — marcas que o tempo, por si só, nem sempre consegue apagar.
Num momento em que muito da separação ainda estava por decidir, Laura sentiu-se completamente desamparada. Sem decisões definidas e sem apoio imediato, ficou presa numa espera difícil e dolorosa. Como recordou: “O divórcio ainda não estava definido, assim como não estava a guarda do José e os tribunais estavam de férias. Seis longas semanas de dor…”. Esse afastamento forçado trouxe uma dor difícil de suportar. Laura falou da angústia de procurar o filho de todas as formas possíveis, sem nunca desistir: “quantas chamadas que não eram atendidas, quantos centros comerciais a que fui na esperança de ver o José, quantas noites passadas em claro, envolta por dor e angústia”, palavras de desespero de uma mãe que só queria encontrar o filho.
Numa tentativa de voltar a ver o filho, Laura viveu momentos que nunca esqueceu — situações que descreve como profundamente dolorosas e humilhantes, onde se sentiu exposta e vulnerável diante de outras pessoas. Como nos contou: “Até que lá se combinou um encontro na nossa antiga casa. Quando cheguei demoraram imenso tempo a abrir a porta, embora eu batesse insistentemente, quando finalmente abriram estava imensa gente lá dentro, ‘testemunhas’. Testemunhas de uma mãe em dor”. Nesse momento, mais do que um simples reencontro, Laura sentiu-se julgada e exposta na sua dor de mãe, como se o seu sofrimento estivesse a ser observado em vez de compreendido.
A situação tornou-se ainda mais difícil quando, depois desse encontro, Laura foi surpreendida por algo que não esperava: “Lá vi o meu querido filho tão pequenino…estive tão pouco tempo com ele e tive de ser tão forte para me mostrar feliz quando por dentro tinha o coração minúsculo e apertado. Surpresa…quando desci do prédio tinha uma patrulha da polícia à minha espera para me identificar, alguém tinha feito queixa de mim. Vim a descobrir mais tarde tratar-se de um namorado da tia do José que usou o seu “poderzinho” de autoridade para me intimidar, a mim e ao meu pai que me acompanhava”. Numa circunstância já tão carregada de emoção, este episódio trouxe ainda mais medo e um profundo sentimento de injustiça, deixando-a profundamente abalada.
Esta é apenas a primeira parte da história de Laura, uma história marcada pela dor, pela distância e por uma luta constante para não perder o vínculo com o filho. Na segunda parte, continuaremos a acompanhar o seu testemunho sobre as consequências da sua situação de alienação, ao longo do tempo, o seu impacto no crescimento da criança, o desgaste emocional acumulado e a forma como, mesmo perante tudo, o amor de mãe resiste.