Nada fazia prever que, depois daquele título inédito da Premier League em 2016, o Leicester descesse ao terceiro escalão do futebol inglês passados dez anos. Mesmo nada, muito menos numa década. Os foxes foram o grande conto de fadas: toda a Europa parou para encontrar explicações sobre o underdog que desafiou todas as probabilidades (e milhões) e conseguiu ser campeão na, para muitos, melhor liga do mundo. Se toda a gente procurava explicações sobre o sucesso do Leicester durante a sua jornada até ser campeão, levantam-se agora algumas questões para justificar o insucesso, com a descida à League One (o equivalente ao terceiro escalão nacional, depois de alguns anos no Championship).
No verão de 2015, em Leicester, os adeptos estavam felizes. Na temporada anterior, o seu clube tinha voltado à Premier League e conseguiu manter-se para a edição seguinte. A equipa orientada por Nigel Pearse terminou no 14.º lugar, com 41 pontos, mais seis que o primeiro na zona de despromoção, o Hull City, que desceu ao Championship juntamente com o Burnley (19.º, com 33 pontos) e o QPR (20.º, com 30 pontos). O campeão em título era o Chelsea de José Mourinho, Hazard, Diego Costa e John Terry.
Estava na altura de atacar a época 2015/2016. Em Old Trafford, o Manchester United, de Louis van Gaal, tentava ainda levantar-se da saída de Alex Ferguson. Para tentarem ajudar na hercúlea tarefa de reerguer os red devils – algo que, depois de mais de uma década, ainda não aconteceu – chegaram Memphis Depay, Anthony Martial e Bastian Schweinsteiger. O campeão Chelsea operava o bicampeonato com as chegadas de Pedro Rodriguez, Radamel Falcao e Alexandre Pato. O Manchester City protagonizava uma das novelas do verão, ao contratar Raheem Sterling ao Liverpool, já depois de ter resgatado Kevin De Bruyne ao Wolfsburgo e Nicolás Otamendi ao Valencia. Os grande rivais de Londres, Tottenham e Arsenal, trouxeram para os seus quadros Heung-min Son e Petr Cech, respetivamente. Todos queriam algo mais para o título.
No King Power, o bilionário tailandês Vichai Srivaddhanaprabha, dono do clube, optou por mudar de treinador. Estava na hora de ser Claudio Ranieri a orientar os foxes. A Jamie Vardy, Ryiad Mahrez e Kasper Schmeichel juntava-se ainda um médio do Caen, chamado N’Golo Kanté.
O inédito título da Premier conquistado no sofá e o maestro Andrea Bocelli
A época arrancou e o Leicester à terceira jornada ocupava o segundo lugar. O conto de fadas não era assim tão linear até ao fim do Campeonato. O conjunto orientado pelo técnico italiano chegou a estar no oitavo lugar à sétima jornada, depois de uma derrota por 5-2 diante do Arsenal de Arsène Wenger. A essa altura Jamie Vardy já marcava há quatro jornadas consecutivas e preparava-se para bater o recorde de jogos seguidos com golos na Premier League, detido na altura por Ruud van Nistelrooy: dez. Vardy igualou a marca diante do Newcastle, na 13.ª ronda, e bateu-a precisamente frente ao clube que van Nistelrooy representava quando a obteve: o Manchester United. Nessa fase, os foxes já tinham voltado aos lugares cimeiros da tabela. Na véspera do novo recorde, o Leicester estava em primeiro lugar, mas o golo de Vardy não foi suficiente para segurar a liderança. Red devils e foxes acabaram empatados a uma bola.
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Quem agradeceu foram os citizens de Manuel Pellegrini, que passavam a liderar o pelotão da Premier, ao fim da 14.ª ronda. No entanto, o Manchester City só ocupou o primeiro lugar por apenas uma jornada, depois de perder frente ao Stoke (2-0). O Leicester, que tinha vencido por 3-0 diante do Swansea, com um hat-trick de Mahrez, voltava a ser primeiro. Depois só voltou a descer do primeiro posto por uma vez. A partir da 23.ª jornada, o primeiro lugar nunca mais foi um apenas um desejo para o Leicester, mas uma realidade que se viria a prolongar até ao fim do Campeonato.
O Tottenham estava na luta pelo título à entrada da 36.ª jornada, cinco pontos atrás do Leicester. No entanto, empatou a duas bolas em Stamford Bridge, diante do Chelsea, deitando por terra qualquer possibilidade de conquistar o título. Com duas jornadas e seis pontos por disputar, o Leicester tornava-se campeão ‘no sofá’ e conquistava a Premier. Conseguia-o pela primeira vez em 132 anos de história.
https://observador.pt/2016/05/02/dreams-do-come-true-leicester-campeao-ingles/
De acordo com o The Telegraph, foram cerca de 100 mil os adeptos que saíram às ruas para celebrar o título do Leicester City, ganho nas finalizações de Vardy, na magia de Mahrez, na eficácia de N’Golo Kanté, mas, acima de tudo, na união liderada por Wes Morgan e promovida por Claudio Ranieri.
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“Foi incrível. Tentei manter a compostura e não me deixar levar pela emoção, porque assim consigo viver melhor o momento. Foi incrível quando o maestro Andrea Bocelli cantou“, afirmou Ranieri, citado pela BBC, no final do primeiro jogo oficial após a conquista do Campeonato e que serviu como pano de fundo para a coroação do novo campeão inglês. Teve a presença do tenor Andrea Bocelli, amigo de Claudio Ranieri.
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A partida terminou com uma vitória do Leicester sobre o Everton por 3-1. Vardy, com um bis, e Andy King, fizeram os golos dos foxes. Pela equipa visitante, reduziu Kevin Mirallas. Antes do início do jogo, os toffees fizeram guarda de honra aos foxes.
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O técnico, já durante a conferência de imprensa, foi encharcado com champanhe, por Christian Fuchs, outro dos obreiros do título. Nem esse momento mais descontraído retirou emoção ao treinador italiano. “Agora só penso no nosso próximo jogo, depois vou para o mar recarregar baterias e, a seguir, recomeçamos a próxima época com a mesma ambição, humildade e sentimento”, concluiu.
Ao mercado de verão sobreviveram Mahrez e Vardy. No entanto, a saída de Kanté foi o preço a pagar pelo sucesso da temporada que passou. O Chelsea pagou cerca de 38 milhões de euros pelo passe do internacional francês e foi com a ajuda dele que os blues voltaram a conquistar o campeonato na época que aí vinha.
A “ressaca”, o arrependimento de Ranieri na saída e aquele atraso de 14 segundos de Adrien
A ambição podia ser a mesma, os resultados foram diferentes na época seguinte. O Leicester acabou a temporada 2016/2017 em 12.º lugar e já sem Claudio Ranieri no banco. O técnico foi despedido em fevereiro de 2017, cerca de nove meses depois de o clube se sagrar campeão. Na altura do despedimento de Ranieiri, o Leicester estava em 17.º lugar da Premier, com apenas mais um ponto que o lugar mais alto da zona de despromoção.
“Sinceramente, isso magoou-me. Nove meses antes, tínhamos conquistado a Premier League juntos e agora estavam a despedir-me? Porquê? Depois, o filho do presidente disse-me que o problema era eu não me dar bem com alguns membros da equipa técnica inglesa. Inacreditável”, revelou o técnico esta segunda-feira ao beINSports.
Ranieri revelou ainda que, durante a época em que o Leicester se tornou campeão, havia um membro da comitiva técnica que falava mal dele aos jogadores. “Chamei-o ao meu gabinete e ele não soube o que responder. Pensei em dispensá-lo no final da época, mas, depois da celebração, decidi não fazer nada. Foi um erro. No ano seguinte, ele continuou a falar mal de mim”, acrescentou. Craig Shakespeare, seu adjunto, foi quem assumiu o comando dos foxes até ao fim de uma época em que a melhor posição ocupada pelo Leicester foi o nono lugar, à terceira jornada. Acabou o Campeonato em 12.º e caiu da Liga dos Campeões nos quartos de final, diante do Atlético de Madrid, já sob ordens do treinador substituto.
“Eu já tinha avisado que não conseguiríamos repetir o que tínhamos feito. Era impossível. A energia física e mental necessária para jogar na liga e na Liga dos Campeões é enorme. Contra as grandes equipas, tivemos um bom desempenho, mas o cansaço acabou por fazer-se sentir contra adversários com menos argumentos”, explicou Ranieri.
Shakespeare ainda começou a época 2017/2018, mas não sobreviveu às oito primeiras jornadas, tendo sido substituído, de forma interina, por Michael Appleton, na altura em que o Leicester ocupava o 18.º lugar do campeonato. Nenhum dos dois treinadores pôde contar com o contributo de Adrien Silva, que ficou de fora dos inscritos do Leicester até janeiro, por conta de um atraso de 14 segundos no envio da documentação. À 10.ª jornada, o treinador do foxes era Claude Puel, técnico que tinha conseguido o oitavo lugar da Premier com o Southampton, na temporada anterior. Puel conseguiu tirar o Leicester do antepenúltimo lugar e terminou a época no nono posto da tabela.
https://observador.pt/2017/09/06/fifa-nao-aceita-inscricao-de-adrien-silva/
A morte do “pai” de todo o sonho, Vichai Srivaddhanaprabha
O mercado de transferências que antecedia a época 2018/2019 ditava a saída de Riyad Mahrez. Um dos grandes protagonistas de 2016 saía do Leicester para o Manchester City a troco cerca de 68 milhões de euros. Era a última temporada de Puel, mas ainda ninguém sabia. O Leicester acabou o Campeonato em nono lugar, já sob o comando de Brendan Rodgers. Mas a época 2018/2019 dos foxes ficou marcada por questões fora das quatro linhas em outubro de 2018: o dono do clube, Vichai Srivaddhanaprabha, morreu num acidente de helicóptero junto do parque de estacionamento do estádio. O acidente aconteceu cerca de uma hora depois de uma partida que juntou o Leicester e o West Ham. Vichai usava regularmente o seu helicóptero para se deslocar ao King Power Stadium. Aquela seria última vez que o fazia.
O mundo do futebol ficou em choque. Não foi só a esfera do Leicester que reagiu à morte de Vichai Srivaddhanaprabha. O Nottingham Forest, um dos maiores rivais dos foxes, foi um dos primeiros clubes a lamentar a tragédia em Filbert Way. “As nossas mais sinceras condolências à família de Vichai Srivaddhanaprabha e a todos no Leicester neste momento tão triste”, lia-se na publicação no perfil na rede social X dos tricky trees.
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O Barcelona foi outro dos clubes a dar as condolências ao Leicester e à família e amigos de Srivaddhanaprabha. “Os nossos pensamentos estão com toda a família do Leicester. Que descanse em paz”, escreveram.
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Na esfera interna do clube, Kasper Schmeichel escreveu nas suas redes sociais que não conseguia acreditar que aquilo tinha acontecido. “É difícil expressar em palavras o quanto o senhor significou para este clube de futebol e para a cidade de Leicester”, afirmou. “Todos sabemos do investimento que o senhor e a sua família fizeram no clube de futebol. Mas isto vai muito além disso. Preocupava-se profundamente não só com o clube, mas com toda a comunidade. A sua contribuição incansável para o hospital e as instituições de caridade de Leicester nunca será esquecida”, recordou.
O guarda-redes diz nunca ter conhecido alguém como Vichai – um homem “tão trabalhador, tão dedicado, tão apaixonado, tão gentil e tão generoso”, que mudou o futebol “para sempre”. Na mesma homenagem, um dos heróis de 2016 disse ainda que o que mais o orgulhou foi “ter feito parte” da “visão” que Srivaddhanaprabha tinha para o clube. Um pouco por todo o clube, entre o plantel a bancada, surgiram diversas homenagens.
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Vichai Srivaddhanaprabha tornou-se um dos empresários mais ricos do mundo depois de criar um império de lojas duty free em aeroportos. Criou um negócio de milhares de milhões de euros sem nunca perder o sentido da proximidade com os funcionários. E a proximidade com os funcionários preparava-se para se estender das lojas de duty free para um clube de futebol. Em 2010, Vichai adquiriu o Leicester por cerca de cerca de 43 milhões de euros, numa altura em que o clube estava no Championship. O empresário tailandês assumia, a partir dali, um clube financeiramente instável, mas com uma visão clara: jogar na Liga dos Campeões no espaço de seis anos, assim contou Schmeichel na sua homenagem. O que muita gente poderia considerar apenas mais um investimento estrangeiro ‘exótico’ ou uma fantasia, acabou por ser um dos mais marcantes contos de fadas da história do futebol inglês e da história da modalidade. O ‘pai’ desse sonho tinha um nome: Vichai Srivaddhanaprabha.
https://observador.pt/2018/10/28/vichai-srivaddhanaprabha-o-magnata-que-falava-mal-ingles-mas-que-percebeu-como-ninguem-a-cultura-do-futebol/
Os primeiros sorrisos depois da tragédia antes da primeira descida ao Championship
Mesmo com a morte de Vichai, esperava-se que a sua visão não se perdesse. Era, por isso, o filho, Aiyawatt Srivaddhanaprabha, que ia render o pai no comando dos foxes. E continuou a contar com Brendan Rodgers, que conseguiu melhorar a campanha da época anterior. O Leicester terminou a época 2019/2020 no quinto lugar, alcançando uma das melhores classificações da sua história na primeira divisão inglesa. Repetiu o feito na época seguinte, tendo ainda chegado aos 16 avos da Liga Europa, quando caiu diante do Slavia de Praga. Mas a grande conquista do Leicester na época de 2020/2021 foi a Taça de Inglaterra, a prova mais antiga do mundo. Na final da competição, a representar Chelsea, estava um velho conhecido: N’Golo Kanté. Foi o seu homólogo de posição, Youri Tielemans, que marcou o golo solitário que deu ao Leicester a primeira FA Cup da sua história. Depois do apito final, Aiyawatt dirigiu-se ao relvado, onde estavam em festa os jogadores dos foxes. Levantou o troféu, não esqueceu o pai e apontou para o céu.
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A visão de Vichai continuava viva e aquela conquista era sinal disso. E ecoou no início da época seguinte: em agosto, o Leicester bateu o Manchester City por 1-0 e conseguiu vencer a segunda Supertaça inglesa da sua história, graças um golo de Kelechi Iheanacho quase no fim do jogo. Eram os primeiros sorrisos dos adeptos desde o trágico acidente junto do estádio. O início da temporada foi melhor que o final. O Leicester não conseguiu igualar ou melhorar a marca das duas épocas anteriores e ficou em oitavo lugar. Era uma piora, mas não um forte sintoma do que aí vinha.
Iniciava-se a época 2022/2023, com Brendan Rodgers a tentar inverter a descida do quinto para o oitavo posto da Premier. Para tentar uma melhora face à temporada anterior, o treinador trouxe o internacional belga Wout Faes, do Stade de Reims. No entanto, perdeu grande parte da espinha dorsal da equipa que conseguiu vencer títulos. Kasper Schmeichel saiu para o Nice, Ayoze Pérez, que foi contratado em 2019, deixou o clube na janela de janeiro, tal como Marc Albrighton – uma das peças chave do título de 2016 –, que saiu para o West Bromwich, por empréstimo. Também o jovem Wesley Fofana, que já tinha cumprido meia centena de jogos pelos foxes, foi baixa de última hora para o técnico norte-irlandês, que perdeu o defesa no última dia de mercado de verão para o Chelsea, a troco de mais de 80 milhões de euros.
Rapidamente se percebeu que o Leicester não ia ter vida fácil. À terceira jornada, os foxes ocupavam a zona de despromoção. Só saíram de lá à 15.ª jornada, após um triunfo por 2-0 no Goodison Park, diante do Everton. À 29.ª, o Leicester voltou a ficar abaixo da linha de água. Foi aí que Brendan Rodgers foi demitido, após uma derrota por 2-1 frente ao Crystal Palace. Chegava ao fim a relação entre Aiyawatt Srivaddhanaprabha e o “seu” primeiro treinador. Dean Smith era o homem para substituir Rodgers. O treinador substituto ainda desafogou o Leicester da zona de despromoção por duas vezes, mas já não conseguiu evitar a descida de divisão. Os foxes acabaram a temporada de 2022/2023 em 18.º lugar e voltavam ao Championship nove anos depois de terem de lá saído.
Na época seguinte, surgiu um grito de revolta no King Power. Chamava-se Enzo Maresca e vinha para substituir Dean Smith, que foi preterido por Aiyawatt Srivaddhanaprabha no final da época anterior. O técnico italiano vinha de uma experiência como treinador adjunto de Pep Guardiola, no Manchester City. Aiyawatt acreditava que aquele era o homem certo para fazer os foxes regressarem ao primeiro patamar do futebol inglês. E acreditou bem: 89 golos marcados e 41 sofridos valeram ao Leicester o primeiro lugar com 97 pontos, mais um que o segundo classificado Ipswich Town. Estava operado o regresso à Premier, com o incontornável Jamie Vardy a ser o melhor marcador da equipa naquela época (mais uma vez) com 18 dos 20 golos marcados no Championship.
Todo aquele ímpeto ia resultar numa nova descida na época seguinte. Já sem Maresca, que o Chelsea também levou, o Leicester começou a temporada próxima da zona de despromoção. Ainda assim, enquanto Steve Cooper esteve ao comando, os foxes nunca chegaram a estar abaixo da linha de água. No entanto, Aiyawatt Srivaddhanaprabha não estava satisfeito com o desempenho do treinador. Por essa razão, despediu-o e trouxe Ruud van Nistelrooy para o clube à 14.ª jornada do Campeonato. A chicotada psicológica valeu, desde logo, uma vitória frente ao West Ham. Mas, rapidamente, o Leicester passava a ocupar os lugares de despromoção pela primeira vez na temporada. Os foxes entraram na zona de despromoção à 18.ª ronda e, com exceção da 23.ª, nunca mais de lá saíram. Repetiu-se o 18.º lugar na Premier e o regresso ao Championship.
Os 20 golos de Vardy, na temporada anterior, tinham reduzido para metade. O sucesso de Fatawu, que foi contratado após empréstimo ao Sporting em 2023, reduziu-se a duas assistências em apenas 11 presenças na prova. O peso que Ricardo Pereira ganhou desde que tinha chegado do FC Porto, em 2018/2019, já não era suficiente para ancorar um barco desgovernado como foi o Leicester naquela época. Foram 33 golos marcados (média de menos de um golo por jogo), 80 golos sofridos (mais de dois sofridos por jogo) e 25 pontos em 114 possíveis. Restavam, uma vez mais, as águas calmas do Championship, onde o clube tinha chegado a bom porto nas últimas duas vezes em que lá esteve.
Vardy: À ponta de lança
A saída da Premier League não era o único adeus difícil com que os foxes tiveram de lidar naquele fim de época. Jamie Vardy despedia-se do clube após 13 temporadas de raposa ao peito. A história que tinha começado em maio de 2012, quando foi contratado ao Fleetwood Town por um milhão de libras, chegava ao fim. O anúncio foi feito antes da época terminar. Vardy confessou-se “arrasado por saber que o dia estava a chegar”, apesar de saber “que o dia ia chegar”.
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Foi, de forma indiscutível, a cara da transformação vivida no clube. Desde a subida do Championship à primeira divisão, em 2013/14, à conquista da Premier League, passando por descida e nova subida de escalão, Vardy estava sempre lá. À ponta de lança. Jamie Vardy tornou-se sinónimo de Leicester e vice-versa. Para trás ficaram os 200 golos que marcou em 500 jogos oficiais pelo clube. Agora seguia-se o Cremonese, em Itália, para o terceiro melhor marcador da história dos foxes e último “sobrevivente” do Leicester campeão da Premier League em 2015/2016.
A atual temporada do Leicester começou com o técnico espanhol Martí Cifuentes, que tinha treinado o QPR nas duas temporadas anteriores. O trajeto do Leicester no segundo escalão do futebol inglês foi muito diferente dos dois anteriores, em que o clube teve sucesso. À terceira foi de vez. Ainda assim, o trajeto de Cifuentes foi algo similar ao de Steve Cooper. O treinador espanhol esteve apenas pelas primeiras duas jornadas em zona de despromoção e até à 29.ª, quando foi demitido, nunca mais lá voltou. Mais uma vez, o dono do clube, pedia mais, especialmente tendo em conta que os foxes estavam no segundo escalão. Três jornadas após o seu despedimento, o Leicester voltou à zona de descida. Com exceção da 37.ª jornada, os foxes estiveram da 32.ª à 44.ª ronda sempre em lugar de descida.
O empate contra o Hull City (2-2), na última terça-feira, ditou matematicamente a despromoção do Leicester. Aiyawatt Srivaddhanaprabha deixou uma mensagem no site oficial e nas redes sociais do clube, depois da confirmação da descida à League One, assumindo todas as responsabilidades pelo insucesso desta época. “Vivemos os momentos mais altos e agora os mais baixos, e a dor é partilhada por todos nós. Lamento sinceramente a desilusão que causámos”, acrescentou.
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O clube desce agora ao terceiro escalão. Sem as finalizações de Vardy, a magia de Mahrez, a eficácia de Kanté ou a crença de Ranieri. Sem a liderança de Wes Morgan, as defesas de Schmeichel ou o grito de revolta de Enzo Maresca. Ao Leicester restam as águas ainda mais calmas da League One. A “visão” de Vichai pode ser o farol que os foxes precisam para provar se é o fim do conto de fadas ou se se trata apenas de mais capítulo. “O nosso foco agora está no que se segue. Tomaremos as decisões necessárias para fazer o clube avançar, trabalhando em conjunto para reconstruir, melhorar e restaurar os padrões do Leicester. O nosso objetivo é claro: responder com firmeza e competir para fazer este clube avançar novamente”, garante Aiyawatt Srivaddhanaprabha.