No ano 28, um homem de aproximadamente 35 anos foi batizado por João Batista. Vinha de uma aldeia agrícola da baixa Galileia, chamada Nazaré. O seu nome era Jesus. Sabemos que esse encontro foi fundamental. Mas o que Jesus fez depois desse encontro mostra bem como há interpretações sobre Cristo que não são compatíveis com a versão original.
Para João Batista era necessária uma contracultura. Segundo ele, Deus devia ser procurado no deserto, na privação, fora das cidades. No fundo, João era um pregador do fim do mundo. O seu movimento misturava fervor religioso e banditismo social. Profetas como ele recrutavam seguidores entre camponeses empobrecidos e arruinados. Neste caldo, a miséria económica e o protesto religioso reforçavam-se mutuamente. No ar pairava a ideia de que só um governo teocrático resolveria os problemas. Jesus tinha outra perspectiva.
De facto, existem muitos paralelos entre Jesus e João. Ambos abandonaram a família, vivendo quase como sem-abrigos, e ambos tiveram uma morte violenta. Mas Jesus tomou uma opção. Para João, o presente devia ser mobilizado para fugir à ira de Deus. Para Jesus, o presente já era, em si mesmo, uma manifestação do bem. João vivia no deserto. Jesus deambulava pelas cidades e aldeias da Galileia. João era um asceta. Jesus comia e bebia com pecadores e cobradores de impostos. Para João, o reino de Deus era uma ação de cólera contra os pecadores. Para Jesus, o reino de Deus é marcado pelo acolhimento e o perdão.
Isso tem consequências. Jesus não alimentou, propositadamente, o ciclo auto-reprodutivo que liga protesto e miséria, nem defendeu que a salvação consistia no isolamento e na fuga do mundo. Para ele não havia passado ideal. A resolução dos dramas que viveu na pele não estava, a seu ver, numa vitória nacionalista sob o império romano. Jesus nunca quis tornar Israel grande outra vez.
De facto, ele não pode ser usado nem catalogado dentro de um quadro ideológico e partidário concreto. Mas, se relativismo é assim tão perigoso – e eu não digo que não seja – não podemos, também, a seguir ao relativismo moral e cultural, desenvolver um relativismo sobre a figura de Jesus, tentando defender que ele foi quem não foi.
Hoje, a tentação de o converter num símbolo identitário ou num estandarte de guerras culturais é apenas a forma moderna de ignorar o seu percurso. Jesus não veio para restaurar a grandeza de uma nação ou de um sistema, mas para questionar o sistema dualista que cataloga o mundo entre puros e impuros. Retirar Jesus dessa realidade histórica não é apenas um erro teológico; é uma fraude intelectual. Nesse sentido, a visão verdadeira sobre ele, será aquela que o mantiver como indomesticável.