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Aumento da infertilidade pode combater-se "com uma boa educação sexual" nas escolas. Entrevista a Mónica Ferro

Como aumentar a natalidade se 1 em 5 jovens não quer filhos por falta de esperança no futuro? É preciso "mudar tudo", das condições financeiras ao trabalho doméstico.

Mariana Marques Tiago
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Francisco Romão Pereira
photography

Há cada vez menos bebés a nascer na Europa, as taxas de fertilidade estão em queda contínua e está em causa a renovação das gerações. Há muito que o discurso não muda: os jovens adiam cada vez mais esta que é uma “decisão emocional” e que é influenciada pela situação económica e social que o mundo atravessa. Mas para falarmos de natalidade é preciso voltar atrás e corrigir o ponto de partida, uma vez que só nos preocupamos com este tema porque “põe em causa o nosso sistema de Segurança Social” e a sustentabilidade económica. A consideração é de Mónica Ferro, diretora do escritório do Fundo das Nações Unidas para a População.

Está nessa função desde 2023, mas conta que desde 2011 (quando foi secretária de Estado Adjunta e da Defesa Nacional, no governo de Pedro Passos Coelho) que tudo parece estar igual. Considera que é altura de os países repensarem o seu modelo de Segurança Social e de fazerem um diagnóstico aprofundado sobre o estado da saúde sexual e reprodutiva da sua sociedade, o que evitaria a implementação de medidas precipitadas como a atribuição de cheques-bebé quando a maioria dos jovens continua sem conseguir comprar uma casa, diz em entrevista ao Observador.

Mónica Ferro chegou a Lisboa esta quinta-feira para participar na cimeira europeia “Tackling Infertility” (que significa “Combater a Infertilidade”, em português). Defende que é possível melhorar a natalidade, mas para lá chegar é preciso “mexer no Código de Trabalho, na lei da Segurança Social, no Serviço Nacional de Saúde e nos programas das escolas”.

O ponto de partida, diz, começa com “uma boa educação sexual” nas escolas, caminho que se faz com base em factos e com matéria “adequada à idade, articulada com os guardiões legais, com os pais”. “Que sociedade é esta que nós construímos, em que tudo o que tem a ver com sexo, inclusive a infertilidade, são ainda grandes tabus? Isto explica porque é que ainda há uma certa dificuldade em falar-se de políticas de natalidade com a abertura que elas têm que ter. Não é uma conversa que possa ser segmentada”, partilha.

“A decisão de fertilidade é muito emocional”

Em abril deste ano, na revista Sábado, escreveu um artigo em que dizia que o mundo foi durante décadas desenhado com base no corpo masculino. E que isso impactou a ciência, a tecnologia, o design de produtos e até as políticas públicas. Portugal está atualmente a rever a lei laboral, este é mais um exemplo de políticas públicas elaboradas tendo como referência o corpo masculino?
A verdade é que nós notamos que há claramente uma ligação entre presença e influência. E o que na UNFPA [Fundo de População das Nações Unidas] temos notado também, é que nos processos de tomada de decisão, quando não há mulheres sentadas à mesa nem mulheres protagonistas, os interesses das mulheres e as necessidades específicas das mulheres ficam fora dessas decisões. Uma decisão que não tenha mulheres como interlocutoras ou que não tenha mulheres como protagonistas é uma decisão à qual vai faltar sempre um ângulo de análise. Uma das ferramentas que temos apelado que os governos adotem — e Portugal já teve mas deixou de ter — são os chamados orçamentos ajustados ao género. Ou seja, uma ferramenta na análise que permite que todas as medidas de políticas públicas, sejam medidas em termos de impacto. Como é que isto vai impactar os homens? Como é que isso vai impactar os senhores? Diria que é um apelo, até bem mais genérico.

Uma das propostas que tem estado em cima da mesa tem que ver com a dispensa para a amamentação, que deverá ser aplicada só nos 2 primeiros anos de vida do bebé. Que avaliação é que faz desta proposta? Há um não incentivo à natalidade?
Não conheço as propostas concretas, mas de um ponto de vista conceptual, o que se recomenda, de facto, é que as crianças possam usufruir de pelo menos dois anos de amamentação. Ou mais, se as mães tiverem capacidade para isso. A amamentação é uma das melhores práticas. De facto, o que permite fazer políticas públicas que geram sociedades demograficamente mais resilientes, são políticas de apoio à família. Tudo o que possa ajudar os casais e as pessoas a poderem realizar as suas intenções de fertilidade é sempre bem-vindo e é essa a chave para desbloquear algumas das conversas até um bocadinho toxificadas sobre a natalidade e sobre a demografia.

Quais é que poderiam ser algumas políticas de apoio à família a aplicar em Portugal?
Nós fizemos um questionário (Portugal não aparece, mas há outros países daqui do espaço europeu, como Itália, que tem realidades semelhantes) a 14 mil pessoas de 14 países, o que representa mais ou menos um terço da população mundial. Fomos perguntar às pessoas se têm o número de filhos que querem. A resposta foi muito simples: não. Quase ninguém respondeu que sim. Umas pessoas respondem que têm mais filhos do que o que quiseram porque não têm acesso ao planeamento familiar e não tiveram autonomia sobre o seu corpo. Temos casos reportados, por exemplo da Nigéria. No contexto europeu, a maior parte das pessoas que responderam ao questionário quer ter dois filhos. E depois metade das pessoas disseram que não têm o número de filhos que querem porque não têm condições financeiras: o emprego é precário, a habitação é cara, os cuidados da infância são muito caros e, portanto, a maior parte dos casais respondeu que gostava de ter filhos, mas não sabe se vai conseguir ter porque não sabe se vai conseguir pagar.

"1 em cada 5 pessoas disse-nos que não queria ter filhos porque não tem esperança no futuro"

Depois, cerca de um quarto das pessoas que nos responderam elencaram a desigualdade de género. Há muitas mulheres que dizem que não vão ter filhos porque em casa desempenham entre 3 a 10 vezes mais o trabalho doméstico do que os seus companheiros. E quase na mesma quantidade ficam os problemas de saúde. Pessoas que dizem que não têm acesso aos cuidados de saúde e, portanto, não sabem se vão ter uma gravidez acompanhada, não sabem se vão poder ter um parto seguro. E também problemas de infertilidade, que tem a ver também com o facto de as mulheres estarem a adiar cada vez mais o primeiro filho.

Tudo isto se resolve com políticas públicas. Mas preocupa-me a última razão: uma em cada cinco pessoas disse-nos que não queria ter filhos porque não tem esperança no futuro. Isto sim, parece-me algo que nos deve fazer refletir enquanto coletivo, enquanto sociedade. Têm medo das guerras, das alterações climáticas, das pandemias. Isto está a criar um efeito acumulado de ansiedade nos nossos jovens e nos jovens casais, que estão a questionar se querem ou não trazer um filho para este planeta.

Mas esse deve ser o ponto de partida? Pesar primeiro todos estes fatores e só depois decidir se quer ou não ter um filho? Parece que estamos perante duas opções: tomar uma decisão consciente ou o oposto.
A decisão de fertilidade é uma decisão muito emocional. É muito engraçado. Por exemplo, durante a pandemia, as taxas de fertilidade na Europa e na maior parte do mundo desenvolvido desceram ligeiramente. Não é o suficiente para identificar uma tendência, o que acontece em dois ou três anos não chega para identificar uma tendência, porque medimos as grandes tendências demográficas em ciclos de dez anos. Durante a pandemia, na maior parte dos países desenvolvidos, a natalidade baixou. As pessoas não deixaram de ter condições, as pessoas tiveram foi medo. Tiveram uma ansiedade maior. No fim da pandemia e no fim da crise económica de 2011, a natalidade subiu um bocadinho. Portanto, quando há a economia está positiva, quando o país está estável, a natalidade sobe imediatamente um bocadinho. Mas nós sabemos o que é que resulta, quais são as boas políticas públicas.

E quais são?
Acho que os países deviam fazer verdadeiramente um diagnóstico sobre o estado da saúde sexual e reprodutiva nos seus países: como é que estão os cuidados de saúde, sexuais e reprodutivos dentro do seu sistema nacional de saúde. E estes cuidados devem estar incluídos nos cuidados primários de saúde, aqueles cuidados que não são negados, que são garantidos mesmo que a pessoa não tenha capacidade financeira. Dizemos que o ideal é que os sistemas de saúde sejam baseados em “AAAQ”: acessibilidade em termos físicos (ou seja, não vale de nada ter serviços aos quais as pessoas não conseguem aceder); acessível do ponto de vista financeiro (os cuidados não devem ter um preço que impeça as pessoas que querem aceder-lhes); aceitáveis do ponto de vista cultural (por vezes montamos serviços em países onde, por exemplo, as mulheres só podem ser vistas por outras médicas, não podemos montar sistemas só com homens); e serviços de qualidade. E dizemos que até os cuidados de infertilidade devem estar incluídos. Não há dúvida nenhuma que as taxas de nascimento estão a decrescer porque as pessoas não têm condições específicas, as pessoas continuam a querer ter filhos. E depois temos de trabalhar outros elementos que são também elementos de políticas públicas: a precariedade no emprego, o custo da habitação, o custo das creches. Não desmerecendo o esforço de alguns Estados, o bónus bebé ou cheque bebé significa muito pouco para um casal jovem que não tem casa ou que não tem emprego.

“Parece que não conseguimos ainda acertar nas políticas” de natalidade certas

As taxas de natalidade continuam a cair…
E ou nós tomamos estas medidas que são de ciclo longo… E que são as mais difíceis para o poder político, porque são aquelas cujos resultados eles não vão ver, são a longo prazo. O que não resulta são políticas de engenharia demográfica. Se quiser ver as coisas de outro ponto de vista, há vários estados que têm tentado medidas de coação ou medidas repressivas, como por exemplo, proibir o aborto. Já disse isto muitas vezes: não se consegue proibir o aborto, só se consegue proibir o aborto seguro. Se se proibir, as mulheres vão continuar a recorrer ao aborto inseguro e é uma das principais causas de morte materna. O aborto inseguro é também uma das grandes causas de infertilidade secundária. Portanto, há o efeito inverso e até perverso. Por outro lado, algumas campanhas surgem como campanhas de incentivo à natalidade, e põem excessivamente o peso em cima das mulheres e dos jovens, como se as mulheres e os jovens fossem os responsáveis por resolver tudo. Há uma ansiedade demográfica que nós estamos a pôr em cima dos jovens, que a única coisa que provoca neles é uma vontade de não ter filhos.

Mas a questão da proibição do aborto e dos riscos associados… Não aprendemos nada com o passado, com aquilo que ficou registado na literatura, na pintura, na arte?
Acho que há uma obsessão com o papel reprodutor das mulheres. E isso é visto em coisas muito simples. Pegando na arte, por exemplo, quando vemos um filme e vemos um barco a afundar e se diz “as mulheres e as crianças primeiro”, não é pela fragilidade das mães e das crianças. É porque se as mulheres forem salvas, a espécie continua. Porque é que às mulheres são vedados alguns empregos, como por exemplo trabalho nas minas? Para não afetar a sua capacidade reprodutiva. Até há cerca de cinco anos, as futebolistas profissionais estavam impedidas contratualmente de engravidar porque lhes diminui os anos de rendimento.

Mas isso não é ilegal?
Agora é, já foi retirado dos contratos, mas há uma obsessão! Portanto, as mulheres são protegidas de muitas tarefas porque devem manter o seu papel reprodutivo. Se nós nos focarmos em números, o problema e a solução têm sempre a forma do corpo de uma mulher. Temos filhos a mais? Vamos impedir as mulheres de ter filhos. Temos filhos a menos? Vamos forçar as mulheres a ter filhos. O aborto é uma das estratégias. Vemos uma ligação, em muitos países, entre o aborto e uma tentativa de engenharia demográfica: tentar fazer os números da população artificialmente, cortando o acesso ao planeamento familiar, o acesso ao aborto, etc.

O diagnóstico que mencionou, se fosse feito em Portugal atualmente, qual seria o resultado?
Há uma instituição europeia que agora se está a tornar global, que se chama Fórum Europeu de Parlamentares para População e Desenvolvimento. E tem uns atlas muito interessantes, o Atlas da Contraceção, o Atlas do HPV, o Atlas da Fertilidade e da Infertilidade. E Portugal desempenha muito bem na maior parte desses rankings — e nós estamos num espaço muito desenvolvido, que mais garantias dá às pessoas. Portugal tem muito boas políticas desenhadas, boas políticas pensadas…

"Se nos focarmos em números, o problema e a solução têm sempre a forma do corpo de uma mulher. Temos filhos a mais? Vamos impedir as mulheres de ter filhos. Temos filhos a menos? Vamos forçar as mulheres a ter filhos"

Mas continuamos com uma taxa de fertilidade muito baixa, abaixo daquilo que é recomendado. 
Os demógrafos recomendam 2,1 filhos por casal. É um número fácil e só por isso: um casal tem dois filhos e tem mais 0,1 para para compensar os que não quiseram ou não puderam ter filhos. É só um número, não é um padrão, mas Portugal está abaixo da taxa de substituição há muito tempo, exatamente porque não tem todas as outras condições.

Parece quase contraditório, não é? Estamos bem enquadrados, mas ao mesmo tempo a nossa taxa de fertilidade está em 1,4 filhos por mulheres.
O mundo europeu desenvolvido está quase todo em baixa. O que nos leva a questionar muitas das políticas de apoio à natalidade que foram feitas em muitos países europeus, em que se investiu de facto muito dinheiro, com descontos em impostos e benefícios sociais. Portanto, parece que não conseguimos ainda acertar nas políticas… No relatório que fizemos, tudo o que ali está, é o que sabemos das conversas, com os nossos amigos e colegas. Sabemos disto pela nossa experiência, até porque somos nós que gerimos as grandes redes de clínicas de saúde materna. Somos nós, o grande distribuidor mundial de planeamento familiar. Aliás, estas notícias que estão a surgir dos navios que estão presos no Estreito de Ormuz e que vão fazer disparar o preço dos preservativos já nos estão a afetar. O que permanece por tocar são estas questões: das políticas amigas da família que permitam o equilíbrio entre a vida profissional, pessoal e familiar; a questão da precariedade; do custo das creches; da habitação…

Sobre a questão da precariedade e do acesso à saúde, olhando para o caso português, o facto de a saúde materna ser associada a urgências fechadas, a ambulâncias que demoram a chegar e a partos nas ruas, isto preocupa também no momento da decisão de ter filhos?
Preocupa. Sabemos que há, muitas vezes, uma distância entre aquilo que é a realidade e aquilo que é a perceção pública. Mas a verdade é que as pessoas tomam as suas decisões com base em perceções. Um casal ou uma pessoa que sinta que vai ter dificuldade em ter acesso a serviços de saúde materna, isso pode impactar a sua decisão de ter ou não filhos. O que isto mostra é que todos os investimentos feitos na área da saúde materna têm que ser sustentáveis. Qualquer desinvestimento provoca retrocessos imediatos. Nós, a UNFPA, trabalhamos para chegar a zero de mortalidade materna prevenível. E sabemos que quase toda a mortalidade materna é previnível. No Afeganistão morre uma mulher a cada duas horas, por causas ligadas à gravidez e ao parto, algo que não acontece nos países desenvolvidos, porque as mulheres morrem, sobretudo, de três coisas: infeções, hemorragias e eclampsias e pré-eclampsias. Num ambiente hospitalar, num parto assistido, resolve quase tudo.

Primeiro passo: “Estados têm de perder a ideia do ótimo populacional”

Consegue dar-me exemplos de boas políticas que têm sido implementadas noutros países, europeus ou não, e que têm tido um bom impacto? E que pudessem até ser adotadas em Portugal…
Há uma questão que me aborrece, que é: os países ainda não perceberam que não podem idealizar o número populacional. Dizer “o ideal era termos 10 milhões”. Não é assim que funciona. O que os países têm de fazer é conhecer a população que têm e desenhar os serviços para a população que têm. Nós não estaríamos tão preocupados com a redução da taxa de natalidade se isto não estivesse a pôr em causa o nosso sistema de segurança social.

Acha que é só por isso?
Acho que esse foi o sinal de alerta, quando se começou a pensar que a população europeia está a envelhecer. O que é muito bom! Mais pessoas vivem mais tempo com qualidade. Só vejo razões para celebrar. Mas o envelhecimento traduz-se no facto de nós termos uma proporção maior de pessoas com mais de 65 anos e uma proporção menor de pessoas em idade de trabalho. Porque o modelo de segurança social que nós temos assenta em termos pessoas a trabalhar para pagar a pensão das pessoas que se reformaram. Acho que era tempo de os países começarem a questionar estes modelos de segurança social. Porque claramente não estão a funcionar para as populações que temos. A ideia da resiliência demográfica é pensar os serviços que os países têm para as pessoas que têm de facto no planeta. Se calhar a primeira coisa era os Estados perderem a ideia do ótimo populacional. E reajustar o seu Serviço Nacional de Saúde: se calhar é preciso cada vez mais cuidados geriátricos. Muitos destes países estão preocupados com o envelhecimento da população porque faltam pessoas no mercado de trabalho. Temos a certeza que estes países já atingiram todos a igualdade de género no mercado de trabalho? Acho que não. Acho que continuamos a ter muitas mulheres que estão fora do mercado de trabalho ou que têm empregos mais precários. A sustentabilidade dos modelos da Segurança Social tem que mudar.

Os países têm de repensar o seu modelo.
Sim. Aliás, eu até diria é isto: muitos países começaram a perceber que tinham uma baixa taxa de natalidade quando as suas comunidades migrantes residentes no país, regressaram aos países de origem. E perceberam que as pessoas que tinham nascido naquele país estavam a ter menos filhos.

Portugal, no primeiro trimestre deste ano, conseguiu aumentar o número de bebés. A natalidade aumentou. Em parte isto deve-se à questão da imigração? Como se explica este aumento?
Não conhecendo os dados em detalhe, mas fazendo uma generalização que não é abusiva, porque temos olhado muito para estas questões, a maior parte das pessoas que emigra são jovens. Portanto, são pessoas em idade reprodutiva. E isso faz com que, chegando ao país de destino, tenham muitas vezes nos seus planos constituir uma família e ter filhos. É muito natural que com vagas de emigração, sobretudo de pessoas mais jovens, aumente a natalidade. E depois muitas destas pessoas também fazem o chamado reagrupamento familiar.

“Achar que estamos perto do colapso populacional é ser influenciado também por um discurso público tóxico”

Mas também há jovens que não querem ter filhos. Um em cada três jovens europeus diz que não quer ter filhos. Estamos a falar sobre incentivar a natalidade, mas ao mesmo tempo não podemos obrigar ninguém a ter filhos. Precisamos de inverter esta vontade dos jovens? Como é que há espaço para as duas coisas?
Há jovens que não querem ter filhos porque querem uma mobilidade e querem uma vida assente num modelo diferente. Ótimo, vamos normalizar a ideia de que as pessoas não querem ter filhos. Mas alguns destes jovens não querem ter filhos porque fazem uma análise dos obstáculos que vão ter que enfrentar e isso sim é algo que nós podemos abordar. Só deve sair em julho, mas fizemos o primeiro inquérito às intenções de fertilidade dos jovens. Fomos exatamente perguntar aos jovens se querem ter filhos. Mas aquilo que os dados já nos dizem é esta questão do receio do emprego precário, de não conseguirem custear a habitação… Vai tudo ter à questão das determinantes económicas.

Além do aumento da ansiedade nos mais jovens temos também uma geração cada vez mais desperta para todos estes fatores, em termos de precariedade, habitação, saúde… Isto afeta não só a natalidade futura, como também as aspirações dos jovens?
A quantidade de vezes que passa por uma banca de jornais ou que se está a ver as notícias e que vemos palavras como “colapso populacional”, “inverno demográfico”… Quando na realidade somos hoje mais de 8 mil milhões de pessoas no planeta. É a maior família humana de sempre na História. É muito interessante que, ao mesmo tempo que nós somos a maior família humana de sempre na história, e ao mesmo tempo, em partes do mundo, a conversa é sobre o declínio populacional. É muito interessante.

Mas ele existe, não é?
Se fizer zoom a alguns países, sim. Se fizer a média global não. Há países ainda a crescer muito aceleradamente. Aliás, a população vai continuar a crescer até ao final deste século e as expetativas são que depois vai fazer uma estagnação e depois vais desacelerar. Embora as taxas de fertilidade estejam a cair em todo o mundo, nós estamos a viver aquilo que se chama um momento de inércia populacional. É como quando a gente trava o carro e o carro ainda anda um bocadinho. Mas é muito interessante que, no mesmo momento em que nós somos a maior família humana de sempre, temos também um momento de grande ansiedade demográfica. Achar que estamos perto do colapso populacional… é ser influenciado também por este discurso público que está muito tóxico. As pessoas deixaram de conseguir falar de coisas sem ser o pior ou melhor. Há um caminho no meio. Não é só extremos.

"Temos cada vez mais jovens a dizer que não têm parceiro. Há uma verdadeira epidemia de solidão entre jovens"

Em termos sociais, a forma como os jovens hoje em dia estabelecem relações e a forma como estas são afetadas essencialmente pelas redes sociais, está também a afetar a forma como se relacionam? E, consequentemente, poderá vir a afetar a natalidade?
Sim, sim. A chamada epidemia de solidão. Temos cada vez mais jovens a dizer que não têm parceiro, que não se conseguem imaginar a ter um parceiro. Há uma verdadeira epidemia de solidão entre jovens, que é potenciada pelo facto de terem um telefone que lhes cria a sensação de que estão conectados como um todo, mesmo estando sozinhos. Mas a verdade é que a natalidade pressupõe a interação humana.

“Muita desta infertilidade secundária é preventiva”

Veio a Lisboa no âmbito da cimeira europeia “Tackling Infertility”, que se foca na infertilidade. Atualmente um em cada seis casais está a ser afetado por esta questão. Como é que se combate a infertilidade?
Neste relatório chamamos a infertilidade uma dimensão escondida da desigualdade reprodutiva. Esta não é uma realidade de países desenvolvidos. Os países de rendimento médio e baixo também têm bolsas grandes de infertilidade, não é um exclusivo dos países desenvolvidos. Os tratamentos para a infertilidade devem estar incluídos nos cuidados primários de saúde, onde quer que seja. A infertilidade não é um problema dos países desenvolvidos, é um problema mundial, e, além do estigma — que não é irrelevante, sobretudo em sociedades muito patriarcais em que o valor de um casal é atribuído pelo número de filhos — e para além das complicações de saúde, há outro grande obstáculo que notamos: sabemos que a exposição a determinadas substâncias aumenta a infertilidade. E alguns comportamentos de risco em que vemos o aumento das infeções sexualmente transmissíveis (porque os jovens deixaram de usar o preservativo) porque têm o PREP [Profilaxia Pré-Exposição] e portanto não contraem SIDA, mas contra outras doenças. Portanto, por vezes a infertilidade vem como consequência dessas práticas de sexo não protegido. E vem também do facto de muitos casais e muitas pessoas estarem a adiar os seus planos de fertilidade até mais tarde.

No que toca a tratamentos, falamos de que valores?
É muito variado. Mas estamos a falar sempre de tratamentos que custam milhares de euros. É incomportável. É uma inspiração que fica imediatamente removida. Com todo o sofrimento associado. Há várias histórias de pessoas que contraíram empréstimos para fazer um ciclo de tratamento, sendo que um ciclo de tratamento raramente é eficaz. É sempre preciso um segundo ciclo e o mais depressa, o mais próximo possível do primeiro. E muitas vezes dois ciclos não chegam. Imagine tudo isto… E muita desta infertilidade secundária é preventiva, as infeções sexualmente transmissíveis, por exemplo. Os abortos inseguros, o adiamento da parentalidade… Há questões sociais, mas há questões médicas que podem ser alvo de prevenção. Nós também queremos que nas escolas — mais uma vez o meu apelo constante e interminável — haja educação sexual compreensiva.

"O aborto inseguro é também uma das grandes causas de infertilidade secundária"

A infertilidade é um tema que fica de fora…
Mas é onde este tema devia ser tratado. Há aqui um grande estigma e uma grande incompreensão do que é a educação sexual compreensiva. A educação sexual compreensiva é baseada em ciência e adequada à idade. É claro que uma criança de quatro anos não precisa de ouvir falar de infertilidade. Mas um jovem que começa a experimentar a sua sexualidade precisa de saber que se tiver um comportamento sexual de risco, a gravidez é o mais evidente de todos. Mas que há uma série de doenças sexualmente transmissíveis que até podem ser curadas, mas que deixam sequelas ao longo da vida. Há muito estigma, nós não conseguimos ter estas conversas. Nós nem sobre menstruação conseguimos falar, que é uma coisa que afeta metade da população mundial, muito menos de sexo. Mas a verdade é que alguns destes comportamentos podem ser prevenidos com uma boa educação sexual compreensiva. E, portanto, a jusante está a diminuir os casos de infertilidade.

Ainda sobre a questão do tabu, tem havido um aumento dos casos de infertilidade nos homens, algo que tendencialmente se associa em primeiro lugar à mulher. Estamos aqui perante uma inversão daquilo que tem sido um preconceito, se lhe posso chamar assim?
Sim, sim, é um preconceito. Nos nossos relatórios, perguntamos sempre às pessoas quantos filhos quer ter ou se tem os filhos que quer. E é engraçado porque em quase todos os países do mundo, quase sempre os homens querem ter mais que as mulheres. Porque tem a ver com o seu valor social. Já para não falar das questões do filho varão e de quem herda. Os homens têm muito esta validação pelo número de filhos que têm. E, portanto, a infertilidade no homem é algo que afeta a sua valorização pessoal, daí ser imediatamente remetido para a mulher. E agora há mais informação, a exposição a certos químicos e até o tipo de cuecas que usam pode provocar infertilidade.

A tendência é agravar-se a infertilidade nos homens, então?
Não, com literacia não tem de agravar. Mais uma vez: uma disciplina de educação sexual compreensiva, baseada em dados, adequada à idade, articulada (como é evidente) com os guardiões legais, com os pais. Não é uma coisa desenhada no éter e aplicada independentemente da realidade contextual. Nós somos a organização que traduz os guias da educação sexual compreensiva para os programas escolares formais e informais nos países onde trabalhamos. E fazemo-lo com líderes comunitários, com líderes religiosos, com os pais envolvidos. Porque o que nós queremos é que as pessoas aprendam como impedir comportamentos de risco, depois como é que o seu corpo funciona e naturalizar todas estas conversas. Que sociedade é esta que nós construímos, em que tudo o que tem a ver com sexo, inclusive a infertilidade, são ainda grandes tabus? Acho que isto também explica porque é que ainda há uma certa dificuldade em falar-se de políticas de natalidade com a abertura que elas têm que ter, porque elas têm a ver com emprego, com habitação, com com o custo das escolas, com a esperança no futuro. E também com infertilidade, com papéis de género. Não é uma conversa que possa ser segmentada. E é preciso mexer no Código de Trabalho, na lei da Segurança Social, no Sistema Nacional de Saúde, no programa das escolas. Se nunca for feito, nunca vamos ter resultados.