Antes e depois de Chernobyl. Para o último líder da União Soviética, o acidente na central nuclear que aconteceu faz este sábado 40 anos alterou para sempre o curso da história. O desastre de 1986, que gerou uma nuvem radioativa que se espalhou pela Europa, foi apontado por Mikhail Gorbachev como um dos principais motivos para o colapso da União Soviética (URSS). Chernobyl expôs os problemas estruturais que o regime comunista enfrentava há décadas e que tentava esconder. O secretismo dos soviéticos — e a imagem do seu suposto modelo nuclear impecável — foi colocado em causa pela primeira vez em décadas.
O mundo da Guerra Fria, em que o apocalipse nuclear estava implícito sempre que aumentavam as tensões entre os Estados Unidos e a União Soviética, funcionou à base da dissuasão atómica. No cargo há apenas um ano, Mikhail Gorbachev tentou reduzir as tensões e aproximar-se do Ocidente. Num mundo que passava a estar familiarizado com as expressões russas glasnost (abertura) e perestroika (reestruturação), as ambições reformistas do ex-secretário-geral do Partido Comunista esbateram-se perante a realidade de um sistema altamente burocrático, imóvel e pesado.
Quando às 1h23m45s de 26 de abril de 1986 o reator 4 da central nuclear de Chernobyl na Ucrânia explodiu, a superpotência nuclear soviética acreditava que dominava a energia nuclear. A confiança no próprio sistema era tão elevada que o regime não soube reagir e preferiu ocultar inicialmente ao mundo o que se tinha passado, o que rapidamente se tornou impossível.
Da longínqua Suécia surgiram as primeiras indicações de que algo de grave tinha acontecido: os níveis de radiação medidos na central nuclear sueca de Forsmark estavam muito acima do normal. É desta forma que começa o documentário Chernobyl: Por Dentro do Desastre, que estreou no passado dia 18 de abril em Portugal no canal National Geographic. Com relatos de sobreviventes, cientistas, jornalistas e historiadores, explica-se de que forma o acidente nuclear mudou o mundo e ainda impacta agora na guerra entre a Rússia e a Ucrânia.
Os antecedentes do acidente: o fim da era Brejnev, Gorbachev e as boas relações com Thatcher
Leonid Brejnev, o líder soviético que travou a “era de degelo” e pôs fim ao impulso reformista de Nikita Khrushchov, morreu em 1982. Sob a sua liderança firme que reabilitou vários princípios do estalinismo, a União Soviética continuava a apresentar-se como uma superpotência que rivalizava com os Estados Unidos apesar de marcada pela repressão interna, com muito pouco espaço para dissidentes. Brejnev promoveu também um forte imobilismo ideológico, consolidando uma elite que governava o país.
O Estado controlava totalmente a economia e as grandes obras públicas. Na energia nuclear, todo o setor soviético “era basicamente dirigido a partir da esfera militar, do Ministério da Construção de Máquinas de Média Complexidade”, explica ao Observador o historiador e jornalista Adam Higginbotham, que também participa no documentário da National Geographic.
“Tal como aconteceu no Ocidente, o programa nuclear civil soviético teve origem no programa militar, destinado a gerar material para construir armas nucleares”, diz o historiador. No final dos anos 60, o Kremlin decidiu construir uma central nuclear na Ucrânia, na altura uma República Socialista Soviética, que gerasse energia para as principais cidades do norte do território ucraniano e do sul da Bielorrússia. Chernobyl foi a localidade escolhida, tendo sido criada uma cidade de raiz para acolher os cientistas nucleares: Pripyat.

Quando Mikhail Gorbachev se tornou secretário-geral a partir de 1985 após uma tensa batalha pelo poder, a central nuclear de Chernobyl já tinha sido inaugurada há sete anos. Aquele que viria a ser o último líder do país chefiava uma União Soviética parada no tempo, que continuava a apresentar-se como uma potência no plano externo. Internamente, a realidade era diferente: a economia estava estagnada e o fervor ideológico do comunismo tinha-se desvanecido, enquanto a nomenklatura — a elite burocrática para que Pripyat fora desenhada — acumulava cada vez mais privilégios face ao resto da população. Gorbachev herdou também uma guerra no Afeganistão e relações profundamente tensas com a China.
Mikhail Gorbachev trazia uma mensagem de renovação do sistema, sendo visto pelos apoiantes quase como um verdadeiro Messias. Era alguém que prometia travar o imobilismo herdado de Leonid Brejnev, tendo anunciado reformas económicas sob o termo perestroika. E também prometeu um certo grau de abertura a uma sociedade civil totalmente asfixiada pela polícia política — a glasnost.

O último líder da União Soviética procurava também melhorar as relações com o Ocidente e acabou com o conflito no Afeganistão. Quando chegou ao poder, Ronald Reagan estava à frente dos Estados Unidos, enquanto no Reino Unido liderava a primeira-ministra Margaret Thatcher. Anticomunistas e numa fase em que o neoliberalismo era popular pelo mundo, os dois governantes olharam com bons olhos para a forma como Mikhail Gorbachev tentou abrir e reformar o regime soviético.
Tim Eggar fez parte de vários governos da antiga primeira-ministra britânica. Trabalhou no Ministério dos Negócios Estrangeiros — na altura do acidente de Chernobyl — e foi ministro do Emprego. O antigo deputado do Partido Conservador recorda ao Observador que Margaret Thatcher tinha “desenvolvido uma relação pessoal próxima com Gorbachev”: “E isso aconteceu antes de ele se tornar secretário‑geral. Ele visitou o Reino Unido, deram‑se genuinamente bem. E ela, de certa forma, sentia que confiava nele e que gostava dele. E isso era muito importante para nós, porque era a única líder ocidental que tinha desenvolvido esse tipo de relação pessoal”.
A forma como os dois se relacionaram era um sinal de que a União Soviética tentava mostrar uma face conciliadora na comunidade internacional, mas o acidente nuclear de Chernobyl veio revelar os limites da mudança e expor a verdadeira natureza de um sistema ainda marcado pelo secretismo e pelo controlo burocrático, por muito que o seu líder o procurasse contrariar.

O “ambiente de tensão” que precedeu o “estrondo terrível”. O que aconteceu às 1h23 de dia 26 de abril de 1986?
25 de abril de 1986. Nas últimas horas do dia, o reator número quatro da central nuclear de Chernobyl ia ser desconectado da rede elétrica para manutenção. Mas era mais que isso: tratava-se de um exercício que tinha como principal objetivo melhorar a segurança do sistema numa hipotética falha energética. O procedimento era relativamente simples: perceber se a turbina responsável por gerar eletricidade conseguia continuar a produzir energia suficiente para alimentar as bombas que transportavam a água para arrefecer o núcleo do reator, caso deixasse de existir uma conexão à rede elétrica.
A equipa que iria conduzir esta operação ainda não tinha chegado à sala de controlo, uma divisão a poucos metros do reator protegida com espessas camadas de betão para não deixar a radiação interferir com os trabalhos. Não era a primeira vez que este tipo de teste era conduzido naquele reator. Um ano antes, o sistema mostrou-se “instável” no decorrer das operações e, por isso, o estudo dos sistemas teria de ser repetido. Mas nenhum dos trabalhadores tinha sido informado do que estava planeado acontecer durante o turno da meia-noite.
Igor Kirshenbaum, um dos trabalhadores que estava na sala de controlo naquela noite de sexta-feira, revelou no documentário que se sentia um “ambiente de tensão” quando se preparavam para desconectar o reator quatro. Foi o técnico que carregou no botão para dar início ao processo. Não muito tempo depois, pelas 1h23, deu-se o impensável.
Primeiro, foi um “estrondo terrível”, um “relâmpago”, seguido de queda de “pó” e o piscar incessante das luzes. Em poucos segundos, o alerta de emergência foi ativado e os painéis que avaliavam a radiação passaram de verde, a indicar que estava tudo bem, para vermelho, a situação de alarme máximo. Nada fazia adivinhar a magnitude do que acabara de acontecer no exterior daquelas quatro paredes de betão.
Nem dez minutos depois, já se ouviam as sirenes dos bombeiros a chegar ao local, sob o alerta de uma explosão industrial no edifício principal do complexo nuclear de Chernobyl, entre os reatores três e quatro. Os operacionais foram recebidos por um “brilho peculiar” que saía disparado para o céu vindo do reator a par de uma “enorme” nuvem negra. Só tinham máscaras para os proteger do fumo. Nada para a radiação.
Pelas 2h27, mais de 10 mil metros quadrados do telhado do reator estavam a arder. Uma grande parte do edifício desabou e os mais de 34 corpos de bombeiros da região de Kiev convocados para aquela ocorrência depararam-se já com uma mistura de pedaços soltos de betão (do edifício) e de grafite (do reator). O primeiro aviso para o risco de contaminação por radiação só chegou às 3h26, quando alguns operacionais começavam a exibir sintomas de doença provocada pelos efeitos dessa radiação.
Nesta fase, os funcionários não essenciais da central já tinham sido enviados para casa. Não foi o caso de Aleksandr Akimov e Leonid Toptunov. Ainda sem um diagnóstico para o que tinha acontecido, o responsável pelas operações reparou que o core do reator número quatro não estava a receber água e, então, pediu àqueles dois técnicos para irem restabelecer a ligação entre as bombas de água e o reator para ver se o arrefecimento poderia ajudar a resolver o problema. Mas já era tarde demais. Akimov e Toptunov saíram da sala de controlo rumo à válvula para a abrirem manualmente, um curto trajeto que os expôs a doses letais de radiação. Morreram poucas semanas depois.
Pelas 7h do dia seguinte, já não havia alarme e o que restava do telhado do reator e do edifício anexado já não ardia. Porém, o núcleo do reator continuava em chamas — essas mais difíceis de apagar por estarem num sítio de difícil acesso, devido à radiação. E, em conjunto com o fumo que escapava daquele complexo para os terrenos adjacentes, a radiação já percorria um longo percurso fora das fronteiras da União Soviética.

O silêncio inicial soviético ao desastre e a Europa desesperada por informações
O telefone de Tim Eggar tocou por volta das 6h00 do dia 28 de abril de 1986, segunda-feira. “Soube do incidente, porque fui acordado por colegas do Ministério dos Negócios Estrangeiros, que me disseram que tinha havido um acidente nuclear. E o meu primeiro pensamento — estávamos em plena Guerra Fria — foi: ‘Houve um ataque nuclear de algum tipo’. Durou apenas alguns segundos, mas ainda tenho memória disso. E depois, claro, eles explicaram: ‘Não, houve um incidente nuclear, sabemos que vem de uma central de energia nuclear, sabemos onde é”.
Nos dois dias que se seguiram à explosão, em Moscovo, já havia a perceção de que tinha ocorrido algo muito grave, embora a verdadeira dimensão ainda fosse desconhecida. Além disso, a cultura do sistema soviético ditava que os erros fossem sistematicamente escondidos ou desvalorizados — e a prática não se alterou.

A União Soviética até podia tentar esconder internamente o que se tinha passado em Chernobyl; era o habitual para grandes fracassos, mesmo que a vida de milhares de habitantes ficasse em risco. Face à imprensa controlada pelo Estado e à repressão da dissidência, quase ninguém ousava desafiar a malha imposta desde a Revolução de Outubro, sobretudo num acidente deste género. “Não queriam que ninguém descobrisse nada sobre o assunto, desde os detalhes da produção até, mais importante ainda, qualquer um dos acidentes que tinham ocorrido antes”, explica Adam Higginbotham.
O Ministério da Construção de Máquinas de Média Complexidade da União Soviética era o organismo responsável por gerir os assuntos nucleares — quer estivessem relacionados com armamento, quer fossem associados à produção de energia. “Mesmo que em 1986, em teoria, a produção soviética de energia nuclear fosse operada pelo Ministério da Energia, sediado em Moscovo, uma entidade separada, continuava a ser uma parte enorme do ciclo nuclear”, aclara o historiador britânico.
Por isso, o primeiro impulso das autoridades soviéticas foi esconder. Não podiam permitir que o mito do nuclear se desvanecesse apenas por causa de Chernobyl. Adam Higginbotham salienta que se quis “manter a ilusão de que a URSS não só liderava o mundo em ciência e tecnologia, como também de que o Estado, no seu conjunto, era uma espécie de paraíso socialista”. “Não se podiam dar ao luxo de expor ou revelar qualquer coisa que pudesse pôr em causa essa ilusão.”
Os planos de encobrimento de Chernobyl saíram gorados, sobretudo por causa da nuvem radioativa que se formou e viajou para o Norte da Europa. Na central nuclear sueca de Forsmark, os cientistas perceberam que algo de errado se passava quando detetaram níveis de radioatividade muito acima do normal, que concluíram que não podiam vir da própria central. As primeiras análises levaram a crer que tinha ocorrido um acidente nuclear algures na União Soviética.
No Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico, Tim Eggar tentava entender o que se passava. “Não conseguimos obter qualquer informação. Sabíamos que tinha havido um acidente e tornou-se público quando os suecos perceberam que algo se estava a passar. Mas antes disso, sabíamos que tinha havido um incidente. Não sabíamos era que tipo de incidente tinha sido”.
A solução passou por contactar diretamente os responsáveis soviéticos, como lembra Tim Eggar. “Perguntámos imediatamente à nossa embaixada em Moscovo e perguntámos à embaixada soviética em Londres. E não obtivemos qualquer resposta. Não houve resposta nenhuma. E não creio estar a exagerar se disser que eles não chegaram a negar que tivesse havido um acidente, mas basicamente acusaram-nos, numa fase inicial, de estarmos a espalhar o pânico. E depois tornou-se óbvio, assim que as medições foram conhecidas e toda a gente percebeu de onde vinha o vento, tornou-se óbvio e eles já não o podiam negar”.
Oficialmente, a União Soviética só permitiu que a informação sobre o acidente circulasse a 28 de abril. Depois de forte pressão por parte de várias embaixadas e governos ocidentais, a primeira admissão pública surgiu no noticiário da noite do canal estatal soviético. Nem sequer foi abertura: a notícia entrou a meio do jornal. Foi somente lido um breve comunicado, em que se reconhecia um acidente em Chernobyl e em que se garantia que estavam a ser tomadas medidas para o controlar.
A maioria dos soviéticos só teve acesso a esta informação nesse noticiário — e muitos nem sequer prestavam grande atenção ao que se dizia sobre Chernobyl. No entanto, o Kremlin já agia — já havia evacuações à revelia em Pripyat — e havia relatos cada vez mais preocupantes.
Aproximava-se o feriado do 1 de Maio, o Dia do Trabalhador, que a União Soviética celebrava com pompa e circunstância. Os desfiles em Kiev e Minsk — a cerca de 150 e 300 quilómetros de Chernobyl — estavam a ser preparados há meses. Por causa do nível de radiação que se previa para a Ucrânia e a Bielorrússia, as autoridades soviéticas ponderaram cancelar as festividades, mas estas mantiveram-se apesar dos riscos para a saúde pública das populações.

No Reino Unido, o alarmismo e o nível de preocupação eram maiores. Tim Eggar destaca que a principal responsabilidade consistia em manter a segurança dos cidadãos britânicos na região. “Descobrimos muito rapidamente que tínhamos um número bastante significativo de estudantes em Minsk, em Kiev e em Gdansk [na Polónia]. E alguns empresários também. O foco passou a ser como é que os tiramos de lá. Porque tínhamos imaginado uma radiação massiva em toda aquela área, estendendo‑se até ao nordeste da Polónia — foi isso que os nossos peritos disseram inicialmente”.
Em simultâneo, o Governo britânico tentava medir as consequências deste acidente para as relações entre Londres e Moscovo. “Houve debate sobre se a recusa em comentar se devia ao facto de eles próprios não saberem o que estava a acontecer, ou ao facto de saberem exatamente o que estava a acontecer e estarem a tentar encobrir. E, com o benefício que proporciona uma retrospecção, é claro que era mais a primeira hipótese, isto é, eles na realidade não sabiam bem o que se passava e não conseguiam decidir como lidar com a situação”, diz Tim Eggar.
Os soviéticos não tinham treinado “como lidar” com um incidente deste tipo, acredita agora o ex-governante britânico. Em todo o caso, como recorda Tim Eggar, houve uma certa desilusão com o secretismo soviético. “Andavam a falar de glasnost e andavam a falar de abertura”, mas não estavam a “dizer nada”.

A União Soviética soltava poucas informações e às vezes incompletas. “A abordagem soviética tradicional acabou por se sobrepor completamente, digamos assim, àquilo que, ao mais alto nível, Gorbachev dizia que queria fazer”, resume Tim Eggar.
Areia em paraquedas, mineiros radioativos e dois sarcófagos: como os soviéticos tentaram lidar com o acidente nuclear
Às primeiras horas da manhã de 26 de abril, Moscovo destacou uma comissão dentro do Governo para lidar com o assunto em total sigilo. À cabeceira da mesa sentava-se o chefe-adjunto do Conselho de Ministros soviético, Boris Shcherbina, o responsável pela decisão de evacuar Pripyat. A composição deste grupo não é conhecida, mas sabe-se que não estavam incluídos especialistas nucleares, segundo o então ministro da Energia da Ucrânia, Vitalii Skliarov. “Não havia ninguém que conseguisse identificar o problema rapidamente e com confiança”, disse à National Geographic.
As chamas no telhado e no edifício do reator número quatro de Chernobyl precisaram de uma madrugada inteira para serem apagadas. Mas o core do reator continuou a arder durante dias após o incidente das 1h23 de 26 de abril. Por ser a origem de toda a radiação que estava a ser libertada — não só para aquela região, mas também para outros pontos da Europa e do mundo —, o combate era mais complicado devido ao risco para os bombeiros. A exposição prolongada destes operacionais aos elementos radioativos que estavam a sair dos destroços poderia resultar na sua morte.
Por isso, à meia-noite do dia seguinte, meia dúzia de pilotos de helicópteros foram convocados para uma missão urgente: apagar o fogo. O trajeto era sempre o mesmo. Descolavam da pista de aviação mais próxima, iam até à margem do rio Pripyat para recolher areia e, finalmente, depositavam-na sobre as chamas no reator. Mesmo à distância, estando apenas a sobrevoar o local do incêndio, os pilotos estavam expostos a níveis de radiação sem precedentes, talvez apenas semelhantes àqueles sentidos em Hiroshima, em 1945, quando os Estados Unidos da América lançaram a primeira bomba atómica sobre a cidade japonesa.
Para além da areia, os helicópteros também lançavam misturas de boro (um material usado para absorver a radiação de neutrões), chumbo (um escudo frequentemente utilizado contra a radiação) e ainda dolomite (um mineral que estimula a produção de dióxido de carbono quando aquecido e, assim, contribui para dispersar o oxigénio que mantém as chamas ativas). Com todos estes compostos a cair sobre as chamas, era uma questão de tempo até os resultados se tornarem evidentes. E, de facto, durante os primeiros dias, o método parecia estar a funcionar. Os níveis de radiação e as temperaturas perto da zona do núcleo do reator estavam a diminuir gradualmente. Mas, no dia 1 de maio, registou-se um aumento de ambos e temeram o pior: uma segunda explosão com o material ainda ativo no reator.
No 13.º dia após a explosão do reator número quatro, conseguiram finalmente extinguir o incêndio. E só no dia 8 de maio houve a primeira confirmação imparcial do sucesso preliminar destas operações, mas também do acidente. Hans Blix, um especialista da Agência Internacional de Energia Atómica, foi o primeiro agente não-soviético a avaliar a situação em Chernobyl.

O incêndio foi apagado, mas restava o medo de que o combustível nuclear, o urânio, estivesse a derreter o solo do reator e, assim, pudesse chegar ao nível freático e contaminar a rede de água potável que abastecia não só Kiev, mas o resto do território ucraniano. Para atenuar os receios, foi destacada uma pequena equipa para instalar sensores de temperatura na base do reator. Demoraram cerca de 18 horas para chegar ao outro lado da parede de betão, a poucos metros da origem da radiação. Centenas de mineiros dedicaram-se a fazer um túnel que passava mesmo por debaixo do reator número quatro e construir um heat exchanger, um dispositivo para garantir o arrefecimento do solo e evitar uma nova explosão.
Os mineiros convocados para esta tarefa desconheciam a magnitude da operação que estavam a levar a cabo. Ao longo dos dias de trabalho, foram relatando um sabor “metálico e doce” na boca quando estavam nas imediações do reator. Nos anos que se seguiram, perto de 70% dos trabalhadores contratados morreram. Quando ficou tudo pronto, o receio do colapso do subsolo já se tinha dissipado e o heat exchanger nunca chegou a ser ligado. Aquele trabalho não se traduziu em qualquer resultado prático.
Mas por ordem administrativa de Mikhail Gorbachev, houve um outro projeto a começar quase em simultâneo. O plano era construir uma espécie de sarcófago, uma cápsula que envolvesse o reator número quatro e o material radioativo. Para esta operação, foram recrutados centenas de milhares de voluntários de toda a União Soviética: os liquidadores.

Para além da construção do sarcófago, este grupo de voluntários ficaria também encarregue de limpar todos os detritos resultantes da explosão — entre pedaços de betão e grafite que expeliam doses letais de radiação. O desafio principal foi o telhado do edifício do reator e os liquidadores tiveram poucos meses para completar a missão, mesmo que só pudessem estar no telhado em curtos períodos de 30 ou 40 segundos de cada vez. Em setembro, os primeiros humanos subiram àquela superfície que seria o local mais radioativo de todo o planeta, com perfeita noção dos riscos.
“Roupa protetora só usámos no telhado. Fora isso, praticamente nada”, explicou ao Observador Sergei Belyakov, um dos liquidadores que participou nesta missão. O equipamento resumia-se a duas placas de chumbo para cobrir o peito e as costas, uns óculos protetores e uma máscara respiratória pesada. Com uma pá, retiravam os pedaços radioativos e atiravam-nos para o interior do que restava do reator, para depois ficar tudo enclausurado no sarcófago.
Neste processo, desenharam uma zona de exclusão, onde mais de 100 mil pessoas tiveram de ser evacuadas e todos os animais foram eutanasiados por terem sido expostos à radiação de modo a reduzir os riscos de contágio para outras populações. Tudo num raio de 30 quilómetros da central nuclear de Chernobyl teve de ser evacuado. Sete meses depois da explosão, o reator que explodiu estava finalmente coberto por uma estrutura de betão com cerca de 60 metros de altura.
A 30 de novembro, no entanto, com a conclusão da obra, começou um novo contra-relógio. Os engenheiros desenharam este sarcófago com um “prazo de validade” de 50 anos, pelo que a estrutura, em breve, teria de ser renovada. Contudo, foi considerada um sucesso e cada um dos liquidadores recebeu um pagamento de cerca de 930 euros no final pelo trabalho bem sucedido.

Quase duas décadas após o incidente, quando já tinha sido anunciado o encerramento da central de Chernobyl, foi feito um esforço comunitário para reforçar a estrutura. Esta começou a ser construída em 2010, com o apoio financeiro de 54 países (incluindo a Rússia), resultando num investimento total superior a dois mil milhões de euros. O projeto ficou concluído em 2016 e, agora, o reator número quatro encontra-se dentro de um novo sarcófago de aço, com mais de 100 metros de altura e 162 de comprimento, garantindo que aquela zona fica protegida da radiação durante um século.
A evacuação de Pripyat, a “cidade fantasma” que está “congelada no tempo desde 1986”
A manhã de 26 de abril não foi diferente das outras em Pripyat. Ao sábado, ao contrário do que acontece em Portugal, os jovens soviéticos estavam na escola pelas 8h e alheios ao que tinha acontecido. A primeira alteração da rotina veio ainda na parte da manhã: os professores terão pedido que tomassem um comprimido de iodo, sem apresentar qualquer justificação.
Apesar de os jovens não o saberem naquela altura, esta medicação (iodeto de potássio) é uma das formas mais eficazes de proteger a tiroide do iodo radioativo. Este é saturado pelo iodo estável dos comprimidos e, assim, não fica retido naquela glândula nem permanece no sistema circulatório.
Só com o cancelamento das aulas e a obrigação de seguir logo para casa é que se levantaram suspeitas entre todos. Em simultâneo, houve uma reunião de emergência dos responsáveis da cidade. “Ninguém deve entrar em pânico”, foi o mote deste encontro, em que não foram mencionados os perigos associados à longa exposição a radiação — cujos valores foram classificados como “estáveis” pelas autoridades num primeiro instante.

A construção de Chernobyl só arrancou em 1972, mas, em 1970, Pripyat já estava pronta para receber moradores. Mesmo antes da edificação dos quatro reatores, a cidade nova e com habitação gratuita ia atraindo jovens casais soviéticos, (muitos) engenheiros e os cérebros destacados para aquele novo grande projeto.
Enquanto deliberavam sobre uma possível evacuação total da cidade, a autarquia conseguiu reunir quase 1.500 autocarros vindos de toda a região de Kiev para, no dia seguinte, retirar os quase 50.000 habitantes de Pripyat. A ausência de transparência sobre o que passava foi intencional. Os acessos da cidade foram condicionados, para impedir saídas injustificadas ou aproximações à central e, com o objetivo de evitar a transmissão de informação para outros pontos do país, a polícia secreta soviética, o KGB, cortou as comunicações na cidade. Pripyat estava completamente isolada.
Só mais de 33 horas após a explosão é que a população de Pripyat soube que teria de abandonar a cidade. “Camaradas, existe uma situação de radiação desfavorável. De modo a garantir a segurança de toda a população, especialmente das crianças, tornou-se necessário levar a cabo uma evacuação temporária dos residentes da cidade”, ouviu-se na rádio. Os habitantes foram avisados para preparar os documentos, dinheiro, pertences e mudas de roupa para apenas três dias. Alguns moradores esperaram horas pelos autocarros, expostos a grandes quantidades de radiação que continuava a chegar de Chernobyl.
Em poucas horas, uma cidade com vida tornou-se numa cidade fantasma com roupa ainda nos estendais e carros parados nas margens das ruas à espera dos donos. As famílias e os trabalhadores da central foram distribuídos por outras cidades mais afastadas de Chernobyl. Pripyat nunca mais tornou a ser habitada.
“Pripyat está congelada no tempo desde 1986. Disseram às pessoas que só iam estar fora durante três dias, para levar apenas coisas essenciais, mas nunca voltaram”, esclarece ao Observador a jornalista ucraniana e produtora do documentário da National Geographic, Jenia Bilous. Apesar de se ter criado uma nova cidade para albergar os desalojados, Slavutych só ficou pronta dois anos mais tarde.
O documentário Chernobyl: Por Dentro do Desastre conta a história de Olena Mokhnyk, que em 1986 era apenas uma rapariga de oito anos que vivia em Pripyat. Quando Olena e os pais tiveram de abandonar a cidade, explica que teve de passar muito tempo em campos onde nem sempre era bem recebida. “Diziam-me: Volta para de onde vieste, para Chernobyl”, relembra, recordando que outros jovens chamavam-lhe nomes como “ouriço de Chernobyl”.
Jenia Bilous explica que estas histórias eram “bastante comuns”, principalmente nos primeiros momentos após o desastre nuclear. “Muitas das pessoas que foram realojadas enfrentaram o medo e a incompreensão dos outros. Havia uma clara falta de informação sobre a radiação, o que criou muitos estigmas”, afirma a jornalista. “Muitos eram gozados, evitados ou tratados como se fossem diferentes ou perigosos”, acrescenta.
O desafio político de Gorbachev e como o antigo líder acelerou a glasnost após Chernobyl
Poucas horas após o acidente, Mikhail Gorbachev recebeu uma chamada telefónica. Contaram-lhe que tinha havido uma explosão na central nuclear de Chernobyl. “Nas primeiras horas e até mesmo no dia seguinte ao acidente, não se sabia que o reator tinha explodido e que tinha acontecido uma enorme emissão de material nuclear para a atmosfera”, chegou a confessar o ex-líder da União Soviética.
O próprio secretário‑geral do Partido Comunista recebeu informações pouco claras e descontextualizadas, sem ter a certeza dos detalhes operacionais, nem da verdadeira escala do desastre. Só dias mais tarde é que a situação mudou. A tentativa de encobrimento e a demora em receber informações levou-o a repensar profundamente o funcionamento do regime soviético, reforçando a convicção de que o secretismo, a burocracia e a falta de transparência estavam a tornar o sistema inoperacional.
“Penso que Chernobyl demonstrou-lhe, de uma forma que nenhum outro fenómeno fez, que a União Soviética estava podre no seu núcleo e que todo o projeto precisava mesmo de uma mudança estrutural”, nota Adam Higginbotham, acrescentando que foi a catástrofe nuclear que o ajudou a perceber que a “podridão ia ainda mais fundo no império do que ele imaginara”.
Mikhail Gorbachev começara o mandato em 1985 com um espírito reformista. O acidente nuclear intensificou essa vontade de alterar o regime. “Realmente empurrou-o a tentar fazer reformas muito depressa”, considera Adam Higginbotham. Numa entrevista após 20 anos da catástrofe, o último líder soviético confessou que o “sistema, tal como o conhecíamos, não podia continuar a existir”.
“Ficou absolutamente claro como era importante continuar com a política de glasnost”, sublinhou Mikhail Gorbachev. O acidente nuclear colocou a nu as debilidades estruturais da União Soviética, sobretudo ao nível da liderança e da cultura de secretismo que dominava o aparelho de Estado. A comunicação tinha que se tornar transparente.

Os efeitos foram praticamente imediatos em termos diplomáticos. Ao Observador, Tim Eggar assegurou que a comunicação entre o Ministério dos Negócios Estrangeiros com os soviéticos se foi tornando “mais fácil” ao longo das semanas: “Aos poucos, começámos a obter algumas respostas por parte dos soviéticos e eles começaram a ser mais cooperantes”.
Ainda assim, muitos soviéticos continuavam às escuras. Sergei Belyakov, que trabalhou nas obras do reator na central nuclear de Chernobyl no verão de 1986, relatou ao Observador que chegou ao local praticamente sem informações. “O fosso entre o que sabia antes de partir e o que descobri nas primeiras horas foi enorme — parecia que tinha aterrado noutro planeta”, frisa.
A queda da reputação da União Soviética e o processo judicial
Antes de Chernobyl, acredita Tim Eggar, Mikhail Gorbachev dizia que queria fazer várias reformas. “Mas ele provavelmente não compreendia a mudança cultural que teria de implementar”, refere o ex-governante britânico. A glasnost avançou com rapidez e o regime soviético tentava, pela primeira vez em décadas, abrir-se ao mundo. Foi com contestação, mas a corrente liderada pelo ex-líder soviético vingou.
Ao mesmo tempo, começava a ruir o mito soviético que Estaline erguera: a imagem de uma União Soviética como uma gigante nuclear e tecnicamente infalível. Tim Eggar lembra que, no Governo britânico, cresceu o ceticismo sobre se a URSS tinha mesmo a “liderança tecnológica”. Essas dúvidas já existiam, mas Chernobyl veio confirmá-las. “Isto é uma grande generalização, mas penso que, de facto, furou o balão da suposta superioridade soviética em tecnologia nuclear — para não falar de outras áreas”, vinca o antigo governante.
No plano externo, a grandeza da União Soviética começou a ser colocada em causa. A guerra no Afeganistão demonstrou que, no campo de batalha, os soviéticos estavam longe de ser invencíveis. A economia estava estagnada. E Chernobyl vinha expor as fragilidades do sistema nuclear soviético, corroendo ainda mais o mito da superpotência.

Ao longo dos meses que se seguiram ao desastre, a União Soviética procurou, através dos seus próprios meios, controlar a situação sem recorrer à ajuda internacional. E como era habitual no regime soviético, tinha de encontrar‑se um culpado para o que acontecera. Não bastava reconhecer falhas: era preciso apontar os responsáveis e tentar livrar a liderança soviética de quaisquer culpas.
Assim, iniciou-se um processo judicial relativamente rápido. Seis responsáveis foram formalmente acusados. No banco dos réus sentaram‑se o diretor Viktor Bryukhanov, o engenheiro‑chefe Nikolai Fomin, o vice‑engenheiro‑chefe Anatoly Dyatlov e outros três homens que geriam o reator 4. Em julho de 1987, os três principais dirigentes foram considerados culpados de violação agravada das normas de segurança e condenados a dez anos de trabalhos forçados. O sistema encontrava assim os seus culpados — verdadeiros bodes expiatórios.
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O “exagero”, as restrições em ovelhas e uma preocupação generalizada: como o mundo reagiu ao desastre de Chernobyl
Os primeiros a denunciar a fuga de radiação vinda da União Soviética foram, como já se disse, os suecos. Só que de acordo com a Agência Internacional de Energia Atómica, o nível de radiação na atmosfera excedia os valores normais em diferentes pontos do globo. Foram detetadas partículas radioativas um pouco por todo o território da União Soviética, no norte da China, no Japão e até no estado de Washington, na costa ocidental dos Estados Unidos da América — para além de todos os registos feitos nos vizinhos europeus. Mas Moscovo dizia que o Ocidente estava a “exagerar” nos registos divulgados.
A agência refere que estes níveis de radiação reduziram-se ao longo das primeiras três semanas após a explosão do reator número quatro e, no final de maio, a quantidade de moléculas radioativas na atmosfera — fora dos locais imediatamente afetados — tinha descido consideravelmente para os níveis habituais. Apesar de a AIEA indicar que não existe qualquer estudo que aponte para um aumento dos riscos de cancro ou outros problemas de saúde após o incidente em Chernobyl fora da Ucrânia, Bielorrússia e Rússia, houve várias atividades em países externos à União Soviética que foram diretamente afetados pelo desastre nuclear.

Um dos casos mais conhecidos aconteceu no Reino Unido. Algumas moléculas de césio radioativo aterraram nas regiões britânicas mais montanhosas, onde a criação de ovinos é a principal atividade agrícola. Este elemento radioativo, devido às composições do solo naquelas áreas, conseguiu infiltrar-se do solo para o pasto e, a partir daí, circulava também nas ovelhas.
Ainda em 1986, após um esforço intensivo de monitorização animal, mais de quatro milhões de ovelhas foram colocadas numa lista de restrições e quase 10 mil empresas foram proibidas de comercializar os produtos destes animais até o risco ser levantado, como recorda a Food Standards Agency do Reino Unido, com o objetivo de proteger a segurança alimentar no país. Estas restrições estiveram em vigor na Irlanda do Norte até 2000, na Escócia em 2010 e, no resto do país, só em 2012 é que deixaram de precisar de monitorizar continuamente as ovelhas naquelas regiões.
O impacto não se estendeu à produção de energia nuclear, defende Tim Eggar ao Observador. “Sempre houve algum debate no Reino Unido sobre os perigos do nuclear, mas não penso que Chernobyl tenha tido um efeito muito significativo. Era fácil dizer: isto é uma tecnologia diferente, isto é a União Soviética, a transposição directa para o contexto nuclear britânico não é assim tão grande. Portanto, as pessoas que eram antinuclear continuaram antinuclear, as que eram pró continuaram pró, e as pessoas que estavam no limbo diziam: bom, sim, é grave, sim, podem acontecer grandes acidentes, mas estamos razoavelmente confortáveis com o nosso regime de segurança”, explica.
O historiador Adam Higginbotham acredita que vingou a ideia de que a energia nuclear era “demasiado perigosa para ser expandida” além do ponto em que estava naquela altura. “O acidente de Chernobyl fez com que esse efeito se espalhasse pelo mundo. Quando se olha para o número de estados que declararam que iam cancelar ou reduzir os seus programas de energia nuclear depois de 1986, vê-se que fez uma diferença enorme. Ainda hoje estamos a sentir as consequências disso”, contou ao Observador.
“Se a energia nuclear tivesse continuado a expandir-se, se Chernobyl nunca tivesse acontecido, hoje haveria muitas mais centrais nucleares a gerar eletricidade pelo mundo fora e, talvez, menos centrais a combustíveis fósseis. E, como resultado, a crise climática talvez não estivesse tão avançada como está agora; não dependeríamos tanto de combustíveis fósseis, que neste momento se estão a revelar tão economicamente devastadores”, defende.
A queda da União Soviética, a “condescendência” de Gorbachev e os movimentos independentistas ucranianos
Mikhail Gorbachev nunca teve dúvidas do que para si foi a principal causa da dissolução do país que liderou desde 1985. A forma como Chernobyl acelerou a glasnost, a perestroika e deu azo aos movimentos independentistas nas repúblicas soviéticas formou a tempestade perfeita para a queda da URSS.
Ao Observador, Adam Higginbotham recusa uma explicação tão simplista. “Eu acho que isso é bastante condescendente” de Mikhail Gorbachev. “Na minha opinião, a principal causa do colapso da União Soviética — embora, obviamente, tenha sido algo muito complexo, com muitos fatores a contribuírem — foram as próprias ações de Gorbachev”, assinala, acrescentando: “Se não tivesse sido pelo ritmo e pela profundidade das reformas económicas que ele tentou impor ao império, este poderia ter-se arrastado por mais algum tempo”.
Ou seja, o último líder do país pode ter interesse em vender a ideia de que Chernobyl foi a principal causa para a queda da União Soviética — mas isso não é necessariamente verdade. Porém, “incontestável” para o historiador britânico é que, “deixando de lado todos os fatores económicos e sociais”, o maior impacto que Chernobyl teve, e que contribuiu para o colapso final da URSS, ”foi a forma como afetou o estado de espírito dele, do próprio Gorbachev”.
Assim, a abertura da sociedade impulsionada pela divulgação de informações sobre o acidente na central nuclear de Chernobyl e secundada por Gorbachev deu início a uma fase de transparência sem precedentes na União Soviética. A glasnost estava em curso e, a partir do acidente, muitos soviéticos começaram a exigir mais informações e mais verdade sobre outros domínios da vida política, social e cultural.
A isso, somou-se a situação económica estagnada há anos, devido ao planeamento centralizado, à burocracia excessiva, aos gastos militares massivos e à corrupção endémica. Os custos do acidente na central nuclear de Chernobyl foram colossais; segundo Adam Higginbotham, estimam-se em cerca de 100 mil milhões de euros. Numa economia já débil e sobrecarregada, um choque desta dimensão teve efeitos imediatos e agravou a fragilidade do sistema.
https://observador.pt/especiais/mikhail-gorbachev-o-homem-no-arame/
Nasceu um verdadeiro processo de liberalização em curso. Na União Soviética, os políticos mais conservadores começaram a questionar a capacidade de Mikhail Gorbachev para liderar o país, à medida que a glasnost e a perestroika abriam fissuras no sistema que tinha vigorado desde 1917. Pouco a pouco, ia‑se oficializando uma rutura entre a fação mais tradicional do Partido Comunista e uma ala reformista — cada vez mais liberal — na qual Boris Yeltsin (que viria a ser Presidente russo) assumiria um papel central.
Ao mesmo tempo, na Ucrânia e noutras repúblicas socialistas soviéticas começou a consolidar-se a perceção de que o Kremlin não conseguia proteger as diferentes populações de acidentes como Chernobyl. A resposta ao acidente nuclear tinha sido tardia, confusa e cheia de contradições.
Na Ucrânia, onde o acidente aconteceu, surgiram movimentos ambientalistas que exigiam uma maior responsabilização das autoridades soviéticas. Esses grupos “verdes”, que inicialmente se limitavam a alertar para os perigos da energia nuclear e da poluição, rapidamente evoluíram para associações que defendiam a independência ucraniana, argumentando que o país era vítima do “eco‑imperialismo” de Moscovo.

Ao mesmo tempo, nos países do Pacto de Varsóvia, esses movimentos independentistas também cresciam. A perestroika e a glasnost também se faziam sentir na República Democrática da Alemanha, na Polónia, na Checoeslováquia e na Hungria. Em 1989, o Muro de Berlim caiu e os movimentos ucranianos — tal como os que existiam noutras repúblicas soviéticas e em toda a Europa de Leste — ganharam novo ânimo para seguir o mesmo caminho. Ao longo dos dois anos seguintes, o comunismo foi sendo derrubado primeiro nos países do Pacto de Varsóvia e, por fim, no próprio coração do sistema: a União Soviética.
O gigante geopolítico implodiu. Chernobyl mostrara, como realçou Adam Higginbotham, a verdadeira “podridão” do regime aos olhos de Mikhail Gorbachev, e o regime não resistiu a esse processo de autocrítica e transparência — acabou por ruir sob o peso das falhas que, finalmente, ficaram a nu.

A guerra na Ucrânia e a chantagem nuclear de Putin
Nas décadas que se seguiram, Chernobyl consolidou-se para muitos ucranianos como um momento definidor da sua independência. Jenia Bilous conta que é uma “importante parte da memória coletiva” ucraniana. “Chernobyl não é apenas história para nós. É algo profundamente humano, algo que ainda vive entre as pessoas em várias gerações.”
O evento é sempre lembrado a 26 de abril na Ucrânia. Contudo, a partir de 2022, ganhou ainda mais visibilidade. O conflito degradou de vez as relações entre Kiev e Moscovo. O Presidente russo, Vladimir Putin, iniciou uma guerra expansionista e planeou, pelo menos numa fase inicial, conquistar grandes partes de território ucraniano e derrubar o Governo liderado por Volodymyr Zelensky.
O movimento independentista ucraniano, que ganhou grande impulso durante o acidente nuclear, estava novamente em risco. O Kremlin nunca escondeu que deseja colocar um líder pró-russo na presidência ucraniana, capaz de afastar o país do Ocidente e de o manter na órbita de Moscovo. Neste cenário, a Ucrânia arriscava voltar a ficar presa às amarras russas — com a sua independência e soberania de novo sob ameaça.


Quando Vladimir Putin deu luz verde à invasão, as tropas russas avançaram desde o leste e também do norte, via Bielorrússia, com o objetivo de chegar a Kiev em três dias. Entre a capital ucraniana e o território bielorruso, estava a central nuclear de Chernobyl. As forças russas tomaram a central nuclear, cavaram trincheiras em áreas altamente contaminadas em redor da infraestrutura e procuraram controlar as localidades em redor.
Nunca se tornou totalmente claro por que razão os militares russos levaram a cabo este tipo de operações na zona de Chernobyl pondo em risco a vida dos seus soldados. Adam Higginbotham explica que em parte se deveu a motivos logísticos e geográficos: “A central de Chernobyl ficava diretamente na rota entre a fronteira da Bielorrússia e Kiev. Está mesmo ali, é extremamente perto da fronteira com a Bielorrússia. Por isso, foi um dos primeiros sítios que encontraram”.
Mas não é assim tão simples. A Rússia sempre teve consciência do valor simbólico que a central nuclear de Chernobyl assumiu para o movimento independentista ucraniano. A central continuou presente em praticamente todo o mundo como o mais grave acidente nuclear da história. O tema ganhou ainda mais protagonismo em 2019, com a série Chernobyl, exibida pela HBO que voltou a colocar o desastre no centro de várias discussões públicas.

Ora, sabendo do impacto que teria o controlo da central nuclear de Chernobyl, Adam Higginbotham diz que Putin usou essa conquista militar para “aterrorizar” o mundo e como prova da sua superioridade militar no início da guerra na Ucrânia. “Tem obviamente sido usada também como uma espécie de peão na campanha de terror da Rússia contra a população civil da Ucrânia e contra o mundo”, afirma o historiador.
O controlo russo de Chernobyl não durou muito tempo. No final de março de 2022, o Kremlin anunciou ao mundo que faria um “gesto de boa vontade” e retiraria as suas tropas de várias zonas do norte da Ucrânia, incluindo a região próxima da fronteira com a Bielorrússia, onde se localiza a central nuclear.
As tropas ucranianas ficaram incrédulas ao descobrir as trincheiras. A agência nuclear ucraniana Energoatom denunciou que essas fortificações tinham sido abertas em plena Floresta Vermelha, a zona mais radioativa da área de exclusão, expondo os soldados a níveis perigosos de radiação. Muitos soldados russos foram depois tratados na Bielorrússia das complicações que desenvolveram.

A guerra na Ucrânia prolonga-se há quatro anos. Em fevereiro de 2025, a Rússia atacou com recurso a um drone a estrutura que protege o reator nuclear de Chernobyl. Tratou-se de mais um aviso à comunidade internacional de Moscovo, acredita Adam Higginbotham. “É uma forma de assustar o mundo”, frisa.
Além de Chernobyl, houve outra central nuclear que ganhou grande mediatismo desde o início da guerra: a de Zaporíjia, mais a sul. É a maior da Europa e encontra-se muito próxima da linha da frente, tendo sido várias vezes atingida por ataques aéreos desde o início do conflito. Hoje está sob controlo russo, sendo que o futuro da sua gestão após o fim da guerra está a ser discutido.
Como é que Chernobyl ficou na memória coletiva de russos e ucranianos?
40 anos depois, na Ucrânia, como relata ao Observador Jenia Bilous, “vai haver muitos eventos”. “Nós assinalamos a tragédia de Chernobyl todos os anos. É parte importante da nossa memória coletiva — honramos as vítimas, os liquidadores e todos aqueles que foram afetados pelo acidente.”
O conflito que ainda continua em curso fez com que muitos ucranianos olhassem para a efeméride com outros olhos. “A conexão é mais forte”, assume a produtora ucraniana, justificando as razões: “Durante a guerra, vivemos emoções parecidas — evacuações, perda de casas e separação dos entes queridos. Existe um paralelismo nesse sentimento de incerteza e medo”.
“Hoje, por causa da guerra e da situação em redor da central nuclear de Zaporíjia, o assunto tornou-se ainda mais relevante”, resume Jenia Bilous. Entre os liquidadores como Sergei Belyakov, existe uma certa incredulidade com as tarefas que realizou num ponto tão sensível da história soviética: “Foi uma experiência única. Se alguém me tivesse dito sequer um décimo do que viria a viver em Chernobyl e do que fiz lá, não teria acreditado”.

“Era o início do colapso da poderosa União Soviética, mas o sentimento patriótico ainda era muito forte. Pensava: ‘Se não for eu, quem será?’. Muitos que lá estiveram sentiram o mesmo”, narra Sergei Belyakov. O liquidador nunca mais voltou a Chernobyl, mas ainda vê a central nuclear como algo soviético — e não ucraniano: “Chernobyl nunca foi algo puramente ‘ucraniano’. Ainda hoje, pessoalmente, não distingo entre Ucrânia e Federação Russa — continuo a ver-me como cidadão da União Soviética”.
Para muitos russos, o historiador Adam Higginbotham “não tem a certeza” como Chernobyl ainda é encarado, anos depois do desastre nuclear. “Muitas das pessoas com quem falei reagiram com uma certa perplexidade ao facto de escrever sobre isto, do género: ‘Mas porquê? Toda a gente sabe tudo sobre isto. Já se escreveu tanto sobre isto na Rússia”, sinaliza, recordando que “ficou com a impressão de que foi um assunto” que foi “falado e discutido durante muitos anos”.

40 anos depois, a presidência sabe que é um botão que pode premir para “assustar o mundo”. O acidente nuclear de 1986 é um evento histórico capaz de evocar sentimentos de pânico e alarmismo quase instantâneos. As cerca de dez mil vítimas mortais, a cidade abandonada de Pripyat e as consequências duradouras da nuvem radioativa tão cedo não deverão sair da memória coletiva mundial. E, para os ucranianos, permanecerá como um símbolo dos sacrifícios que tiveram de suportar — e do valor da sua independência.



