(c) 2023 am|dev

(A) :: China. Queixa sobre bolo de aniversário estragado leva à descoberta de milhares de vendedores de comida falsos

China. Queixa sobre bolo de aniversário estragado leva à descoberta de milhares de vendedores de comida falsos

Autoridades descobriram uma rede de negócios "fantasma". Existiam apenas online e com licenças comerciais falsas. Sete das principais plataformas de entrega na China envolvidas. Dona da Temu incluída.

Margarida Vieira dos Santos
text

No verão de 2025, em Pequim, um homem encomendou um bolo de aniversário com uma flor comestível através de uma plataforma de entrega de comida. Insatisfeito com o sabor, apresentou uma queixa às autoridades locais, o que deu origem a uma investigação que acabou por revelar uma vasta rede de mais de 67 mil vendedores “fantasma” espalhados por todo o país, responsáveis pela venda de mais de três milhões de bolos. Os negócios existiam apenas online, sem lojas físicas, e funcionavam com licenças comerciais de alimentos falsificadas.

A investigação de 10 meses, segundo a CNN, revelou uma cadeia de abastecimento alimentar paralela, na qual os pedidos não eram preparados diretamente por um restaurante, mas sim encaminhados através de vários intermediários e atribuídos ao fornecedor que apresentasse o preço mais baixo, em detrimento da qualidade e da segurança dos alimentos.

Num exemplo divulgado pela agência estatal Xinhua, um consumidor pagou 252 yuans (aproximadamente 31 euros) por um bolo, mas o pedido foi reencaminhado para uma plataforma intermédia, onde vários vendedores baixaram sucessivamente os preços até 80 yuans (10 euros), que acabou por ser o valor vencedor.

“Em resumo, isto indica que o verdadeiro pasteleiro pode ficar apenas com cerca de 30% do valor do pedido, operando com margens de lucro reduzidas. Não se trata, de forma alguma, de uma infração menor, mas sim de uma nova forma de atividade ilegal — já industrializada e em larga escala”, afirmou Han Bing, responsável da Administração Estatal de Regulação do Mercado, à agência estatal chinesa, citada pela emissora norte-americana.

No âmbito desta investigação, o regulador do mercado chinês concluiu, na semana passada, que sete das principais plataformas de entrega — incluindo a PDD (proprietária da Temu), a Alibaba, a Douyin (detida pela ByteDance), a Meituan e a JD.com — falharam na proteção dos consumidores e na verificação adequada das licenças dos vendedores de produtos alimentares.

Num determinado momento, enquanto as autoridades interrogavam um funcionário de um dos maiores serviços de entrega de comida do país, um colega próximo escreveu discretamente “mantém-te em silêncio” numa folha de papel, passando-a ao colega. Quando os inspetores se aperceberam do que estava a acontecer, o funcionário amarrotou a folha e, na presença de todos, engoliu-a, relata o China Quality Daily, segundo o canal de televisão norte-americano.

Ao longo dos 10 meses em que decorreu a investigação, este não foi o único caso de obstrução registado. Num outro incidente, um responsável de segurança da mesma empresa terá liderado um grupo que invadiu o local da investigação, que empurrou e agrediu de forma violenta agentes da polícia.

Dias depois, um executivo desmaiou subitamente durante o interrogatório e foi levado para o hospital de ambulância, mas os médicos constataram que o homem não tinha qualquer problema de saúde. Outras empresas não recorreram ao confronto direto, mas optaram por estratégias de atraso, resistência no fornecimento de dados ou entrega de informação incompleta às autoridades.

A agência de notícias chinesa revelou ainda, de acordo com a CNN, que as empresas foram multadas num total recorde de 3,6 mil milhões de yuans (cerca de 450 milhões de euros), a maior penalização aplicada desde a revisão da lei de segurança alimentar em 2015 na China.

A multa mais elevada recaiu sobre a PDD, no valor de cerca de 1,5 mil milhões de yuans (aproximadamente 190 milhões de euros), devido à recusa reiterada em fornecer informações relevantes, à apresentação de documentos falsos e à resistência às inspeções das autoridades reguladoras.

A investigação, provocada por um bolo estragado, evidencia a tentativa de Pequim de travar uma concorrência de preços cada vez mais agressiva, que empurrou muitas empresas para um ciclo insustentável — neste caso, com cortes nos preços nas plataformas de entrega a serem feitos à custa da segurança alimentar.

[Um beijo no primeiro encontro e três viagens em menos de três meses. Ao 85.º dia de relação, o aspirante a modelo matou o cronista socialOs ficheiros do caso Carlos Castro”, o novo Podcast Plus do Observador, conta os bastidores nunca revelados da investigação a um crime brutal. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. Pode ouvir aqui, no site do Observador, o terceiro episódio e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir também aqui o primeiro episódio e aqui o segundo]