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Afonso Cruz entre facas afiadas

Houvesse dúvidas sobre a versatilidade de Afonso Cruz, “A cozinheira do ditador” daria cabo delas. Pegando na história de uma mulher agredida, Cruz dá vinte mortais para trás, para longe do clichê.

Ana Bárbara Pedrosa
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Ela é cozinheira, ele é o patrão. Ela é agredida por ele, ele é ditador. E, no meio disto, ela é narradora. Entre violência e medo, há uma prosa que voa de graça em graça, ora pondo o ónus na tensão, ora aliviando-a pela utilização do humor. Nos desejos de vingança dela, o humor, que nunca desliza das páginas, parece vingar tudo.

A estrutura, mais do que atípica, é perfeitamente original. Temos os capítulos narrados por Maria, e antes temos uma espécie de sinopse do capítulo. Por exemplo:

Capítulo em que a narradora disserta sobre os clichês literários das descrições físicas; contrapõe a imagem estereotipada do ditador e a sua própria; desmonta as convenções do nariz adunco, dos olhos de águia e dos lábios finos ou carnudos; e afirma a sua beleza irresistível, provada pelo facto de ter sido feita prisioneira por um ditador.” (p. 15)

O autor permite-se fazer spoiler atrás de spoiler, mas o desenvolvimento do capítulo nunca sabe a prosa mastigada. Em vez disso, cada fragmento é coisa nova, que compõe a personagem e ajuda a que o cenário seja construído para quem lê. Esta originalidade, fundamental marca do autor, vê-se ainda na forma como há considerações sobre a língua dentro da própria prosa. Dissertando sobre as parecenças físicas de um e de outro, da agredida e do agressor, Maria ainda fala dos estereótipos entre a vileza e aparência:

Como toda a gente sabe, a vida imita a arte, por isso, seria possível julgar a aparência do rosto do senhor ditador com todos os estereótipos literários: nariz adunco, olhos de águia, lábios finos.” (p. 17)

A perfídia é como um cheiro, uma aura, uma atmosfera, não tem fisicalidade.” (p. 18)

Não há pó de arroz no texto. Há uma agredida com vontade de agredir. Há uma espezinhada com vontade de espezinhar. Além das agressões cometidas, ainda há o resto, e por isso Maria “pensa nas suas facas – e na serra de ossos – e nas fantasias de as usar contra o déspota; reflecte sobre a necessidade de transformar a cólera em carácter permanente; e recorda com horror o dia em que o senhor ditador mandou degolar quem ela mais amava” (p. 23). Com tanta tensão, não admira que a agredida, que passa os dias na cozinha, não só imagine a faca do pão a cortar às fatias a garganta do ditador como tenha como prato ideal do dia, entre outros, um “Autocrata assado no espeto – peça inteira” (p. 104).

Ao longo do romance, os sonhos de violência quase redimem e, de certa forma, vingam qualquer coisa. Não há uma vítima que é cozinheira; há uma cozinheira que não quer ser vítima, que quer caçar o agressor. A obsessão com a vingança engole a personagem, transforma-se nela, marca-lhe a identidade. Não existe a pequena dor à portuguesa; existe uma consciência activa de quem não aceita a naturalização de um lugar. Como Cruz ainda opta por uma estrutura narrativa de múltiplos registos, seja nos capítulos narrados por Maria, nas sinopses pré-capítulos ou nos pratos do dia (irónicos, violentos, com um ditador posto e deposto às fatias) que vão sendo apresentados entre capítulos, o próprio leitor também vai saltitando entre linguagens, sendo que acabam por ser formas de dizer o mesmo – a informação será semelhante, a sensação também, mas aparecem numa plasticidade de formas de dizer. Além disso, a oscilação permite ao autor dar ao leitor uma mescla entre as acções do quotidiano, com a respectiva cogitação de Maria, alheia aos outros, e um estado mental que mostra a imaginação como espaço possível de liberdade e de vingança.

Com uma estrutura fragmentária, e a novidade dos capítulos antecipados, previamente resumidos, assim como as digressões metalinguísticas, Afonso Cruz cria uma romance que, incidindo sobre uma acção linear, rompe com qualquer linearidade. Ou seja, ainda que o enredo o seja, a própria estrutura vai noutro sentido e, em vez de uma história fechada, o leitor parece ter acesso a mosaicos em expansão, mesmo que cada fragmento – cada capítulo ou semi-capítulo – seja curto. Neste cenário, a própria cozinha deixa de ser espaço de confinamento – em vez disso, é um lugar onde se potencia a distorção do horror. Cada faca é uma potencial arma de vingança, de fim; cada cozinhado pode ter um ditador lá dentro; cada panela tem aspecto de caixão.

Enquanto cozinha a sua vingança, Maria dá ao leitor laivos permanentes de humor, rompendo com qualquer clichê que pudesse haver numa história destas. Assim, o que poderia ser tensão pura para quem lê vai tendo catarses permanentes, estando a ironia ou o desejo de violência e de vingança a funcionar como uma espécie de reorganização da linguagem. A prosa de Afonso Cruz é sempre escorreita, e a estrutura fragmentária não corta esse efeito, antes permitindo uma leitura rápida e dinâmica.

A autora escreve de acordo com o antigo acordo ortográfico.