Há frases que incomodam porque têm um fundo de verdade. Li há dias: “Estranha geração que coloca os filhos na creche, os pais no lar de idosos e vai todos os dias passear o cão para o parque.” Não é uma condenação simplista porque seria injusto, mas é um espelho. E o espelho, quando está bem colocado, revela prioridades.
A tradição cristã sempre colocou a família no centro da vida moral. Não como ideia abstrata, mas como realidade concreta de cuidado, presença e responsabilidade. O quarto mandamento: “Honra teu pai e tua mãe” (cf. Bíblia, Ex 20,12), não é uma sugestão cultural, mas uma exigência espiritual. Honrar não é apenas respeitar: é cuidar, acompanhar, não abandonar. Do mesmo modo, o cuidado com os filhos não se esgota em garantir sustento ou dar educação formal; pede tempo, presença e amor vivido.
É verdade que existem circunstâncias complexas. Famílias em que ambos os pais trabalham, realidades económicas exigentes, situações de saúde que obrigam a recorrer a creches ou lares. A Igreja não ignora estas realidades. Pelo contrário, reconhece que muitas decisões são tomadas por necessidade, não por egoísmo. Mas o problema não está no recurso a essas soluções; está na inversão de prioridades quando o conforto pessoal passa à frente da responsabilidade relacional.
A Escritura é clara ao falar do cuidado intergeracional. São Paulo escreve: “Se alguém não cuida dos seus, sobretudo dos de sua casa, negou a fé” (1 Tm 5,8). Não é uma frase leve. É uma afirmação radical: a fé mede-se na forma como tratamos os nossos. A modernidade trouxe-nos mais liberdade, mas também o risco de transformar tudo — até as relações — em algo funcional, descartável ou em terceiro plano.
O Catecismo da Igreja Católica reforça esta visão com clareza. Nos números 2214 a 2220, ensina que os filhos têm o dever de honrar os pais, assisti-los na velhice e nas necessidades, enquanto os pais têm a missão insubstituível de educar os filhos na fé e na vida. Mais ainda, no número 2208, recorda que a família é “a célula originária da vida social”, lugar onde se aprende o amor, o sacrifício e a solidariedade. Quando esta célula se fragiliza, toda a sociedade adoece.
Também o magistério recente da Igreja tem sido particularmente incisivo. Na exortação apostólica Amoris Laetitia, o Papa Francisco escreveu: “Uma sociedade que não valoriza os idosos e não cuida deles não tem futuro” (AL, 193). E acrescentou que os filhos não são um problema a gerir, mas um dom a acolher, insistindo na importância da presença real dos pais na vida das crianças.
Na encíclica Fratelli Tutti, o mesmo Papa denunciou a “cultura do descarte”, onde os mais frágeis (idosos, doentes, crianças) são marginalizados em nome da eficiência e do conforto. Esta crítica ecoa também em documentos da Santa Sé, como a Carta aos Idosos de São João Paulo II, onde se afirma que os idosos são “tesouro da memória e testemunhas da fé”, não um peso a afastar.
E, depois, há o detalhe simbólico: o cão. Não se trata de desvalorizar os animais pois a própria Igreja reconhece o valor da criação e o dever de cuidar dela (cf. Catecismo, 2416-2418). Mas torna-se revelador o paradoxo daqueles que investem mais tempo, afeto e presença num animal do que nas pessoas que lhes foram confiadas. Não é o amor ao cão que está errado; é o esquecimento do humano que está ferido.
O Evangelho aponta sempre para o essencial. Em Jesus Cristo, ninguém é descartável. Os pequenos, os frágeis, os idosos são, na lógica de Deus, os primeiros. Como lembrou ainda o Papa Francisco, “o grau de civilização de uma sociedade mede-se pela forma como trata os mais frágeis”.
Talvez a questão não seja condenar uma geração, mas provocar uma conversão. Recentrar a vida naquilo que é essencial. Recuperar o valor da presença. Reaprender que amar não é apenas sentir, é estar.
Porque no fim, não seremos julgados pelo número de passeios no parque, mas pela capacidade de amar aqueles que Deus colocou no nosso caminho.