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(A) :: Governo tem pressa em fechar venda da TAP porque pode vir aí uma crise. Propostas muito próximas dão mais relevância ao preço

Governo tem pressa em fechar venda da TAP porque pode vir aí uma crise. Propostas muito próximas dão mais relevância ao preço

O Governo acredita que o "valor estratégico" da TAP não foi afetado pela guerra ou pela subida do preço do jet. Mas se houver uma crise na aviação, isso pode mudar e há pressa em fechar a operação.

Ana Suspiro
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O Governo não esconde que o cenário de uma futura crise no setor da aviação pode vir a ter impacto na privatização da TAP, embora manifeste que nesta fase ainda é o valor estratégico da companhia portuguesa que prevalece. E tem pressa em concluir o processo dentro do calendário para tomar uma decisão sobre o futuro acionista privado até setembro.

Tendo recebido o relatório da Parpública sobre as propostas não vinculativas entregues no início do mês pela Air France-KLM e pela Lufthansa no dia 22 de abril, antes do fim do prazo, o Governo não perdeu tempo em aprovar a recomendação de passar os dois grupos para a próxima e definitiva fase da operação. Com o envio dos convites para a entrega de ofertas vinculativas, o relógio recomeça a contar. Os concorrentes têm 90 dias para formularem a oferta vinculativa que terá de cumprir várias condições, o que atira a data de entrega para julho.

A empresa do Estado que está a liderar o processo, a Parpública, terá 30 dias para analisar as propostas — terá de trabalhar em Agosto, comentou o ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz — e entregar o relatório no final desse mês para que o Governo possa escolher a proposta vencedora até ao início de setembro. Isto se abdicar da opção prevista no caderno de encargos de iniciar uma etapa de negociações com um ou mais proponentes, com vista à apresentação de propostas vinculativas melhoradas e finais.

Até lá, a expectativa é que a guerra no Irão e a crise energética com epicentro nos combustíveis e, em particular, no jet fuel da aviação não estrague mais esta tentativa de venda da TAP. Em 2020, havia negociações para a venda da participação de David Neeleman na TAP à Lufthansa que caíram por terra por causa da pandemia. Agora o processo conseguiu atrair dois dos três principais grupos europeus, como destacou o ministro das Finanças na conferência de imprensa após o Conselho de Ministros que aprovou a passagem da Air France-KLM e Lufthansa para a fase final.

Referindo a importância estratégica para o país da TAP fazer parte de um grande grupo europeu, Miranda Sarmento frisa que “neste processo, e ao contrário de anteriores, estão na corrida duas das três maiores empresas de aviação e grandes players mundiais”. A terceira, a IAG, dona da British Airways e da Iberia, desistiu do processo. Para o ministro, é revelador da capacidade atrativa da empresa e também do país que “está a atrair grandes investimentos estrangeiros”, dando como outro exemplo a venda do Novo Banco ao grupo francês BPCE.

Miguel Pinto Luz destacou o cumprimento dos prazos, assinalando a “celeridade processual que o mercado nos obriga a fazer e a necessidade de dar mais fôlego à TAP.

O ministro das Infraestruturas reconhece que a guerra “é algo que nos preocupa sempre” e que esta guerra em particular impacta os preços dos combustíveis numa indústria onde este custo tem uma percentagem muito relevante, o que “poderá naturalmente ter impacto. Não seria transparente se não o sinalizássemos”. E até sinalizou o cancelamento de 20.000 voos anunciado por um dos candidatos — a Lufthansa — devido ao custo do jet fuel, o que equivale a 1% da oferta. O jet já mais do que duplicou de preço e há o risco de escassez na Europa, um cenário que Portugal para já afasta.

"Creio que ambos os concorrentes olham para a TAP como uma activo de médio e longo prazo na sua estratégia de crescimento em novos mercados . Não sabemos o que vai acontecer nos próximos meses, ma creio que até ao momento, o valor estratégico e de médio e longo prazo da TAP não é afetado por esta situação"(guerra)
Miranda Sarmento, ministro das Finanças

O Governo quer acreditar que “o problema será solucionado e que a indústria se irá adaptar”, afirmou Pinto Luz. Miranda Sarmento admitiu, por seu turno, que existe um “nível de incerteza muito grande neste setor e na economia em geral”. Mas crê que ambos os concorrentes “olham para a TAP como um ativo de médio e longo prazo na sua estratégia de crescimento em novos mercados”. Apesar de não saber o que vai acontecer nos próximos meses, o ministro confia que “até ao momento o valor estratégico de médio e longo prazo não é afetado”.

Os dois ministros sinalizaram estar atentos e Pinto Luz não quis pronunciar-se sobre um eventual cancelamento de voos pela própria TAP indicando essa é uma competência da empresa, que tem uma “gestão independente e profissional”.

Propostas equivalentes, podem dar mais peso ao preço oferecido pela TAP

Para já, Air France-KLM e Lufthansa partem do mesmo patamar. As duas propostas estão alinhadas com os objetivos fixados pelo Governo para esta operação, ao nível industrial e estratégico. A avaliação da Parpública não estabeleceu qualquer hierarquia, apenas validou o cumprimento do caderno de encargos. E até na dimensão financeira os dois grupos estão próximos, o que deixa o Governo “confortável” com a avaliação que é feita da companhia.

"Tendo pela frente duas propostas muito próximas que cumprem todas as dimensões, a avaliação financeira do valor das ofertas finais poderá vir a ter um papel preponderante” na escolha do futuro acionista da TAP.
Miguel Pinto Luz, ministro das Infraestruturas

Não há qualquer divulgação de números, por causa das cláusulas de confidencialidade, mas o ministro das Infraestruturas sublinhou que, com propostas estratégicas e industriais muito próximas e a cumprir todos os critérios do caderno de encargos, a avaliação financeira poderá ter “um papel preponderante” na escolha do vencedor. Também Miranda Sarmento assinalou que, na próxima etapa, os concorrentes têm “margem para alterar as propostas e melhorá-las. O processo competitivo reabre-se neste prazo.”

Que compromissos assumiram os candidatos

De acordo com a informação veiculada, as propostas não vinculativas entregues pela Air France-KLM e Lufthansa cumpriram todos os critérios do caderno de encargos para esta fase:

Na oferta de transporte aéreo asseguram a conetividade às regiões autónomas, países de língua portuguesa e da diáspora. Conferem um papel de relevo ao hub de Lisboa no contexto europeu e querem expandir a operação no Porto. Apostam no crescimento da rede longo curso e admitem integração em consórcios do Atlântico Norte, o que permitiria à TAP ter condições mais vantajosas nos voos para os Estados Unidos e Canadá.

No plano de frota, os planos preveem investimentos para suportar a expansão da TAP, o acesso a opções de frota no âmbito do grupo que beneficiem de sinergias de aquisição e o aumento da dimensão média da frota em Lisboa.

Na manutenção e engenharia, deram foco ao crescimento dos serviços localizados em Portugal para clientes internos e terceiros e ao crescimento do emprego nesta área.

Na produção de combustíveis sustentáveis, é prometido o acesso a parcerias globais e o apoio à produção nacional de SAF (combustível sustentável para a aviação). Os candidatos mostraram alinhamento com a estratégia de descarbonização da aviação associada à construção do novo aeroporto de Lisboa.

O que têm de incluir as ofertas vinculativas

As propostas financeiras devem associar um preço em euros pelas ações da companhia. À venda estão 44,9% da TAP, percentagem que pode subir até aos 49,9% em função da adesão dos trabalhadores à tranche que lhes está destinada. E envolver propostas de valorização financeira para a TAP, mas também para o encaixe imediato e futuro do Estado (podem neste ponto aparecer propostas de devolução da ajuda público, a prazo). Os candidatos terão de explicar como vão financiar estas propostas, podendo o recurso a dívida ou a capitais próprios ser um elemento importante na avaliação das propostas.

As propostas técnicas têm de incluir o plano industrial e estratégico para a TAP e os benefícios esperados destes planos. Devem dar uma visão quantificada sobre as sinergias esperadas da integração da TAP, e que serão distintas para os dois grupos, e ganhos para a companhia. A proposta deve respeitar a legislação nacional e o direito da concorrência e reportar as condicionantes à operação — por exemplo autorização de reguladores da aviação e da concorrência.

Nesta fase, os concorrentes vão ter acesso a toda a informação sobre a TAP, podendo iniciar processos de due dilligence relativos aos dados. Um dos temas que poderá ser aprofundado nesta fase são os processos judiciais contra a TAP e as suas implicações financeiras, como a ação da companhia brasileira Azul e o contencioso laboral com tripulantes.

Quais são os critérios de seleção

Tal como já foi sinalizado, a valorização financeira dada à TAP aparece à cabeça da lista de critérios onde constam também a experiência técnica, as garantias de sustentabilidade financeira, o plano industrial com o desenvolvimento de setores estratégicos com a manutenção da marca e da sede, salvaguarda das ligações, assunção de riscos regulatórios, respeito pelo direito e valorização dos trabalhadores e a visão para a segunda fase de venda da TAP. Ainda sem data, e sem apoio político à sua realização, a segunda fase da privatização envolve a cedência da maioria do capital da companhia aérea.

Air France-KLM acena com hub único no sul da Europa. Lufthansa destaca elevado valor estratégico da TAP e promete oferta sólida

Os dois selecionados foram rápidos a reagir. Fonte oficial da Air France-KLM realça que a “TAP encaixa totalmente na estratégia multi-hub da Air France-KLM, e o nosso objetivo é reforçar as operações em Lisboa, ao mesmo tempo que desenvolvemos a conectividade noutras cidades do país, incluindo o Porto”.

Acreditando “firmemente” que “o próximo capítulo da história desta companhia aérea deve ser escrito enquanto parte do Grupo Air France-KLM”, a empresa destaca o compromisso de “fazer de Lisboa o seu hub único no Sul da Europa e integrar a TAP seguindo a abordagem única do Grupo face à consolidação, que privilegia a cooperação dentro de um enquadramento claro”.

Logo a seguir, a Lufthansa reiterou “o forte interesse na TAP Air Portugal, que considera uma companhia com elevado valor estratégico no panorama da aviação europeia.” E manifestou confiança “na nossa capacidade de apresentar uma oferta sólida, atrativa e competitiva para Portugal”.

A empresa alemã assinala ainda como pontos fortes da TAP, a posição geográfica, a força da sua marca e a sua presença em mercados-chave de crescimento que conferem a Lisboa um papel relevante nas considerações estratégicas do Grupo”. E diz que identifica oportunidades “para reforçar a conectividade, expandir rotas estratégicas e apoiar o crescimento sustentável de longo prazo da TAP, criando valor para a empresa, para Portugal e para todos os stakeholders”.

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