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(A) :: A Degenerescência Macular

A Degenerescência Macular

O doente com degenerescência macular vê, mas não vê o que importa. Dois impérios apontam para as estrelas e um deles chegará primeiro. A humanidade escolheu, por ora, não notar.

João Antas de Barros
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Diagnóstico. A degenerescência macular é uma patologia oftalmológica progressiva que compromete a mácula, a região central da retina, responsável pela visão nítida, pelo detalhe, pela cor, pela capacidade de reconhecer rostos e ler palavras. O doente não fica completamente cego mas conserva uma visão periférica turva, suficiente para tropeçar no mundo, insuficiente para o compreender. Vê vultos, vê sombras, julga que vê. O drama não é a cegueira, é a ilusão de que ainda se enxerga com clareza. Guardemos esta definição porque voltaremos a ela.

Que admirável sociedade a nossa. Setenta e tal anos após Auschwitz, após os fornos, após as pilhas de sapatos e as fotografias de crianças de olhos encaveirados como abismos, descobrimos, com a naturalidade de quem comenta o tempo, que o antissemitismo está de volta. Não morreu, adormeceu. Descansou, recuperou energias. Aguardou, com a paciência dos rancores profundos, que a vergonha histórica fosse suficientemente desbotada para que se pudesse voltar a exercê-lo, desta vez, evidentemente, com melhor maquilhagem ideológica. Porque o antissemitismo contemporâneo não se apresenta com braçadeiras e coturnos. Apresenta-se com keffiyehs académicos, com comunicados universitários, com hashtags e com aquela extraordinária fórmula que é “não sou antissemita, sou antissionista”, enunciada, regra geral, por quem seria incapaz de localizar o rio Jordão num mapa e que descobriu o Médio Oriente em outubro de 2023 com a urgência de quem descobre uma causa.

Há algo de genuinamente patológico, no sentido mais clínico do termo, no ódio ao judeu. Sobreviveu a impérios, a religiões, a ideologias, a geografias. É o ódio mais antigo que existe, o mais resiliente, o mais versátil. Muda de roupa conforme a estação, ora é religioso, ora é racial, ora é económico, ora é “apenas político”. A essência mantém-se. O judeu, de uma forma ou de outra, é sempre o problema. É simultaneamente demasiado poderoso e demasiado fraco, demasiado cosmopolita e demasiado particularista, demasiado capitalista e demasiado comunista. Esta capacidade de acumular acusações contraditórias sem aparente desconforto lógico é, ao mesmo tempo, a prova mais eloquente da sua irracionalidade e o seu traço mais perturbadoramente humano.

Mas o espetáculo verdadeiramente sublime, no sentido burkeano do termo, isto é, aquilo que simultaneamente fascina e aterra, é a santa aliança entre o islamismo radical e a esquerda ocidental. Estamos perante uma das mais deliciosas ironias da história intelectual contemporânea, duas cosmovisões que se odiariam mutuamente se alguma vez se encontrassem a sós num quarto fechado, unidas pelo único elo que as consegue aproximar, o ódio ao Ocidente e, subsidiariamente, ao Estado de Israel enquanto sua emanação mais condensada.

Que a esquerda radical abrace esta aliança é, digamos, coerente com a sua lógica interna. O paleocomunismo sempre teve uma relação difícil com a realidade empírica, e a ideia de que o Hamas ou Hezbollah representa um movimento de “libertação nacional” é apenas mais uma entrada num longo catálogo de miragens ideológicas que inclui a Revolução Cultural, o camarada Pol Pot e os kolkhozes soviéticos. O radicalismo atrai radicalismo mesmo quando são ontologicamente antagónicos, porque o que os une não é o que defendem, mas sim o que destroem.

O que é verdadeiramente escandaloso, e merece ser dito com toda a clareza que o decoro permite, é a esquerda moderada. A social-democracia europeia. O progressismo ilustrado que se reclama dos valores do Iluminismo, dos direitos humanos, da igualdade de género, dos direitos LGBTQ+. Esses mesmos que, perante um movimento que lança gays dos telhados, que escraviza mulheres, que decapita jornalistas e queima aldeias, encontram sempre um “contexto” mitigante, uma “narrativa colonial” que explica tudo, uma “resistência” que justifica o injustificável. A hipocrisia não é apenas política, é uma forma de cobardia intelectual elevada à categoria de princípio.

Mas detenhamo-nos aqui para um esclarecimento que me parece indispensável, não por deferência retórica, mas por rigor intelectual. Ser pró-Israel ou pró-Ocidente não é, não pode ser, e não deve ser confundido com ser pró-Trump ou pró-Netanyahu. Nenhum deles é Israel ou os Estados Unidos. São personagens, figuras que passam, que envelhecem, que perdem eleições. E aqui reside, precisamente, a diferença abissal entre o que defendemos e aquilo que nos opõe nas democracias imperfeitas do Ocidente. São gloriosamente imperfeitas, onde existe um instrumento tão banal quanto extraordinário a que chamamos sufrágio.

Uma caricatura narcisista pode ser “deposta” sem haver necessidade de a fuzilar ou de a pendurar num guindaste, basta um simples cartão de papel numa cabine eleitoral. Esta é uma ideia de uma banalidade aparente e de uma profundidade filosófica que não podemos permitir-nos esquecer, o importante não é tanto quem queremos que nos governe, mas a certeza de que podemos mudar de ideias e de governantes sem que nos custe a vida. O âmago da questão é, portanto, tão simples quanto isto, a pergunta relevante não é “onde queremos estar?”, mas “onde não queremos pertencer?”.

E chegamos, finalmente, ao título. À razão verdadeira desta crónica. O diagnóstico que tarda. Enquanto o mundo se entretém com as suas cruzadas, com os seus xerifes e os seus ayatollahs, com Balduíno contra Saladino em versão digitalizada e transmitida em direto, algo aconteceu. Algo silencioso e colossal. A NASA lançou o Artemis II. Uma missão tripulada à órbita lunar. O regresso da humanidade à Lua, desta feita não como gesto simbólico de Guerra Fria, mas como prólogo de uma corrida de recursos que fará as guerras por petróleo do século XX parecerem disputas de vizinhança por uma cerca de jardim. A Lua não é apenas um satélite, é um cofre!!! Hélio-3 para fusão nuclear, terras raras em concentrações que a crosta terrestre já não pode oferecer. Minerais críticos para baterias, semicondutores, tecnologias de próxima geração. E, acima de tudo, uma plataforma de lançamento para o que vem a seguir, Marte, a cintura de asteroides, os recursos que alimentarão civilizações durante milénios.

A China compreendeu isto com clareza meridiana. A CNSA tem o seu próprio programa lunar, os seus próprios prazos, a sua própria determinação. A verdadeira guerra do século XXI não se joga em Gaza, no Líbano, no Irão ou na Ucrânia. Não se joga nos canais de redes sociais onde adolescentes de países seguros interpretam indignação geopolítica. Joga-se para lá da estratosfera, entre a NASA e a CNSA, entre Washington e Pequim, na silenciosa e extraordinária corrida ao domínio do espaço e, com ele, ao controlo dos recursos que definirão quem escreve as regras do próximo século.

Para isto é preciso combustível, literal e metafórico. Dinheiro, alianças, tecnologia, estabilidade. E eis o paradoxo cruel, as guerras que nos distraem consomem os recursos que precisaríamos para vencer a única guerra que verdadeiramente importa. Cada míssil lançado em latitudes que o século passado tornaria irrelevantes é dinheiro que não vai para um foguetão. Cada geração de jovens inteligentes recrutados para trincheiras ideológicas medievais é uma geração que não está a desenvolver propulsão iónica.

Regressemos, então, à mácula. O doente com degenerescência macular vê, mas não vê o que importa. Conserva a visão periférica, suficiente para se perder nos detalhes, para se emocionar com as sombras, para lutar furiosamente por territórios que a história tornará em breve irrelevantes. O que não vê é o centro. O detalhe nítido. O essencial. Enquanto Balduíno e Saladino disputam “Jerusalém” em versão HD e em tempo real, dois impérios apontam para as estrelas e um deles chegará primeiro. A humanidade escolheu, por ora, não notar. A mácula está instalada. O campo visual central vai estreitando. E lá no fundo, muito acima das nossas cruzadas e dos nossos ayatollahs, a Lua aguarda, indiferente, fria e imensamente rica, que alguém finalmente decida que vale a pena ver com clareza. As guerras púnicas do nosso tempo são o espetáculo. A corrida espacial é o jogo. E enquanto olhamos para o espetáculo, o jogo já começou.