Nenhum dos processos criminais do universo do predador sexual condenado Jeffrey Epstein resolveu um mistério persistente: se mais figuras da vasta rede de amigos ricos e influentes de Epstein perpetuaram os mesmos abusos sob a proteção do financeiro. Em mais de uma dezena de depoimentos do FBI, analisados pela CNN a partir de arquivos divulgados pelo Departamento de Justiça dos EUA, várias mulheres relatam que o casal Epstein-Maxwell facilitava encontros sexuais com o seu círculo de conhecimentos. Foram nomeados mais de seis homens, entre executivos de Wall Street, um antigo senador, um psiquiatra de renome e um produtor de cinema. E permanecem sem qualquer investigação a correr contra si — o que levanta dúvidas sobre a diligência das autoridades na hora de apurar responsabilidades.
Testemunhos de antigos funcionários e vítimas descrevem um cenário de impunidade nas propriedades do financeiro, onde jovens mulheres eram vistas na companhia de homens cuja identidade nunca foi formalmente perseguida. Entre os relatos mais gráficos, surge a figura de Jean Luc Brunel — o agente de modelos francês que foi detido anos mais tarde e acabou por ser encontrado morto na cela — a levar “uma menina muito jovem”, segundo um ex-funcionário, para a ilha privada de Epstein, adensando a tese de que o esquema de tráfico servia uma clientela vasta.
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Mulher não fez queixa à polícia “porque estava com medo”
Os depoimentos das vítimas apontam o dedo a outras figuras proeminentes de diversos setores. Jes Staley, antigo homem forte do JPMorgan e do Barclays, é acusado de um episódio de “sexo violento” e não consentido na residência de Epstein em Nova Iorque. No campo político, o ex-senador George Mitchell é visado por uma alegada sobrevivente que descreve ter sido enviada para hotéis sob as ordens de Epstein para satisfazer as exigências sexuais do político — às quais “obedeceu”. Num novo encontro em Washington, a mulher voltou a ter relações sexuais com Mitchell, mas não fez queixa na altura porque “estava com medo”. O padrão repetia-se: Epstein “oferecia” raparigas a quem chamava de “bons amigos”, comprando silêncios.
A lista de visados pelos testemunhos das vítimas estende-se ao prestigiado psiquiatra Henry Jarecki, que terá usado a promessa de ajuda académica para traficar uma jovem de 20 anos que dependia financeiramente de Epstein. No mundo do cinema, o nome de Harvey Weinstein volta a surgir; uma vítima identificou-o através de registos fotográficos como o homem que a terá abusado quando tinha apenas 15 anos. Weinstein já negou qualquer memória destes eventos e os seus porta-vozes sublinham a falta de provas corroborativas.
Há “homens poderosos, muitos multimilionários” envolvidos “em abusos de jovens e mulheres”, mas “pouca ou nenhuma responsabilização”
A aparente paralisia das autoridades tem-se revelado o maior ponto de tensão. O diretor do FBI, Kash Patel, mantém a versão oficial de que não existem “informações fiáveis” sobre o tráfico para terceiros. Também o Departamento de Justiça norte-americano, embora assegure que todas as pistas foram seguidas, recusa-se a detalhar que passos foram efetivamente dados para confirmar os testemunhos.
Mas especialistas como Moses Castillo, ex-detetive da polícia de Los Angeles, denunciam uma negligência documental. “Não vejo que isso tenha levado à elaboração de mandados de busca para obter o computador de alguém, o arquivo pessoal de alguém, ou a ir a diferentes lugares para obter registos de voos e de hotéis”, afirmou Castillo à CNN. “Não vejo que nada disso tenha sido feito.”
O clima de indignação chegou ao Capitólio, com o congressista Robert Garcia a classificar como revoltante a falta de consequências para bilionários e figuras de elite perante crimes de violação de menores. “O facto de existirem todos esses homens poderosos, muitos multimilionários, alguns de outras partes do mundo, envolvidos em violações e abusos de jovens e mulheres, e de ter havido pouca ou nenhuma responsabilização, especialmente no nosso país — todos os americanos deveriam estar indignados com isso”, disse o deputado Robert Garcia, o principal democrata na Comissão de Supervisão da Câmara dos Deputados dos EUA, citado pela cadeia internacional.
A confusão em torno de uma possível “lista de clientes” foi alimentada por Pam Bondi, ex-procuradora-geral, cujas declarações foram posteriormente desmentidas pelo próprio Departamento de Justiça, que negou a existência de provas incriminatórias adicionais que pudessem fundamentar uma investigação. Na entrevista à Fox News, Bondi afirmou ter uma lista de clientes de Epstein na sua mesa.
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O desfecho desta história poderá agora passar pelo Congresso, onde se planeiam audiências públicas para dar voz às vítimas. Até Melania Trump quebrou o silêncio para exigir transparência, defendendo que as vítimas deponham sob juramento — gesto que foi recebido com hostilidade por quem vê na iniciativa uma tentativa de “transferir o fardo” da prova para quem já sofreu os abusos. Apesar da polémica, é a conclusão da primeira-dama que mais ecoa no vazio das investigações: “Epstein não estava sozinho”.
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[Um beijo no primeiro encontro e três viagens em menos de três meses. Ao 85.º dia de relação, o aspirante a modelo matou o cronista social. “Os ficheiros do caso Carlos Castro”, o novo Podcast Plus do Observador, conta os bastidores nunca revelados da investigação a um crime brutal. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. Pode ouvir aqui, no site do Observador, o terceiro episódio e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir também aqui o primeiro episódio e aqui o segundo]
