Fina ironia. Que seria dos combates a punhos nus, dignos das ruas, sem o sacramento dos lordes? No final do século XIX, nos jardins das suas propriedades privadas, aristocratas acolhiam os aspirantes a pugilistas, à margem das investidas da polícia, atenta à perturbação da ordem pública que os ajuntamentos e apostas geravam. As regras definitivas do boxe inglês — e dessa lealdade agora selada entre luvas — foram adotadas em 1891, apadrinhadas pelo marquês de Queensbury, herdadas da antiguidade, atualizadas mundo fora e, reza o Diário Ilustrado, com uma estreia oficial em Lisboa em julho de 1909, num duelo no Campo Pequeno.
Mas as lendas daquela a que chamam Nobre Arte forjam-se quase sempre a léguas de duques e marqueses, meninos do papá e copos de leite. “Não me parta as mãos!”, brinca na sessão de fotos o homem que sobreviveu a cinco balas. E a mais três. E ainda à mais perigosa de todas, à queima roupa, na cabeça, que o desfigurou para lá do que um punhado de golpes alguma vez conseguiram em 72 anos de vida. As paredes forradas do ginásio ACM, em Lisboa, onde dá aulas há uma década, contam a história dos “Punhos de Ferro” de Orlando Jesus Madaleno, o miúdo que da Ajuda à Musgueira, das barracas ao Parque Mayer, se fez “boxeiro”, nesse bas fond dos anos 70 embalado por boémios e malditos, figuras e redutos castiços. É ele a estrela de Soco a Soco, dirigido por Diogo Varela Silva e ilustrado por Nuno Saraiva, filme que se estreia nas salas nacionais a 14 de maio.
Uma das coisas que talvez o espectador sinta falta em Soco a Soco são imagens de época. Não há vídeos do Orlando a combater?
Eu tinha uma bobine. Isso foi tudo filmado em Espanha e alguma coisa cá, dos meus anos de 75 para cá, como profissional. Tinha muitos filmes a jogar no Coliseu, no Parque Mayer, no Pavilhão dos Desportos, que transmiti para a parede, porque a miudagem do meu tempo ia tudo ver.
Iam ver onde?
Projetava nas sedes dos clubes. Essa bobine enorme era para ser passada para aqueles cartuchos, e eu dei-a ao Reinaldo Teles para ele me tratar disso. Até comprei uma máquina que só havia em Espanha para conseguir passar as imagens.
Como se conheceram?
Ele era o vice-presidente do Porto e jogou boxe também, eu estive lá a treinar mas nunca cheguei a jogar no clube. Depois o que o Reinaldo me disse é que mudou de casa, fez obras, e nunca mais soube daquilo. Fiquei muito triste, não é?
Não sobrou mais nada?
Eu também tinha uma cassete feita nos EUA. Gravei umas mensagens e entrevistas em New Jersey, e trouxe essa cassete, em inglês. Aí em oitentas e picos dei ao Ruy Castelar para me passar para português.
Não me diga que também lhe perdeu a cassete.
Também. Disse que o carro dele tinha sido assaltado e não sei quê e que levaram tudo.

Portanto, só temos este memorial nas paredes do ginásio?
Muita coisa que vê aqui foi a minha santa mãe que guardou. A minha mãezinha é que guardava os recortes e este jornais e fotografias. E lá fui buscar isto à gaveta que tinha no quarto dela, com as medalhas e tal.
Sabia que lhe guardava isto tudo?
Algumas coisas ela disse que tinha, mas eu nunca me interessei. Nunca me deu curiosidade de ir abrir a gaveta, mas a velhota lá guardava aquilo, e depois quando me deu na cabeça fazer um livro, há uns 10 ou 12 anos, fui buscar esses recortes.
Mas que livro é esse?
É isto aqui [segura um caderno de argolas onde reuniu e colou os recortes antigos]. Comecei a plastificar estas coisas todas, os panfletos, tudo o que tenho espalhado para aí no ginásio. Há muitas fotos que tenho ainda para pôr, mas não me tenho dado ao trabalho.
Como é que se dá a ideia de o Diogo Varela Silva fazer este documentário?
Conheço o Diogo por intermédio do Jorge Fernando, que me disse “tenho um rapaz que gosta muito de boxe”. Perguntou-me se ele podia vir treinar. E eu disse-lhe: “traz o rapaz, está comigo, está com Deus”. É quando começo a lidar com o Diogo. Ele começa a ver a minha história e a treinar e a analisar o meu comportamento, porque a gente analisa as pessoas. Lá pensou que isto dava uma situação bacana para fazer uma filmagem. Falou comigo uns dois ou três anos depois. Como confio muito nele, meti algumas coisas da minha vida na mão do Diogo e ele lá me transportou para as andanças do cinema.
Foi mais difícil fazer de Orlando entre câmaras ou de Orlando no meio do ringue?
O documentário é uma situação de conversa, o ringue é uma situação de jogo. Para estarmos no ringue temos que estar muito bem preparados.
Também é um diálogo à sua maneira.
Também é, o ringue é uma esgrima, uma condição física e mental onde temos que ter inteligência para não sermos agredidos e debitarmos golpes ao nosso oponente. Se não estivermos bem preparados, não vamos a lado nenhum. No filme, tive que rebobinar as minhas ideias e memórias e levar o Diogo às minhas bases para que ele pudesse mandar isto para a frente.
O Diogo contava que o conheceu antes das aulas de boxe, no começo dos anos 90, dos tempos do Johnny Guitar, onde ele estava na altura, e que o Orlando já punha a malta em sentido.
Oh, sim. Eu tinha um bar mais abaixo, O Truque, e como tinha uma arca de gelo muito grande, fazia 25 quilos de hora a hora, eles iam-me lá buscar gelo. E também iam lá cear porque aquilo fechava às sete, oito, da manhã. Já nos conhecíamos, mas não tínhamos confiança. Ele ainda era um miúdo.
Mas metia medo aos putos?
Não, o boxe não mete medo a ninguém. Sempre fui um rapaz humilde, tranquilo, nunca fui assim de agressividade. [“Não precisavas de fazer nada, a gente olhava para a tua cara e ficava logo assustado!”, corta Diogo]. Os problemas que eu tive toda a minha vida nunca foram causados por mim, foi sempre para defender terceiros, mais nada.
Mas em miúdo andava muito à pêra, como aliás conta no filme.
Andava, andava todos os dias. Se não andasse dez vezes à porrada por dia, não era dia para mim. Todos os dias havia batatada, isso era normal, mas os tempos eram outros. Estou a falar de há 50 e tal anos.
Ainda vivia na Ajuda?
Estava na Ajuda, nasci na Ajuda, sim. O tempo de antigamente era mais saudável, mas vivia-se menos do que hoje. Era mais carregado, era mais difícil viver naquele tempo, mas a gente ia para a cama com a porta aberta, os vizinhos entravam em casa uns dos outros. Era um tempo mais sério.
E de maior pobreza também?
Muita pobreza, muito analfabetismo, a medicina estava muito mal. Era a nossa vivência. Bem haja quando veio o 25 de Abril. Claro que há coisas como as redes sociais que vieram por bem, mas também vieram fazer mal. Há mais pessoas fora da legalidade.
Mais malandragem?
Há muito mais, e não há tanta seriedade. Antigamente cumprimentava-se uma pessoa e aquilo era uma escritura de mão fechada. Hoje não, mesmo com registos no conservatório, tentam-se enganar uns aos outros, agora veja bem.
Como era a fase do Parque Mayer após a Revolução?
O Parque Mayer fecha em 1952, ano em que joga o Rebordão, irmão da Amália, tio-avô do Diogo, e eu reabro em 1975. Nesse ano vem uma fornada de boxeiros que nascem ali, têm sete, oito anos de boxe, e fica-se no Parque Mayer graças ao senhor Carlos Santos, que era dono do Maxime, ao senhor Pepe, dono da Cova do Galo e do Gato Preto, e mais umas duas ou três pessoas que que não me recordo o nome. Havia o Francisco Brito, o “marechal do boxe”, ali está no centro desta foto [aponta para a parede].
Que lhe dizem estas imagens todas?
Estas pessoas traziam para dentro de nós todos os valores do boxe. Eu estou aqui por todos os boxeiros antigos. Agostinho Neves, Júlio Guedes, Júlio Martins, Carlos Rocha, Portugal Nunes, Belarmino Fragoso, Armando Pons, tenho vários na minha cabeça mas tem que ser com calma para me lembrar.




Muitos nomes associados também ao circuito dos ginásios e coletividades?
E havia o boxe nas verbenas. Antigamente, nos ringues de futebol de salão montava-se um ringue e todas as semanas havia boxe. No liceu Pedro Nunes, onde joguei, no Pavilhão da Ajuda; nos anos 70 havia boxe em todos os bairros.
Começou poucos anos antes.
Comecei a jogar com 13 anos, em 1967, no clube Rio de Janeiro, em 1968 entro na Sociedade Filarmónica Alunos de Apolo, e até hoje. Fiquei lá a jogar. Ia por eles à seleção e ia treinar ao Sporting.
Sporting que nessa época tem uma grande equipa, com o Ricardo Ferraz.
Sim, tinha a melhor equipa nacional. Acabou o Benfica. O Ferraz era o selecionador e ia buscar os campeões de cada categoria. Juntava-nos e nós andávamos ali uns 15, 20 dias a treinar e depois levava-nos com a seleção para fora.
E títulos?
Fui sempre campeão nacional desde que joguei ao boxe amador e entrei nos campeonatos nacionais. Fui amador uns seis, sete anos só, aos 19 subo a profissional. Era o número um na minha categoria. Posso dizer à boca cheia que ninguém me ganhava, mesmo.
Diz no documentário que o melhor era o Orlando Silva… até ao dia em que apareceu o Orlando Jesus.
O Orlando Silva era um dos grandes boxeiros, o número um no peso dele [mostra-o na foto], aqui já tinha uns 30 anos e eu tinha 16.
Quem é que ganhou?
Ganhei eu. Isto foi numa verbena ao pé do aeroporto. Depois começa a aparecer esta rapaziada dos anos dourados do boxe. Ninguém ocupava aquela minha categoria, de 72 quilos.
Porquê?
Porque levavam! [bate com as mãos]. Tive que abandonar o amador e vim para o profissional, também por intermédio dos meus treinadores.
Viram que tinha qualidade?
Sim, só traziam atletas para o profissional que tinha qualidade. Não se fazia quatro assaltos, fazia-se logo seis. Treina-se, depois é pum, pum, pum, pum, e vamos para a frente.
Que mestres recorda?
Tive bons treinadores, tenho dois que não me posso esquecer nunca, o Zé Anjos e o Armando Pons, depois tive outros que eram muito jeitosinhos. O Armando ia muitas vezes lá fora e tinha muito conhecimento do boxe internacional, tinha um leque de espanhóis campeões do mundo, da Europa.
A Espanha dava luta nessa altura.
Eles eram um monstro do boxe nessa altura. Havia o George Foreman nos EUA, mas era tudo pesos pesados, havia poucos leves. Os espanhóis tinham vários pesos, como o Alfredo Evangelista que jogou com o [Cassius] Clay para o título do mundo. Perdeu, mas não interessa.
E por cá?
Cá tínhamos o Carlos Almeida, o Fernando Tavares, o Costa Rodrigues, Carlos Anjos, o Realinho, o Vítor Pires, que jogou comigo nesse jogo de 75 no Parque Mayer.
Já percebi que a pergunta é capaz de ser escusada, mas quem venceu esse combate?
Ganhei eu. Nunca perdi. Perdi com este [aponta para um poster], o Afonso Redondo, no Coliseu dos Recreios, em profissional, em oitenta e picos.
E de onde veio o cognome de “O Punhos de Ferro”?
É porque quando eu lhes batia, eles caíam [ri-se].
Mas quem cunhou?
São os jornalistas… Ah, estava a esquecer-me do Patrício Alvarez, que escrevia para o Record, o jornal que transportava o boxe para todo o mundo. Isso dos dizeres há-de estar aqui pelos recortes. Também havia um que era “Orlando, Orlando, Orlando”. Aqui com o François Aniche, que tinha sido campeão da Europa. Tudo boxeiros de primeira linha, porque havia de linha A, que já fazia oito ou dez assaltos, e de linha B, que só fazia seis rounds. O Osvaldo Lopes depois subiu.

No parque Mayer, depois da reinauguração, ainda fez muitos combates?
Fiz, fiz uns seis ou sete até terminar o Parque Mayer [em 1982].
Conta que muitas vezes a pancadaria era maior entre as mulheres na assistência que no ringue.
Era, porque era assim: o Orlando vai jogar ao Parque Mayer e ia tudo ver o Orlando. Uns iam ver para eu perder, outros iam ver para eu ganhar. Havia um confronto. E então as namoradas cá fora…
As suas namoradas ou namoradas em geral?
Era as miúdas e tal. “Oh, Orlando…”, “Orlando o quê, ele é meu!”
Alguma vez teve as cinco das suas mulheres, mães dos seus 12 filhos, a ver um combate seu?
Tive várias mulheres a ver combates.
Ao mesmo tempo?
Ao mesmo tempo.
E também se engataram todas à tareia?
Não sei, mas eu fugia sempre! Eu abandonava [faz o efeito de quem se raspa com as mãos]. Como numa dessas vezes em que andaram todos à pêra. Havia pancada no ringue e cá fora. Este é o Zé Freitas, jornalista, aqui nesta foto no Parque. Havia um saco para 30 atletas, um saco. Agora há 30 sacos. Quando entrei em Espanha no começo dos anos 70…

Fugido da tropa.
Fugido da tropa. Quando entrei num ginásio em Madrid, xiii, era 200 vezes isto. Pensei: aqui é que estou no meu mundo, vou-me encontrar aqui. Foi por isso que estive lá quatro anos a jogar.
Voltou pelos filhos?
Para vir ver as minhas filhas. Uma já tem 55 e outra faz 52. Também joguei no norte com o Alcino Palmeiro, grande boxeiro, Valente Rocha, outro grande pugilista nortenho, Carlos Gonçalves.
O próprio Orlando vem de uma linha de lutadores de boxe e calçou as primeiras luvas ainda criança.
Sim, quando era menino, com três, quatro anos. O meu pai foi boxeiro, o meu avô também. Estamos com cinco para seis gerações de boxe. O meu pai jogou no Vendedores de Jornais [Futebol Clube (VJFC)], na Madragoa. Ele tinha aquelas luvas grandes. Eram umas para mim e outras para o meu irmão e andávamos ali à pêra. Se o meu pai não as tivesse desapertado ainda hoje lá estávamos os dois à pêra.
O seu pai que tinha mão pesada em casa.
Claro. Antigamente a educação era dada assim. Se a gente não fazia, era “toma”, e a gente fazia. Não é como hoje que fecham a porta na cara da mãe e do pai.
Fazia as suas tropelias, e foi enviado para a Casa Pia.
Ah, isso foi na escola. O professor bateu no meu irmão e eu parti os vidros da escola. Era pedrada que até estalava.
Sem luvas.
Sem luvas. Ainda nem jogava ao boxe, tinha uns 6 anos. Depois é que começo a jogar no Bairro Alto.
Como era o bairro desse final de anos 60?
Era pacífico, havia movimentação, a prostituição é dos trabalhos mais antigos do mundo, mas não havia escândalo. Lá vinha a polícia dos costumes de vez em quando e tinham que se identificar.

A polícia gostava da malta do boxe ou nem por isso?
Gostava, sabe que o boxe…Olhe, o Reagan jogou ao boxe.
O boxe mais moderno é apadrinhado pela elite, por grandes aristocratas.
Claro! O boxe é o desporto mais antigo do mundo, atenção. As pessoas jogavam até cair, sem luvas, partiam-se todos. E depois fomos evoluindo, até que chegámos aqui. Está sempre a evoluir.
No filme diz que apanha de tudo hoje nos ginásios, do miúdo do bairro ao filhinho do papá. Conseguiu-se essa diversidade?
Sabe quem é que hoje vem para o boxe? É a classe média alta. Antigamente para a média alta o boxe era um desporto de arruaceiros que andavam à porrada. Se vissem uma pessoa a correr na rua para se preparar diziam que era maluco. Hoje anda tudo aí a correr.
Como vê a modalidade enquanto formador?
O boxe é um desporto educativo, tira o stress, disciplina. Para estarem no boxe têm que ter muita força de vontade, e saem de vidas perigosas.
Sente que também o encaminhou a si?
O boxe encaminhou-me para o bem. Comecei a adquirir mais disciplina, carinho, tornei-me mais educado para as pessoas. E assim nasceu o Orlando, que está aqui hoje. Tudo se faz com humildade.
Mantém-se na Alunos de Apolo?
Ainda hoje sou vice-presidente da mesa da Assembleia Geral. É a catedral da dança. Lá joguei, havia lá pêra e tal, mas sempre houve dança.
Também dançava?
Eu dançava mas não era profissional.
Mas gosta de dançar?
Gosto, gosto. Sabe que um dos grandes boxeiros do mundo…
Foi grande dançarino.
Sugar Ray Robinson. Bailarino de primeira, em bicos e tudo. Ele dizia que o boxe tinha que ser bailado. É essa a disciplina, dançada, bailada, esquivada.
Foi pai aos 16 anos. Como é que se organizou a dança a partir daí, com uma vida entre barracas e a nova responsabilidade?
Fui morar para a Musgueira Norte com 8 anos e dá-se a separação dos meus pais, é uma coisa sempre terrível para os filhos, passou-se muita coisa.

Manteve-se sempre próximo da sua mãe?
Andei sempre atrás das saias da minha mãe. Depois ela foi viver com outro homem, casou com ele, estiveram casados uns 56 anos. E depois vou para a Musgueira Sul onde as casas eram já de tijolo. Aí conheci a mãe das minhas duas primeiras filhas, a Lena. Eu ia para ali com os meus 15 anos, lourinho e tal, e elas engraçavam comigo. Depois faleceu-me uma filha, a Cristina, com 11 meses, depois veio a Dora, e depois separei-me, depois vieram outros…
Mas vivia do quê?
Atenção que eu trabalhei na pica, nos barcos, eu bulia, ah pois! Eu tinha que arranjar sempre qualquer coisa para arranjar dinheiro. Ou comprava uma coisa e depois vendia, ou luvas, ensinava a malta na Musgueira, nascia sempre qualquer coisinha. E o meu treinador, o Armando, dava-me sempre 15 paus, eu comia e bebia. O ainda presidente dos Alunos de Apolo, o Carlos Alberto, dava-me uns dinheirinhos também. Eu comia e bebia no Val do Rio. Enchia a pança com um ganda bife. Era bom depois do treino. A vida era uma vida… pobre, mas de modéstia.
E correu um circuito que na altura ainda era muito bas fond. Colecionou muitas chatices?
Nunca fiz mal a ninguém, nunca andei a roubar, senão estava preso. Fiz muitas malandrices, fui muitas vezes à esquadra. Era apanhado na noite e levavam-me para o governo civil e depois tinham que me meter na rua porque não tinham nada contra mim. As pessoas às vezes não podiam andar na rua, a polícia fazia aquelas rusgas, metia a malta nas carrinhas e tal.
Dizia-lhes que era boxeiro?
Eles sabiam. Toda a gente sabia. Na sociedade antigamente havia um, era o Orlando e mais nenhum. Havia três pessoas, modéstia à parte: a dona Amália Rodrigues, o Eusébio e o Orlando Jesus. Era assim que se constituía…
Alguma vez o viram a combater?
Não, nunca se deu para a dona Amália me vir ver porque andava sempre lá fora, mas vinha muita gente, grandes nomes do teatro, o Raul Solnado, o Vitor Mendes, o Camilo Oliveira, a Ivone Silva, muita gente que atuava no Capitólio, ABC, Variedades. Se havia boxe, lá iam. O Parque Mayer estava à pinha, vinham oito camionetes cheias de pessoal para vir aos teatros e lá iam espreitar os combates.
Como é que foi aquela noite em que saiu do parque debaixo de tiros?
À porta? Eu entrei dentro da Cova do Galo eram cinco da manhã. Havia burburinho à porta. O que é que se passa? “Orlando, não se passa nada.” Depois vieram carrinhas da polícia, cada uma com uns três, quatro polícias, ainda com a farda cinzenta. Não olhavam para trás, era cacetete do lado do metal e pimba. Começaram a aviar aquela malta toda, gente de cabeça aberta. Quando me tocou a mim, virei-me a eles. É daí que nascem os primeiros cinco tiros.
Mas como é que sobreviveu a esses cinco tiros?
Eu não tinha que ir, não tinha que ir… Levei um aqui [aponta para o peito], tinha uma moeda no bolso em cima do coração. Ainda a tenho. Depois furou-me o pénis. “Sô doutor como é que isto vai ficar?”. “Vai ficar bem, Orlando”. E foi assim. Depois foi aqui nas pernas. Foi sempre para me mandar abaixo mas escapei dessa. Fui para o hospital militar, na Estrela, curaram-me. Passado dois meses, levei mais três!
Também no Parque?
Foi mais abaixo da Dardo [foi fundada em 1947 no número 131 da Avenida da Liberdade e ali funcionou o café Palladium], à porta da sede do Belenenses, na Avenida [a delegação ficava então no 2.º andar do 105, palco de jogos de sueca, restaurante e até uma tabacaria gerida por Matateu]
Porquê?
Tudo por andar à porrada. Os três tiros vieram do chauffeur da embaixada de Cuba.
Mas como é que se engalfinha com o chauffeur da embaixada de Cuba?
Porque ali na sede havia joguinho de carteado, poker e tal, eles estavam por cima, eram uns senhores, era tudo quero posso e mando. E comigo o quero, posso e mando, não dá. Isso levava eu do meu pai. O burburinho veio cá para fora e ele tinha uma 6.35 e mandou-me uns cinco tiros, acertou-me três.



De raspão?
Não, deu-me no dedo do pé. Levei tiros desde o dedo do pé até à cabeça. Furaram-me todo. Bem, mas com o tempo…
Espere lá que ainda falta o tiro mais grave.
Isso foi um problema que houve na Gata, que era ali na Calçada da Glória. Eu disse que certas pessoas não podiam entrar. Quando eu estivesse presente, podiam vir, comer e beber à minha conta, mas quando eu não estivesse, tinham que pagar. Foram lá um dia, eu não estava, comeram e beberam e foram-se embora. Num dia mais tarde eu estava lá e disse que não podiam entrar.
Que ligação tinha à casa?
Trabalhava na casa, funcionava lá. Eles fizeram-me uma roda e quando me apercebi que um ia pegar na arma agarrei-lhe a mão e aviei os outros.
Com socos?
Com socos. Sempre com as mãos. Ainda consegui agarrar numa arma, disparei uns tiros, mas não matei ninguém, nunca matei ninguém.
E depois?
E então fugi para o Brasil. Estive lá no sol de Copacabana. Mas tinha que vir para estar com os meus filhos e para jogar ao boxe.
Ainda passa outro tempo em Espanha.
Vim primeiro para Madrid e lá andei a ser perseguido por um inspetor que era o Vedruz. Até que um dia cercaram o meu apartamento e levaram-me preso para a “securidad”, abaixo de chão. Estive lá e passado 19 dias meteram-me num avião e trouxeram-me para a Judiciária. Dois dias depois meteram-me na rua porque tudo o que fiz foi em legítima defesa. E é assim.
É assim, não, falta a história do tiro.
Também foi à porta da Gata. Não quis fazer mal a um que estava no chão, disse-lhe que não era nada com ele, ele fugiu. Anos mais tarde eu estou na Cave Mundial e vou para o Level One, que era na Sampaio Pina.
Já não se lembrava dele?
Nada. Nunca me tinha sentado de costas em parte nenhuma mas sentei-me de costas, passado um bocado vem o tal gajo, encosta a arma à minha cabeça, e “pá”!”, dá-me um tiro a sangue frio. Se me dá de mais longe não estava aqui agora a dar esta entrevista. Agora, tudo isto por vinganças, porque os gajos eram drogados e havia muita gente que me queria mal. Ninguém fazia farinha comigo, eles tinham que andar na linha, mas viciaram esse gajo. Os que o viciaram também já cá não estão entre nós.
Mas leva um tiro na cabeça no meio de um bar e o que é acontece a seguir?
Toda a gente pensava que eu tinha morrido. “Olha, o Orlando já foi.” Só que eu levantei-me, com as mãos na cabeça, olhei para o gajo, e ele: “ai, ai, ai que o gajo levantou-se”. Fugiu porta fora. (ri-se). Estava ao lado de dois da Polícia Judiciária e nenhum deles se mexeu.
Tanto combate que fez e esse episódio quase fatal é que lhe deixa a maior mazela, visível no rosto até hoje?
É, a paralisia facial cortou o tendão, cortou-me a terceira audição. Fui para o Brasil novamente fazer as ligação à cara e cá estou. Bora, mais perguntas.

Só se arrepende de ter estourado tudo nos casinos?
Joguei muitos anos lá fora, em 1994 estive nos EUA com uma empresa a que pertencia, tinha algum dinheiro e fomos num grupo para lá vender azeite no campeonato do mundo de futebol. Ganhámos uns dinheiros largos, depois fomos para Las Vegas, Atlantic City, pronto, os casinos. O único arrependimento que tenho na vida é ter entregado no casino o que ganhei a levar umas porraditas.
Cá também jogava?
Jogava também, muito, muito no Casino do Estoril. Eu fazia festas de 200 pessoas sem pagarem. Sentava-os todos à mesa comigo.
Quanto podia render um combate?
Cheguei a ganhar um milhão e meio de pesetas, 300 mil, 500 mil, conforme os adversários. Juntei esse dinheirinho todo e comprei muitas coisas. Sempre fui um tipo orientado. Comprei casa para mim, para a minha mãe. As pessoas têm de ter um bocado de cabeça, e eu por acaso tive-a, mas depois perdi-a quando ia para o casino. Temos que ter sempre um defeitozinho.
E esse feitio para cantar o fado, que vemos no filme?
Isso vem da minha mãe, Celeste, que também cantava. Levava-me para as tabernas, para os fados, para Alcântara. Ia para todo o lado. É daí que vem a força do fado, saber ouvir, gostar.
Ainda acompanha e canta muito nas noitadas?
Às vezes, para os amigos, não sou grande fadista mas dou um toque. Antigamente havia fado em todo o lado, Algés, Ajuda, Mouraria, Alfama, Alto do Pina.
E teve casas com espectáculo.
Tive o Truque 1, Truque 2, e Truque 3. Na Possidónio da Silva, Marquês de Abrantes e Caparica. Mas antes cheguei a ter sociedade com outros rapazes só que dei sopa, não gosto muito de sociedades.
Como é que veio dar aulas para o ACM?
Isso foi há 10 anos. Estive 16 anos a dar aulas na Marques da Silva, no Clube Desportivo de Arroios. Também dava aulas na minha casa na Costa [de Caparica], aumentaram-me a renda, e tive que abandonar. O ACM precisava de um treinador e vim para aqui. Já fiz aqui grandes campeões. Quando eles estão para jogar mando para outros clubes ou para o meu filho.
O seu filho Orlando foi o único a seguir o boxe?
O Orlandinho seguiu, os meus netos foram mais para o lado do ju jitsu. A minha filha Dora também queria boxe, mas já não tinha idade. Mas é árbitra.
Como o Orlando, que também arbitra. Lembro-me de o ver em 2022, no regresso do boxe no centenário do Parque Mayer.
Sim, ainda se meteu lá umas 700 pessoas, há anos que não se metia lá tanta gente… E é isto. É uma historiazinha leve de vida, para não aleijar.