A investida de Pedro Nuno Santos esta semana caiu mal entre socialistas e até entre alguns dos que fizeram parte do seu núcleo duro. A declaração acintosa para a vida interna do PS foi criticada publicamente por Mariana Vieira da Silva e também por um antigo membro da sua direção, Pedro Vaz. No partido há um sentimento misto, entre a “injustiça” do ex-líder com Duarte Cordeiro e o timing e os modos deste seu regresso.
A entrada a pés juntos, seis meses depois de ter suspendido o mandato de deputado “por motivo ponderoso de natureza pessoal e profissional”, não deixou ninguém indiferente na bancada e no partido, que passou a desconfiar que Pedro Nuno Santos pode não ter encerrado um assunto que poucos acreditam que possa ter pernas para andar. O seu regresso ao palco parlamentar trará no bico uma ambição de voltar a ocupar um espaço destacado no PS ou até de voltar à liderança? O pensamento cruzou várias cabeças socialistas nos últimos dias, mas há uma convicção generalizada de que Pedro Nuno até pode ter “legitimidade” para reassumir o seu lugar de deputado, outra coisa diferente é lançar-se numa correria político-mediática e sonhar com uma nova era.
Em entrevista ao programa Vichyssoise, na rádio Observador, o deputado do PS Pedro Vaz disse que se o ex-líder “fez essa declaração [sobre taticistas] a pensar no Duarte, não esteve bem. Foi injusto.” “Conheço bem quer o Pedro, quer o Duarte, e o Duarte de taticismo, dessa maneira pejorativa como se quis indicar, tem muito pouco. E o Pedro Nuno sabe”, acrescenta ainda o socialista que é muito próximo dos dois.
E também corta o caminho a eventuais ambições do ex-líder ao lugar onde não foi feliz. Vaz considera que “ao dia de hoje, [Pedro Nuno] não tem condições para voltar a ser líder”. E esta é uma posição que encontra eco dentro do PS, onde o Observador ouviu diversas críticas ao regresso “sem jeito”, como classifica um alto dirigente, de Pedro Nuno Santos.
https://observador.pt/especiais/duarte-cordeiro-tem-muito-pouco-de-taticismo-pedro-nuno-foi-injusto/
Um dirigente que é próximo do ex-líder diz ao Observador que o socialista “não tem hipóteses no PS a curto e médio prazo” e acrescenta mesmo acreditar que “não há um caminho” para o ex-líder. “Não tem nenhum racional”, aponta uma socialista ouvida pelo Observador quando confrontada com a forma como Pedro Nuno Santos marcou o seu regresso parlamentar.
A frase-bomba de Pedro Nuno Santos tinha Cordeiro como principal destinatário, mas também apanhava os socialistas que estão desalinhados com a liderança mas que, até agora, nunca assumiram uma candidatura, tais como Vieira da Silva, Fernando Medina, ou Ana Catarina Mendes — todos eles, ao lado de Duarte Cordeiro, ponderaram uma alternativa a Carneiro, após a demissão de Pedro Nuno Santos em 2025, mas acabaram por não avançar.
“Se quiserem recordar, em julho [de 2023] já estávamos atrás do PSD. José Luís Carneiro avança para a liderança do Partido Socialista depois de se encontrarem 75 mil euros em São Bento, depois da notícia de que havia vários governantes a serem investigados, entre os quais o primeiro-ministro, numa altura em que uma parte do eleitorado que tradicionalmente confiava no PS, a função pública, estava zangada com o PS e José Luís Carneiro avançou na altura contra mim. E, portanto, eu tenho muito mais respeito pelo José Luís Carneiro do que pelos taticistas que estão à espera que venham tempos mais fáceis para o PS avançar”, atirou na quarta-feira com estrondo, numa declaração nos Passos Perdido, no Parlamento, antes de voltar a sentar-se no seu lugar de deputado, no hemiciclo.
Mariana Vieira da Silva rejeitou que a carapuça lhe sirva, até porque, se assim fosse, esperava que o próprio Pedro Nuno lhe tivesse dito isso mesmo pessoalmente — “coisa que não fez”, notou. Na Rádio Renascença, a deputada e antiga ministra do PS, que também esteve na direção de Pedro Nuno, tentou olhar para a metade do copo mais favorável, ao dizer concordar com a parte da frase de Pedro Nuno “que diz que todos são poucos para combater um governo que é muito incompetente”. Mas acrescentou logo de seguida que, por isso mesmo, “talvez tivesse sido bom não regressar e logo no primeiro dia se distinguir de todos e mais alguns do PS. Se somos poucos, então concentremo-nos no essencial”.
A socialista que trabalhou de forma muito próxima com o primeiro-ministro António Costa é normalmente reservada nos comentários públicos sobre a vida interna do partido, mas neste caso mostrou especial irritação e não resistiu em atirar diretamente sobre o “comentário de Passos Perdidos” de Pedro Nuno: “Não podemos achar que quando somos nós a disponibilizarmo-nos somos corajosos e que quando são os outros a mostrar a mesma disponibilidade são taticistas.”
E até virou a questão contra o próprio, lembrando o que o socialista fez há uns anos, quando Costa era líder: “Certamente muitas pessoas também acharam que, quando em 2018 Pedro Nuno Santos se apresentou no Congresso da Batalha – ainda o governo do PS ia no início –, muita gente tenha considerado isso taticismo. Eu não considerei. Acho que isso faz parte da vida política”, disse sobre o episódio que, na altura, até fez António Costa intervir. Pedro Nuno passara os dias anteriores e os do próprio Congresso em declarações, artigos e intervenções num claro posicionamento para o futuro do partido — e mostrando que tinha forte influência nas estruturas locais pelo país.
A afirmação política fora de tal forma fora de tempo que, no discurso final do Congresso, o então líder deixou um aviso muito direto ao seu secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares: “Ainda não pus os papéis para a reforma.” Foi um travão a fundo nas ambições de Pedro Nuno, cujo tempo no PS acabou por chegar apenas alguns anos depois, abruptamente, após a queda do Governo em 2023. Foi uma era que durou pouco e foi intensa: meses depois de eleito líder perdeu por pouco as legislativas de 2024, ganhou por pouco as Europeias e, em 2025, esteve na primeira linha da grande hecatombe socialista, nas últimas legislativas. O partido foi a segunda força mais votada, mas passou a terceira no Parlamento e isso ainda é cobrado internamente ao líder desse tempo. “Claramente ainda não percebeu o que lhe aconteceu”, diz uma deputada ao Observador sobre a postura de Pedro Nuno no regresso e pouco convencida do espaço que tem no partido. “Os narcisistas nem quando estão a sete palmos de terra percebem que estão mortos”, analisa um destacado socialista.
Direção desdramatiza “arrufos”. Carneiro diz que acolhe todos e até Centeno
Mesmo os seus mais próximos relativizam a importância que Pedro Nuno ainda manterá no partido nesta fase, para negar que a rutura com Cordeiro possa resultar num cisma no partido. Ainda esta quarta-feira, o Observador escreveu que esse grupo de apoiantes e próximos no PS é o mesmo entre os dois e que a transferência de Pedro Nuno para Duarte se faria com facilidade.
https://observador.pt/especiais/pedro-nuno-ataca-taticistas-e-atinge-cordeiro-como-colapsou-uma-amizade-de-decadas-no-ps/
A contenda não é vista como brilhante na fase de especial dificuldade para o PS, que ainda tenta reerguer-se das últimas legislativas. Mas na direção tenta desvaloriza-se que possa ter impacto negativo. Um alto dirigente resume o episódio próprio do tempo imediatamente a seguir ao Congresso e acredita que não passará de “arrufos domésticos”.
Já José Luís Carneiro tem mantido o silêncio sobre o assunto, mas, pelo sim pelo não, na quarta-feira de manhã, ainda antes de Pedro Nuno ter falado no Parlamento disse, durante uma visita ao mercado de Alvalade, que não existia uma oposição interna no PS, porque se existisse teria aparecido uma candidatura alternativa à sua nas diretas, tanto em 2025 como, agora, em 2026.
Esta sexta-feira, em entrevista à Lusa, garantiu que “estruturalmente não há nenhuma divergência de fundo. E a prova disso”, diz está no facto de ter tido “um Congresso que aprovou por mais de 90% os órgãos. Isso é uma expressão muito forte de uma ampla convergência em relação à moção de estratégia”, convence-se o líder que explica os convites que fez para a Comissão Política com “o dever de estimular a pluralidade na expressão de opiniões” dentro do partido.
Jura não ver Cordeiro como um opositor interno — “de modo algum, de forma alguma” — e que recebe Pedro Nuno “com os braços abertos”. E revela ainda que até já falou com Mário Centeno — um não militante de quem também se fala como hipótese para a liderança — para lhe transmitir que “se ele quiser dar esse passo [de se filiar no PS]”, terá “todo o gosto em acolhê-lo” porque é “um quadro dos mais qualificados” que há em Portugal e “tem de ser valorizado.”
Pedro Vaz também desdramatizou os acontecimentos dos últimos dias, negando existir uma oposição organizada no partido. “É normal que um partido como o PS, que esteve oito anos no poder, os últimos dois num Governo de maioria absoluta, tenha uma necessidade de ajustamento. Não só de protagonistas, mas também de estratégia política, de ambição política, de proposta política, e isso cria sempre alguma tensão interna. Não significa, contudo, que haja, organizadamente, pessoas que ambicionem o lugar dos outro”, afirmou.
Outro dirigente que faz parte do grupo Pedro Nuno-Cordeiro diz ao Observador que esta situação até pode ser benéfica para Carneiro, na medida em que a questão está afastada do líder. “Pedro Nuno Santos placou o desafio ao secretário-geral”, ironiza mesmo, já que na semana em que Cordeiro assume distância face ao atual líder, Pedro Nuno desviou o foco. “Para José Luís Carneiro, estes dias seriam de justificações e disfarce, mas neste momento a discussão deixou de ser a liderança de Carneiro” e os riscos que o recente posicionamento de Duarte Cordeiro trazem. Mas há também quem lembre que não são vozes inócuas: as ambições de Duarte tornaram-se indisfarçáveis e Pedro Nuno tem elevada capacidade mediática. Uma mistura sempre explosiva para um líder que tem pela frente o sempre árido deserto da oposição.
[Um beijo no primeiro encontro e três viagens em menos de três meses. Ao 85.º dia de relação, o aspirante a modelo matou o cronista social. “Os ficheiros do caso Carlos Castro”, o novo Podcast Plus do Observador, conta os bastidores nunca revelados da investigação a um crime brutal. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. Pode ouvir aqui, no site do Observador, o terceiro episódio e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir também aqui o primeiro episódio e aqui o segundo]
