Quando Cannes anunciou a sua programação no passado dia 9, uma boa parte do meio cinematográfico em França exclamou: “Então e Bruno Dumont?” Era certo e sabido que o autor de La vie de Jésus, Hors Satan e O Pequeno Quinquin tinha um filme pronto, esperado, aliás, para a Competição.
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A Quinzena dissipou as dúvidas na tarde desta quinta-feira. Afinal, Les roches rouges passará nesta secção paralela do festival. O filme foi produzido pela portuguesa Rosa Filmes, de Joaquim Sapinho, que convidou outros co-produtores internacionais a juntarem-se ao projecto, e a equipa técnica é maioritariamente portuguesa. A Rosa Filmes já havia participado na co-produção do filme anterior de Dumont, O Império. É a segunda longa-metragem de Cannes 2026 a hastear bandeira portuguesa, depois do anúncio do novo filme de Tiago Guedes.
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Dumont é um “filho” da ex-Quinzena dos Realizadores entretanto baptizada de “Cineastas” para não ferir susceptibilidades de género: foi a Quinzena que, em 1997, lançou La vie de Jésus, o seu filme de estreia, desde logo ambientado no norte de França, em Hauts-de-Seine, região-natal do realizador. “Do filme policial ao filme de guerra, da comédia à ficção científica”, lê-se no comunicado chegado à imprensa, “Dumont (…) persegue hoje uma busca de simplicidade, quase de nudez, tanto no estilo como na escrita. Les roches rouges marca uma nova bifurcação em sua obra. Filmado na Côte d’Azur, com crianças muito pequenas, o filme adota uma abordagem quase documental (…) explorando o que o cinema pode fazer surgir de um estado de graça.”

Dumont afirmou antes que este novo trabalho seria um filme entre a inocência e a crueldade, uma releitura da tragédia de Romeu e Julieta interpretada por crianças em ambiente de veraneio. De resto, não é a primeira vez que ele trabalha com crianças, salvo que as de Les roches rouges não têm mais que 10 anos. O filme foi rodado em Setembro do ano passado e é uma co-produção entre França, Bélgica, Itália e Portugal. A Quinzena anunciou também que a estreia da obra será seguida de uma masterclass do realizador. O poster da edição 2026 desta secção não-competitiva de Cannes conta com a assinatura de outro cineasta francês: Alain Guiraudie.
O autor escreve segundo a antiga ortografia.