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(A) :: Vemo-nos em Valhalla, Sr. José

Vemo-nos em Valhalla, Sr. José

Aí, a médica, já com o mesmo sorriso confortante, lá explicou ao Sr. José que não se preocupasse porque, na verdade, para o caso dele, um caso onde a doença era fatal e muito dolorosa, havia “opções”

Nuno Lebreiro
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O caminho para o médico era caro e inconveniente para o Sr. José. Durante anos, com maior ou menor periodicidade, a discussão com a mulher sobre a necessidade de ir ao médico sempre fora uma constante: ela que queria ir, que tinham que ir ver o doutor, e ele a cismar que quem ia ao médico arriscava-se era a sair de lá doente. “Eles hoje em dia descobrem o que não existe”, explicava. E acrescentava: “aqui de casa até ao doutor são vinte sete quilómetros, pagar a consulta, sem contar com o almoço, mais a gasolina para a Famel, contando a ida e a vinda, são quase cem paus”.

Mas lá acabava sempre por ceder. Afinal, a mulher insistia, insistia, e voltava a insistir, pelo que mais valia gastar os cem paus do que ficar a ouvi-la durante meses, até que, por exaustão, finalmente, aceitando a derrota naquela particular questão, desistir e gastar os 100 paus na mesma. E sempre assim foi, durante anos.

A vida, ainda que dura, não era já má de todo. Tratavam os dois da horta e dos bichos, ele ganhava algum nas obras, como pedreiro, por estes dias de reformado já só como biscate, e ela nas limpezas. Desde que os filhos tinham partido rumo a outras paragens e sonhos, os dias acumulavam-se numa rotina, cansativa, é certo, mas que no aconchego da repetição, junto com sensação de dever cumprido, traziam consigo aquilo que, com modéstia, poderia ser chamado de felicidade.

Certo dia, inesperadamente, chegou a casa para o almoço e encontrou a mulher caída no chão. Trombose. Fulminante. Morta. Foi o dia mais infeliz da sua vida. E desse modo aviltante, trágico, ainda que banal, se quebrou para sempre aquela rotina particular: num enterro, simples e bonito, apesar de um dos filhos não ter conseguido aparecer. Em três dias apenas o mundo inteiro do Sr. José tinha acabado.

A adaptação à vida de viúvo não foi feliz. Aos filhos, dois, emigrados em França, apenas os via durante o mês de Agosto. Agora que tinham mulheres de outros sítios já nem os via pelo Natal. Depois, telefonar para o estrangeiro era caro e, apesar da insistência dos filhos para mandar cartas pela internet — havia um computador na junta —, aquilo era coisa que não lhe fazia jeito, mais a mais agora que não tinha mulher a insistir que sim, que tinha que ser feito. “É a vida, a gente fá-los crescer e depois eles vão à vida deles”, costumava lamentar no café, enquanto beberricava um trago de aguardente, um velho prazer que reforçou na solidão de quem, agora, já não tinha hora para chegar a casa.

Ainda assim, a rotina, manhosa e despercebida, regressou. De manhã, tomava conta da horta; à tarde, ia para o café, à noite via televisão. E, a pouco e pouco, os biscates de pedreiro desapareceram dando lugar àquele novo quotidiano. Ao serão, talvez mais desinibindo pelo medronho, deu por si a comentar o programa na direcção da cadeira onde, agora, se sentava apenas a ausência da mulher. Perdeu peso, algo que a dona do café foi notando e comentando. “Sr. José, está ficando muito magro, tem que ir ao médico”. O Sr. José ria: “arre, que se há coisa boa da viuvez é não ter que discutir mais sobre ir ao médico”. E não foi.

O tempo passou, e junto com umas dores apareceu uma tosse estranha. Depois, foi uma falta de vigor, de força mesmo, que se instalou. Escoados uns meses, a conversa nocturna com a cadeira vazia que ainda escondia debaixo de si o cesto com os novelos de lã que ficaram por ser tricotados em camisolas ou cachecóis, passou a ser sobre o médico: “já te disse que não preciso de ir ao doutor, porra”, gritou ele, para o vazio. Mas, ainda nesse próprio dia, quando deu por si próprio incapaz de levantar-se da sanita porque lhe faltavam as forças nas pernas, lá acabou por ceder: “até depois de morta me ganhas a discussão, mulher”, lamentou. Mas assumiu: “amanhã vou ao médico”.

Nessa manhã seguinte, a Famel custou a pegar. Desde que a carrinha da Junta de Freguesia lhe tinha passado a trazer as compras a casa que não se lembrava da última vez que saíra de mota de casa. Ao fim de meia hora, por entre baforadas de monóxido de carbono que rapidamente se esfumava no frio da manhã, lá arrancou para fazer os vinte sete quilómetros até à vila. Em chegado ao centro de saúde, viu que a coisa estava diferente. As portas fechadas, as persianas do segundo andar corridas e apenas um enorme cartaz de propaganda governamental à porta onde se lia que o governo trabalhava incansavelmente pelo bem-estar dele, José. Bateu à porta. Nada. Deu a volta ao edifício para ver se a porta de entrada tinha mudado de sítio. Zero. Espreitou por uma janela lateral para ver se havia alguém dentro do centro de saúde. Nicles.

Foi uma senhora que, de passagem, ao ver o velho desorientado, lhe gritou: “ó senhor, o centro de saúde fechou”. E, logo de seguida, explicou: “agora tem que ir ao novo centro lá na cidade, aqui já não está ninguém”. O Sr. José agradeceu, mas entristecido: o desvio significava mais cerca de trinta quilómetros. E, de regresso para casa, mesmo com um atalho por terra batida que conhecia desde os tempos de juventude em que tinha andado na apanha da cortiça por aquelas herdades ali da zona, eram mais uns quarenta. Não punha as botas em casa tão cedo.

Não obstante, decidiu-se a seguir. Já tinha investido o suficiente para não querer chegar a casa de mãos a abanar. Lá foi. Chegado ao novo centro de saúde, reparou que o cartaz de propaganda governamental era diferente do outro que vira na vila. Neste, uma fotografia do chefe do governo sorria enquanto explicava que a sua maior preocupação era o bem-estar dele, José. “Muito obrigado, Sr. Dr.”, murmurou enquanto transpunha as portas automáticas do centro de saúde.

Infelizmente não viu o médico. Foi-lhe explicado que tinha que ter marcado consulta, que o caso não era urgente, o melhor teria sido nem lá ir e que se queria ser visto rapidamente o ideal seria meter o processo de agendamento pela internet. “Ah, isso da internet é que é uma maravilha, os meus filhos também têm disso, mas eu…”. Tinha que ser pelo procedimento normal, interrompeu a recepcionista, pouco interessada, enquanto lhe passava um molho de papeis. Passados quarenta e cinco minutos, o Sr. José lá devolveu o requerimento, recebeu de volta uma folha carimbada e, sem sorrisos, foi informado de que a consulta seria dali a seis meses.

Bom, de consciência aliviada, apenas sobrava esperar. Depois, os meses passaram como quem não dá por eles. E tanto assim foi que o Sr. José já nem se lembrava da consulta até que, por acaso, a dona do café, uma moça mais nova de olho muito vivo e a quem pouco escapava, lhe perguntou uns dias antes se a consulta não estaria para breve. O Sr. José lá foi vasculhar os papéis que tinha no velho louceiro à entrada de casa e viu que sim, então não era que era mesmo verdade, a consulta era mesmo por aqueles dias. Nessa noite, apesar de grato à dona do café, o Sr. José lamentou a falta da mulher. Virando-se para a cadeira vazia, comentou: “se ainda tivesses aí o rabo sentado já tinha ido ao médico há mais de um ano atrás.”

No dia seguinte, lá foi directo ao destino certo. A consulta foi rápida, e não requereu estetoscópio, nem que tirasse a camisa: ela perguntava coisas, ele respondia, ela teclava no computador. Menos mal. Depois, a doutora, ainda novita, teclou mais umas coisas, imprimiu uma papeis, passou-lhos, e explicou que era para marcar uns exames para marcar exames. À saída, ficou a saber que tinha que lá voltar duas vezes nos próximos seis meses, uma vez para um raio X, outra vez para uma outra coisa que ele não percebeu o que era.

Desta vez, para não se esquecer, colou os papeis dos exames na parede da sala, ao lado do louceiro. E não se esqueceu. Cada um a seu tempo, sempre à hora certa, lá fez os dois exames. No final do segundo, o tal que parecia toque ou taque, sabia içá ele o que era, pode marcar de novo consulta e, passados três meses, lá foi ver a médica de novo. Aí, quando entrou no consultório percebeu que a médica era diferente. Esta, muito simpática, recebeu-o com muita empatia e muito entusiasmo. “Sr. José, está com muito boa cara”, disse ela logo. Ele gostou muito da senhora e sorriu, apesar de não se sentir muito bem. “Sempre tive boa cara”, justificou ele. “É um Don Juan”, exclamou a médica. E ele corou sem perceber porquê, enquanto agarrava a bengala que, entretanto, tinha começado a usar.

Depois, a consulta começou. A médica desde logo a dizer que ele já lá deveria ter ido muito antes, e ele dizia que sim, que devia ter ouvido mais a mulher, e ela acrescentava que estas coisas são muito chatas, que os exames eram muito contundentes, e ele dizia que sim com a cabeça baixa sem perceber o que ‘contundente’ significava. A médica, no entanto, não parava, continuando a dizer, se bem que no mesmo tom jovial e optimista, que o que ele tinha era um cancro. Ora, essa palavra já conhecia ele, pelo que se quedou logo o Sr. José em choque: “Então e agora”, perguntou ele, ao que a médica, estalando a língua e, tirando o sorriso, olhando muito séria para frente, respondeu que já não achava que valia a pena operar. “Isto já está muito avançado”, decretou.

Silêncio. Depois, continuou ela, ele tinha que ter atenção que as listas no IPO são muito grandes, e perguntava se o Sr. José tinha vagar de ir todas as semanas a Lisboa, se tinha família lá para pernoitar, ou como é que queria fazer. Ele, ainda abananado, lá lhe murmurou que não, que não tinha família em Lisboa, que não tinha carro e que não sabia o que haveria de fazer. Novo silêncio.

Finalmente, o Sr. José perguntou se aquilo era coisa que matasse, e se matava como é que ia ser. A médica logo lhe explicou que sim, que aquilo o ia matar, que ia ser uma coisa muito lenta, que ia doer muito, muita tosse, muito sangue, em particular os comprimidos que lhe iam receitar davam muitas dores, que eram químicos que tinha muitas sequelas, matava as células más, mas também as boas, enfim, aquilo era uma desgraça anunciada — além de que ia custar uma fortuna.

Aí, a médica, já com o mesmo sorriso confortante que desde logo o tinha seduzido, lá explicou ao Sr. José que não se preocupasse porque, na verdade, para o caso dele, um caso onde a doença era fatal e muito dolorosa, havia “opções”. O Sr. José logo se interessou em conhecer quais eram. E a médica lá lhe explicou que era uma coisa nova, que agora as pessoas já não tinham que sofrer, que era uma forma digna de acabar uma vida de trabalho, um tratamento especial que antecipava o fim inevitável, mas sem ter que passar pelo sofrimento do tratamento tradicional, bárbaro, indigno, que até aí as pessoas, coitadas, se tinham sujeitado. Se o Sr. José quisesse até tinha ali aquele panfleto e, retirando de um molho pousado em cima da secretária, entregou-lhe um tríptico de papel com um sénior sorridente na capa onde se lia “Eutanásia: Um Final Feliz Para Uma Vida Feliz”.

“Então”, perguntou o Sr. José enquanto torcia nervosamente o boné nas mãos, “este tratamento novo não é bem um tratamento, é assim a modos que…”, e baixando a voz, “… matar um tipo para não sofrer, não é verdade?”. E logo a médica lhe explicou que não, que não era nada disso, que era muito diferente, porque ali era uma coisa feita no interesse das pessoas, que era pelo melhor, muito mais que apenas para não sofrer, que não era desistir como nos suicídios, mas sim abraçar a qualidade de vida que terminar a vida antes de ter que sofrer com a doença garantia.

Depois, claro, a poupança da coisa: tempo, dinheiro, sofrimento, tudo isso era qualidade de vida, explicava ela enquanto ia apontando com o bico da caneta no panfleto a quantidade de pontos que estavam escritos debaixo do subtítulo ‘Vantagens do Procedimento’. E, guardando o panfleto, rematou: “viver bem até ao último dia, isso é que é uma vida feliz”.

Ao Sr. José nunca lhe tinha ocorrido matar-se. Tinha tido um tio que se enforcara e dois vizinhos que se despacharam a tiro de caçadeira. Nunca lhe tinha parecido bem tal coisa: “a vida é para ser vivida”, sempre dissera ele à sua mulher. No entanto, pensou ele, de facto havia que reconhecer que o tempo dele já tinha acabado: os filhos estavam criados, a mulher estava morta, estava sempre sozinho e a perspectiva de penar solitariamente em casa durante meses com dores excruciantes não era propriamente animadora. Por fim, lá admitiu que a ideia se calhar não era má. A médica disse-lhe que fosse para casa, que lesse o panfleto, que pensasse no assunto e, depois, se quisesse, que metesse o requerimento na recepção. E entregou-lhe um molho de folhas onde se lia o título “REQUERIMENTO PARA EUTANÁSIA”.

O Sr. José despediu-se, mas, sem aviso, logo tratou de preencher os papéis: respondeu que era homem, que era de sua livre vontade, que desejava a coisa, meteu o nome completo, a morada, o número fiscal e o número do Cartão do Cidadão. Até preencheu uma secção que não era obrigatória com cruzes: que tinha conhecido o procedimento no centro de saúde, que não se importava de ser contactado para publicidade, que sim, que tinha religião e que era a católica — e aí enganou-se e pôs a cruz na opção que dizia ‘nórdica’, que ficava mesmo debaixo da ‘católica’, mas do erro não se apercebeu. Escreveu a morada do filho mais velho que tinha na carteira como recipiente das suas coisas e que deveria ser notificado após o procedimento. Uma hora depois, a recepcionista recebeu os ditos, carimbou-os e meteu-os no topo de uma pilha que tinha no extremo esquerdo da bancada, passando-lhe o recibo: “são trinta euros de taxa, se faz favor”.

Três semanas depois, chegou o dia. O Sr. José saiu de casa pela última vez após passar ao de leve com as mãos pela cadeira vazia da mulher que lhe tinha feito companhia nos últimos dois anos. “Hoje, vou ter contigo”, murmurou. Passou ao largo do café e acenou à dona enquanto lhe gritou um ‘até logo’, e fez-se à estrada.

Chegado ao hospital, foi recebido com entusiasmo e sentado numa sala de espera novinha em folha, em frente a uma janela que dava para um grande jardim, tendo lhe sido dado um copo de espumante para a mão. Não gostou, mas, para não fazer desfeita, bebeu até ao fim. Na televisão, ligada, discutia-se futebol numa diatribe que entrava a cem e saía a duzentos nos ouvidos do Sr. José. Passados uns minutos, outro cliente chegou. Cumprimentaram-se. E depois, mais outro, e outra, e mais outro ainda. Todos se iam olhando em silêncio, enquanto na televisão a diatribe continuava, agora era um comentador que berrava com outro sobre os eventos de um jogo que tinha acontecido na véspera.

Passada cerca de uma hora, entrou um médico que segurava vários processos na mão.  Começou a ler dos cabeçalhos e, à medida que ouviam os seus nomes, as pessoas que ali estavam iam acenando, ou levantando a mão, sendo encaminhados para uma porta. O Sr. José, apesar de ter sido o primeiro a chegar, foi o último a ser chamado.

Passou então para um vestiário onde, primeiro, se despiu e, depois, vestiu uma bata branca que um enfermeiro simpático lhe tinha dado. Os seus pertences, onde se incluía a carteira e o boné, foram enfiados num saco de plástico e, de acordo com o enfermeiro, seriam enviados por correio para casa dos familiares que tivesse indicado no requerimento. Quanta eficiência, pensou o Sr. José. Aliás, a ele fez-lhe apenas confusão estar em público sem o boné, mas, pensou, também não seria por muito tempo.

Juntou-se, então, de novo ao grupo numa sala espaçosa cheia de camas. Cada um tomou a cama que lhe foi indicada pelo enfermeiro apenas para que, passados uns minutos, um outro enfermeiro tivesse tempo de colocar o cateter no braço de cada um. O silêncio imperava. Após o processo estar concluído — apesar de ter sido difícil ter colocado o cateter no Sr. José, o mais velho da sala —, o médico regressou. Aí, o silêncio quebrou-se quando o médico entregou um molho de kits médicos com agulhas e pediu ao enfermeiro que desse início ao processo. “Felicidades a todos”, disse o médico. Virando-se para o auxiliar, “Sr. Enfermeiro, não se atrase que ainda temos mais um procedimento antes de eu ter que sair para almoçar”, lembrou ele antes de sair da sala.

Aí, o enfermeiro, bem-mandado, estugou o passo e começou na ponta esquerda da sala: rapidamente, passava os olhos pelo processo para saber o nome da pessoa e, verificando a religião do utente, escolhia a apropriada última palavra que daria ao paciente — um pormenor da sua própria autoria, do qual se orgulhava e gabava publicamente no café pelo humanismo que permitia nele revelar.

E foi assim que, quando chegou a vez do Sr. José, o enfermeiro impressionou-se com o facto de a religião ser ‘nórdica’, mas, solícito, não se atemorizou. Afinal, tinha acabado de ver uma série de vikings na TV e sabia muito bem o enredo principal de tal religião. “Vemo-nos em Valhalla, Sr. José”, disse, então, o enfermeiro, com um sorriso. E, sem reparar na perplexidade do velho perante tão estranhas palavras, as últimas que ouviu e que não compreendeu, o enfermeiro carregou no êmbolo que silenciosa e eficazmente matou o Sr. José.

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N. do A – O presente conto é uma versão revista, modificada, aumentada de um pequeno apontamento em tempos publicado no meu blog pessoal e que já não está disponível para leitura pública.