A nova crise energética europeia já começou e, mais uma vez, Bruxelas responde a pedir contenção quando o que a economia precisa é de ambição.
A escalada no Médio Oriente reacendeu o fantasma energético, e a resposta europeia segue um guião conhecido: recomendações, incentivos à poupança, medidas de alívio. O diagnóstico está certo: preços a subir, inflação a pressionar, crescimento em risco. A resposta continua curta.
E o problema não é técnico. É estratégico.
Para as empresas, a energia não é um debate político. É uma variável crítica que decide margens, investimento e sobrevivência. Quando o preço oscila, não se ajusta apenas o consumo, ajusta-se a ambição, adiam-se projetos, travam-se decisões, encurta-se o horizonte e nenhuma economia cresce com horizontes curtos.
A Europa insiste na contenção: consumir menos, poupar mais, ganhar tempo. Tudo isto é racional. Mas tudo isto é insuficiente. Uma economia não se afirma a poupar energia, afirma-se a garantir energia que permita criar mais valor. É aqui que o debate tem de mudar. Da gestão da crise para a construção de vantagem. É aqui que Portugal pode jogar acima do seu peso.
Num continente dependente Portugal é, potencialmente, um dos menos dependentes. Tem sol, vento, capacidade renovável crescente e uma posição geográfica que o coloca como porta de entrada de novas rotas energéticas. Tem, sobretudo, escala para decidir rápido.
Mas potencial não é vantagem. Vantagem constrói-se, desde logo, com execução.
Acelerar o licenciamento energético é a primeira condição. Hoje, projetos ficam anos bloqueados. Numa economia em transição, isso não é burocracia, é perda direta de competitividade.
Transformar empresas em produtoras de energia é a segunda. Autoconsumo, comunidades energéticas e armazenamento não podem ser exceções. Têm de ser regra. Menos dependência, mais controlo.
Garantir contratos de energia estáveis é a terceira. Sem previsibilidade de custos, não há investimento, sem investimento, não há crescimento.
Alinhar energia com política económica é a quarta, talvez a mais decisiva. Portugal não pode limitar-se a produzir energia barata, tem de usar essa vantagem para atrair indústria, fixar talento e criar valor. É aqui que se decide o jogo. Enquanto a Europa gere a transição, outras geografias garantem o essencial: energia acessível e previsível. É isso que define onde se investe, onde se produz, onde se cresce.
A energia deixou de ser um custo, tornou-se um instrumento de poder económico.
Portugal tem, hoje, uma oportunidade rara: não apenas proteger-se, mas posicionar-se. Essa oportunidade não é permanente. Num mundo em que a energia define a competitividade, não vence quem consome menos. Vence quem cria condições para produzir mais e é desta vez, Portugal pode liderar, se não ficar à espera.
“Num mundo em que a energia define a competitividade, não vence quem consome menos — vence quem cria condições para produzir mais.”